Universidade federal da bahia escola de teatro lais santos almeida



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SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

ESCOLA DE TEATRO

LAIS SANTOS ALMEIDA

QUANDO EU ERA PEQUENO:

A CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA DE ADOLESCENTES A PARTIR DA MEMÓRIA DA INFÂNCIA

Salvador


2015

LAIS SANTOS ALMEIDA

QUANDO EU ERA PEQUENO:

A CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA DE ADOLESCENTES A PARTIR DA MEMÓRIA DA INFÂNCIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentada à Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, como requisito para a obtenção do grau de Licenciatura em Teatro

Orientador: Prof. Ms. Hayaldo Copque Fraga de Oliveira

Co-orientador: Prof. Dr. Paulo Henrique Alcântara


Salvador


2015


As minhas duas mães, Maria Francisca (mãe sanguínea) e Cintia Almeida (minha irmã e mãe de consideração), por sempre acreditarem nos meus sonhos e no meu jeito menina mulher de ser.

A minha linda e encantadora sobrinha Ananda que com seu jeitinho carinhoso me inspirou também para a escrita sobre infância.

Ao meu sobrinho Vitor que cuidei por muitos anos como se fosse meu filho e que de certa forma fez parte da minha infância estando presente nos momentos lúdicos.

A todos os indecisos que ainda não conseguiram achar seu caminho profissional. Não se preocupem, eu demorei, mas achei. Aqui está a prova. Vocês também irão conseguir!
AGRADECIMENTOS
Os agradecimentos são inúmeros...
A Deus, acima de tudo, porque sem ele nada sou. A fé que me move e me sustenta nesse mundo louco, cheio de desafios e obstáculos, só existe porque é nele que acredito. Agradeço a Deus, os espíritos de luz que me acompanham, em especial meu anjo protetor, e o espírito abençoado de Santo Antônio a quem sou devota.

Aos meus avôs maternos Marcos e Rosalina (em memória) que infelizmente não puderam conviver comigo, mas sempre estiveram me acompanhando espiritualmente e presentes no meu coração. A eles sou grata por manterem as tradições que foram passadas para a minha mãe e repassadas para mim. As memórias dessas vidas que não pude partilhar me acompanham através das lembranças e dos poucos costumes familiares que conseguimos manter. Acho linda a tradicional reza de Santo Antônio que meu avô realizava e em homenagem a essas memórias defendo essa monografia juntamente com a habitual oração da trezena, finalizando a minha defesa com muito orgulho e emoção. E grata pela imensa cultura familiar que foi construída por vocês.

A minha mãe Maria Francisca pela bela infância que tive e por eu ser quem sou hoje. A minha formação pessoal deve-se a você. Me orgulho da criação que tive. Não poderia ter melhores lembranças da infância, obrigada! Sou grata por cada brincadeira no quintal, cada história que ouvia no momento de dormir, pelas nuvens que ficávamos olhando deitadas no tapete e que se transformavam nos mais diversos formatos, pelas bonecas, por tudo! Por ter sido uma criança muito feliz! Te amo mãe!

A Cintia Almeida, minha irmã e mãe de consideração, eu não sei nem como agradecer o tanto que essa mulher já fez por mim. Sei que eu vim para a vida dela como filha, pois foi assim que ela me tratou e me trata até hoje. Se existe amor incondicional eis aqui a prova. Agradeço a essa linda mulher, delicada e carinhosa, tudo que tive e quem sou até hoje. Obrigada por ter me ajudado sempre e apoiado em todos os momentos, por ter me perdoado quando errei, por ser minha confidente e AMIGA de todas as horas. Amo você minha tchuca!

A minha irmã Adriana Almeida, obrigada por suportar, juntamente com minha mãe e Cintia, minhas crises de estresse e ansiedade nesses últimos meses. Sou grata por você entender minhas elucubrações e me apoiar profissionalmente me enviando as trezentas mil vagas de emprego e concursos que você fica sabendo. Te amo!

A meu pai Salvador, que com seu jeito sereno torce por mim em todas as circunstâncias. Um homem puro que me ensinou que a vida deve ser vivida com tranquilidade. Amo você meu pai!

A meu irmão Vagner, que também é meu pai de consideração, agradeço pelas brincadeiras na infância. Jamais vou esquecer dos lindos momentos de alegria empinando pipa, correndo pela casa, andando de bicicleta para ir a escola com a saia azul, do jogo de polícia e ladrão que gerou sua queda horrorosa em cima das garrafas de vidro, enfim obrigada pelos maravilhosos momentos lúdicos que construíram a minha infância. Te amo!

A minha cunhada Débora, agradeço por acreditar em meu potencial sempre e por ter tanto carinho por mim. Obrigada por me ensinar tanto e pelo jeito cuidadoso.

Ao meu tio e padrinho Aurino (em memória), que infelizmente teve que partir desta vida ano passado, agradeço pelo amor que tinha por mim. Mesmo com a distância do dia-a-dia lembrava-se de mim e estava torcendo por meu sucesso profissional sempre. Mais uma vitória alcançada e essa também é para você! Se não fosse seu incentivo talvez eu não tivesse persistido nesse caminho tão cheio de obstáculos e com fatores desestimulantes.

Aos meus parentes, tios, tias e primos que sempre torcem pelo meu crescimento profissional e estão presentes em muitos momentos, sejam eles de alegria ou tristeza.

A meu orientador Prof. Hayaldo Copque que me aturou durante todo esse tempo da produção do meu TCC me auxiliando com muito carinho e dedicação. Além de ter me acalmado em diversos momentos de crises típicas de quem escreve uma monografia. Obrigada Hayaldo, sem a sua orientação, conhecimento, competência e paciência eu não teria amadurecido tanto como pesquisadora. E sem os breves momentos de risos em meio a toda essa agonia eu não teria conseguido controlar a minha ansiedade e escrever o TCC.

A meu co-orientador Prof. Paulo Henrique Alcântara que com sua imensa paciência estimulou, a todo momento, a escrita da pesquisa. Com seu apoio e ampla sabedoria na área de dramaturgia e memória o meu TCC ficou mais completo. Sua contribuição foi delicada e pontual.

Ao meu ex-professor João Sanches, agradeço imensamente, pois ele foi um dos grandes incentivadores desse trabalho. Ele, involuntariamente, me ajudou a encontrar e definir meu objeto de pesquisa ao estimular a minha escrita em sala de aula. Obrigada também por aceitar o convite em participar da banca ampliando ainda mais minha experiência na área da dramaturgia.

A professora Adelice Souza que aceitou o convite para participar de minha banca e contribuiu muito com sua experiência e conselhos fazendo com que o meu trabalho ficasse mais rico.

Aos meus queridos alunos participantes da oficina que construíram comigo o meu objeto de pesquisa. Agradeço os aprendizados que partilhamos juntamente com as brincadeiras, segredos e sorrisos.

Ao Colégio Aliança por todo apoio para a realização dessa pesquisa. Principalmente minhas ex-coordenadoras e amigas, Jeronice Brito e Patricia Souza. E a colaboração fundamental da diretora professora Maria e a funcionária Aline, que cooperaram intensamente para o acontecimento da oficina. Agradeço também aos meus grandes amigos, professores do Colégio Aliança, que sempre estão ao meu lado, me apoiando. Jamais quero perder a amizade de vocês. Obrigada: Marcondes, Érica, João Gabriel, Frank, Ives, Bruno, Juliana e minhas tchucas, fofas, Ana Carla e Bárbara.

A todos os professores dos cursos de Licenciatura em Teatro e Bacharelado Interdisciplinar em Artes que ao transmitirem o seu conhecimento contribuíram muito com a minha formação, sem eles eu não teria chegado até aqui.

Aos funcionários da Universidade Federal da Bahia, especificamente Seu Geraldo e Val. Vocês foram pessoas importantes nesse processo de formação acadêmica. Sempre disponíveis e dispostos a ajudar. Com vocês aprendi mais ainda que solidariedade é essencial para a vida. Obrigada por tudo! Que a vida de vocês seja iluminada sempre, com muito sucesso, porque vocês merecem, são pessoas do bem.

A minha mais nova amiga Manoela que nos últimos meses tem escutado todos os meus devaneios e dilemas. Que tem sido mais que uma psicóloga ao me ouvir tanto. Que se tornou, aos poucos, uma grande amiga que também torce e se preocupa comigo. Uma pessoa de alma boa que desejo tudo de bom nessa vida. Espero que nossa amizade cresça cada vez mais e que tenhamos diversos momentos de risos. Obrigada por me aturar nessa loucura de TCC nesses últimos tempos.

Aos meus amigos incentivadores sempre presentes, dando amor e força, agradeço imensamente o carinho durante essa jornada, especialmente aos meus grandes amigos: Jamile Cruz, Joice Paixão e Vitor Carvalho. Sou grata por me aturarem nesses últimos meses me acalmando após as mensagens desesperadoras.

Por fim, agradeço imensamente a uma pessoa especial que entrou na minha vida a pouco tempo e me conquistou rapidamente tornando-se parte da minha história e sendo um grande incentivador, principalmente para a produção dessa pesquisa: obrigada Luan Spínola! Agradeço por me fazer companhia virtual nas madrugadas de escrita do TCC e durante meus momentos de ansiedade. Você estava ali, sempre presente, dando a maior força e acreditando em meu potencial! Amo você!

...E o vento traz lembranças que ficou guardado na memória/ De uma infância que passou/ Saudade que bate no peito faz a gente chorar/ Saudade que vem e que vai como as ondas do mar/ Tempos bons que se foram e não voltam mais/ Ser criança é só uma vez e nunca mais”


(Tangela Vieira)

RESUMO
Este trabalho trata-se de uma monografia de conclusão de curso de Licenciatura em Teatro. O objetivo dessa investigação, dividida em três capítulos, foi pesquisar a criação dramatúrgica a partir da memória da infância através de uma oficina realizada com estudantes do Colégio Aliança, na faixa etária dos 11 aos 16 anos, no bairro de Brotas, em Salvador. A finalidade da oficina foi incentivar e desenvolver a criação dramatúrgica coletiva, o que resultou em uma mostra teatral. Tal Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) utilizou para o processo teorias e metodologias baseadas nos estudos de Stanislavski; as propostas de Beatriz Cabral; os jogos teatrais e improvisações de Viola Spolin; algumas das ideias de Maria Eugênia Milet e Paulo Dourado; e os jogos de Augusto Boal. Além de outros teóricos que norteiam a pesquisa, como Henri Bérgson. Dessa forma, foi realizada a investigação e dividida em quatro etapas.

Palavras-chave: Dramaturgia; Memória; Infância; Teatro;



SUMÁRIO
1. APRESENTAÇÃO.................................................................................................11

2. MEMÓRIA, INFÂNCIA E TEATRO .......................................................................15

2.1 MEMÓRIA ...................................................................................................15

2.2 INFÂNCIA ...................................................................................................20

2.3 TEATRO E MEMÓRIA ...............................................................................24



3. AS PRODUÇÕES TEXTUAIS................................................................................27

3.1 EM MINHA VIDA ........................................................................................27

3.2 DRAMATURGIA EM SALA DE AULA .......................................................28

4. QUANDO EU ERA PEQUENO – A EXPERIÊNCIA .............................................35

4.1 PRIMEIRA ETAPA – O ENCONTRO..........................................................37

4.2 SEGUNDA ETAPA – O SURGIMENTO......................................................41

4.3 TERCEIRA ETAPA – A CONSTRUÇÃO....................................................45

4.4 QUARTA ETAPA – A MOSTRA ................................................................48

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................50

REFERÊNCIAS ....................................................................................................55

ANEXOS .............................................................................................................. 60


  1. APRESENTAÇÃO

O caminho foi árduo e pedregoso. As indecisões foram inúmeras. As crises de ansiedade e nervosismo foram constantes. Mas com muita garra eu consegui chegar até aqui. Em um simples estalo, dentre as diversas possibilidades do teatro, encontrei a minha área de pesquisa: a dramaturgia. E fui atrelando a isso todos os meus desejos.

Sou bacharel em Jornalismo e em Artes e sempre desejei unir todas as minhas áreas de estudo em meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da Licenciatura em Teatro, mas não sabia como. Desde meu ingresso no curso de licenciatura fiquei confusa sobre o quê pesquisar. Surgiram muitas ideias, vontades e curiosidades até que no quinto semestre apareceu o componente Criação coletiva de texto, que despertou em mim o interesse pela dramaturgia. Apesar de estruturas completamente diferentes, eu novamente me vi na situação da escrita de texto, como no jornalismo, e enxerguei a possibilidade de unir em uma só pesquisa as minhas áreas de estudo. Juntamente com as práticas de estágios em sala de aula apareceu uma curiosidade: “como nasce a dramaturgia em sala de aula?”. E assim surge a motivação desta pesquisa.

Junto a isso escolhi como tema norteador a infância, já que sempre gostei de trabalhar e estar em processos que envolvessem essa temática, pois o assunto me encanta. No meu ponto de vista é importante resgatar as lembranças da infância, principalmente as brincadeiras, em meio a tantas tecnologias.

Para completar os meus anseios, atrelei o estudo da memória no teatro a essa pesquisa, porque ao participar de processos teatrais envolvendo o trabalho da memória percebi o surgimento de diversas expressões corporais e vocais, personagens e histórias resultantes do percurso de todos os envolvidos, inclusive do meu. Sendo assim, defini como tema central dessa pesquisa a criação dramatúrgica a partir da memória da infância.

Essa pesquisa é de caráter prático e qualitativo baseada na experiência de docência exercida por mim no sexto semestre do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal da Bahia, como atividade do componente Didática e Práxis do Ensino de Teatro II. E foi fundamentada na leitura de estudiosos na área dramaturgia, do teatro e da memória como Beatriz Cabral, Konstantin Stanislavski, Henri Bergson, entre outros teóricos.

Após ter tido experiências com Ensino Médio, Fundamental I e Infantil, ao invés de escolher uma série, resolvi optar por realizar minha pesquisa com a faixa etária dos 11 aos 16 anos, que equivale à idade com a qual mais me identifico para trabalhar. O estágio foi realizado com alunos do Colégio Aliança, no bairro de Brotas, em Salvador. A oficina foi realizada durante 18 encontros, às segundas e quartas, no período de 29 de setembro a 05 de dezembro de 2014, das 14h às 17h, totalizando uma carga horária de 54 horas, sendo alguns encontros realizados em outros dias e horários.

O objetivo dessa investigação foi pesquisar sobre a criação dramatúrgica a partir da memória da infância buscando responder o seguinte questionamento: “Como se dá a criação dramatúrgica a partir das lembranças da infância com alunos de 11 a 16 anos?”. Tendo isto como base, já cheguei ao sexto módulo desejando explorar esse tema na disciplina de estágio como forma de prática da minha pesquisa de TCC.

No quesito prático, a finalidade foi incentivar e desenvolver a criação dramatúrgica a partir de técnicas e jogos teatrais coletivos e individuais os quais resultariam em uma mostra teatral. E, através disso, levar os estudantes a conhecer convenções teatrais por meio dos trabalhos criativos; incentivá-los ao trabalho em equipe e respeito ao próximo, assim como a apreciação e discussão sobre as cenas apresentadas em sala de aula resultantes da atividade do dia; promover a discussão e reflexão sobre o tema da oficina: memória e infância; incentivar a criação de roteiros e textos teatrais a partir de jogos e improvisações; criar um trabalho cênico e dramatúrgico de caráter coletivo a partir do que cada aluno ofereceu durante a oficina e desenvolver uma montagem resultante da criação dramatúrgica coletiva feita em sala de aula para que fosse apresentada em forma de mostra.

Partindo desses pressupostos, esta pesquisa utilizou, como estímulo para o processo das construções dramatúrgicas, metodologias baseadas nos estudos de Stanislavski sobre memória emotiva proposto no livro Preparação do ator. Acredito que o trabalho baseado na memória emotiva de Stanislávski contribuiu muito para a criação dramatúrgica dos alunos, fazendo-os ativar o imaginário a partir das lembranças da infância. As propostas de Cabral fundamentadas no Drama como método de ensino também serviram de apoio para minha pesquisa. Os jogos teatrais e improvisações de Viola Spolin, presentes nos livros Jogos teatrais na sala de aula, Improvisação para o teatro e Jogos Teatrais: o fichário de Spolin, foram utilizados como estímulos para a criação cênica e dramatúrgica. Assim como algumas das ideias de Maria Eugênia Milet e Paulo Dourado contidas no Manual de criatividades e os jogos de Augusto Boal do livro 200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Soma-se a essa pesquisa o estudo da memória baseado no livro Matéria e Memória de Henri Bergson e a observação rotineira de alguns aspectos da infância.

Como a memória pode ser ativada através das práticas teatrais? Ao resgatar a infância de adolescentes através de lembranças é possível contribuir para um eventual aperfeiçoamento na formação desse jovem? Como a criação dramatúrgica pode surgir a partir de um trabalho temático feito em grupo? As relações entre teatro e memória são estimulantes para a criação de dramaturgia?

Todos estes questionamentos influenciaram o andamento da minha pesquisa e, por consequência, a criação dramatúrgica dos alunos, pois a partir do momento em que eles ativam o seu imaginário para a criação de narrativas os estudantes desenvolvem seus potenciais artísticos. Afinal “o contexto da ficção permite focalizar ou desafiar aquilo que é normalmente aceito sem questionamentos, tudo o que devido à rotina é assumido sem maiores reflexões” (CABRAL, 2012, p.12), ou seja, a relação com o imaginário proporciona aos alunos uma maior liberdade de criação e facilita a abordagem de temas e/ou situações reais presentes em nosso cotidiano.

A oficina foi composta basicamente de quatro etapas, sendo elas gradativas. A primeira etapa, denominada de O encontro, teve como objetivo conhecer o público alvo e traçar um perfil da turma para uma posterior conquista de respeito e confiança dos alunos. Esta fase foi o momento de encontro dos alunos comigo e com o teatro. Na segunda etapa, chamada de O surgimento, foram aplicados jogos e técnicas teatrais voltados para o tema “memória e infância” e a criação dramatúrgica. Nessa etapa iniciou-se e concluiu-se o desenvolvimento do texto, momento de surgimento das principais ideias e personagens que gostaríamos de ver em cena. Na terceira etapa denominada A construção, foi feita a construção cênica do texto escrito de forma colaborativa. Esta foi a fase dos ensaios, produção de cenários e decisões sobre figurino. A quarta e última etapa chamada de A mostra consistiu na apresentação da peça Quando eu era pequeno que aconteceu no Teatro Martim Gonçalves no dia 06 de dezembro de 2014.

Dessa forma, depois de realizada a oficina, fiz a junção da abordagem teórica com os resultados obtidos nas aulas e na mostra final. Além disso, registrei com fotos, vídeos e relatórios das aulas elaborados no formato de diário de bordo. E decidi dividir meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em três capítulos. No primeiro capítulo abordei a memória, infância e teatro buscando apresentar alguns aspectos da memória aliados a prática teatral, além de falar sobre o meu público alvo e a infância. Já no segundo capítulo discuti sobre produções textuais em minha vida e a dramaturgia em sala de aula. No terceiro capítulo apresentei a minha experiência prática de forma analítica relatando as etapas.



2. A MEMÓRIA, A INFÂNCIA E O TEATRO
2.1. A MEMÓRIA
Às vezes não lembramos nem o que comemos no café da manhã, mas conseguimos recordar de fatos que aconteceram quando tínhamos quatro anos. A memória é um aspecto incrível que sempre me instigou. É interessante como ela é capaz de guardar algumas coisas que nem nós mesmos imaginávamos que estavam ali armazenadas.

Mas afinal o que é memória? Os conceitos apresentados pelo Dicionário Aurélio são inúmeros, porém a ideia principal apresentada por ele é que a memória é a “faculdade pela qual o espírito conserva ideias ou imagens, ou as readquire sem grande esforço” (AURÉLIO, 2008), ou seja, ao longo do tempo a mente humana armazena impressões, sentimentos e conhecimentos à medida que eles são produzidos, sendo estes modificados ou aprimorados quando outras coisas surgem e são guardadas na memória.

De acordo com Henri Bergson (1999, p. 84) “O passado sobrevive sob duas formas distintas: 1) em mecanismos motores; 2) em lembranças independentes.” Percebe-se a existência deste primeiro tipo nas próprias ações humanas que são feitas seguindo um mecanismo automático guardado pela memória em alguma circunstância passada. Já o segundo tipo busca no passado lembranças ligadas a sentimento e espírito. Porém, Bergson explica que tais memórias seriam teoricamente autônomas e surgem de modos distintos:

O passado parece efetivamente armazenar-se, conforme havíamos previsto, sob essas duas formas extremas, de um lado os mecanismos motores que o utilizam, de outro as imagens-lembranças pessoais que desenham todos os acontecimentos dele com seu contorno, sua cor e seu lugar no tempo. Dessas duas memórias, a primeira é verdadeiramente orientada no sentido da natureza; a segunda, entregue a si mesma, iria antes em sentido contrário. A primeira, conquistada pelo esforço, permanece sob a dependência de nossa vontade; a segunda, completamente espontânea, é tanto volúvel em reproduzir quanto fiel em conservar. (BERGSON, 1999, p. 97)


Contudo, eis que uma pergunta surge ao falar de memória: Já que a mente armazena nosso passado, por que, então, não lembramos exatamente de tudo que nos já aconteceu? Bergson apresenta a seguinte resposta para esse questionamento:

Essas imagens particulares que chamo mecanismos cerebrais terminam a todo momento a série de minhas representações passadas, consistindo no último prolongamento que essas representações enviam no presente, seu ponto de ligação com o real, ou seja, com a ação. Corte essa ligação, a imagem passada talvez não se destrua, mas você lhe tirará toda capacidade de agir sobre o real, e por conseguinte, conforme mostraremos, de se realizar. É nesse sentido, e nesse sentido apenas, que uma lesão do cérebro poderá abolir algo da memória. (BERGSON, 1999, p. 85)


A memória pode ser considerada um refúgio que armazena imagens da vida passada, afinal inúmeros são os acontecimentos registrados por ela. Como aponta Rogério Oliveira (2014, p. 12): “memória como armazenamento conceitual, em outras palavras, de imagens integrais de algo, tornando algo ausente, presente.” Ou seja, somente através das lembranças que é possível o resgate do que já aconteceu ao ser. Os emaranhados de sensações que deixamos de lembrar ficam armazenados na mente. Sobre isso Oliveira (2014, p. 12) completa: “a memória diz respeito ao elemento habilitado a despertar, na alma, a imagem perfeita de algo ou de uma sensação”.

Sensações das mais diversas possíveis, lembranças que registram datas, fatos e momentos vividos. Uma dessas fases da vida é a infância. Incrível como essa etapa inicial da vida humana fica registrada fortemente em quase todos. Afinal,

É na criança que se dá esse desenvolvimento da consciência. (...) Provém daí o fato de a criança também não ter memória no sentido usual, apesar da plasticidade e receptividade para as impressões de que está dotado seu órgão psíquico. Somente quando a criança começa a dizer "eu" é que tem começo a continuidade da consciência, já perceptível, mas por enquanto ainda muitas vezes interrompida. Nesses intervalos se intercalam numerosos períodos de inconsciência. Durante os primeiros anos de vida, percebe-se claramente na criança como a consciência se vai formando por um agrupamento gradual de fragmentos. Esse processo propriamente nunca cessa no decurso da vida inteira. (JUNG, p. 45, 46)
Por isso a experiência vivida na infância acaba sendo determinante para o desenvolvimento das pessoas, é a fase de formação do indivíduo que consequentemente irá influenciá-lo durante toda a vida. E é justamente por nunca cessar que a mente vai armazenando, cada vez mais, todos os acontecimentos. Cada um guarda em sua mente apenas o que lhe foi marcante na infância, porém, em sua maioria, as lembranças dessa época são fortes, sejam elas tristes ou alegres. Como declara Torino, as recordações são resultantes da vida em sociedade:

Os indivíduos não recordam sozinhos: as lembranças são frutos destes esquemas ou quadros adquiridos na convivência social (família, grupo profissional, classe social). A afirmação central de Halbwachs sobre a memória é a de que, quaisquer que sejam as lembranças do passado que possamos ter — por mais que elas pareçam resultado de sentimentos, pensamentos e experiências exclusivamente pessoais —, elas só podem existir a partir dos quadros sociais da memória, tendo como referencial as estruturas simbólicas e culturais do grupo (...) Portanto, a memória e sua relação com o tempo é vital ao ser humano; é essencial a sua identidade, pois, juntas, elas – memória e identidade – se tornam capazes de gerar sentido, organização social e unificação de um grupo, mantendo-o coeso e ancorado em referenciais simbólicos familiares a ele. (TORINO, 2013)


A passagem inicial do livro O Pequeno Príncipe ilustra como as lembranças podem fazer parte da construção pessoal e profissional do indivíduo. Às vezes, recordações que parecem tão insignificantes para uns são bastante relevantes para outros. O aviador, personagem da obra, mudou o rumo de sua vida porque foi reprimido em seguir a carreira de pintor quando criança e deste fato ele lembrava-se claramente até a vida adulta, como mostra o trecho abaixo:

Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Responderam-me ‘Por que um chapéu faria medo?’ Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jiboia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jiboias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferencia à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. (...) Tive de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões (SAINT-EXUPÉRY, 1983, p. 09, 10)
Isso apenas ilustra que o ser humano registra em sua memória os fatos que lhes foram importantes. Mesmo tendo seguido a sua vida em outros estudos, o aviador, ao desenhar para o pequeno Príncipe, realizando um pedido do garoto, retira da mente a imagem dos dois únicos desenhos que havia feito quando criança. Portanto, o aviador acaba registrando para o pequeno Príncipe uma de suas memórias da infância, chegando a ser surpreendido pelo garoto que foi o único a decifrar rapidamente o seu desenho. Concluo deste exemplo que o presente do ser humano é impregnado de memória, mesmo sem que ele perceba. Essa é a denominada por Bergson como memória pura, as lembranças que estão no inconsciente humano, é a “operação prática e consequentemente ordinária da memória, a utilização da experiência passada para a ação presente.” (BERGSON, 1999, p. 84)

A mente do indivíduo preserva tudo que fez parte de seu passado e o que está no presente. Contudo, vale ressaltar que tais rememorações chegam até o ser da forma com que a sua imaginação lê o acontecimento. De acordo com Rogério Oliveira, o escocês David de Hume afirma que “uma impressão está retida na mente por obra conjunta da imaginação e memória” (OLIVEIRA, 2014, p. 13), porém elas se distinguem por serem de sistemas diferentes. A memória pertence a uma capacidade de preservar na mente algo que está diretamente relacionado com a origem de sua aparição para o indivíduo, ao contrário da imaginação que não possui uma procedência tão exata. Ela é fruto dos devaneios mentais do ser. Sobre isso Rogério Oliveira, ao falar da argumentação de David de Hume, completa:

a concatenação de ideias em uma lembrança reapresenta o modo mesmo como as impressões nos chegam e, desse modo, permitem conjecturas mais precisas. Mas, adverte ele que, a sintonia somente é possível com a intervenção da imaginação. (OLIVEIRA, 2014, p. 13)
Contudo, o campo da memória é escorregadio e perigoso. Os conceitos, às vezes, tendem a se mesclar. Memória, imaginação e inconsciente se interligam. Hume, por exemplo, acredita que a memória é mais vivaz que a imaginação e esta, por sua vez, cria coisas na mente. Já Bergson aponta a memória como integrante dos mecanismos sensório-motores.

E quando se trata de teatro, a imaginação só tende a contribuir e aprimorar a representação desses acontecimentos. Ainda mais quando se enxerga a memória relacionada ao aspecto sensitivo-motor, pois isso é pensá-la como elemento estimulante para a criação teatral, como foi o caso da oficina dessa pesquisa. Um exemplo foi o momento da aula em que os alunos, seguindo as minhas orientações, ficaram deitados, recordaram de um fato familiar marcante da infância e depois tiveram que apresentar esse acontecimento de forma cênica, fazendo com que essa sensação rememorada fosse representada pelo corpo naquele instante.

Dessa forma, aconteceu o que sinaliza o pensamento bergsoniano apontado por Rogério Oliveira (2014, p. 19): “um fato passado é lido no presente, com sensações igualmente presentes, a partir do que ele chama de elementos sensório-motores, que estão no corpo”. Ou seja, o ser humano ao lembrar-se de um acontecimento ativa, em alguns casos, a parte sensorial do corpo fazendo com que venham à tona as percepções de sentidos e motoras presentes em si.

Ao ativar o processo de rememoração, apesar de não haver uma fidelidade ao acontecimento original, ocorre uma pequena vivacidade do fato lembrado e, no meu ponto de vista, é justamente nesse aspecto que se encontra o segredo da utilização da memória pelo teatro, aproveitar essa energia sentida através das lembranças para a criação teatral, seja ela qual for. Sobre isso, Oliveira descreve o que Hume diz (2014, p. 24)

Para Hume, a memória é definida como uma espécie de ideia que, ao reaparecer na mente, conserva um grau considerável de vivacidade primitiva, sendo algo intermédio entre impressão e ideia, duas espécies distintas, às quais se reduzem todas as percepções humanas.
A percepção possui internamente uma grande carga de lembranças. Aliás, eu me arriscaria a dizer que a vida toda é impregnada de memórias. Sem elas talvez o ser humano pudesse, até mesmo, não possuir uma formação identitária. São as experiências vividas pelo indivíduo que o formam. E é perceptível que o presente das pessoas está carregado de vivências passadas armazenadas pela memória. Como confirma Bergson (1999, p. 84)

Na verdade, não há percepção que não esteja impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada. Na maioria das vezes, estas lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais não retemos então mais que algumas indicações, simples ‘signos‘ destinados a nos trazerem à memória antigas imagens.


Essas antigas imagens muitas vezes causam a impressão de que aquele tempo vivido foi perdido. E na verdade é justamente o contrário, a experiência vivida só acrescenta ainda mais carga de sentimentos, conhecimento e fatos ao indivíduo. A memória faz registros únicos e guarda com eles signos. Estes, por sua vez, podem ser sensíveis e originados de uma memória involuntária como declara Rogério Oliveira (2014, p. 40):

Nesse mesmo sentido, fala-se dos signos sensíveis, também caracterizados como signos de alteração e de desaparecimento. Sobre isso, Deleuze, cita o exemplo escrito por Proust, em que a botina e a lembrança da avó fazem sentir uma ausência dolorosa e constitui o signo de um ‘tempo perdido’ para sempre. Neste caso, o personagem, diante da botina, chora porque uma memória involuntária lhe traz a lembrança desesperadora da avó morta. Essa memória involuntária é uma sensação antiga que tenta se superpor, se acoplar à sensação atual, e a estende sobre várias épocas ao mesmo tempo.


Desse mesmo modo é a lembrança da infância, muitos podem ter a impressão de que foi um tempo perdido, já outros podem ter guardado em si como um momento feliz que causa saudosismo, entre outras sensações. Não se sabe o que pode surgir a partir das rememorações. “As imagens que parecem brotar da memória, em forma de lembranças, na verdade são copias, por assim dizer, de um real” (OLIVEIRA, 2014, p. 45).

Portanto, o trabalho com teatro a partir de atividades que mobilizam a memória dos participantes deve ser cuidadoso e atencioso, pois o processo criativo no caso desta pesquisa foi estimulado pela rememoração de fatos ligados a um tema específico assim como fez Lícia Sanchéz. A autora relata em seu livro A Dramaturgia da Memória no teatro-dança como utilizou a memória para construir coreografias:

O processo criativo ocorre por meio da memória via pensamento; memória que não é somente involuntária (segundo entendemos), e aqui estamos falando que existe um componente voluntário que, contudo, não anula o espontâneo. No momento em que o artista consente em direcionar um tema para a criação, aciona-se o desejo e a memória é sacudida. O que põe a memória em movimento é a intenção de “criar”, expressão do pensamento artístico vinculado a um estímulo. Assim, o que vem à tona no pensamento vem de forma “natural”, mas não é totalmente involuntário porque nela se insemina vontade de conceber. Não há, contudo, motivo para discordar de que a criatividade também pode vir pela memória involuntária [...]. Percebemos, no entanto, que, na Dramaturgia da Memória, especificamente, acionam-se os mecanismos da memória pela vontade. (SÁNCHEZ, 2010, p.92)
E foi dessa mesma forma que trabalhei na oficina desta pesquisa. Buscando ter cautela e estimulando a rememoração da infância no intuito de criar. Procurando fazer com a memória da infância surgisse de forma natural, porém atrelada a vontade de escrever.



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