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Globalização e Identidade: alguns pilares críticos e interpretativos1

Betty Nogueira Rocha2

Roberto José Moreira3
A globalização faz redescobrir a corporeidade. O mundo da fluidez, a vertigem da velocidade, a freqüência dos deslocamentos e a banalidade do movimento e das alusões a lugares e a coisas distantes, revelam, por contraste, no ser humano, o corpo como uma certeza materialmente sensível, diante de um universo difícil de aprender”.

Milton Santos



1. Introdução
São vários os desafios que os pesquisadores em ciências sociais enfrentam, rotineiramente, ao tentarem definir a globalização. As narrativas interpretativas reconhecem a complexidade do fenômeno diante da amplitude e diversidade das suas significações.

Este ensaio é um esforço interpretativo das narrativas produzidas no âmbito das ciências sociais sobre a globalização, buscando não perder de foco, o prisma complexo e dinâmico que envolve tal análise. Esta constatação trás consigo o diverso campo de leituras e caminhos que se pode adotar na compreensão deste fenômeno, sendo que uma das premissas insere-se no campo de entendimento da modernidade e pós-modernidade.

Alguns especialistas, aqui representados por Anthony Giddens (1991), explicam a globalização a partir da construção da modernidade. Tomando emprestado a expressão de Moreira (2003), aliamo-nos a Krishan Kumar (1997) que, situando suas idéias num contexto histórico, interpreta a modernidade como constituída pelos processos da Revolução Científica, das Revoluções Política Burguesas e da Revolução Industrial. No final do século XX com a intensificação da comunicação, da informação e das relações internacionais4, alguns autores (dentre eles Kumar, 1997; Galvão, 1998 e Castells, 2002) argumentam que estaríamos diante de uma “Nova Era” (Galvão, 1998:42) apontando para a pós-modernidade. Este argumento implica a idéia de que a modernidade produz a pós-modernidade (Featherstone,1996:23).

Giddens ao desenvolver uma análise institucional da modernidade ressalta que estamos distantes do que alguns especialistas definem como pós-modernidade, pois, do seu ponto de vista, ingressamos numa etapa onde as conseqüências da modernidade5 intensificam-se (Giddens, 1991:12-13). Em sua profunda e intensa análise, o autor acredita que a pós-modernidade pode estar a caminho, mas seus traços distintivos de ruptura com a modernidade ainda não se revelam de modo objetivo, levando-o a interpretar as transformações sociais em curso como “alta modernidade” (Giddens, 1991:175-177).

Cumpre ressaltar que a chave do nosso argumento é assegurar a importância da globalização enquanto um processo de mudança, cuja transformações, descritas em narrativas diversas, nos compelem a relativizar o tema a fim de explorar, como uma de suas conseqüências, uma possível re-significação da identidade social.

Tal argumento encoraja-nos a reconhecer, e não negar, a importância das narrativas históricas e sociológicas sobre a modernidade, mas, um debate sobre o assunto exigiria um esforço de reexaminar o discurso teórico sobre a temática. Isso nos leva a sugerir que neste ensaio estaremos adotando a concepção de Giddens (1991) e Featherstone (1996) para os quais a modernidade em si é globalizante, e por pós-modernidade, entendemos, aqui, como os fenômenos de mudança associados à globalização. Tais pressupostos não negam, sequer desconhecem, outras visões e teorias sobre os termos.

Neste sentido, o objetivo deste ensaio será estabelecer uma reflexão sobre os processos de globalização na contemporaneidade6 fazendo emergir desta análise a problemática de uma nova configuração de tempo e espaço apontando para uma re-significação da concepção de identidade social.
2. Alguns pilares interpretativos e críticos sobre a globalização

A globalização como narrativa histórica tem, não obstante, problemas intrínsecos, que levam a uma naturalização do termo, utilizando-o como senso comum e deixando de considerar a teia de relações inerentes ao termo. Entendendo a globalização como um processo, um caleidoscópio que produz fenômenos multifacetados, com dimensões complexas que permitem uma série de explicações e tentativas de conceituações, toda e qualquer naturalização do termo passa a configurar-se numa forma de reificação.

Boaventura Santos (1997, 2000 e 2002) defende o campo de entendimento deste conceito como vasto e intenso produzindo conflitos de interesses entre grupos hegemônicos e subalternos. O campo hegemônico para o autor é definido pelo grupo de países que, em meados da década de 80, constituíram o Conselho de Washington com a missão de firmar medidas de políticas neoliberais7 para serem aplicadas nos países considerados “emergentes”, especialmente os latino-americanos, em condições, segundo o autor, subalterna.

Apesar deste consenso estar relativamente fragilizado nos dias de hoje devido aos inúmeros conflitos protagonizados pelo campo subalterno ou contra-hegemônico, Santos associa a origem política das características dominantes da globalização em curso ao Consenso de Washington. O autor adverte que no âmbito da reflexão dominante do que usualmente se entende por globalização, além do equívoco de não compreender este fenômeno como um processo, caracterizam-no como linear e monolítico resultando na falácia de se transformar as causas da globalização em efeitos da globalização (Santos, 2002:49-51).

Diante da teia de significados que pode empreender o termo, Santos define o modo de produção de globalização como um “processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo globo e ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival” (Santos, 2000:22) e ressalta que para o sistema-mundo8 não existe globalização genuína, pois globalização pressupõe um dado localismo, em outras palavras, não existe condição global sem uma raiz local.

A implicação mais importante desta concepção é que o global e o local são articulados e produzidos socialmente no interior dos processos de globalização. A luz disto, o autor define:

Eis a minha definição de modo de produção de globalização: é o conjunto de trocas desiguais pelo qual um determinado artefacto, condição, entidade ou identidade local estende a sua influência para além das fronteiras nacionais e, ao faze-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outro artefacto, condição, entidade ou identidade rival” (Santos, 2002:63).

Para dar conta dessas assimetrias Santos identifica quatro formas de globalização que no seu entender são resultados do modo de produção deste fenômeno.

O localismo globalizado e o globalismo localizado são as formas de globalização hegemônica onde as tensões da dicotomia global/local operam de forma articulada de-cima-para-baixo, mas devem ser compreendidas separadamente, pois, segundo o autor, o sistema mundial em transição9 consiste num conluio entre globalismos localizados (operado por países centrais) e localismos globalizados (operados por países periféricos). Por localismo globalizado o autor entende o “processo pelo qual determinado fenômeno local é globalizado com sucesso”, ou seja, ocorre quando um determinado fenômeno local é vitorioso num determinado campo de disputa global provocando uma inclusão ou exclusão subalterna como conseqüência. Por outro lado, o globalismo localizado compreende o local que é modificado pelo global e, cujo impacto é causado nas condições locais, e produzido pelas práticas transnacionais decorrentes dos localismos globalizados (Santos, 2002:65-66).

Em contrapartida, por cosmopolitismo e patrimônio comum da humanidade é que o autor define e compreende as diferenças e inovações do Sistema Mundial em Transição em relação ao Sistema Mundial Moderno que resultam na globalização contra-hegemônica, ou de-baixo-para-cima. O cosmopolitismo trata-se da organização transnacional de resistência dos Estados-Nação, regiões, classes ou grupos sociais que são vítimas das trocas desiguais ocasionadas pela globalização hegemônica (localismo globalizado ou globalismo localizado) traduzindo em lutas contra a exclusão, inclusão subalterna, dependência, desintegração, despromoção e utilizando-se dos instrumentos de comunicação e de informação para converter essas trocas desiguais em trocas de autoridade partilhada. Através da possibilidade de interação transnacional as atividades cosmopolitas organizam-se em redes de ação solidária com inserção global. Um exemplo disso é o Fórum Social Mundial realizado como uma manifestação de cosmopolitismo em reação ao Fórum Econômico Mundial alicerçado numa conjuntura de globalização hegemônica. Recorrendo ao direito internacional, Santos identifica uma segunda forma de resistência, o patrimônio comum da humanidade, e refere-se aos temas que são reivindicados numa escala planetária, reportados ao globo na sua totalidade como, por exemplo, a sustentabilidade da vida humana na Terra, preservação da biodiversidade, enfim, estas lutas se referem a recursos que, pela sua natureza devem ser administrados por outra lógica que não seja a das trocas desiguais em nome das gerações presentes e futuras (Santos, 2002:67-70). Segundo o autor, “o patrimônio comum da humanidade, em especial, tem estado sob constantes ataques de países hegemônicos, sobretudo dos Estados Unidos” (Santos, 2000:25).

Mike Featherstone (1996) parte do pressuposto de que os processos de globalização e localização são indissociáveis na fase atual do capitalismo e o desafio das ciências sociais se coloca no campo de “teorizar e formular sistemas de investigação sistemática” (Featherstone, 1990:8) que possam efetivamente entender o complexo prisma dos processos de globalização. Tal como Boaventura Santos, Featherstone critica as análises simplistas da globalização que deixam de considerar as características inerentes ao processo destacando apenas a homogeinização ou fragmentação como fatores explicativos deste fenômeno. O autor acredita que esta interpretação totalizante é um dos problemas interpretativos que sugerem que a globalização torna o globo “um só lugar” (Featherstone,1996:10), unificado e homogêneo. Do seu ponto de vista, o processo de globalização deve ser compreendido através da abertura da percepção de que o mundo é um espaço dialógico em que nações e outros atores sociais estão conectados em crescentes e complexas teias de interdependência e correlações de poder (Featherstone,1996:10). Neste sentido, o global e o local, aqui, são compreendidos a partir da noção de tempo e espaço (Featherstone,1996:11).

Pode-se argumentar uma aproximação teórica entre Featherstone e Santos em virtude de ambos considerarem que uma das transformações associadas ao processo de globalização é uma articulação entre a noção de tempo e espaço a partir da interação do local/global (Santos,2002:41-64 e Featherstone,1996:10-11) sugerindo a necessidade de compreensão das novas tecnologias de comunicação pelas quais configura-se um tempo-espaço emergente – tempo-espaço eletrônico, tempo-espaço instantâneo – implicando a intensificação dos fluxos de informação, de finanças e de mercadorias afetando as culturas locais.

O sociólogo Anthony Giddens (1991) destaca que a modernidade em si é globalizante, ou seja, situa e explica a globalização como fenômeno construído a partir da modernidade10. Define globalização como um fenômeno que intensifica as relações sociais em escala mundial, ligando as localidades distantes e produzindo um processo dialético onde o local e o global possuem conexões sociais através do tempo e do espaço (Giddens:1991,69-70). Cumpre ressaltar que esta é uma das descontinuidades11 que, para o autor, separam as instituições modernas das tradicionais.

Ao contrário do discurso predominante em fins do século XX que identifica as transformações emergentes da ordem global como uma “ruptura” com a modernidade cedendo lugar a uma outra concepção entendida para alguns teóricos como pós-moderna, pós-industrial, pós-fordismo, dentre outras terminologias, Giddens argumenta que a globalização é parte construtiva da modernidade e um de seus elementos é a reflexividade, ou seja, a capacidade de monitoramento da realidade a que estamos submetidos (Giddens, 1991:44-47)

Há um distanciamento da idéia sociológica de sociedade onde havia uma delimitação de tempo e espaço e uma ordenação da vida social. Essas novas características temporais e espaciais, resultam num dos aspectos mais importantes da globalização os quais Giddens considera como “desencaixe” ou seja, “o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço” (Giddens, 1991: 29).

Contrapondo esta concepção, Roland Robertson recusa compreender a globalização através da expansão da modernidade. Em termos ideais o autor periodiza a globalização a fim de coordenar o que identifica como sendo as cinco fases do processo12: fase germinal, fase incipiente, fase de decolagem, fase de luta pela hegemonia e fase da incerteza. Em sua periodização considera desde a dissolução do feudalismo, passando pela consolidação dos Estados-Nacionais, pela hegemonia de duas potências até chegar na fase que denomina de “Incerteza” (Robertson, 1999:152).

Cada uma dessas fases centra-se em quatro pontos centrais: (a) Estados-Nação, (b) indivíduos, (c) sistema de relações internacionais, (d) humanidade como realidade cada vez mais concreta e não apenas como idéia puramente filosófica ou teológica. É, portanto, crucial se ver que em fases sucessivas da globalização moderna cada um daqueles pontos cruciais, como os assim chamei, tornaram-se cada vez mais concretos como também mais complexas as relações entre eles” (Robertson, 1999:151-153).

Glocalização é o termo que, segundo Robertson, de modo simplificado define analiticamente globalização de modo a considerar a interação entre o global e o local implicando em considerar como fatores importantes do seu modelo “os desenvolvimentos do nacionalimos e do Estado-Nação são aspectos cruciais do processo de globalização” (Robertson, 1999:151-153).

Marcos Galvão (1998) estabelece uma análise crítica das teorias que envolvem o tema a partir de eixos distintos de abordagem os quais define como “arautos”, “céticos” e “críticos”. Os arautos da globalização compreendem o grupo de pensadores que promulgam a globalização a partir de descontinuidades; os céticos são os que destacam o poder dos Estados-Nação no âmbito das relações internacionais; enquanto os críticos privilegiam a “renovação e expansão do capitalismo como motor de uma história mundial” (Galvâo, 1998: 37).

Numa outra abordagem, Jameson (1997 e 2002) explora em sua análise cinco níveis distintos da globalização: o tecnológico, o social, o político, o cultural e o econômico13. Adverte-nos que qualquer tentativa de conceituação de globalização, a rigor, apresentam julgamentos ideológicos e totalizadores por natureza (Jameson, 2002:17). Para o autor não é uma questão de ser contra ou a favor da globalização, pois do seu ponto de vista:

Pensar globalização equivale montar um quadro de estandartização de uma escala inédita de integração forçada em um sistema mundial – “desconectar-se” dele, para usar a expressão de Samir Amin, é daqui por diante tarefa impossível, e até mesmo inconcebível e impensável” (Jameson: 2002:47).
Por outro lado, Jameson defende a tese de que a globalização ressalta o paradoxo entre tempo e espaço que pode ser compreendido como uma antinomia da pós-modernidade, segunda a qual, nas palavras do autor, “como se antinomia fosse um sintoma de uma contradição” (Jameson, 1997:20).

A globalização ao explorar a diferenciação local, segundo Stuart Hall (2000), sugere uma “nova articulação entre o global e o local” (Hall, 2000:77). Conforme Anthony McGrew (1992) citado por Hall:


A “globalização” se refere àqueles processos atuantes numa escala global que atravessam fronteiras nacionais integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo em realidade e em experiência, mais interconectado” (Hall, 2000:67).
As proposições examinadas nos permitem ponderar duas instâncias: uma refere-se as narrativas sobre globalização e outra atenta-se as “novas combinações” entre tempo e espaço, conforme nos sugere Hall (2000) e Santos (2002).

A primeira instância, conforme debate analítico estabelecido até aqui, nos sugere a ambigüidade do campo de definição e compreensão da globalização. O ponto em comum é que a globalização é entendida como um processo de dimensões sociais, políticas, culturais e econômicas, apesar de Santos (2002) e Featherstone (1996) destacarem a tendência do discurso hegemônico em ressaltar a dimensão econômica do processo. A segunda instância é apresentada, no bojo do debate, pela perspectiva de novas combinações do tempo e espaço (Santos, 2000; Hall, 2000; Giddens, 1991 e Featherstone, 1996).

Estas assimetrias associadas à globalização nos apontam para os problemas e desafios com que as sociedades contemporâneas e o sistema mundial se defrontam nos dias de hoje, e que, não obstante, são complexos, apontando para múltiplas e distintas interpretações. Dentre esses desafios está a compreensão do que os autores definiram como sendo as novas combinações de tempo e espaço oriundo do debate acerca da globalização. Neste sentido, nos propomos, a seguir, a problematizar esta questão a partir de uma reflexão teórica.

3. A dialética tempo-espaço e alguns discursos sobre identidade
O resgate de algumas considerações teóricas sobre a globalização nos permite sugerir que este processo tem alterado a concepção de espaço-tempo na contemporaneidade.

Na sociedade pré-capitalista tempo e espaço eram intimamente conectados de forma que o “quando”, segundo Giddens (1991), estava necessariamente vinculado ao “onde”. Neste sentido, a invenção do relógio no século XVIII demarca a uniformidade da organização social do tempo possibilitando a padronização dos calendários como um evento global e convergindo na separação entre tempo e espaço (Giddens, 1991:26). O autor destaca que:

O “esvaziamento do tempo” é em grande parte a pré-condição para o “esvaziamento do espaço” e tem assim prioridade causal sobre ele. O desenvolvimento do “espaço vazio” pode ser compreendido em termos da separação entre espaço e lugar. É importante enfatizar a distinção entre essas duas noções, pois elas são freqüentemente usadas mais ou menos como sinônimos. “Lugar” é melhor conceitualizado por meio da idéia de localidade, que se refere ao cenário físico da atividade social como situado geograficamente. Nas sociedades pré-modernas, espaço e tempo coincidem amplamente, na medida em que as dimensões espaciais da vida social são, para a maioria da população, e para quase todos os efeitos, dominadas pela “presença” – por atividades localizadas” (Giddens, 1991: 26-27).

A separação do tempo e espaço deve ser analisada como um processo dialético por não ser uniforme e unilinear. A modernidade, nas palavras de Giddens, “arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros ausentes, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face” (Giddens, 1991:27).

Para a compreensão da modernidade, a separação do tempo e espaço é crucial possibilitando o que Giddens denomina como “desencaixe”. Por “desencaixe” entenda-se “as relações sociais dadas num contexto local e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço” (Giddens, 1991:29). O dinamismo da globalização deriva, segundo o autor, da separação do tempo e do espaço e de sua recombinação capaz de acionar dispositivos que permitem conectar o local e o global.

Por outro lado, Santos (2000 e 2003) associa a compreensão do tempo-espaço a partir do “processo social pelo qual os fenômenos se aceleram e se difundem pelo globo” (Santos,2000:23). As diferentes combinações de tempo e espaço, do seu ponto de vista, só podem ser analisadas a partir das relações de poder hegemônicos e contra-hegemônicos.

Roberto Moreira (2003) observa a possibilidade de um global hegemônico desterritorializado na medida em que “as relações espaço-tempo contemporâneas fariam desaparecer o passado e antecipariam o futuro” (Moreira, 2003:123). Para Moreira, o tempo presente contém um passado atualizado e uma antecipação do futuro. O autor sugere que tais representações se dão no espaço do “indivíduo”, ou de “um grupo social, ou nacional, mediados por um poder hegemônico”.

A percepção de tempo-espaço de Moreira se aproxima da análise das antinomias de Jameson (1997) como sintomas da contradição dialética. Jameson destaca:

Para nós o tempo consiste em um eterno presente e, muito mais adiante, uma catástrofe inevitável, esses dois momentos vão aparecer distintamente, em um aparelho de registro, sem estágios sobrepostos ou transicionais” (Jameson, 1997:80).
Na interpretação de Jameson, a pós-modernidade apresenta uma superação da dicotomia tempo-espaço. O tempo torna-se espaço, ou seja, o tempo expressa em si mesmo uma matriz espacial configurando-se numa antinomia da pós-modernidade percebida através de “repetidas caracterizações espaciais da temporalidade” (Jameson, 1997:35).

Otávio Ianni (2000) destaca que este pode ser “o palco da pós-modernidade” onde tempo e espaço parecem dissolver-se abrindo caminho para a descontinuidade, multiplicidade e simulação (Ianni, 2000:160).

Novos atores são colocados em cena. O sujeito moderno entendido como uma entidade singular, indivisível e unificado (Hall, 2000) fixado e conectado numa territorialidade passa a ser confrontado com as tensões da articulação do local/global e da emergência de uma configuração de tempo-espaço onde os novos meios de comunicação (Featherstone, 1996) permitem transações simultâneas desterritorializando o sujeito do lugar.

A intensificação da articulação entre tempo-espaço, tensionada pela interação do global/local, desterritorializa (Featherstone, 1996:10) os sujeitos de suas esferas natais14 e os territórios existenciais do homem passam a ser plugados às ondas subjetivas do processo de globalização.

Hardt e Negri (2004) nos apontam que o Império15 não se baseia em fronteiras ou barreiras fixas, é, pois, “um aparelho de descentralização e desterritorialização” que administra “entidades híbridas, hierarquias flexíveis e permutas plurais” diante do “arco-íris imperial global” (HARDT E NEGRI, 2004:12-13).

Moreira (2003b) destaca que o local globalizado é desterritorializado. Usando as palavras do autor “haveria um duplo desenraizamento: do tempo, em um passado que desaparece, reaparecendo como representação do passado desaparecido; e do espaço, local que desaparece ao se globalizar, reaparecendo como um global desterritorializado”.

Kumar (1997) destaca que “desterritorializado, desenraizado de seus contextos específicos – da mesma forma que, em termos de lugar, o “local” não é mais o concreta ou autenticamente local, mas um elemento do nexo global-local” (Kumar, 1997:199-200).

Este processo produz o que Stuart Hall (2000) postula como “sujeito pós-moderno” (Hall, 2000:13). O autor parte do princípio de que “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio” (Hall, 2000:7) e o sujeito unificado passa a ser tensionado pelo movimento relacionado ao caráter da mudança da globalização em curso.

Hall distingue três concepções de identidade: o sujeito do Iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito pós-moderno. O sujeito do Iluminismo baseia-se na concepção do homem centrado, unificado, racional, dotado de consciência e ação. O “núcleo interior”16 nascia com o sujeito e com ele se desenvolvia ao longo de sua existência . Consistia numa visão individualista do sujeito e de sua identidade. O sujeito sociológico era reflexo da complexidade do mundo moderno, seu núcleo interior era constituído de forma relacional17 e a identidade formada da interação entre o sujeito e a sociedade. Desta forma, a identidade então costurava o sujeito à estrutura. Ressaltando esta “costura” e a noção de “sujeito sociológico”, Hall observa uma mudança: “o sujeito previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas” (Hall, 2000:12). É possível dizer que, para o autor, o próprio processo pelo qual as identidades eram projetadas, no tempo e no espaço, tornou-se mais provisório, variável e problemático. Esse processo produz o sujeito pós-moderno; um sujeito que, devido as formas ou interpelações do sistema que o rodeia, não tem uma identidade fixa, pois sua identidade é continuamente, na palavras de Hall, “formada e transformada”. A citação de Hall esclarece:
O sujeito assume identidade diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente sendo deslocadas” (Hall, 2000:13).
Esta contradição a qual se refere Hall aproxima-se da segunda antinomia de Jameson (1997)18 na qual a diferença e a identidade coexistem, no sentido de que é na base da identidade que a diferença pode ser produtivamente transformada. A identidade passa a ser construída por elementos opostos, ela é diferença e igualdade; objetividade e subjetividade; ocultação e revelação e, para compreendê-la, é necessário desvendar essas dimensões aparentemente contraditórias as quais Jameson analisa como representação antinômica de contradições dialéticas.

Um exemplo desta antinomia é descrito por Norbert Elias & John Scotson (2000) em “Os Estabelecidos e os Outsiders” quando a identidade dos estabelecidos, grupo de antigos residentes da cidade fictícia de Windson Parva, era revelada a partir da diferença acentuada da relação de coesão com os outsiders, composto pelos recém-chegados (Elias & Scotson, 2000:24).

Para Mendes (2002), a identidade é dinâmica, ou seja, é construída e reconstruída através das relações sociais. Entende por identidade social19 como sendo “um cruzamento de atributos pessoais e estruturais, uma categorização derivada dos contextos sociais onde decorre a interação social” (Mendes, 2002:509).

Em outra análise Castells (2002) argumenta que as identidades são as fontes mais importantes de objetivação do significado de determinado discurso simbólico para um ator social. Entende por identidade “o processo de construção de significados com base em um atributo cultural, ou ainda, um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(is) prevalece(m) sobre outras fontes de significado” (Castells, 2002:22). O autor, a partir de sua concepção de sociedade em rede20, postula que o significado da identidade é auto-sustentável ao longo do tempo e do espaço possibilitando a construção social da identidade num contexto marcado por relações de poder propondo três formas e origens de construção de identidades, a saber: identidade legitimadora identidade de resistência e identidade de projeto21. A esta pluralidade de representação Castells destaca o conceito de identidades múltiplas (Castells, 2002: 22-24).

Moreira (2003b) e Featherstone (1996) compartilham com Castells a configuração de identidades múltiplas. Para Moreira, o indivíduo só existe na relação social, e, devido a multiplicidade das matrizes relacionais a que estão submetidos na esfera do local e global, a expressão de sua identidade é múltipla.

Nosso pressuposto é que esse passa a ser um dos efeitos da globalização: a nova configuração de tempo e espaço e o deslocamento de eixos acabam por abalar uma estrutura do homem: a sua identidade social. Neste contexto, a medida que os sistemas de representação cultural se multiplicam, este sujeito, o ser humano, passa a ser confrontado por uma multiplicidade desconcertante de identidades. O que nos permite por analogia estabelecer que o arsenal tecnológico, ao qual refere-se Castells e a sua “sociedade em rede”, através computador permite que qualquer indivíduo conecte-se em rede, e, partir o universo cibernético pode “simular” uma identidade passando a experimentar a si mesmo. Como se a oportunidade de assumir várias identidades possibilitasse novas formas de vida.

Conforme a teoria de Foucault (2000) isto denotaria um novo tipo de docilização do corpo, recorrendo à novas tecnologias de forma a moldá-lo, obrigando-o a emitir signos. O ser social da sociedade disciplinar, segundo Foucault, produzia corpos submissos e exercitados, “corpos dóceis”. A disciplina dissocia o poder do corpo, faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar (Foucault, 2000:119).

Segundo Deleuze (1992) transmutamos da sociedade disciplinar para a sociedade de controle. Sob esta perspectiva deleuziana podemos dizer que se antes o ser social era recortado e quadriculado pelas instituições (escola, prisão, etc.), configurando um espaço estriado conforme descrito por Foucault em “Vigiar e Punir”, hoje, navegamos por um espaço aberto, sem demarcação de fronteiras, como destacam Hardt e Negri em “O Império”.

Não importa o locus do indivíduo, pois, para Deleuze, qualquer lugar é um ponto numa extensa rede de controle. E o controle passa muito além do corpo. São as parafernálias do mundo pós-moderno estabelecendo o controle como o celular, o computador, a internet, a televisão, etc. A sociedade do controle funciona com controle contínuo e comunicação instantânea. O indivíduo torna-se “dividual”, “divisível” e controlado por um arsenal tecnológico (Deleuze, 1992: 216-223).

A transição da sociedade disciplinar (Foucault) para a sociedade do controle (Deleuze) permite o reconhecimento, segundo Hardt e Negri, do “novo paradigma de poder”: o biopoder, que, segundo o autor “é a forma de poder que regula a vida social por dentro, acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e a rearticulando” (Hardt E Negri, 2004:42).

O quadro analítico estabelecido, até aqui, destaca o campo ambíguo e em constante devir que constitui a construção da identidade social, os quais Moreira nomeou por identidades assimétricas, reproduzindo, desta forma, os poderes assimétricos constitutivos das hierarquias sociais herdadas da globalização, que, por sua vez, produzem identidades hegemônicas e subalternas.
4. Algumas considerações
O cenário dialético em que figuram os atores sociais do século XXI nos permite afirmar, tendo como pano de fundo o debate desenvolvido até aqui, que estamos diante de uma subjetividade que desloca o território existencial do indivíduo numa mobilidade sem precedentes. Se o surgimento das cidades amarravam os indivíduos a um endereço demarcando o seu território22, a sociedade do controle cria espaços virtuais que alteram a noção de corpo, de território, de identidade. O indivíduo pode experimentar, através da simulação, várias identidades, experimentar várias culturas, status social, etc., pois o espaço virtual23 não exige documento, tampouco identificação. Baudrillard (1981) postula que não se exige mais que os signos tenham algum contato verificável com o mundo que representam: ele é próprio, simulacro puro (Baudrillard In Connor, 1996:47-55).

Ciampa (1984) destaca que há uma importância conferida ao estudo da identidade ao longo da trajetória do conhecimento humano e científico, e esta relevância está no fato de estudos acadêmicos alicerçarem suas teorias à individualidade e às expressões do “eu” nos diferentes períodos históricos (Ciampa In Laurenti e BARROS, 2000).

Sob tais circunstâncias, compreendemos que a textura aberta das identidades está associada com o tempo de mudança associado ao processo de globalização. O sujeito no lugar estava submetido a uma convivência longa e repetitiva com os mesmos objetos, os mesmos trajetos e mesmas imagens e signos, de cuja construção participava, uma familiaridade fruto de uma história própria, alicerçada no tempo e no espaço. Esse processo engloba uma série de transformações em setores variados do ambiente social ao simbólico, do econômico ao político, do cultural ao psíquico, que, do nosso ponto de vista, trazem consigo implicações na construção da identidade social.

Evidenciamos uma correlação entre o processo da globalização e uma nova configuração do tempo e espaço, permitindo uma associação com o debate sobre uma re-significação das identidades sociais. Evidentemente que não cabe aqui esboçarmos alguma conclusão sobre o tema, ou de conectar idéias acabadas. Contudo, o debate em questão faz parte de um terreno que ainda pode ser explorado na construção das narrativas das ciências sociais.



BIBLIOGRAFIA

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1 Este artigo desenvolvido no decorrer da disciplina “Teorias sobre Sociedades Contemporâneas” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Moreira.

2 Economista, Professora Universitária, Mestranda em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pelo CPDA/UFRuralRJ e bolsista do CNPq. bettyrocha@vspmail.com.br

3 Agrônomo. PhD em Economia, Professor-pesquisador da UFRuralRJ, ICHS, DDAS, CPDA. Bolsista do CNPq. moreirarob@alternex.com.br

4 Os autores irão distinguir estas modificações a partir da adoção dos termos “sociedade da informação”, “sociedade em rede”, “sociedade do consumo”.

5 Para o autor modernidade refere-se ao estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII associando a modernidade a um período de tempo e de espaço geográfico (Giddens, 1991:11).

6 Contemporaneidade, aqui, deve ser compreendida como o período pós-1980.

7 Neoliberalismo é uma doutrina político-econômica que representa uma tentativa de adaptar os princípios do liberalismo econômico às condições do capitalismo moderno. Na teoria, o neoliberalismo caracteriza-se por se colocar contrário à intervenção do Estado no mercado. Na prática, a receita básica das políticas neoliberais é caracterizada por: elevação das taxas de juros, diminuição dos impostos sobre os rendimentos altos, abolição dos controles sobre os fluxos financeiros, liberalização das importações, estímulos às exportações, desregulamentação da economia, redução dos padrões sociais com criação de níveis massivos de desemprego, flexibilização do mercado de trabalho, reformas fiscais acompanhado de um amplo programa de privatizações. Os governos de Margareth Tatcher (1979) na Inglaterra e de Ronald Reagan (1980) nos Estados Unidos foram os primeiros a adotarem as medidas neoliberais. (ANDERSON, Perry In SADER, Emir (org), 1995 e BRESSER PEREIRA, L.C. In Revista da USP – Dossiê Liberalismo/Neoliberalismo, 1993:120-122).

8 Ver WALLENSTEIN, Immanuel. In GENTILI, Pablo. Globalização Excludente – Desigualdade, Exclusão e Democracia na nova ordem mundial. Petrópolis: Vozes, 1999.

9 Boaventura Santos defende que o período atual é um período de transição o qual denomina de Sistema Mundial Em Transição (SMTE) combinando características do sistema mundial moderno (SMM) com outras de caráter sistêmico. O SMTE é muito complexo porque é constituído por três grandes constelações de práticas – práticas interestatais, práticas capitalistas globais e práticas sociais e culturais transnacionais – entrelaçadas e dinâmicas (SANTOS, 2002: 89). Ao definir SMET - Sistema Mundial Em Transição destaca  o caráter labiríntico das hierarquias deste sistema devido as trocas desiguais e conflitos gerados no interior dos processos de globalização ressaltando duas possíveis hierarquias: a hierarquia entre centro, periferia e semiperiferia e a hierarquia entre global e local (Santos,2002:61).

10 O autor entende por modernidade o período a partir do século XVII.

11 As outras descontinuidades identificadas por Giddens são o ritmo de mudança nas condições de modernidade e a natureza intrínseca das instituições modernas. Ver Giddens, A. As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991.

12 [1] Fase Germinal: do início do século XV na Europa até meados do século XVIII; [2] Fase Incipiente: durante meados do século XVIII até a década de 1870, primariamente na Europa; [3] Fase Crucial da Decolagem: durante 1870 até meados da década de 1920, incorporando sociedades não européias do hemisfério norte como também Estados da América Latina; [4] Fase da Luta pela Hegemonia: durante 1920 até o final da década de 1960, envolvendo a expansão do princípio de autodeterminação nacional para incluir o assim chamado Terceiro Mundo; [5] Fase de Incerteza: durante o final da década de 1960 até o presente período e desaguando em um sistema internacional fortemente padronizado; o desmembramento da “nação” do “Estado”, a tematização política da polietnicidade e da multiculturalidade; a instabilidade de conceitos de cidadania e o rápido crescimento tanto em perspectivas supranacional e global quanto na consciência nacional (ROBERTSON, 1999:152).

13 Para compreensão dessas dimensões ver Jameson, F. A Cultura do Dinheiro – Ensaios sobre a Globalização. 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 2002, p. 17-28.

14 Refiro-me aqui ao lugar onde o indivíduo vive e cria sua rede de relações e interações sociais.

15 Os autores definem que “esta nova forma global de economia é que chamamos de Império. O Império caracteriza-se fundamentalmente pela ausência de fronteiras: o poder exercido pelo Império não tem limites” (HARDT e NEGRI, 2004:12-14).

16 Expressão utilizada pelo autor.

17 Para o autor, o sujeito aqui não era autônomo pois formava-se a partir da relação com outras pessoas que lhe mediavam os valores, sentidos, símbolos e a cultura dos mundos que ele/ela habitava (HALL, 2000:11).

18 A primeira antinomia descrita anteriormente refere-se a relação tempo-espaço.

19 A visão do autor pode-se distinguir deste processo uma identidade social virtual e uma identidade social real. A primeira é constituída pelas exigências e características que imputamos aos indivíduos, enquanto a segunda, são os atributos que aqueles realmente possuem e as categorias reais a que pertencem (MENDES, 2002:509).

20 Esta sociedade é caracterizada pela globalização das atividades econômicas decisivas do ponto de vista estratégico; por sua forma de organização em redes; pela flexibilidade e instabilidade do emprego; pela individualização da mão–de-obra; por uma cultura de virtualidade construída a partir da mídia onipresente e altamente diversificada e pela transformação das bases materiais da vida – o tempo e o espaço (CASTELLS, 2002:17).

21 O autor define as três concepções: “Identidade Legitimadora: Introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais. Identidade de resistência: criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos. Identidade de projeto: quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social.” (CASTELLS, 2002: 24).

22 Conforme a teoria da sociedade disciplinar de Foucault.

23 Entendemos como virtual o espaço cibernético promovido pela tecnologia da internet. Ver formulações a respeito em Castells (2002).



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