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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

MESTRADO DE HISTÓRIA


CURSO/DISCIPLINA: CAPITALISMO TARDIO – A ESCOLA DE FRANKFURT

PROFESSOR: MICHEL ZAIDAN

ALUNO: ZOROASTRO CARDOSO

ARTE E INDÚSTRIA CULTURAL NA VISÃO FRANKFURTEANA


Este trabalho se destina à dis-

ciplina Capitalismo Tardio mi-

nistrada pelo professor Micha-

el Zaidan no 1º semestre deste

ano de 1991.
Recife, dezembro de 1991.

APRESENTAÇÃO


A Escola de Frankfurt tem contribuído desde sua chegada ao Brasil aos nossos dias para uma melhor compreensão da arte e da cultura no mundo capitalista, em sua fase monopolista. Nem Marx, nem Engels, nem Lênin estudaram o capitalismo monopolista. As obras tardias de alguns frankfurteanos expressam um afastamento considerável de marxismo ortodoxo.Estudam contudo a superestrutura da sociedade capitalista; como ela exerce seu papel na manutenção da infraestrutura. As pesquisas alicerçadas na rigorosa investigação vão da economia à personalidade. Buscam as dimensões macro e micro da sociedade.

Justamente no período de maior autoritarismo chegaram aqui os mais destacados membros da Escola de Frankfurt. Foram publicados ensaios e livros de Marcuse, Benjamin, Adorno e Horkheimer. Posteriormente também trabalhos de Freud e Habernas.

Marcuse teve uma maior recepção de que seus demais companheiros com duas edições num só ano de seu livro “A Ideologia da Sociedade Industrial”. Também fez muito sucesso com sua reinterpretação de Freud em “Eros e Civilização”, devido ser reconhecido no cenário internacionalmente militante e ideólogo das rebeliões estudantis sobretudo em 1968, o ano que não findou, porque tem sido marco da luta de resistência contra a opressão para aqueles que fizeram aquela experiência militante. Um clima de impaciência revolucionária conduzia intelectuais e militantes de esquerda para fundamentar também em Marcuse sua práxis. Mas o endurecimento do regime autoritário provocou a derrota da revolução popular no Brasil e uma grande mudança de direção teórica na esquerda. A cultura burguesa passou a ser fortemente rejeitada e daí surgiu o movimento da contracultura. Por esta razão Marcuse é visto por alguns críticos brasileiros como responsável fortalecimento do irracionalismo. Mas outros frankfurteanos serão também pixados de irracionalistas, no futuro. Marcuse temia que o progresso capitalista fortalecesse ideologicamente a dominação pela “falsa consciência coletiva” num mundo dominado pela “ racionalidade tecnológica”.1

A segunda fase da Escola de Frankfurt entre nós coincide com a abertura política, com a volta do debate ideológico-cultural, em que importantes estudos são realizados e publicados, com os de Rouanet e Flávio Kothe2. Renomados frankfurteanos são publicados, notadamente Benjamin.

Aqui me interessa em particular situar a contribuição de Benjamin para compreender a relação da arte com a cultura depois que o artista perdeu sua aura. Para isto, vamos utilizar “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, um de seus primeiros ensaios publicados no Brasil. “Existe o Benjamin que aplaude o declínio da aura e o que se assusta com as conseqüências de um mundo sem aura” (Rouanet) 3.

Devemos a Adorno e Horkheimer importantes estudos sobre a “indústria cultural”, particularmente o ensaio publicado em parceria por ambos intitulado “A indústria Cultural: O esclarecimento como mistificação das massas”4.

Para fechar o presente trabalho, utilizaremos outro importante ensaio de Benjamin sobre a alegoria5 e de Marcuse sobre estética.

A ARTE PÓS-AURÁTICA EM BENJAMIN


Como as mudanças materiais na produção demoram muito para serem reproduzidas nos setores da cultura, mudanças nesses setores ocorreram sem possibilidades de previsão, até mesmo por Marx. Daí advém a importância dos estudos benjaminianos para sua teoria da aura.

Segundo essa teoria, a obra de arte clássica tinha como característica ser única, irreprodutível, autêntica e intocável. Benjamin distingue reprodução manual de reprodução técnica. Da litografia pulou-se para a fotografia, da mão para o olho. Este apreende mais depressa de que a mão desenha. Com o cinema a reprodução técnica atingiu uma tremenda perfeição. Mas a reprodução tirou a autenticidade da obra de arte.Nem mesmo a tradição, nem o testemunho histórico conseguem assegurar a sua autenticidade uma vez que a obra de arte reproduzida perdeu sua característica. A cópia do original deixou de ser obra de arte. A reprodução substitui a existência única da obra por uma “existência serial”, abalando a tradição, destruindo o valor tradicional do patrimônio cultural.

Da barbárie à pós-modernidade “a forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência”6. Para compreender tais mudanças na percepção humana, Benjamin parte da aura, por ele definida como “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja”7. Mas com a reprodução da obra de arte o objeto ficou mais próximo aparentemente, porque apenas a imagem nos chega. As massas querem se aproximar cada vez mais do objeto, conseguindo aproximar-se apenas da reprodução. Não é nunca como estabelecer uma relação pessoal, empática, com a obra de arte. Contudo, Benjamin entende que deste modo “a arte se emancipa pela primeira vez em sua história”8. Ela deixa de ser única e torna-se reproduzida tecnicamente em série, aproximando-se do observador. A massa passa a ter acesso à obra de arte em sua reprodução técnica. A reprodução deixa sem vínculos com o ritual. O valor do culto dá lugar ao valor de exposição. “Com o fim da aura, esse valor de culto desaparece, substituído pelo valor de exposição”9 nos assegura Rouanet. A exposição da obra de arte cresceu tanto que corresponde a uma mudança qualitativa.

“A reprodutibilidade técnica da obra de arte modifica a relação da massa com a arte”10, agora atingindo milhões de pessoas ao mesmo tempo em vez de ficar fechada a um grupo seleto da elite. Um disco de Caruso, um vídeo com Romeu e Julieta ou qualquer outra reprodução pode ser visto e ouvido por milhões de pessoas sem sair de casa. É o milagre da comunicação de massa sobretudo pela TV. Rompeu-se assim o circuito fechado em que a arte clássica era basicamente elitista voltada para a contemplação individual. Justamente nesta mudança reside uma mudança na função da arte. Ao longo de sua história, a arte passou a função mágica para função artística e em nossos dias a arte pós-aurática passa a exercer funções totalmente diferentes pelas exigências de uma nova sensibilidade. Deste modo, artistas e reprodutores da obra de arte tem forçosamente que considerar essas novas exigências. Pesquisas e estudos sobre o comportamento do consumidor são considerados seriamente para a produção de um filme, um disco e até de um livro. Somente a arte pós-aurática pode responder ao chequeforme da realidade, responder à nova sensibilidade e agir sobre a massa consumidora.

“O cinema é a forma de arte correspondente aos perigos existentes mais intensos com os quais se confronta o homem contemporâneo”11 segundo Benjamin. Mas a crítica tem sido severa como o cinema. Rouanet adverte que a crítica conservadora desvaloriza o cinema por considera-lo desprezível pelo fato de se destinar a divertir. “mas nisso, justamente, está a superioridade da nova arte sobre a arte aurática, nas condições contemporâneas. Nesta, o espectador se recolhe; naquela, ele se distrai, vale dizer, se dispersa”12.

O mundo do capitalismo monopolista gera uma dispersão na massa de trabalhadores que dificilmente seria possível contemplar a arte aurática pelo recolhimento que ela exige de quem a vê ou escuta. Ao passo que no consumo da arte pós-aurática – o cinema no caso – a massa está dispersa, distraída e divertindo-se. Mas Rouanet chama atenção para a excessiva importância que Benjamin dá à arte de massas, superestimando seu político. Mas também incorre num outro exagero por onde Lênin enveredou ao considerar a consciência operária incompetente para pensar sua própria realidade e, portanto, fazer uma leitura crítica das produções de cultura”. A experiência tem mostrado duas coisas: a falta de paciência histórica da chamada vanguarda e de consciência crítica de expressivos setores da massa ( como classe trabalhadora ). Vê-se que Gramsci não foi bem assimilado por alguns intelectuais. Não dá mais para negar o papel de intelectual orgânico no movimento popular ( na associação de moradores, no sindicato e no partido político). Impressiona a visão crítica de um sindicalista rural.

A arte pós-aurática tem uma função política. Foi utilizada pelo fascismo, o que fez com que Benjamin defendesse a politização da arte pelo comunismo. Se por um lado o fascismo tenta enquadrar a massa para continuar explorando-a, utilizando para isto cerimonial e dramaturgia, do outro lado, é possível utilizar a arte pós-aurática para libertá-la, mobilizá-la em favor de seus interesses.

Benjamin utiliza o exemplo da arquitetura que acompanha o himem desde a pré-história para mostrar como a massa distraída faz a obra de arte mergulhar em si, mais pelo hábito de que pela recepção tátil. O hábito, segundo Benjamin, determina em grande medida a própria recepção ética. Daí que o cinema ou a TV são meios pelos quais se desenvolvem mais e mais a questão ética. “Pois as tarefas impostas ao aparelho perceptivo do homem, em momentos históricos decisivos, são insolúveis na perspectiva puramente ética: pela contemplação”13. O filme excita novas percepções do cotidiano. Contribue para a massa aos poucos ir percebendo a realidade e transforma-la. Mas é claro que a reprodutibilidade técnica - na visão de Benjamin – engloba um universo muito maior. Abrange a indústria cultural. É pena que Benjamin tenha morrido tão cedo ( 1940 ) deixando inacabada tão importante obra. Outros frankfurteanos vão trabalhar em cima da indústria cultural, mas fazendo severas críticas a Benjamin, que não pode mais se defender. Sua defesa tem sido feita pelos benjaminianos, embora limitados a uma obra produzida meio século atrás. E o mundo tem mudado rapidamente. Somente agora estão ocorrendo mudanças nos setores da cultura que foram iniciadas nas condições de produção material meio século atrás. Nem por isto a obra de Benjamin tem menor valor. Pode-se dizer o mesmo de Marx, Hegel e Aristóteles.

A INDÚSTRIA CULTURAL EM ADORNO E HORKHEIMER
A cultura contemporânea confere a tudo uma louvação de progresso técnico. Os dirigentes não estão mais preocupados em esconder o que está por trás da indústria de massa.

A indústria cultural é vista por Adorno e Horkheimer como alienante. Pelo visto, ambos discordam basicamente de Benjamin. A obra foi escrita vários anos depois da morte de Benjamin. Ela aponta para os riscos da indústria cultural,que manipula a massa e inibe capacidade crítica.

Com base no ensaio “A Indústria Cultural: O esclarecimento como mistificação das massas”, vamos aqui apresentar idéias básicas destes dois frankfurteanos que se contrapõem a Benjamin nesse paradigma da arte pós-aurática e indústria cultural.

Quanto mais o capitalismo monopolista avança também na área da cultura, mais forçoso se torna a seus adversários conhecer os mecanismos de dominação da classe trabalhadora. Daí que os estudos da Escola de Frankfurt assumem uma atualidade incrível, podendo inclusive contribuir para uma melhor compreensão do que ocorre no Brasil, pelo fato de desvelarem a cultura dominante importada das metrópoles culturais, como sugere Flávio Kethe.

A cultura do mundo capitalista mais avançado tem sido controlada por um poder central que padroniza arquitetura, moradia, transporte e lazer. Há um verdadeiro controle da consciência individual. Os programas de rádio e TV são padronizados, iguais um aos outros, mesmo que haja aparentes diferenças. Adapta-se ao cinema e à TV obras primas da literatura universal, como Ana Karenina, Hamlet e a Odisséia. Os consumidores são joguetes nas mãos dos poderosos que através das equipes de produção controlam a consciência coletiva e individual da sociedade. Tudo está determinado pelos poderosos executivos ( Os Bonis da TV, os Speilbergs do cinema ). Os autores asseguram que “a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais” da indústria14. Mas a sociedade irracional não percebe tais intenções. As agências de rádio, TV e toda a mídia em geral aparecem como responsáveis ( no Brasil se responsabiliza a Globo até pela eleição de falsos salvadores da pátria ).

Há uma arte sem sonho destinada à massa. As novelas e os sucessos das paradas musicais só variam na aparência. A indústria cultural desenvolveu-se com o predomínio que a técnica alcançou sobre a obra, submetendo a arte a seus interesses. A arte passou para a esfera do consumo, mas atrofia-se a imaginação e a espontaneidade do consumidor cultural. Mesmo que haja muito rigor na produção artística, do ponto de vista técnico e ideológico, quanto mais o artista se amolda aos padrões técnicos ( efeitos especiais nos filmes e clips ), mais competente se torna. Quem não quiser se ajustar, está livre pra passar fome. Um artista independente passa a ser um estrangeiro em sua terra.

Tocqueville já advertia no século passado: “ a tirania deixa o corpo livre, mas vai direto à alma. A indústria cultural submete os consumidores aos interesses do sistema que os oprime, mas vai fundo na alma, não encontrando resistência. Inúmeros estereótipos são habilmente impostos. Faz-se a cabeça da massa com os recursos que a poderosa mídia oferece. E até há um enorme cuidado em evitar o novo, o desconhecido, mesmo que se fale muito em novo e moderno.

“ A indústria cultural pode se ufanar de ter levado a cabo com energia e de ter erigido em princípio a transferência muitas vezes desajeitada da arte para a esfera do consumo,de ter despido a diversão de suas ingenuidades inoportunas e de ter aperfeiçoado o feitio das mercadorias”15. Mas a diversão aqui se constitue num prolongamento do trabalho. Durante o ócio ( em geral diante da TV ) o consumidor não precisa fazer esforço intelectual. Adapta-se ao sistema, mesmo querendo escapar do trabalho no capitalismo tardio. É como se fosse uma maneira de relax, de lazer para refazer as forças e continuar o trabalho no dia seguinte. Reduz-se a tensão entre a vida cotidiana e os desejos reprimidos. Daí que a diversão tem um papel muito importante: purificar paixões, esquecer o sofrimento. Quando a informação é buscada pelo consumidor na mídia, em geral se visa trocá-lo por alguma coisa. Tudo só tem valor na medida em que se pode trocar no mundo da troca. A diversão organizada converte-se na crueldade organizada. Os consumidores se identificam com os personagens que vivem num mundo de prazer e bem estar, mas inacessíveis à massa. Os desejos podem até ser satisfeitos por alguns que tiveram sorte ( tirando um prêmio milionário no jogo ). Tudo está montado para alimentar tantos desejos, só que inalcançáveis.

Até aqui dá pra ver que não existe saída da opressão em que está mergulhada a massa num mundo da indústria cultural, na visão de Adorno e Horkheimer.

Parece não ter saída mesmo. “ A eliminação do privilégio da cultura pela venda em liquidação dos bens culturais não introduz as massas nas áreas de que antes eram excluídas, mas serve, ao contrário, nas condições sociais existentes, justamente para a decadência da cultura e para o progresso da incoerência bárbara”16. Antes se gastava muito para assistir uma peça teatral. Procurava-se obter uma compensação do gasto assimilando o máximo das obras. Podia-se ter respeito e senso crítico. Na ética burguesa, quanto mais vale uma coisa, mais valor tem a coisa, ou seja, quanto mais se pagou pra ver uma ópera , mais concentração se dedicou à mesma. Mas na indústria cultural, a obra de arte perdeu todo esse valor. Escuta-se a ópera de Verdi num disco que toca quantas vezes se queira. E não custou muito. Desaparecem num disco a crítica quanto o respeito.

Alia-se interesse comercial via publicidade com indústria cultural. A publicidade invadiu tudo, menos as fachadas das modernas lojas porque já não bastam os painéis e anúncios luminosos em suas fachadas. A publicidade penetra na casa de cada consumidor e de modo muito mais convincente. Sem perceber você mergulha no consumismo, mesmo sem poder. Não dá mais pra separar a publicidade da indústria cultural de tão juntas que estão. Usa-se de tudo pra manipular os interesses dos consumidores, ora distraídos, ora relutantes. Moda, linguagem, modo de vida, tudo está sob controle de indústria cultural. Busca-se impor que Adorno/Horkheimer caíram num extremo oposto ao de Benjamin. Concordamos com Rouanet de que Benjamin levou mais longe o trabalho da dialética, constatando a dupla face da cultura. Mas seus companheiros se recusam a transcender o circuito fechado em que se meteram. Não conseguem encontrar na cultura de massas meios de libertação.

Fica porém o alerta para não se fazer da indústria cultural um instrumento de libertação como fez Benjamin, em sua obra comentada neste trabalho.


A SAÍDA PELA ALEGORIA
“A arte pode mudar o mundo, mas pode contribuir para a mudança da consciência”17, nos tranqüiliza Marcuse. Diz que o movimento dos anos sessenta a cabeça e o sentimento das pessoas. Houve uma mudança radical da subjetividade, abriu uma nova visão das coisas.

Vimos como na “Dialética do Esclarecimento” ( de 1947 ) a indústria cultural controla a vida de todo mundo, distraindo os trabalhadores da questão fundamental que é a superação das condições de exploração e opressão. Estamos com J.M. Gagnebin, quando chama a atenção para o julgamento do passado:como condição prévia de todo julgamento do passado é o exame crítico da constituição histórica da representação desse passado”18. Ninguém é completamente livre num mundo dominado pelas leis do mercado. Baudelaire descobre que para se manter precisa vender seus poemas como se fossem uma mercadoria qualquer. E certamente surge daí a revolta misturada com melancolia fazendo-o habilmente utilizar a alegoria para expressar sua visão de mundo. A visão alegórica funda-se na desvalorização do mundo aparente. Possivelmente ai se encontra a intenção alegórica de Baudelaire. A representação da realidade sob a forma de alegoria talvez seja a tentativa de sair da camisa de força do sistema, mantendo uma relativa independência. A alegoria tem uma infinidade de sentidos. A literatura barroca utilizou a alegoria. Ela ressurge em Baudelaire e chega aos nossos dias. A alegoria tenta resgatar a memória dos oprimidos. Segundo “ Benjamin, na alegoria “cada personagem, cada coisa, cada coisa, cada relação pode significar uma outra qualquer “ad ibtum”19. Nesta nova maneira de ver o mundo, alegoria e fetiche se complementam. No mundo da troca, o alegorista moderno mostra o fetichismo da mercadoria da mercadoria e quebra a relação alienada dos homens com as coisas.

O mercado passe a exercer a função do alegorista porque dá valor à mercadoria. O mercado dá significado valorativo às coisas. Temos como exemplo as Exposições Mundiais,nítida separação entre as coisas produzidas e os homens que as produziram. Há uma descontextualização no mercado, em que as coisas passam a ser objetos alheios ao homem. Os homens valorizam as coisas expostas como verdadeiros fetiches. Esta é a condição básica para a alegoria moderna. As coisas são reduzidas a valor de troca, inclusive a força de trabalho do homem. Tudo passa a ser signo, uma representação, onde o mercado dá seu valor. A arte moderna representa essa vertigem de significado provocada pela produção do valor.

Benjamin trabalha com a teoria do fetichismo, mas em bases materiais do mundo da produção. Ele relaciona as imagens do desejo com modo de produção. O novo se interpenetra com o antigo, as imagens do desejo são produto do casamento entre o velho e o novo, embora apontem para o futuro. As utopias apontam para o futuro, mas estão igualmente presas ao passado.

A alegoria tem um certo conteúdo subversivo. Sua importância reside em parte nesse conteúdo. Marcuse considera do ponto de vista estético a obra de Baudelaire mais subversiva que a de Brecht.

Em sua obra sobre estética, Marcuse escreve:


“ Uma obra de arte pode denominar-se revolu-

cionária se, em virtude da transformação esté-

tica, representar, no destino exemplar dos indi-

víduos, a predominante ausência de liberdade

e as forças de rebelião,rompendo assim com a

realidade social mistificada ( e petrificada ) e

abrindo os horizontes da mudança (libertação)”20

As imagens do desejo e outras expressões de Benjamin são tiradas de Freud, em borá sem deixar o viés marxista. Em sua obra “A Paris do segundo Império na Obra de Baudelaire” aponta para esta esperança:


“ Cada época não apenas sonha a seguinte,

mas sonhando, se encaminha para o seu des-

pertar”.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA


BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. São Paulo,Brasiliense. 4 ed.

IDEM. Origens do Drama Barroco Alemão. São Paulo, Brasiliense, 1986.

IDEM. “ Paris, Capital do Segundo Império na Obra de Baudeleire” in Walter Benjamin.São Paulo. Ática. 1985.

GANGBEIN, Jeanne-Marie- Walter Benjamin. São Paulo,Brasiliense, 1982. Col.Encanto Radical, 18.

HORKHEIMER, Max / ADORNO. A Dialética do Esclarecimento. São Paulo,Zahar.

KOTHE, Flávio. A Escola de Frankfurt. In: Novos Rumos,6.

MARCUSE,Herbert.A Ideologia da sociedade industrial. São Paulo, Zahar, 1982.

IDEM. A Dimensão Estética da Arte. Livraria Martins Fontes Ed. Ltda.

ROUANET, Sérgio Paulo. Édipo e o Anjo. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro, 1990.

IDEM. As Razões do Iluminismo. São Paulo. Companhia das Letras,1989.



ZAIDAN, Michel- Razão e História. Sergipe, Universidade Federal de Sergipe, 1988. Apostila, mimeografada.


1 MARCUSE, Herbert.- A Ideologia da Sociedade Industrial.O Homem Unidimensional.

2 KOTHE, Flávio- A Escola de Frankfurt.

3 ROUANET, S.P.- As Razões do Iluminismo. P. 110.

4 ADORNO/ HORKHEIMER- A Dialética do Esclarecimento.

5 Ver o Drama Barroco Alemão. E também Razão e História, este de Michel Zaidan.

6 BENJAMIN-Obras escolhidas. Vol. 1.p.169.

7 BENJAMIN- Idem. p.170.

8 BENJAMIN- Ibdem. p.171.

9 ROUNET- Édipo e o Anjo. p. 55.

10 BENJAMIN- Obra citada. p. 187.

11 BENJAMIN-Idem, p. 192.

12 ROUANET- Édipo e o Anjo. p. 56.

13 BENJAMIN- Obra citada. p. 193.

14 ADORNO/HORKHEIMER- Obra citada. p. 115.

15 ADORNO/HORKHEIMER- Idem, p. 126.

16 ADORNO/HORKHEIMER- Idem, p. 150.

17 MARCUSE, H.- A Dimensão Estética da Arte. p. 42.

18 GANGNEBIN,J. Marie – Walter Benjamin. p.58.

19 MARCUSE – A Dimensão Estética da Arte. p. 13.

20 MARCUSE- A Dimensão Estética da Arte. p. 13.


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