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Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

Centro de Letras e Artes – CLA

Faculdade de Letras

Departamento de Lingüística e Filologia

Programa de Estudos sobre o Uso da Língua - PEUL

Banco de Dados do PEUL/UFRJ


AMOSTRA DO MOBRAL


Falante: 03 Geo

Sexo: masculino

Idade: 37

Escolaridade: -


Bairro: Jardim Esplanada, Nova Iguaçu

Profissão: faxineiro

Ano da entrevista: -

E: Esse horário que a gente tá fazendo a entrevista hoje não te atrapalha não?

F: Não, qué dizê não me atrapalha, mas me dexa um poco apertado né, mas num tem problema não, trapasso serviço logo mais, enquanto que’u fico aqui eu passo meia hora depois. Arrecompensa.

E: Eu queria saber se você tem sempre esse bom humor, é sempre alegre ou não?

F: Não, olha, eu sô difícil encontrá tristeza, porque, sei lá, eu sou assim tipo moleque, sabe? Moleque, qué dizê porque eu pertubo um, pertubo oto, aí vô levano a vida, com isso eu tô com essa idade toda e muita gente me dá menos, né, inclusivo o... tenhu um irmão, o caçula, tem quato em cima dele mais velho e ninguém diz que’le é o mais novo, diz que’le é o mais velho, o mais novo, cabelo branco, cara toda já toda empipocada, tamém espinha e... então diz, todo mundo diz que’u tô o mais velho, o mais novo. Ah! Com isso eu vô ficando né, (inint.) (inint.) em cima deles e passa por mim longe.

E: O que de mais interessante você já fez na sua vida?

F: Olha, vô te contá, sabe eu, que’u fiz não, se’u pudesse eu, se’u pudesse eu acompanhava a vida de assim, de viajá pra circo, sabe, tive muito tempo, uma época eu entrei no circo assim pra... com conjunto, mas eu era pandeirista do conjunto, naquela época, hoje’m dia nem enxiste mais pandero em conjunto. Aí eu ficava olhano a baterista tocá, sepois ele saía eu pegava, só sei que depois no fim eu tava tocano mais que o próprio baterista, o mesmo instrumento, bateria, então eu passei, fui substituí o baterista. Aí fiquei efetivo. Aí fiquei efetivo, tava bom, então a gente viajava pra longe tudo quante’ra lugar, era bem porque’u, com é... tipo marinhero, um amor em cada canto. Hoje aqui, amanhã ali, depois acolá e a vda continua, mas é uma vida boa, só tocava né e eu gosto da música, eu num sei porque’u num tenho condição memo, mas eu nasci pra música. Sô amarrado na música. E só teve um dia que, coitado, nós pegaru o pistonista do conjunto na porta do circo 10 e poca da noite, foi um dia que suspenderu o espetáculo né, então tiraru a ropa dele todinha e o dinhero dele coitado, ele saiu de cueca, no tempo que usava quelas cueca, é... cuecão né, que hoje em dia é cueca memo, então coitado do Hélio, tinha’pelido de Motorzinho né, ele é pequenininho, ma pequenininho memo, fortinho, jogava uma bola que Deus me livre, então ele saiu coitado, uma mão na frente em plena 9 hora da noite. “Ô, o que é isso, Motorzinho, tá jogano bola de cueca?” “Não, foi o Saci.” Saci era um cara que nós pagava a ele pra’rmá é desarmá nossa barraca, sabe, aí ele pi, Saci pediu um dinhero emprestado pra ele e ele num quis emprestá. Saci diss assim “tu vai me pagá”, aí robô ele no otro dia seguinte, assaltô ele com mais três elementos. Desse dia eu num me’squeço não.

E: E quantos anos você tinha quando você foi pro circo?

F: Ah! Tinha dezesseis pra dizessete ano nessa época. Eu demorava vim casa à beça, minha mãe ficava, ficava assim nervosa né, porque ela num, ela num sabia que’la nunca tinha me visto, esse negócio de músico, ela num, num acreditava não. Depois um dia no colégio, lá perto de casa teve uma festa, aí eu arranjei o meu conjunto pra tocá, foi na época de... de carnaval, que o circo, que o circo pára, num sei se você sabe disso. Época de carnaval o circo pára assim e só começa uma semana depois do carnaval, então a gente tem folga essa época, aí eu vim arrumei um baile lá no colégio, o conjunto, portaria nossa e o buffet deles, aí todo mundo ficô parado quando’uviu eu tocano e parado. Depois, pobrema de política, entende? Aí eu desanimei, aliás instrumento tamém eu nunca tive. Primero lugá, nunca pude comprá um instrumento. Se’u num me’ngano agora o precinho dela deve tá de 10 a 15 mil cruzero. É quase barato né pra quem ganha o salário mínimo. É. Então eu ficava pensano “ah, compru’ma usada”, mas, mas a maior parte num queria vendê, quando qué, qué um dinhero a vista. Aí tamém, é, nunca tenho. Aí eu fui trabalhá numa boite de terça a domingo. Aí, ma a boite tinha bateria, piano e contrabaixo, toda essas casa grnade já tem esses instrumento, todo instrumento qué difícil de carregá eles já tem na casa memo, então a gente só faz o afiná e tocá. Poque quem toca instrumento pequeno leva o seu. Agora, quem toca grande num precisa levá, lá tem. Então, tava muito bom, terça a domingo, mas lá quase toda semana matava um, lá não, na rua, mas pessoal de lá que entrava e saía, aí teve um dia que furaru a bateria todinha, joga cadera pra lá, cadera pra cá, foi um pega e eu saí correnu, entrei no banheru, entraru um punhado no banhero junto comigo e o tiro tá comeno, lá é um inferno memo. Aí depois eu parei com aquilo. É, aí tivemo uma, tivemo uma relação com um indivíduo, de... é que freqüentava época queu cantava lá, então ele disse assim “olha, vô fazê negócio com vocês. Você e você.” Então selecionou eu e o meu primo e o rapaz da guitarra e um oto que tocava saxonfone, Aceu, morreu atropelado coins’trumento e tudo, coitado. Então, ele disse assim, disse assim “olha, vô arrumá uma sala de ensaio pra vocês no Jornal do Brasil”, ele trabalhava no Jornal do Brasil. Aí ele arrumo uma sla de ensaio pra gente, ensaiamo, então ele era metido a cantá sabe, coitado cantava uns 2 sambinha, mas muito fraco, só, da noite toda, trabalhano uma moite de 5 hora né, de baile pro cara cantá só 2 música, num canta nada, aí tentaru o dele, num tinha nada. Aí então teve uns oto rapaz lá assistino o ensaio da rádio Jornal do Brasil, então arrumo pra gente fazê um baile no Banco Minero, na Associação do Banco Minero da Produção, aí nós fumo, fomu’m bailão. O home tinha arrumado um pianista que’ra funcionário da banco, então o gerente do banco disse assim “olha, eu vô fazê um negócio com vocês, eu quero arrumá um conjunto aqui só funcionário do banco, então vamo dá uma oportunidade pra vocês, vocês continua tocano aqui, vô escreve vocês e vô encaxa vocês de acordo com o grau de vocês como funcionário do Banco Minero.” Nós temo Associação Grande, que é na rua Visconde de Inhaúma qui no centro, me’squeço, me parece até que já desabô o prédio, deve tê mudado, queu passo lá num vejo mais nada ali do Banco Minero, ali perto do quartel da marinha. Então, nós tava efetivo ali, todo bailhão a gente tava em cima, aí teve um oto cara que arranjô pra gente fazê, fazê trinta minuto de música intercalada num programa que tinha na rádio, na TV Continental: Música e Maniquim, a segunda-feira também era jóia, a gente ganhava um cachê fraco, mas um cachezinho bão, e era (inint), era (inint.) todo mundo que tivesse localizado poque a TV Continetal era fraca pra caramba. Bem poca gente sintonizava ela, era ruim até de pegar a Continental. Ainda nós fazia toda segunda-feira Música e Maniquim, a mulher fazia popa, uma popaganda de ropa, sabe? Maniquim, essas coisa, então, e um número musical, então durante 30 minuto a gente tocava 5, 6 musica só. É, então ali nos tocava meio caminho andado, sabe? Aí, depois, num sei que que hove, teve um baile de candidatura de rainha, que o pianista já era do banco, eu te falei, né? Então ele disse assim “olha pra fulana de tal, que nós tinha que fazê pra cadu’ma rainha um baile de graça, que é pra renda sê, sê... cumé que se diz, pra ela né, poque quanto maior ela sai vendeno aqueles fotos etc e tal, a renda era toda pra ela pra levantá a candidatura dela. Aí o pianista parece que tinha raiva de uma conhecia ota, mas num sei o que, então disse assim “ó, pra fulano e fulano, eu toco; pra fulano e fulano eu num toco nem me pagano.” Aí, num sei, parece qua’quilo chego na boca do direto, então suspendeu o conjunto, então o meu primo já tava quase encaxado no bancp, hoje em dia inda é funcionário do Banco Minero da Produção, mas o conjunto num enxiste mais, mas nós tava numa boa vida queu vô te contá. Musica e Maniquim segunda-fera e um cachezinho parece que’ra $50,00, uma coisa assim, naquele tempo era bom, um bom dinhero e... com bailes, baile era pago, a gente ganhava os baile. Os baile parece era 3 baile por mês, 3, 2, variava né. E aquele nome, aquele comício ali com aquela turma toda da rádio Jornal do Brasil, da TV Continental, então hoje podia sê um grande conjunto. Mas depois tudo acabo, eu tamém, quande’les arrumaru um conjunto improvisado, aí me chamaru, eu falei assim “aonde eu vô robá bateria?” Aí fiquei na minha, então toda vez, eu tinha até um, um amigo que’le arranjava bale e levava o conjunto dele e na hora H tirava o baterista quem tocava era eu. Aí eu ganhava metade, o oto ganhava metade. Naquele tempo... a gente fazia o seguinte, num era assim é uniformizado aquela coisa não, era tipo músico de ponto, panhava um músico aqui na esquina, depios chegava’quela esquina contratava oto, conhecido, sabe cumé que é? Então quando chegava às vez no meio do baile chegava um baterista conhecido, então aquele dava uma canja, então aquele, o oto, ia dançá, ficava uma bagunça danada, num é como agora. Agora não, agora os conjunto têm ropa direitinho e... chegô pra tocá, tem que tocá, num tem nada de ficá passeano, num tem ninguém pra dá canja, o primero que pega vai até o final. Mas no meu tempo não e... no meu tempo, um garotão mesmo chegava a um daqueles coroa baterista: “ah, dexa eu dá uma canjinha?” Pistonista “Ah, dexa eu dá uma canjinha?” Então pegava o pistão, sabe cumé que é? Até pra gente era bom pôquer aquilo a gente aprendia muita coisa que a gente num sabia ainda né, poque era tudo tipo garotão, tudo garoto memo, era 14, 15, 16 ano e a gente já tinha conjunto. Então, eu tive uma época aí queu queria pedi nesses ban, nessas rádio aí, como tem um pograma aí que ajudava muito os pobre. Então a minha mãe falô assim “poque você num pede?” Falei “ah, não. Não vô mesmo.” Aí tô numa nessa, mas seno se’u pudesse segui a carrera de músico, mas empregado, eu então num bom conjunto de nome, que esses César do The Pops passô fome comigo na boite 3 Coração onde’u toquei. É. Esse guitarrista, o maior guitarrista do conjunto The Pops. Era antigamente era os Os Populares, aí teve uma guerra de preconceito de cor, então ele saiu do conjunto, sendo que’le era o A2 do conjunto, mas o mais pobre, né, que’le se meteu nesse conjunto quande’le veio tocá aqui na boite Bolero aqui na Atrântica, então apareceu uns filhinho do papai que gostô dele e chamô ele pre’nsaiá, sei que’les emprovisaru o troço e ele ficô. Hoje’m dia, quande’le comprô a guitarra que custô naquela época 3 mil cruzero, ele fez o maior comercial, na televisão, só vendo. Eu até achei aquilo uma palhaçada, veio importada num sei da onde. E hoje’m dia ele...

E: Que tipo de comercial que ele fez?

F: Ah, num precisava ninguém sabê que’le comprô uma guitarra que num tem no Brasil igual. É... falô que a única é a dele que veio num sei da onde. Então falei “tá veno, já tá quereno aparece.” Aí então, ele foi fundo o conjunto Os Populares que hoje’m dia do conjunto Os populareas fizeru 2. É o The Pops e Os Populares. Então o César tá nos Populares. Conjunto bão, tava gravano muito, agora parece que’les tão fazeno mais é... é escursão, tão viajano muito, parece que’les num tão aí não e disco tamém eles pararu de fazê, mas tão com dinhero, tão todo mundo com dinhero.

E: E você arrepende de ter largado?

F: Não, eu só larguei porque’u num tinha condição memo, poque’les quiriam, mas que’u tinha que tê o instrumento e eu num tinha condição de tê o instrumento. Nem emprestado. Ó, teve uma época, ah, eu me lembro, eu aluguei uma bateria pra tocá no carnaval, parece que foi $20,00 por noite, então o cara só num tocô no carnaval, poque’le era militar, bombero, então ele parece que tava de serviço, então num podia tocá, então parece até por castigo ele tava de serviço 3 dia de carnaval. Aí ele me alugo o instrumento, mas eu paguei quase toda a metade do dinhero com o aluguel do instrumento. Num foi muita vantagem não e carnaval a gente soa, carnaval antigamente a turma falava “ó, são 5 baile, 3 baile e 2 matinet”, 5 né? Agora não, agora é 10, dez poque começa sexta-fera num começa mais os sábado, então vai sexta, sábado, domingo, segunda e terça, 5 dia né com matinet dá 10, são 10 baile de carnaval, então a gente se’stora todo, abre o pulso, incha as mão, quem toca instrumento de sopro incha os lábios, fica horrível. A raça fica fazeno é... faz uma boneca de água de sal num pano e fica toda hora banhano, toda hora banhano. Mas tamém o dinhero é bom, né, poque a gente fica parado, poque vem a quocena, então a gente fica parado 45 dia parece, se’u num me’ngano, num tem baile. Agora tem, num tem mais quaresma não. Não, tá tudo mudado, antigamente tinha quaresma era 45 dia, num tinha baile em região alguma, até teve uma época no circo mesmo, lá em... Carmo da Cachoera, num tinha luz na cidade, sabe, aí onde tava o circo num tinha luz, então como a gente éramo 5 garoto, 5 rapaz, a gente andava muito, assim procurava onde que tinha boite, jogo de sinuca, poque nós tinha o tempo todo, só tocava 2 horinha por noite só e o dia de matinet é 2 hora por dia, qué dizê, só fazia mais nada pra ninguém, então a gente ia procurá diversão, aí achamo uma boite, num morru, boite, na quaresma, aí conversano, conversa vai, conversa vem, conversa vai, conversa vem, o pessoal desconfiaru pela nossa língua que a gente num era de lá, num era brasilero. Aí disse assim, como de fato somo não, aí disse assim “ah, vocês são da companhia da Ligth que tá arrumano num sei que da luz? Papa, pa.” E lá num tinha luz né, o circo tava até parado, ficô uma semana parado, num sei que que houve. Aí disse assim “não, senhora, nós somos do circo.” “Do circo? Tem circo aí?” “Tem sim senhora.” “E que que vocês faz no circo?” “Ah, nós somo músico de conjunto.” “Ah e toca bem?” “Toca... mais ou meno, dá pra enganá.” Aí era uma dona. Ela foi miss em São Paulo, D. Maria num sei de que lá, nome original dela, mas como miss não, como miss ela tinha oto nome. Mas ela já tá velha. Já tava velha, só sei que’la foi miss, ela tem a... as faixa, retrato, só tu veno. No tempo dela, é, ela já tinha, naquela época, acho que’la já tava com quê? Podia vá com seus trintão, por aí, assim ou mais que’la já tava bem enferrujada, a D. Maria, então pego disse assim “ah, comé que a gente faz pra vê seu conjunto?” “Circo num tem, se ocês guentá a gente pode trazê os instrumento aqui e fazê uma brincadera aqui.” Bem, assim conversamu né e tomano uma bebida, aí ela foi se’nteressô, aí então panhô o carro foi lá buscá os instrumento todinho e armamo os instrumento, guitarra elétrica, tinhu’m cara do circo que fazia acrobacia, o cara eru’m diabo na’cordion, fazia da’rcodion dele um órgão, ó, basta dizê que’le tocava dum lado o mesmo tempo a segui, atendi o cérebro dele e tocava tango, aqui valsa. Até pra você ovi o que’le tá, tá tocano, te dá, te dava trabalho, o cara num sei rapá, igual ele só tem é o Sivuca né, faz igual o Sivuca, mas o Walte era demais, nego carequinha, baxinho. Aí então, armano e ela fez um convite as otras casa vizinha, o pessoal só sei que a boite encheu, então eu cantava as música né, eu cantava umas música. Aí já ensaiadinho né o conjunto nosso, já tava muito bem ensaiado, num tinha nada pra errá, aí então eu cantei umas música de (inint.), depois cantei umas otra música, aí então o pessoal ficô parado na minha, aí eu dei um show que’u tava me sentino em terra estranha e tava com complexo de artista tamém né, porque eu era assim, bom na boite eu tenho que fazê meu show, então aquelas mesa espalhada pro meio do salão, aquela pista de dança muito fraquinha no meio, então eu saí cantano uma música que pedia que’u saísse cantano andano pelo salão, precisava nem, nem microfone, casa pequena, então vai cantano, já muito bem whiskyado, né, cheio de whisky, e... batida, tudo quante’ra bexiga a gente bebia. Cachaça é que num pintava não, porque cachaça num dava não. aí então saí cantano aquela música, aí a dona ficô assim “escuta, será que você podia cantá Granada?” Falei assim “peraí, num faz isso comigo não, Dona Maria, olha eu nunca me’nteressei em cantá esse tipo de música não. apesar a ópera ela é uma música é mais pra gente ouvi e com orquestra né, um tipo peça, agora pra ouvi cantá num faz isso não, Dona Maria.” Aí, brinquei com ela. “Pelo amor de Deus canta Granada.” Falei “não, num canto não.” Quando ouvi essa música, veno Granada, cara, vai explodi aqui dentro. Aí, eu pedi os menino pra tocá que tocasse Granada, até uma música bem trabalhada, rapá, são 3 ritmo num só né, que a gente arma, nós tinha um arranjo que fazia ela tode’m, tode’m bolero ô tode’m samba, sabe cumé? Arranjo com tal, bacana paca. Mas então eu disse assim, “cumé qu’a senhora qué? Qué que a gente faz o nosso arranjo ou qué que a gente faz o original?” “Ah, faz original.” Então ela começa ópera., vem valsa, depois cai no bolero, depois termina em rufo um tempo. Eu sei qué uma música muito trabalhada, aí fizemo, depois fizemo ele’m samba, bacana, aí a Dona paro, paro de graça “que que vocês qué bebê?” Nisso foi numa, qué vê, foi numa quarta fera da quaresma, sim senhora, póxima a sexta-fera santa, aí me aparece um bêbado pela janela, casa baxa né, na janela partida no meio, então abriu a parte de cima e a parte de baxo era fechada. O bêbado subiu na janela e grito assim “ei! Vocês vão criá chifre e nasce rabo! Nós estamos na quaresma, num pode fazê baile não, seus capeta.” Aí ela panhô um copo de cerveja, jogo no bêbado, o bêbado saiu que saiu zepando, eu ria que Deus me livre. Qué dizê que naquele tempo a quaresma inda era mais ou meno assim, mas agora num tem, num fala mais em quaresma não. É poque terminava o carnaval, a gente ficava parado, música num tinha baile, quem dançava podia descansá mesmo que só ia tê baile 45 dia após. Agora não, agora terminô o carnaval no’to sábado eles faz faxina, limpeza do clube, tira aquelas pintura, aquelas ma, aqueles, aquelas propaganda que bota no clube pre’nfeitá no carnaval, ranca aquilo tudo e é boite, é baile, agora vai direto, mas é isso, eu me lembro, num esqueço.

E: E lá em Nova Iguaçu tem clube pra vocês irem sempre no carnaval?

F: Tem, tem. Eu sô sócio de um, IBC, Iguaçu Basquete Clube. É um, é ó tercero clube, agora tem o... Iguaçu Esporte Clube, que é o cabeça e tem o, o Country Clube, um troço assim qué um barato, tem boite de dia, aquele, um título daquele clube é, acho qué mais caro do que do Caiçara. É... entra carro adoidado, o IBC tamém e grande, sô sócio do IBC, mas só por causa da piscina, as criança e o jogo deles tem tudo, ma tem menos conforto né. Só no verão que’u vô lá toma um banho de piscina, mas eu pego os amigo vô joga sinuca aí quande’u vô pra piscina já deu a hora de fechá a piscina. Fecha as 5 hora, aí já fechô a piscina, aí eu vem embora, cabo num tomano banho de piscina, fico o dia todo só na cinuca.

E: Carnaval vocês vão lá também?

F: Não, no carnaval eu vô mais trabalhá. É. Porque’u tenho, eu tinhu’m conhecimento lá com os diretores, então foi o seguinte, o primero ano, a Joana pego sozinha, minha patroa né, pegô a cozinha do IBC, sozinha, então ela botô uma secretária pra’judá ela, aí a secretária parece bebia muito, sabe, porque bebida lá rola, quem num tive cabeça se bebe mesmo. Então, ela bebia muito, começava a pedi cigarro, aqueles cara lá tudo funcionário e diretores, pedi cigarro, ficava meia plá, plá, quando chegava, terminava queria vale, queria dinhero, depois no’to dia foi perguntá por quanto é que minha esposa tinha panhado o clube, quanto é que’la tava trabalhano, que’la era empregada da minha patroa, sabe cumé, secretária dela, num tinha com o clube. Olha, só tu veno, aí foi um show danado, minha patroa teve que chamá ela, ela até atenção por causa disso. Aí falei “ocê faz o seguinte” e ota coisa, chegô esse ano que’la num sabia que a gente tinha um certo conhecimento lá no clube com os diretores, sabe que que ela fez? Foi pedi a cozinha do IBC pre’la trabalhá. Falô assim “não, a cozinha do IBC aqui já tem uma moça efetiva já tem uma moça efetiva, aqui ninguém pega, só se’la chegá aqui e falá que num pode ou que’la num vai, mas mesmo assim se’la dissé isso, eu peço a ela por intermédio dela pra arranjá uma ota pessoa substituto dela pá ficá no lugar dela, num dô assim, cozinha do IBC num é assim não.” Aí só vejo que’la levô um tapa sem mão. Mas ela tinha ido lá vê se furava a nossa chapa. Aí então eu disse o seguinte “ó, você faz o seguinte, você num vai botá mais ninguém, eu tô de, tô de folga, tô de folga esse época, carnaval, então, eu te ajudo o máximo que’u pude que’u tamém derrubo né. Sabe que ela ficô com o fogão e eu fiquei com a mesa, e eu só fazia abri a massa, aliás ela fazia a massa, dexava descansano em casa né, chegava de noite a gente já levava a massa pó, pro clube, então eu abria a massa, recheava e fechava, ela só na frigidera. É... Menina, vendemo uma média de parece 3 mil e oitocento salgadinho, entre pastel e empada, só. É... agora esse ano eu vô vê se’u armo mas poque’u achei que a gente trabalho muitoe ganhamo poco. Porque só deu um milhão e poco, sabe cumé? Recebemo um milhão e poco. Então eles malharu, eles dão tudo tamém sem dívida né, mas eu acho que a gente merecia mais dinhero. E esse ano eu vô fazê, vô levá um papo com eles na reunião, que sempre tem antes pá ver se’les melhora, senão num vô me esburrichá não, num vô mesmo. Que a gente já e freguez, que num trabalha agora as menina aproveita, vai com a gente. Vai e quande’u tô cansado, por exemplo, aí fica uma lá fritando e a minha esposa abrino e recheano, né, porque tem que cortá no tamanho certo, então a gente já tem mais ou meno nos olho, já tem aquele tamanho na idéia, que ali é rápido, ali pan, pan, num tem nada de medi não. E assim põe e num sou um maior que oto não. Num sai de jeito nenhum, aí quando a massa vai acabano, sabe queu faço eu vô diminuino, então, vô diminuino o tamanho do pastel, mas sai tudo dum tamanho só. Mas sai rápido, ali parece que dá uma gente faminta, queu nunca vi comê assim, menina, mas tamém o tempero é gostoso, é uma massa bem temperadinha. Cê come até tem carne. Eu é que só com chero, eu fico empazinado, num como nenhum.

E: Mas vendo tanto assim, né, dá enjôo.

F: É memo, saiu aquele chero do óleo forte e a gente ali esprimido ali, num dá vontade de comê agora, aí quando chega lá pra meia noite mais ô meno eu dô um toque no garção. Disse assim “ó, vê se arranja uma cerveja pra mim lá”, aí ele “opa!” Aí traz a cerveja. Aí eu boto um pastel pra ele, que’les gostam muito, mas é que a gente num pode dá assim a vontade. Aí enquante’les vão comeno o pastel meu, eu vô bebeno a cerveja deles. O Carlão é qué bom, eu deito e rolo, tem noite queu bebi umas 4 sozinho. Que a Joana só bebe guaraná. Aí eu só bebeno empurrava pastel nele e uma cerveja pra mim. A gente trocava, sabe, no fim dava tudo certo. Agora esse ano num sei, eu tô pensano esse ano é lá pra Cabo Frio. Cabo frio tem uma otra boca lá, tudo boca de ganhá dinhero, meu caso é só ganhá dinhero, lá já é um hotel.

E: Pra trabalhá também na cozinha?

F: Não, lá se faz de tudo, até de portero se’u quizé eu trabalho. É um hotel assim de veraneio, mas só vai assim... sei lá, gente assim esquecida que tá afim de curti, sabe. Por que lá num tem nada pra vê, céu e mar, só tem isso. Nada mais, tem nada de bonito. E a tia da minha patroa é gerente lá do... da cozinha. Lá dá... negócio de arrumação e ela que age tudo, entende? Então, ela que leva as pessoa que ela leva, chega lá tá bem chegado. Se quizé ficá empregado, fica. Se num quizé ficá, num ficava, duas semana então faturam uma nota, poque num tem hora de pegá e num tem hora de largá. Diz que quando tem muito hóspede, às vezes 4 hora ela bate pra levantá. Você deita às 3, 4 hora ela te chama, é mais você arrumá dinhero. Teve um cara lá com 8 dia ele troxe um milhão e poco.

E: Nossa!

F: Agora se’sburrachô. Eu num sei se’u vô guentá não, se’u tive numa situação muito, muito, muito podre, eu vô, mas se’u tive assim meio barra, meio tijolo, eu num vô não. prifiro descansá. Que em dezembro eu tô de féria né, api se’u quizé i pra lá tamém é uma boa, poque o negócio, fim de ano, fim de festa, lá sempre dá.

E: Reveillon?

F: É.

E: Você sempre comemora Reveillon?

F: Sim. Às veze le’m casa, às veze na casa da minha mãe, eu na casa... nós, quande’u eu morava perto do meu cunhado, então ele ia um poco le’m casa, eu ia um poco na casa dele. Mas assim só, só para nós mesmo de casa. A gente fica acordado até altas hora, depois todo mundo vai dormi. Agora tem lugar que o coro come. Te’m casa, por exemplo, ninguém dorme não, a casa da minha mãe. Não poque a gente arma uma seresta, bebida, brincadera, conversa, pá pá pá e quando vê a noite já cabo. É, tranqüilo a noite já acabo.

E: O seu pai é festeiro igual a você?

F: Pio, pio do que eu. Se cê vê meu pai cê endoida. Ele alegra uma festa. Ele toca sanfona, toca pandero, canta calango, pinta as caneco. Estilo dele né.

E: Tá, S. George, então obrigada, viu?

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