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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

DA CLANDESTINIDADE À LEGALIDADE

O discurso social sobre as rádios comunitárias



Achylles de Oliveira Costa Junior

Teresina, junho de 1999.

DA CLANDESTINIDADE À LEGALIDADE

O discurso social sobre as rádios comunitárias

Achylles de Oliveira Costa Junior

Dissertação apresentada ao Corpo Docente da Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como parte dos requisitos necessários para obtenção do grau de mestre.

Aprovada por:

Banca Examinadora




Profª. Dra. Lavina M. Ribeiro (UFPI) - orientadora

Profª. Dra. Raquel Paiva (ECO/UFRJ) - membro da banca



Prof. Dr. Francisco Dória (ECO/UFRJ) - membro da banca

Prof. Dr. Aluízio Ramos Trinta (ECO/UFRJ) - suplente

Rio de Janeiro, 31 de junho de 1999.




meus filhos,

origens dessa motivação.

AGRADECIMENTOS

Ao amigo Osmar Júnior, pela valiosa colaboração e pela sua luta em favor da cultura e das artes do nosso Estado.

À professora Lavina M. Ribeiro, pela orientação e pela sua grande luta na instalação do Curso Mestrado em comunicação na UFPI;

Ao professor Antônio Francisco Dória, e pelo apoio ao intercâmbio entre a UFPI e a UFRJ;

Ao professor e amigo Paulo Fernando, pela leitura crítica – uma prova de fogo para testar a consistência deste trabalho;

Ao professor e amigo Cantídio Filho, pela valiosa colaboração e incentivo;

À amiga Almerinda, pela valiosa ajuda;

Ao professor Milton José Pinto, pelos ensinamentos dos mistérios da Semiologia;

Aos amigos da pós-graduação, pela troca de conhecimentos e pela amizade;

Aos militantes do movimento de rádios livres no Brasil, pela coragem e criatividade demonstradas nesse percurso;

Aos meus amigos e familiares, pelo incentivo e motivação.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

CENTRO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

CURSO DE MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E CULTURA-UFPI/UFRJ.

Dissertação

DA CLANDESTINIDADE À LEGALIDADE

O discurso social sobre as rádios comunitárias

Achylles de Oliveira Costa Junior

Teresina, 22.04.1999.
RESUMO

Esse trabalho tem como objetivo estudar a construção e fundação discursiva das rádios comunitárias, considerando-se os diversos debates travados na sociedade e o contexto que possibilita o surgimento dos discursos estruturantes do fenômeno, e de sua participação no processo de organização e mobilização dos segmentos sociais subalternizados.

Busca-se compreender o fenômeno da produção de sentido no discurso social sobre as rádios comunitárias, o discurso fundador, suas potencialidades agendadoras e mobilizadoras, a sua função junto aos novos movimentos sociais que eclodem no mesmo período, a formação de vínculos com a comunidade, sua função na formação de redes de comunicação e nas novas maneiras de organização dos sujeitos sociais.

ABSTRACT

This work intends to study about the community radios' discursive foundation, being considered the several discussions happened in the society and the context that makes possible the appearance of the phenomenon's founders discourses, and of their participation in the organization process and in community's mobilization.

It is sought to research the sense's production phenomenon in the social speech about the community radios, the founder speech, its mobilization potentialities, its function into the new social movements that appears in the same period, the entails' formation with the community, its function in the communication nets' formation and in the new ways as the people are organized in the society.

SUMÁRIO:

APRESENTAÇÃO......................................................................................................08

INTRODUÇÃO...........................................................................................................10
CAPÍTULO I

Os vários nomes do fenômeno..................................................................................15

Origem e evolução das rádios comunitárias..............................................................20

Rádios livres no Brasil................................................................................................23


CAPÍTULO II

As razões da ocupação do espaço irradiante............................................................26

A expansão do movimento no Brasil..........................................................................37

Da repressão à regulamentação................................................................................40

Perfil das rádios comunitárias do Piauí......................................................................42
CAPÍTULO III

A produção de sentido. ..............................................................................................45

Semiologia e Operações Enunciativas.......................................................................51

O discurso fundador das rádios comunitárias............................................................56

O percurso histórico dos novos movimentos..............................................................61

A busca de canais alternativos...................................................................................63


CAPÍTULO IV

Os vários discursos produzidos na sociedade...........................................................68

Discursos favoráveis..................................................................................................69

Discursos desfavoráveis............................................................................................91


CONCLUSÃO..........................................................................................................108

Anexos......................................................................................................................117

Bibliografia................................................................................................................125

Jornais e documentos Consultados.........................................................................127



APRESENTAÇÃO

A idéia inicial deste trabalho nasceu de uma velha paixão pelo tema, despertada durante um curso de eletrônica, ainda na adolescência, quando nos encantávamos com a possibilidade de transmitirmos sons em pequenos transmissores de rádio que construíamos, logo no primeiro ano. Após a conclusão do curso de Comunicação Social, surge a oportunidade de reestudar o assunto. Desta vez, não pelo lado de dentro do aparelho. Seria interessante estudá-lo como fenômeno social, cuja importância, que andava meio esquecida, devido ao encantamento de outras mídias, volta a ser reconhecida. Resgatado do limbo do ostracismo, o rádio ressurge nesse processo, bastante revitalizado, no meio de toda a polêmica desencadeada em torno da quebra no monopólio das comunicações, provocada pelo movimento das rádios comunitárias.

Até há pouco tempo, no inicio da década de 80, o rádio era um veículo que, apesar de possuir uma extrema infiltração na sociedade, vinha sendo sub-utilizado, em uma fórmula extremamente excludente, seja pela política governamental de concessões de canais ou por sua programação com uma comunicação1 de mão única, servindo a interesses nem sempre coincidentes com os das comunidades-alvo. Nesse período, pouco se falou ou foi publicado sobre o rádio, a não ser para rememorar seus “tempos áureos”.

Com o surgimento das emissoras comunitárias, a mídia e a academia foram inundadas por uma onda de ensaios, dissertações e artigos sobre o tema. Há muito tempo não se falava tanto sobre o rádio.

As rádios comunitárias aos poucos vêm preenchendo espaço da mídia, que só empresas privadas, o Estado, Igreja e políticos “amigos do poder” ocupavam. A democracia exige pluralidade, diversidade de opiniões, debates de pontos de vistas diferentes acerca dos fatos, maior circulação de informações produzidas por diversos agrupamentos, para que o cidadão goze de uma variedade mais abrangente de opções e assim possa tomar decisões mais acertadas. Além disso, é preciso cada vez mais dar a oportunidade do cidadão participar, manifestar-se mais diretamente na mídia.”2

Desde a popularização da televisão, nenhum assunto referente ao rádio despertou tanto interesse nem provocou tamanha discussão. E são justamente esses discursos que interessam ao presente trabalho. Busca-se compreender o fenômeno da produção de sentido no discurso social sobre as rádios comunitárias, o discurso fundador, suas potencialidades agendadoras e mobilizadoras, a sua função junto aos novos movimentos sociais que eclodem no mesmo período, a formação de vínculos com a comunidade, sua função na formação de redes de comunicação e nas novas maneiras de organização dos sujeitos sociais.

INTRODUÇÃO

INTRODUÇÃO

Ao pensar-se, inicialmente, este trabalho, o objetivo era uma análise de discurso, onde o corpus seria extraído dos textos veiculados por emissoras de rádio comunitárias, no Estado do Piauí. No entanto, com o início das aulas do mestrado, a atenção voltou-se para o que se dizia sobre elas, pois eram esses discursos que as tornavam real3, dando-lhes a materialidade e a consistência necessária para percorrerem uma conturbada trajetória, que as deslocariam da clandestinidade à legalidade. Procurou-se orientar o projeto de pesquisa para os processos histórico–discursivos, fundadores das rádios comunitárias, para o contexto histórico que os estimulam e os tornam oportunos; para as idéias e os elementos desencadeadores de uma ação comum para este fim (a legalização), e para sua construção, a partir da negação do modelo existente4, sob a perspectiva do novo contexto histórico e das novas formas de organização da sociedade.

No período entre 1990 e 1997, é observada uma crescente aparição em livros, revistas e jornais, enfim, de discursos, oriundos de diversas vertentes, sobre as rádios comunitárias, acompanhados de uma grande discussão na sociedade e de um aumento considerável do número de emissoras não autorizadas, de baixa potência. Os posicionamentos, os mais diversos possíveis, favoráveis e desfavoráveis, foram-se estruturando e colocando no cenário dos debates elementos de sustentáculo de uma idéia que se vai materializando, tornando-se palpável, sólida, à medida que os argumentos, mais ou menos sedutores, encontravam reverberação na sociedade e se ampliavam.

Foi Intrigante, no entanto, o fato de que, apesar dos inúmeros artigos na mídia com posicionamentos contrários à existência do fenômeno, este (mesmo enfrentando toda sorte de dificuldades), como será visto a seguir, continuou a crescer e tomar espaços, conquistando simpatizantes e militantes nos vários segmentos da sociedade. Tratava-se da produção de um material significativo para a pesquisa sistemática, o surgimento na mídia de uma série de artigos, ricos em oferta e produção de sentido e em disputas de argumentação e sedução: o percurso histórico e discursivo das rádios comunitárias, desde o período de proibição e repressão, alternando-se entre momentos de intolerância e de aceitação, até o sancionamento da lei que as regulamenta.

Durante o estudo, levantou-se algumas hipóteses: (a) é possível que as rádios comunitárias tenham sido construídas discursivamente, como ferramentas para o fortalecimento da cultura popular; (b) o discurso fundador das rádios comunitárias talvez resulte da soma dos vários discursos, favoráveis ou não, produzidos sobre elas na sociedade; (c) As rádio comunitárias provavelmente conquistem um lugar na audiência da comunidade, por tratarem de assuntos de interesse local, por terem uma programação utilitária, informativa e musical, que respeita a cultura e as peculiaridades da região, com uma programação esclarecedora, levando a população a tomar conhecimento dos seus direitos como trabalhador, contribuinte, consumidor e a exercer sua cidadania plenamente; (d) provavelmente a comunidade se encontra integrada à rádio comunitária, ouvindo e participando da elaboração da programação; (e) talvez segmentos organizados da sociedade (sindicatos, associações de moradores, diretórios estudantis) se utilizem desse meio para conscientizar politicamente as comunidades e (f) partidos e candidatos possivelmente usem as rádios não autorizadas para fins eleitorais.

Definiu-se como objetivo geral estudar a construção e fundação discursiva das rádios comunitária (a partir dos diversos debates travados na sociedade e do contexto que possibilita o surgimento dos discursos estruturantes das rádios comunitárias, e de sua participação no processo de organização e mobilização dos segmentos sociais subalternizados).

E como objetivos específicos: (a) identificar as marcas favoráveis e desfavoráveis nos discursos produzidos na sociedade; (b) verificar a aceitação e adoção dos discursos sociais sobre rádios comunitárias por parte da população-alvo e os agendamentos gerados na sociedade; (c) verificar a criação de vínculos com a recepção.

Optou-se por fazer uma análise de discurso levando-se em consideração o aspectos contextuais e históricos, numa abordagem integrada5, que abrange, basicamente, uma revisão bibliográfica e uma pesquisa em jornais, revistas, artigos, relatórios e peças jurídicas, para remontar parte de seu percurso histórico no Piauí, rastrear seu discurso fundador, coletando dados no universo delimitado através de depoimentos e entrevistas publicadas.

A amostragem a ser analisada é constituída de textos jornalísticos (jornais “O Dia”, “Meio Norte”, “Correio do Piauí” e “Diário do Povo”, todos de Teresina, Piauí), cartas, memorandos, ofícios, texto do projeto sobre o tema aprovado pelo Congresso Nacional, livros, ensaios, artigos, pareceres técnicos, liminares judiciais, publicados no período entre 1990 e 1997, nos veículos selecionados. Procurou-se utilizar amostras de todo material disponível, relacionado ao assunto.

CAPÍTULO I



CAPÍTULO I

OS VÁRIOS NOMES DO FENÔMENO

Nos textos produzidos sobre rádios comunitárias pesquisados, encontrou-se, freqüentemente, o emprego de diversos termos e conceitos usados para nomear ou descrever o fenômeno. Existem sutis diferenças entre as várias definições, cujas ocorrências já demonstram o modo como o sentido é produzido e ofertado aos leitores. É necessário, portanto, que se defina mais rigorosamente as várias denominações usadas, pelas quais serão colocadas em ação as estratégias comunicativas que servem como suporte teórico metodológico desta análise.

A dificuldade inicial é a de se delimitar, entre as emissoras não-autorizadas, o que sejam rádios alternativas, livres, piratas, e comunitárias, já que muitas vezes esses termos são equivocadamente empregados como sinônimos e estão sendo constantemente ressemantizados e deslizam entre um e outro significado, conforme sentido que se deseja produzir. Tais termos, embora remetam ao mesmo tema, prestam-se a formulações enunciativas diversas. O termo alternativa6, por exemplo (provável herança semântica do que nos anos 70 identificava os jornais em formato tablóide ou revistas de oposição ao regime militar), pressupõe uma escolha que exclui todas as outras. Como indicativo de um alter, um outro, um novo, serve para colocar discursivamente no mundo um novo modelo de rádio. Alternativo, não apenas no aspecto da programação, mas em toda sua concepção e estrutura. Um modelo que já não é o anterior, mas que continua nas suas fronteiras, por não ser ainda o que se propõe7 e por continuar preso ao formato antigo, ainda que para negá-lo, ainda que para tê-lo como referencial de como não fazer/ser. Alternativo não era apenas uma opção a mais e sim o processo de buscar-se sempre ser uma outra coisa. Ao se colocar em prática o novo modelo de rádio, impor-se-iam condições a serem observadas e metas a serem alcançadas. Alternativo não era apenas o diferente: era o diferente engajado e revolucionário.

Para definir a si mesma, a rádio comunitária começa por definir o seu outro, delimitando uma fronteira que permita reconhecer-se como exterior ao domínio nocional8 ocupado pela identidade a que procura negar. (O outro das rádios comunitárias são as emissoras comerciais, obtidas sob concessão, cuja imagem é associada a: programação anti-democrática, de mão única, sem participação popular, controle ideológico, manipulação de informações, prioridade aos esquemas de distribuição das grandes gravadoras, descaso com a cultura local, entre outros defeitos). Partindo da definição do modelo de mal, é que nossa experiência cultural se define como o bem. O outro é identificado pelo mal9 que pode infligir ao eu, a vítima. Do ponto de vista ontológico, o mesmo, o lugar do bem e da verdade, é representado pela harmonia.

Seguindo este raciocínio, não se pode considerar como alternativa uma rádio comercial ou estatal que possua apenas uma parte de sua programação com características alternativas (como alguns programas produzidos por sindicatos e associações, veiculados em emissoras comerciais, geralmente pertencentes à Igreja Católica).

Procurou-se restringir o significado do termo e estabeleceu-se, como critério para sua definição: (a) estar fora da regulamentação antiga e das mãos dos tradicionais donos dos meios de comunicação de massa; (b) estar comprometido com desenvolvimento de uma programação outra, diferente das oficiais, por ser produzida e voltada para a comunidade. De forma análoga, o fato de uma emissora não-autorizada produzir uma programação idêntica à que é feita pelas comerciais não a torna uma emissora oficial, porém a faz perder seu caráter alternativo, para ser apenas uma a mais no dial, o que pode estar-se tornando uma tendência, com o aumento de rádios não autorizadas adquiridas por políticos de vários partidos e tendências.

Ao remontar-se o percurso discursivo das rádios comunitárias, depara-se, muitas vezes, com a ocorrência desses termos colados a diversos modos de dizer, de mostrar e seduzir, modelando seu sentido, adequando-o à linha argumentativa escolhida. O termo Rádio Livre, por exemplo, é uma marca favorável muito usada pelos militantes mais entusiastas e pelos primeiros “rádio-amantes”, os precursores do movimento, apaixonados pelo rádio. Esse termo traz, certamente, um certo charme, por essa romântica coisa de “atuar na clandestinidade”.

Rádio livre, termo originalmente surgido na Europa, é o nome comum a todas emissoras que funcionam à margem da antiga legislação, as quais podem ser também denominadas piratas ou comunitárias.

Já o sentido do termo Rádio pirata, que já foi outro, sofreu uma ressemantização para atualmente denominar aquela que funciona de modo predatório, interferindo em outras emissoras, sem programação fixa, sem freqüências, horário ou potências definidas e atendendo apenas a interesses particulares. Rádio pirata é um termo também de origem européia, surgido para denominar as emissoras clandestinas que transmitiam para o continente, funcionando a partir de transmissores instalados em barcos, em pleno mar, para driblar a legislação local. Foi, durante algum tempo, no início do movimento (1980/1985), termo muito usado também por jovens estudantes de eletrônica, que montavam pequenos aparelhos para transmitir e escutar, à distância, suas músicas prediletas.

Com o tempo e o uso, o significado original de Rádio Pirata sofreu um desgaste, esvaziando-se de seu sentido histórico. Antes entendido como um romântico sinônimo de rebeldia e juventude, passou a ser usado nas construções discursivas como um desqualificador, de modo pejorativo, após sua ressemantização. É esse o termo preferido por grupos contrários a idéia de rádio livre. Atualmente, a “alcunha” não é muito bem aceita pelo pessoal que trabalha na área. Rádio Pirata tornou-se quase um xingamento, muito encontrado nos discursos desfavoráveis ao movimento.

Rádios comunitárias são emissoras de baixa potência (entre 5 e 100 watts), com freqüência definida10 (fixa) e uma programação estável, de interesse para a comunidade na qual se instala, ligadas a alguma associação comunitária e coordenadas por um conselho de entidades da comunidade. Essa denominação também é dada aos antigos serviços comunitários de alto-falantes que, embora com grandes limitações de alcance e programação, cumpriam objetivos parecidos em vários aspectos. Alguns funcionam até hoje, mas a maior parte foi ou está sendo substituída por estações de Fm de baixa potência.

A denominação Comunitária é a preferida da maioria das pessoas ligadas ao movimento atualmente. É geralmente usada em tom simpatizante ou adesista e é muito comum sua ocorrência nos discursos favoráveis ao tema, de modo até carinhoso e quase paternal. O termo Rádio Comunitária (que tem sua origem provável no discurso da Igreja Católica, nas atividades dos conselhos comunitários) é o que mais nos interessa porque é o termo utilizado para designar as emissoras não-autorizadas no Projeto de Lei que institui o serviço de radiodifusão comunitária (e que foi sancionado pelo Presidente da República em 19 de fevereiro de 1998), que é uma das peças que compõem o conjunto de discursos estruturantes analisados em nossa pesquisa. Já alguns textos jurídicos chegam a usar o termo clandestina, embora sem o caráter pejorativo ou desqualificador. É usado apenas para ressaltar o funcionamento de emissoras fora da regulamentação.

Todas essas definições já trazem em si algumas pistas importantes para a análise. Denunciam e questionam o pensamento estabelecido e contestam a hipocrisia de sua moral como valores legítimos, como a “censura do bom gosto” manifestada no “bom senso”, numa abordagem solidária com o modo de produção capitalista. Esse “bom senso” não é apenas uma direção: “ele é senso único, exprime a existência de uma ordem com a qual é preciso escolher uma direção e se fixar a ela.” 11

ORIGEM E EVOLUÇÃO DAS RÁDIOS COMUNITÁRIAS

O rádio começou a surgir no mundo em 1884, quando o cientista alemão, Hertz, preconizou os fundamentos teóricos da propagação da ondas eletromagnéticas, cuja possibilidade de transmissão de sinais à distância, sem suporte material (cabos ou fio condutores), espantava o mundo. Pouco tempo depois, o engenheiro italiano Marconi se declarou inventor do telégrafo sem fio. Porém, resgatando aqui um pouco da nossa esquecida história, foram no Brasil que se deram de fato as primeiras experiências com radiotransmissão. Foram realizadas por um padre brasileiro, nascido em Porto Alegre, em 1861: o padre Landell de Moura12.

Estudioso de filosofia, teologia, química e física, Landell realizou em 1894, em São Paulo, a primeira transmissão de rádio que se tem notícia, a uma distância aproximada de oito quilômetros, do morro de Santana à avenida Paulista, dois anos antes do telégrafo sem fio de Marconi. Os inventos do padre Landell foram patenteados no Brasil em 1900 e, em 1904, patenteou nos Estados Unidos três inventos: um telefone sem fio, um transmissor de ondas eletromagnéticas e um telégrafo sem fio. Apesar dessas importantes realizações, nenhuma homenagem foi prestada a esse grande cientista brasileiro, cuja importância pode ser comparada a de expoentes, como Santos-Dummont.

Depois disso, várias foram as experiências realizadas. Apesar de que a ocorrência de rádios clandestinas remonte a própria história do rádio, a primeira rádio livre brasileira, da qual descobrimos pistas, foi montada no Espírito Santo, em 1970. A data passaria despercebida, como centenas de outras possíveis experiências que, com certeza a precederam, não fosse a grande repercussão dada ao acontecimento na época. O fato repercutiu porque a emissora foi fechada pela Polícia Federal e o assustado montador só não foi preso por ser menor de idade, porém seu pai teve que esclarecer ao delegado que o garoto não era um “militante comunista”.

O fenômeno das rádios comunitárias no Brasil, embora com alguns pontos de semelhança com o resto do mundo, foi diferente do que ocorreu na França e em vários países, onde as emissoras alternativas já surgem engajadas à luta social; já nascem atuando dentro de processos revolucionários locais, como mais uma das armas disponíveis, no sentido de dar voz ao movimento, objetivando conquistar apoio, transmitindo à população os motivos da rebelião e a necessidade de aderir ao pensamento rebelde. Suas programações tinham como uma das suas principais características a veemente contestação de um estado de coisas a que desejavam combater.

A guerrilha revolucionária em Cuba, por exemplo, cresceu bastante com o apoio de uma rádio livre: a Rádio Rebelde, que funcionou entre 1958 e 1959, denunciando os crimes do governo Fulgêncio Baptista, buscando a simpatia da população e noticiando as atividades rebeldes. Na Nicarágua, a rádio dos sandinistas fez algo semelhante, buscando o apoio da população para as atividades dos revolucionários. Em El Salvador a guerrilha também possuía sua emissora. Podemos citar também as rádios mineiras, na Bolívia, as rádios operárias dos Países Baixos, em 1925, passando por rádios dos movimentos anti-franquistas, na Espanha, rádio revolucionária na Argélia, as rádios do movimento da resistência francesa na II Guerra Mundial, as rádios clandestinas de Estocolmo, dos movimentos de resistência em São Francisco, nos EUA, contra a guerra do Vietnã, entre outras13.

Essas rádios foram as que, num primeiro momento, basicamente iniciaram o movimento de rádios livres no mundo: ora driblando, ora enfrentando as leis locais que regulamentam as transmissões radiofônicas e, na maioria das ocorrências, opondo-se radicalmente ao monopólio das comunicações e aos governos totalitários e suas ações. Até esse momento da história, as rádios livres surgiam geralmente como ferramentas de uma causa em andamento e não somente pela simples necessidade lúdica de falar à distância para um grande número de pessoas.

Num outro momento, a partir de 1989, com uma radical mudança na ordem mundial como a que se processou após o fim da guerra fria, da queda do muro de Berlim e da flexibilização da ordem mundial, antes orientadas apenas por duas correntes (capitalismo e socialismo), que engessavam todas as análises, conduzindo-as nesses únicos sentidos,14 são observadas mudanças nos discursos justificantes e estruturantes das rádios livres. A partir daí, as rádios já não surgem somente para divulgar o pensamento de uma revolução em curso. Elas eram a própria revolução.

A partir do final da década de 80 e início dos 90, as rádios comunitárias proliferam-se em vários países, evocando o direito básico à comunicação. Surgiram quando oportuno. As pessoas passaram a se reunir com o objetivo de fazer uma rádio, para quebrarem o monopólio da fala, para dizerem do seu dia, para dizerem dos seus sonhos, para dizerem... A rádio livre finalmente não estava atrelada a nenhum movimento a não ser ao seu próprio. Ela surgiu para compor o próprio discurso que a engendrou. Passa a existir para justificar sua existência.



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