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Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ

Centro de Letras e Artes – CLA

Faculdade de Letras

Departamento de Lingüística e Filologia

Programa de Estudos sobre o Uso da Língua - PEUL

Banco de Dados do PEUL/UFRJ


AMOSTRA DO MOBRAL


Falante: 06 Hen

Sexo: masculino

Idade: 17

Escolaridade: MOBRAL


Bairro: –

Profissão: boy

Ano da entrevista: 1976




E: É mesmo?

F: Que horas?

E: Senta aí. Não sei. É sábado, dia quatorze? Hoje vou fazer aqui, sabe? Porque sabe lá fico escuro. Sei lá. Fica esquisito, hein?

F: Tudo bein, cumigo.

E: Não é melhor aqui? A cadeira é mais confortável, o chão também! Aqui a gente tira o sapato. Você combinou? Com quem?

F: Com o dono da casa.

E: Com o dono da casa e vai o outro...o Beto. É Beto? O Beto Poeira? Então três chega, viu? Não chama mais gente não, se não...

F: Não!

E: Pra transcrevê fica difícil!

F: Não! Deve sê isso mermu.

E: É. Então é sábado ou domingo?

F: Sábado!

E: Que horas?

F: (Inint) a professora (inint) só à tarde mermu.

E: Tá! Que horas de tarde? Vamos marcando logo!

F: Cinco horas.

E: Cinco horas tá legal! Tá, tá bom! Tá bom? Não é melhor um pouco antes? Quatro?

F: Não...Sabe pur causa de quê? Aí caiu! Purque lá, purque lá na tinturaria qu’eu trabalho sábado às vezes a gente termina o serviço meio-dia aí na hora de fazê o pagamento é amarrado...

E: Ih, é é?

F: É eles bagunçam a gente.

E: Que caretice!

F: São caretões mermo nessa parte!

E: Por quê?

F: Já tá gravando?

E: Tá? Por quê?

F: (riso)

E: Ah! Não tem problema não!

F: Aí...Então...Que dizê. Fica pras cinco horas, tá legal?

E: Tá, tá legal.

F: Cinco horas eu tispero...

E: Senão você fica duro e não pode fazer programa, né?

F: É, fora de (ininit) porque eu acho que num vai sê mais dia quinze, vai sê dia doze. Que dizê, puxa...

E: Dia doze?

F: Do mês que vem!

E: Ah! Do mês que vem!

F: Teim que é de qualquê manera. Nein que arrume arrumação!

E: Você já falou com tua avó?

F: Não...

E: Então, por que você tá achando que ela não vai?

F: Sei lá, né? Mais, né? Num é muito minha vó não. É mais o meu avô purqu’eu trabalho no serviço com ele então...Sábado é um dia que precisa. Sábado é o dia que eu vô tê que faltá.

E: Precisa, por quê?

F: Sábado lá precisa, sabe? Junta muito serviço, mas caba cedo, sabe?

E: E o que que vocês ficam fazendo entre meio-dia e quatro?

F: Esperando o patrão? A gente fica lá jogando, jogando purrinha. Falando sobre futebol.

E: Ah! É, é?

F: Quando vê sai nego bêbado de lá e tudo...

E: Ah! Ficam bebendo também?

F: Também. Todo mundo lá bebei pra caramba. Mais eu num entro na guerra deles de bebê não.

E: Por quê?

F: Purque não.

E: Você não bebe não?

F: Bebê eu bebo. Bebo num digo que não bebo não, bebo sim. Mais eles fazem o seguinte, sabe? Purque lá os patrões são tudo pessuau de Campus, sabe? Cresceram assim em produção depois que vieram pra cá. Tudo muito bein então...Aqui os...o patrão traz lá umas cachaça aí de Campo aí, aquelas cachaça fortona boa. Ih! Os cara cai dentro, né?

E: Os patrões que dão?

F: Não, eles compra.

E: A cachaça?

F: É...ih! Eles cai dentro!

E: É mesmo, é? Parece que é boa. É boa?

F: Teim umas lá adocicada mais eu num...

E: É amarela escura?

F: Assim...É...um amarelado, um negoço assim.

E: Ou é clarinha?

F: Não é amarelinha! Pinta cada uma lá! Às vezes assim tomo assim, assim pralmoçar, sabe? Pra almoçá ou senão pra tomá banho que a água é fria! Mais eu num me amarro muito no tipo de tomá cana não!

E: Teim gente que bebe à beça! O pessoal de Campos bebe muito!

F: Meu avô então...Às vezes chega em casa muito loco!

E: É mesmo, é?

F: Chega em casa muito loco aí!

E: Quer dizer que sábado é o dia da farra?

F: Ãhn?

E: Sábado é o dia da farra!

F: Lá no serviço?

E: É.

F: Ah, é! Deu onze e meia, meio-dia que a gente termina tudo. O pessoau nein leva, nein leva marmita...

E: Almoça o que, então?

F: Almoça nada! Purque a gente sabe que vai embora cedo.

E: Mais acaba num indo?

F: Acaba num vindo. Mais fica lá bebendo! Muitos leva é..., sabe? Sabe mermo que vai tê uma cachaçada aí nego lev’assim.

E: Queijo, é sardinha.

F: Um leva, uns leva quejo. Outros leva sardinha, leva carne seca saugada pra tira- gosto...Eu fico doido pra vir embora!

E: E teu avô não pode receber por você?

F: Às vezes. Então. Às vezes faço até esse troço mermo, deixo meu avô recebê pra mim e venho embora!

E: Chato à beça isso, né?

F: Isso é uma coisa...

E: Eles são mais velhos também, né? Tem gente da tua idade lá?

F: Não o mais novo sô eu.

E: Ah! Você é o caçula?

F: Sô mais novo em tudo lá.

E: O quê? Mais novo em quê?

F: Em tudo. Na idade, no tempo de casa. Só meu avô teim trinta e três anos eu trabalha lá.

E: Nossa!

F: Meu avô é um dos fundadores mermo daquilo lá. Tenho um primo esse já é novinho, teim vinte o quê? Vinte e dois anos!

E: Vinte e dois anos de casa?

F: Não! Teim vai fazê seis anos de casa. Acho que esse é o mais novo! Teim seis anos! Mais o resto é tudo assim, doze, treze, quatorze, dizesseis...

E: Ih! Que legal! Eles gostam do...Pagam bem lá?

F: Acho que pagam, né? Teim uns...uns patroizinho mais injuado mais sei lá! De veiz em quando eles agrada, sabe? Fica tudo beim...Tudo legal!

E: Que gozado!

F: Hum. Teim uma coisa qu’eu num gosto lá.

E: Não, é? Por quê?

F: Teim muito puxa saco!

E: É? É? Tem caguete?

F: Teim! Os cara lá que num pode vê nada que pur tráis, eles fala. Essa gente que é muito ligada ao homi lá, sabe? Tenho até bronca dum cara lá que é primo lá da falicida minha mãe. É meu primo de segundo grau, né? Pó! Eu tô na maió guerra com ele! Ele é meu parente mais ele é o mais caguete de lá. A gente assim...sentado alguma coisa assim, sabe? A gente vai faze uma coisa assim, ele fica dando logo, querendo dá recado. É burro pra caramba também. Aí eu...parto logo pra briga. Aí quando foi dia de sábado de manhã ele veio falá comigo: “É neim parece que é da minha família num sei o quê”. Fica me xingando, aí eu falei: “Minha família não. Você num é nada meu não”. Falei pra ele! Precisa de vê o tipo.

E: Aí você fica lá brigando com ele?

F: Brigo com ele pra caramba. Uma vez eu me encarnei nele pra caramba.

E: Por quê?

F: Porque veim esses cara de Campo assim. Tudo burrão, sabe? Os cara. Gasta dinhero à toa à pampa, num teim nada...As coisa que ele teim tudo que o pessoal dá a ele. O cara ele mermo ele dorme lá na firma, sabe? Em cima teim num prédio assim. E os cara fica eim cima. Pô, ropa de cama, é preciso o patrão dá a ele qu’ele num compra recebe dinhero legau rapaz!.

E: Mais do que você?

F: Mais do qu’eu.

E: Porque você ainda tá de salário de menor, né?

F: Neim isso tô ganhando. Cem mil só!

E: Cem cruzeiros só? Nossa! Mais é pouquíssimo! Pra trabalhar todo dia?

F: De segunda a sexta.

E: E sábado.

F: De segundo a sábado.

E: Cem cruzeiros?

F: Tenho um tio...meu tio. Ele é mortão com esse lance. Mais eu já trabalhei em butiqui. Fui mandado embora. Já saí.

E: Você foi mandado embora é? Por quê?

F: Não! Teim! As que uma expricação já contei...

E: Contou não!

F: Não? Na butiqui a primera que trabalhei a mulhé me adorava, sabe? Mais tinha um garoto que trabalhava lá, ele mora no meu broco nu primero andá. Ele trabalhô lá dois anos, sabe? Então, na época dele ir servi o quartéu ele me botô lá. Aí como ele num serviu ele só ficô um mês, aí eu fiquei um mês lá. A mulher tava na minha. Eles gostavam de mim à pampa! Ela chegô até a fala: “Pôxa, Henrique! Neim sei como, como é que vai sê! S’eu fico contigo, s’eu fico com ele, já trabalhei já trabalhô aqui já há dois anos. Você teim um mês num sei o quê”. Falei: “Ah, que nada! Fica com ele, num teim nada!” Logo assim que ele saiu do quartéu ele veio sem os documento, sabe? Quartéu mum dá. Só depois de março, quê dizê que tá difícil mermu pra ele arrumá um emprego e ele já é de maió, né? Aí eu falei: “Não, Rominho. Fic’aí. Tudo beim. Eu arrumo otro lá fora”. Aí eu fui trabalhá na Biba naquele butiqui, sabe? Conhece aquele homi nojento dono da Biba, não?

E: Não, mais ele deve ser nojento mesmo...

F: A tua colega. Conhece Solange?

E: Sheila.

F: Sheila o nome dela? Então, a Sheila conhece ele.

E: É, eu não conheço, pessoalmente eu não conheço ele não. Já vi, já vi...

F: (Inint)

E: É mesmo? Por que é metido?

F: Metido! Caramba! Aquele homi, aquele é metido mermu aí. Mas tudo ele recrama!

E: Também, né?

F: Tem que sê.

E: Você acha? Tem que ser?

F: Sei lá, as que tinha de sê, né? Neli tudo é importado. Trabalhei lá três dias mas senti quais são as parada, mascarado! Aí, né? Tercero dia de serviço aí ele me chamô no escritório pra conversá comigo. Aí altos pelos! Tudo enrolado maió do que isso, sabe? ...Fui trabalha de cocota. Sunga aparecendo. Mais aí. Aí ele me mandô chama lá em cima. Aí perguntô onde eu morava. Aí eu falei com ele que morava na Cruzada. Aí ele falô: “Ah, você deve também se ladrão. Mora na Cruzada. Deve se puxadô de bolsa de mandame”. Num sei o quê, sabe? Eu falei: “Num é nada disso não”. Tentei expricá a ele mais ele neim deixô aí! Me deu um escapa frio, sabe? Me criticando assim. Falei: “Ih, que isso, meu amigo?” Falô qu’eu tinha cara disso, daquilo. Falei: “Ih, caramba!” Aí pegô e me mando embora.

E: Pôxa, que chato, hein?

F: Fiquei na maió bronca mermo aí! Neim entendi o lance!

E: Tem gente que é assim, olha a cara e acha que toa vendo tudo, né?
F: É!!!

E: Conhecendo a pessoa.

F: Tentei expricá a ele: “Ih! Num é nada disso não”. E expriquei a ele que moro na Cruzada porque preciso mermu...

E: É lá que tem minha casa, né? Se me arrumar uma casa em Ipanema!

F: Então, aí, né? Pôxa, neim mesmo naquela rua mermo na Maria Quitéria se me arruma um apê ali eu moro ali. É o seguinte: “Preciso mora lá. Vô morá aonde?” Tentei assim expricá mais ele num quis neim expricação. Acho purque eu morava lá tinha que comê da mesma comida, né? Se mistura com porco, né? Porco é (ih). Purque lá é mermo. Lá teim, né? Todo mundo teim que vê lá! Pô, lá teim garoto lá que é médico, teim um que é professô de tênis ali do Monte Liba. Teim jogadô, teim garoto que joga no Flamengo. Ó, esse, esse Rogei qu’eu chamo de primo assim de segundo grau, qu’ele mora do lado. Da minha casa. Mora lá. Adilson do Flamengo mora lá. Esse Dadeca do Vasco...Teim uma purção de gente, sabe? Tudo gente boa que mora lá! Ele neim entendeu o tipo. Tentei explica pr’ele: “Lá mora uma purção de garotas qu’é enfermera, sabe? Mora gente boa lá também!” Não é todo mundo que mora lá que...e’u qu’ele pensa não! Ele num deixo neim expricá! Falei: “Tá tudo beim!” O salário qu’ia sê legal!

E: É? Quanto que era lá?

F: Seiscentos pur mês, seiscentos e pouco pur mês...e dez cruzeros pralmoçá. Eu...eu ia a pé, ia pra casa almoçá e os dez eu guardava. Eu ia ficá numa boa!

E: Mais que coisa chata! Mais que coisa incrível! Mas como é que você arrumou o emprego?

F: No jornal aí...Ele botô anúncio no jornal. Aí eu fui (riso) de portero da Biba. De portero, sabe?

E: Ah, você ia ser porteiro!

F: Mas, sabe? Num é assim portero assim de edifício.

E: Eu sei como é que é! Um cara que abre a porta mesmo, né?

F: Não! Eu ia trabalhá naquela Biba...Biba Júnior. Na Biba de criança, sabe? Uma lojinha vermelha que fica lá um canto, sabe? Eu ia ficá, eu ia ficá assim parado. Ia ficá na frente da loja só pra olhá os passarinho, pra num deixá ninguém sentá na calçada, sabe? Quando tivesse cheio de folha, caísse folha da mendoera aí varreria a frente, sabe?

E: Só pra isso?

F: É pra ficá limpa...

E: Era um trabalho muito mais...

F: Serviço beleza, rapá! Puxa! Eu tava rindo à toa! Todo satisfeito! Saía meio-dia.

E: Não tinha uniforme?

F: Então. Já certinho. Me lembro que a dona até falô: “Ò, pra semana você, a gente vai te dá um uniforme. Sapato preto, brusa branca, meia, calça azul escuro”.

E: Falou, pediu pra você cortar o cabelo?

F: Não. Nunca entrô nessa não num pediu pra cortá o cabelo não.

E: Foi o dono que olhou pra tua cara e resolveu...

F: É o dono, o dono que, sabe?

E: Num gostou da tua cara, né?

F: Até a mulhé dele que a mulhé dele num falô nada não. A mulhé dele...É num teim nada não. Só ele mermo que entrô naquela. Teim que vê ele! Ele é todo, todo pinéu aí. Cabelo maió ou menos cheinho, maió barbão, umas palhaçada aqui assim.

E: Ele é o dono de todas Bibas?

F: Daquelas Biba daquelas Biba que teim lá naquela rua. Lojas de sapato asque em Copacabana uma porção de coisa! Ele teim moto, as que teim cinco carro. Tá mandando.

E: Cinco carros?

F: Tá mandando mermu.

E: Que diferença! É isso aí!

F: Metido pra caramba! Teim um defeito. É rico mais é inguinorante. Só fala cunsotros xingando!

E: É é?

F: Só fala xingando. Todo mundo me falava: “Ò, se o homi te xingá, fala contigo, você num liga não que ele é assim mesmo”. Uma vez eu tava assim...nessa foi na primera butiqui qu’eu tava trabalhando. Com uma custurera de lá. Ela parava, gostava de mim pra caramba. Dona Maria. Aí nós estava assim, já tava na hora de saí, já saindo pra fora. Tudo conversando assim, sabe? Mais essa Dona Maria tinha trabalhado pra ele na Biba, sabe? Aí ele passô e falô assim dum modo com ela: “Você fez, a fui é...” Xingando, sabe? Aí eu falei: “Ué, Dona Maria, qu’isso?” “Ah, esse homi aí já foi meu patrão. Ele é assim mesmo. Ele só fala assim com tudo mundo”. Ele só fala xingando com os otros!

E: Ninguém responde?

F: Com tudo mundo: os empregado, os amigo dele, é tudo assim. A gente lá na loja sofria. Sofria não, sofré, né? Deve sofre à pampa. Aquilo...Pô! Ele paga à pampa. Quand’eu trabalhava, quando eu trabalhava na outra... Eu já fui pra lá, já sabia quando fui para Biba assim. Porque, porque eu quis mesmo. Porque eu já sabia que ele era nojento. Porque eu trabalhava de frente à Biba, e já sentia como é que ele era, sabe? Eu fui, né? Porque tava precisando tinha que acredita, né? Mais já sabia qu’ele era nojento mermu. Qu’eu vi e lê fazia com os empregado. Tinha um neguinho lá que sofria, rapaz! Ele mandava o garoto limpá o vidro umas três vezes aí! Ele achava assim: “Num tá bom não! Limpa aí!” Daqui a poco ele: “Num tá legal não. Limpa lá!” Você conta...Aí uma garota que trabalhava com ela falô assim: “Ei, vai pintá uma vaga na Biba. Quando pinta eu te falo”. Antes de botá no jornal. Quando botô já tava tudo certo já tava sabendo, sabe? Fui o primero a chegá lá, mais também tá legal.

E: É. Você gosta desse tipo de emprego?

F: De butiqui?

E: É.

F: Me amarrei. Legal. É legal purque a gente conhece mil coisas, sabe? Conheci pessoas maneras, sabe? Aquelas (inint) que dava vestido, brusa, lenço esses negoço assim, sabe? Pra levá. Chegava lá, ficava lá conversando. Fazia logo altas amizades olhaí.

E: Ah, é? Você logo batia um papinho?

F: Puxa! Sempre qu’ia numa moça lá em Laranjeiras. Sempre ia lá. Pegá lenço, sabe? Chegava lá. A mulhé já até falava: “Puxa, quando você vai de Laranjera você demora num sei o quê”. Ficava lá conversando. Moça manera pra caramba.

E: Você gosta de um papo, né?

F: Xii! Se deixá, eu começá a conversá é...(risos) teim que prepará uma...

E: É mesmo, é? Gozado...É lá na tinturaria você quase numconversa, né? Ou conversa?

F: Não. É a maió bagunça, o dia todo. Um encarnando no outro, mexendo no outro, sempre abuzindu: “Aí teim uma piada”. Também é um trabalho muito movimentado, sabe? Pra. Puxa, a maió parte (inint) é puxado.

E: Carrega peso, essas coisas, ou não?

F: Às veze, de vez em quando pinta os peso, né?

E: As roupas quem carrega?

F: As ropas pesada. Os lençol, os cobertô pesado, tudo molhado, sabe? Eu que tenho que levá.

E: Pra ganhá cem cruzeiros por mês?

F: Cento e treze. Pur semana.

E: Ah, melhorou!

F: É cem pur semana. Tava...você tava pensando qu’era pur mês?

E: É, eu não tava entendendo! Como é que você tava ganhando tão pouco!

F: Não. É cem pur semana.

E: Já melhorou! Ainda tá ganhando muito pouco mesmo, né? Mais dá pra mais do que cem por mês, né?

F: Cem pur semana.

E: Mas no outro era seiscentos por mês, né?

F: Pur mês.

E: Mais dez, dava mais uns cem, né?

F: Mais. Dava mais. Dez pur dia!

E: É...

F: Quê dizê. Só sábado que num dava purque largava meio-dia, uma hora.

E: Pois é...cinqüenta mil, né? E dá duzentos cruzeiros por mês! E você não falou nada, tá bom. Eu vô embora.

F: É num xinguei ele, num falei nada. Só tentei expricá, sabe? Agora s’eu tivesse uma oportunidade assim de encontrá ele de novo e pagá pra ele eu pago. Tá entendendo? S’eu vê ele num lugá assim...

E: Sei, você briga com ele, né?

F: Não. Num vô brigá não. Vô ofendê ele também vô dize mil coisas, vô fala também o que que eu penso dele. O que qu’eu achei dele. Vô falá, eu falo...Se pintá oportunidade eu falo. Se ele tive num lugá assim qu’eu vejo que num dá condição pr’ele me segurá ou fazê qualquê coisa comigo, eu pago, eu pagava mermu pra ele. Puxa! Uma pessoa me ofendê assim. Sem te conhecê: “Você é um malandro”.

E: Ele não te pediu nenhuma referência, nada?

F: Não, ele me perguntô ond’eu trabalhei eu falei:“Eu trabalha ali naquela...”. Do escritório dele eu amostrei onde qu’eu trabalhei. É de frente! Trabalhava ali na “Tualitê” butiqui. Na “Tualitê” ao lado, sabe? Mostrei a ele. Também não sei se ele tinha guerra com a outra butiqui, né?

E: Acho que não, né?

F: Sei lá, num sei...Sei que a mulhé de lá também da butiqui num gostava dele não.

E: Ah, é?

F: Não.

E: Ninguém gosta dele pelo visto, né?

F: Ninguém...

E: Você acha que gente rica é sempre assim ...ou...

F: Sei lá. Já tô tirando da mente que num é todo mundo não.

E: Você achava que era?

F: Eu achava qu’era. Justamente. Mais teim pessoas bacana como essa dona aí, sabe? Dessa butiqui. Era manera comigo pra caramba!

E: Por quê?

F: Manera mesmo. Me tratava bem, sabe? Gosto de mim. E outra, até hoje ela pergunta pur mim, pelos outro, pelo Rominho, qu’ele mora no primero andá e eu moro no sexto, sempre quando ele vê ele fala comigo: “Poxa, Dona Luci pergunto pur você. Falô pra você i lá.”

E: Ué, por que você não vai?

F: Eu não, fico na maió vergonha d’i lá!

E: É mesmo?

F: É, eu num vô não. Mais o dia qu’eu tivé legal eu vô lá. Tivé com ropa legal! Tivé, sabe?

E: Ué, é você não tá com roupa legal?

F: Inda num tô me sentindo...

E: Depois que você comprar tua calça de veludo, né? Aí você pode ir lá. Com aquela blusa... Ah, por quê? Nunca te vi mal vestido não!

F: Não. Sei lá. As que num tenho condições de chegá lá. Conversá com ela e tal... Teim que i manero... Precisa tê moral e (inint) e tudo.

E: Você fica com vergonha dela vê e num se lembrar de você?

F: Qu’ela num se lembre de mim?

E: É. Por que você fica com vergonha?

F: Sei lá. Purque tenho vergonha. Sempre... sempre lá teim assim... colegas dela, sabe? Fica purque conversando lá com ela. Ela não faz nada, fica só na mesa escrevendo, atendendo telefone, ela num fica atendendo, sabe? De vez em quando qu’ela atende! Lá é manero!

E: É isso aí. É mais ela talvez pudesse te arrumar um outro emprego, né?

F: Ô aí... isso ela fez. Ela tentô pra caramba pra mim, né? “Pô, Riquinho, vô tentá, vô tentá uma butiqui pra você”. Mais tudo tinha empregado. Dizia: “Já arrumei num sei o quê”. Aí eu também falei pr’ela assim: “Não, Dona Luci, sabe? Não. Eu vô trabalhá num outro lugá pra mim te saído assim, sabe?” Depôs que o garoto veio do quartéu ele ainda ficô assim as que uma semana e, pôxa, em casa m’esperando, sabe? Ela com a maió pena de me mandá embora, sabe? Qué dize eu tava sentindo, né? Que ela tava assim com pena. Eu disse: “Não, Dona Luci, pode deixá”. Eu aí. Eu disse não: “Eu já arrumei uma oficina mecânica pra trabalhá. Já arrumei uma profissão, vô estudá”. Falou: “Então tá, Henriquinho”.

E: Te chamava de Henriquinho?

F: É.

E: Ninguém te chama de Henrique? Só eu, né?

F: É... sei lá... também achei Henrique muito assim... mas tudo beim!

E: Ou então muito louco! Eu tava pensando por que que é muito louco?

F: Purque...


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