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São Bernardo

Graciliano Ramos



1. contexto histórico, social, cultural e literário do autor
São Bernardo tem sua escritura iniciada em 1932 (LAFETÁ, 19__. p. 219), quando Graciliano Ramos volta de Maceió para Palmeira dos Índios e funda uma escola na Igreja Matriz (fato que também seria aproveitado num episódio deste seu livro).

A publicação de São Bernardo acontece em 1934, entre seu primeiro romance, Caetés (1933) e Angústia (1936), livro mais aclamado pela crítica que os primeiros.

Graciliano é assim classificado como autor pertencente ao Modernismo dos anos 30, de escritores cuja preocupação se atém na “consciente interpenetração de planos (lírico, narrativo, dramático, crítico) na busca de uma ‘escritura’ geral e onicompreensiva, que possa espelhar o pluralismo da vida moderna” (BOSI, 1968, p.388).

Contudo tais temáticas só puderam se reforçar graças às trilhas abertas pelo Modernismo de 22, que promoveu a “‘descida’ à linguagem oral, aos brasileirismos e regionalismos léxicos e sintáticos (op. Cit. p.385) […], o gosto da arte regional e popular, […] [e o] afã de redescobrirem o Brasil” (p.387).

O contexto sóciopolítico também era fértil para escritura destes novos modernistas, “reserva-se toda atenção ao potencial revolucionário da cultura popular” (p.387), diz Bosi. Os escritores aprendiam a se posicionar criticamente ante a política e aos fatos sociais, e se voltavam para a descoberta da identidade do brasileiro, ânsia do modernismo anterior.
As décadas de 30 e 40 vieram ensinar […] por exemplo, que o tenentismo liberal e a política getuliana só em parte aboliram o velho mundo, pois compuseram-se aos poucos com as oligarquias regionais, rebatizando antigas estruturas partidárias, embora acenassem com lemas patrióticos ou populares para o crescente operariado e as crescentes classes médias, que a “aristocracia” do café, patrocinadora da Semana, tão atingida em 29, iria conviver muito bem com a nova burguesia industrial dos centros urbanos, deixando para trás como casos psicológicos os desfrutadores literários da crise. Enfim, que o peso da tradição não se remove nem se abala com fórmulas mais ou menos anárquicas nem com regressões literárias ao Inconsciente, mas pela vivência sofrida e lúcida das tensões que compõe as estruturas materiais e morais do grupo em que se vive. (idem, p.384).

O fim da Primeira Guerra mundial fez a classe média burguesa ganhar força política, o movimento do Tenentismo era grande expressão dessa voz, composta por jovens militares e membros da classe média do nordeste brasileiro. As oligarquias não conseguiam mais se adequar politicamente a tantas revoltas, a política do “café-com-leite” se abalava. Simultaneamente a essas revoltas, se fortalecia a industrialização bem como o operariado, que também iniciava a luta por seus direitos entre 1920-1930.

A quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, fez decair financeiramente classes dominantes, como aristocracia do café, que pediu proteção financeira do governo de Washington Luís, sendo por ele, recusada. O presidente apóia a candidatura de um paulista, Júlio Prestes, para tentar manter estável a economia. Contudo isso serve de munição para revoltosos contra as práticas do governo, organiza-se a Aliança Libertadora, com o projeto político de incentivar a produção geral do Brasil e não só a do café.

A revolução de 1930 eclode com o assassinato de João Pessoa, candidato à vice-presidência com a Aliança, provavelmente por seus problemas políticos com os produtores nordestinos, como nos descreve Boris Fausto.


A luta de grupos na Paraíba vinha de muito tempo. Eleito governador do estado, João Pessoa tentou realizar uma administração modernizante, submetendo a seu comando os “coronéis” do interior. Uma de suas preocupações consistiu em canalizar as transações comerciais pelos portos da capital e de Cabedelo, com dois objetivos: garantir o recebimento dos impostos devidos e diminuir a dependência comercial e financeira em relação ao Recife. Suas iniciativas se chocaram com os interesses dos produtores do interior – sobretudo de algodão -, os quais negociavam por terra com o Recife e escapavam facilmente à tributação. (FAUSTO, 1995, p.323)

A Aliança Libertadora vence, colocando Getúlio Vargas no poder. Tal passagem da História é citada pelo narrador-personagem de São Bernardo, Paulo Honório. Seu grupo de companheiros provavelmente se posicionava contra os revoltosos, e a vitória deles refletiu na decadência na fazenda do protagonista.


Gondim detestava acordos. Dente por dente, percebíamos? Dava-nos conselhos violentos, a mim, ao Nogueira, às arvores do pomar, e instigava-nos a uma contra revolução (quanto mais depressa melhor) que varresse do poder aquela cambada de parlapatões. Queria um governo enérgico, sim senhor, duro, sim senhor, mas sensato, um governo que trabalhasse, restabelecesse a ordem, a confiança do credor e a subvenção de cento e cinqüenta mil-réis mensais ao Cruzeiro. Como íamos é que não podíamos continuar.

Atirava-nos palavrões encorpados que no jornal lhe serviam para tudo. São Paulo havia de se erguer, intrépido; em São Paulo ardia o fogo sagrado; de São Paulo, terra de bandeirantes, sairiam novas bandeiras para a conquista de liberdade postergada.

- Você fala bem, Gondim, murmurava eu impressionado. Você havia de trepar, Gondim, se o nosso partido não tivesse virado de pernas pro ar. (RAMOS, cap. 34)
A emergência da classe média burguesa acabou por retirar do governo políticos que tratavam a “questão social como caso de polícia” ao modo de Washington Luís, a estabilidade social foi atingida com Getúlio Vargas. Político de extrema habilidade, seguiu ambiguamente (ora apoiando aristocratas, ora o operariado e membros do tenentismo), abafando revoluções e ganhando prestígio popular, até conseguir promover o golpe de Estado (1937), centralizando o poder para crescer economicamente. Contribuiu para sua popularidade a nova Constituição que promovia mais direitos ao trabalhador, promulgada no ano de publicação de São Bernardo.

Bosi alia à idéia deste contexto histórico aos conceitos de Goldmann, que diz que a literatura moderna se volta para o enfrentamento do eu com o mundo, causando abalos nos romances do período.


Houve, sobretudo uma ruptura com certa psicologia convencional que mascarava a relação do ficcionista com o mundo e com seu próprio eu. O Modernismo num plano histórico mais geral, os abalos que sofreu a vida brasileira em torno de 1930 (a crise cafeeira, a Revolução, o acelerado declínio do Nordeste, as fendas nas estruturas locais) condicionaram novos estilos ficcionais marcados pela rudeza, pela captação direta dos fatos, enfim por uma retomada do naturalismo, bastante funcional no plano da narração-documento que então prevaleceria. (p.389)
A arte aqui se mostra como “antena à frente do tempo”, percebendo antes do povo, esperançoso num Brasil melhor com as mudanças políticas, que não se pode crer fielmente em ações regidas por um fundo de interesses. Graciliano Ramos traz neste seu romance as conseqüências da ânsia pelo progresso baseado no capitalismo. São Bernardo dialoga fortemente com seu tempo, sem, contudo, estar preso a ele.
2. enredo
Linearmente, a história começa quando Paulo Honório, ainda uma criança não conhece os pais e é criado por uma velha preta doceira chamada Margarida, a quem chama de Mãe Margarida; e de ter sido guia de um cego que lhe puxava as orelhas.

Já na adolescência, é preso por matar um rival, numa questão de mulher e na cadeia aprende a ler. Sai de lá e se dedica à profissão de vendedor no sertão, onde sofre privações terríveis, mas sempre visando o lucro, pois tinha a idéia de adquirir uma fazenda de nome S. Bernardo, que agora se encontrava abandonada.

De posse de algum dinheiro, se aproxima de Padilha, atual proprietário da fazenda e filho de Salustiano Padilha, antigo dono do lugar. Ele sabia que Padilha era boêmio, vivia sem dinheiro e utilizando meios pouco lícitos, compra a fazenda por uma bagatela. Muda-se para lá e inicia a retomada da fazenda, sempre ajudado por Casimiro Lopes, seu capanga que o acompanhará até o fim.

Faz amizades com políticos e outros homens influentes, como Dr. Magalhães, juiz, e João Nogueira, seu advogado. Contrata ainda, Seu Ribeiro para trabalhar na fazenda como guarda-livros e paga para Gondim falar bem de sua pessoa no jornal. Contrata Padilha, para dar aulas na escola primária que construiu na fazenda, a pedido do governador e constrói também uma igreja a pedido do Padre Silvestre. Apesar de tantas amizades, trata muito mal seus empregados, chegando a bater neles quando o serviço não esta de acordo com o que quer.

Cinco anos depois a fazenda prospera bastante e Paulo sente a necessidade de se casar, para ter um herdeiro. Em busca de uma mulher acaba por conhecer Madalena, e simpatizando com ela, faz amizade com a tia da moça, D. Gloria, em busca de aprovação. Algum tempo depois pede a mão de Madalena como quem propõe um negócio e depois de pensar, ela aceita.

Dias depois de casados os problemas começam, pois Madalena não concorda com o tratamento dado pelo marido aos trabalhadores da fazenda e Paulo, julga a esposa uma leviana que gasta à toa com gente que não merece. Professora, ela quer trabalhar, entretanto, Paulo que julga que sua esposa deve ficar em casa com os filhos que viriam a ter; a proíbe, mas ela tanto insiste que começa a trabalhar na fazenda junto com Seu Ribeiro. Paulo que a princípio nutria uma admiração pelo estudo da mulher, começa a transformar essa admiração em ciúme doentio, que aos poucos vai acabar com a relação. Eles têm um filho que Madalena não cuida, é perseguida a todo o momento por Paulo e emagrece a olhos vistos.

Paulo começa a desconfiar que Madalena é amante de Padilha e de todos os homens da fazenda, inclusive empregados.

Um dia, encontra um pedaço de papel, com a letra de Madalena e vai tirar satisfações com a esposa, que está na igreja, rezando. Paulo se admira, pois julgava que ela não era religiosa e após uma longa conversa, ela se despede dele e vai para a casa, Paulo adormece ali.

Pela manhã, ele encontra o corpo da esposa, que havia se suicidado com veneno, e descobre que ele era o destinatário da carta, e que se tratava de uma despedida.

Paulo se torna sóbrio e pensa que escrevendo um livro, passaria sua vida a limpo. Pede ajuda aos amigos, mas não entrando em acordo, ele resolve escrever sozinho. A fazenda está abandonada, Seu Ribeiro e D. Glória vão embora. Padilha se junta à revolução levando consigo alguns empregados, deixando a fazenda sem ter quem plante. Com a revolução, não há compradores e os produtos apodrecem nos pés. Solitário na fazenda ele escreve sua história e percebe que, talvez, pudesse ter sido um marido melhor. Corroído pela consciência, se vê deformado e feio.


3. personagens
Paulo Honório, figura de destaque no universo diegético de São Bernardo, surpreende os leitores de uma forma convincente por ser uma personagem complexa. É ele quem narra sua própria história, onde “[...] sente uma necessidade nova – escrever - e dela surge uma nova construção: o livro onde conta sua derrota. Por meio dele obtém uma visão ordenada das coisas e de si [...]” (CANDIDO, 1992).

Seu enredamento psicológico é profundo e se reporta na linguagem seca e simples que utiliza, mas sua capacidade de expressar esse enredamento é superficial.

Paulo Honório não conheceu seus pais, só se recorda de ter sido guia de um cego que lhe puxava as orelhas, e que havia vivido com uma velha negra, miserável e doceira, a quem chamava “Mãe Margarida”. Trabalhou muito durante sua vida, chegando mesmo a trabalhar na fazenda São Bernardo, até que esfaqueou um rival e foi para a cadeia, de onde saiu com uma idéia fixa: ganhar dinheiro.

Com este intuito, ele acaba conseguindo comprar a São Bernardo que para ele “[...] não se podia comparar a outra, era o prolongamento de si próprio; era a imagem concreta de sua vitória sobre os homens e obstáculos, de vários portes, superados e esmagados [...] (CANDIDO, 1992).

Para aprofundar este estudo sobre Paulo Honório, tomaremos por base o ensaio “A reificação de Paulo Honório”, de Luiz Costa Lima (1969).

Paulo quer extrair da vida e do mundo os aspectos quantitativos, e procura durante todo o tempo neste romance, transformar as coisas e as pessoas em lucros e quantidades. E será esta quantificação excessiva que o esmagará.

Até mesmo a afetividade do protagonista, será quantificada e irá até o momento que seu dinheiro começa a ser gasto. Segundo o próprio Paulo Honório, por não ter conhecido o amor, seu mundo foi todo pautado em concretudes regidas pela necessidade, ou seja, Paulo acabava associando tudo o que desejava ou admirava ao sentimento de posse, apesar de em certos momentos, ter fissuras de sensibilidade em seu caráter, momentos de ternura para com aqueles que amava, ou julgava amar. Um bom exemplo disso está no tratamento que ele dá à “Mãe Margarida”: em determinados momentos sente afeição pela velha, mas em outros só pode calcular seu afeto através lenha, luz, cobertor etc., e qualquer coisa que fosse além desses bens necessários, era a seu ver, um desperdício de dinheiro.

Quando Paulo não quantificava as pessoas, ele as animalizava, comparando todos com bichos, especialmente seu capanga Casimiro Lopes. Este trazia em si, certas características animalescas, como a fidelidade cega a Paulo, eliminado inclusive, inimigos de seu senhor. Por ser assim, Casimiro, nunca tinha consciência de sua maldade, ficando satisfeito somente com a afeição e a amizade que Paulo lhe dava. Quando Paulo agia dessa forma para com as pessoas ao seu redor, era sua forma de compreensão de mundo.

Paulo Honório se casa com Madalena, que era uma moça pobre, professora primária que ganhava pouco e ainda tinha que sustentar a tia. Um dia ela é surpreendida pelo pedido de casamento de Paulo, que mais se parece com um contrato de negócios. Idealista, ela tem uma vontade verdadeira de ajudar o próximo, mas é freqüentemente interrompida pelo marido, que não consegue compreender esse sentimento humano. Perseguida, ela desiste até mesmo de cuidar do filho que tem com ele.

Paulo tenta se apossar de Madalena, comum objeto, mas a sofisticação do saber dela o diminuía. Não conseguindo quantificá-la, pois a amava, a admiração que nutria por ela se torna um ciúme doentio, que ao poucos vai acabar com a relação dos dois.

O momento trágico do livro se dá com o suicídio de Madalena. Com a morte dela, o protagonista tem uma clarividência tardia de seus erros e reconhece que poderia ter sido um marido melhor, apesar de confessar que, talvez, se pudesse voltar no tempo faria tudo novamente. Corroído pelo remorso, encontra ainda o verdadeiro culpado pela desgraça que se abateu sobre ele: o modo de vida que levou, o único que conheceu e que o impediu de se humanizar. A conseqüência disso é ver-se desfigurado, como um monstro.

Existem ainda personagens secundários que contribuem para a história e que também foram influenciados pela quantificação: o Bacharel João Nogueira, advogado, que procura mudar seu discurso de acordo com o interlocutor. O Dr. Magalhães, um juiz que representa a integridade, sendo comedido, e nunca sabendo mais do que o necessário para sua profissão. Padilha, o ex-dono da fazenda que depois se torna propriedade de Paulo Honório. Ele gasta sua vida no jogo e bebidas e por fim, acaba indo trabalhar em São Bernardo, como professor primário.

Marciano e Rosa, marido e mulher, ele é maltratado por Paulo durante todo o livro e ele mantém um caso com o patrão; e D. Gloria, tia de Madalena que procura um casamento para a sobrinha.

Dentre eles, Seu Ribeiro, representa mais que um simples personagem secundário na obra, pois sua personalidade faz um contraponto com a de Paulo. Ele havia sido lento e patriarcal quando dono de terras, mas daí aparece o sistema capitalista, a voz dos novos tempos trazida por Paulo Honório, devastando o modo de relações de São Bernardo e o seu sistema anterior.



4. narrador e focalização
Em São Bernardo, o narrador é o protagonista Paulo Honório, ou seja, é um narrador autodiegético: segundo Reis e Lopes (2002, p. 118), citando Genette, é "o narrador da história que relata as suas próprias experiências como personagem central da história". "Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinqüenta anos pelo São Pedro..." (RAMOS, 1995, cap. 3, p. 10)

Portanto, "[...]o mundo áspero, as relações diretas e decisivas, os atos bruscos, a dureza de sentimentos, tudo que forma a atmosfera de São Bernardo decorre da visão pessoal do narrador" (CÂNDIDO, 1992, p. 77). Assim, a escolha de Graciliano Ramos por um narrador autodiegético também é elemento central na obra. As características pessoais (objetividade, modo prático) de Paulo Honório enquanto narrador de um texto literário saltam aos olhos logo no início do romance: ele declara ter dificuldade para escrever, que preferiria dividir o trabalho de escritura para obter melhores resultados em menos tempo, e que não se preocupa com uma ‘escrita literária’. "Para ele, realizar um romance é apenas contar uma intriga, sem a preocupação da maneira de contar". (LINS, 1967, p.58 )


As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor. (RAMOS, cap. 2, p.13)
Essa descrição, porém, só seria aqui embutida por motivos de ordem técnica. E não tenho o intuito de escrever em conformidade com as regras. Tanto que vou cometer um erro. Presumo que é um erro. Vou dividir um capítulo em dois[...]. (Final do cap. 13, p. 78)
"(...) São Bernardo apresenta uma variação de grande importância: o personagem-narrador comparece em cena enquanto se acha ocupado com a composição." (MOURÃO, 1971, p. 35)
Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as idéias não vêm, ou vêm muito numerosas – e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera [...]. ( RAMOS, Cap. 19, p.100-101)
A focalização neste romance é interna fixa, que é a centralização do ponto de vista numa só personagem, Paulo Honório. Por exemplo quando conversa com d. Glória no trem, assuntando sobre Madalena, expõe sua visão acerca de sua objetividade:
"Essa conversa, é claro, não saiu de cabo a rabo como está no papel. Houve suspensões, mal-entendidos, incongruências, naturais quando a gente fala sem pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras. [...]. (RAMOS, Cap. 13, p. 77).
Segundo Lafetá (1977, p. 186) "Paulo Honório nasce de cada ato; mas, por outro lado, é ele quem deflagra todas as ações, esta interação entre o ser e fazer vão compor a construção do romance." A maneira direta de contar o desejo de possuir São Bernardo e a sua conquista reflete para nós um Paulo Honório que governa o mundo e imprimi-lhe o seu ritmo. A velocidade da narrativa é reflexo de "Paulo Honório que trás a força de tempos novos que surgem, vencendo a inércia e quebrando obstáculos." (LAFETÁ, 1977, p. 181). Os fatos quase sempre são mostrados e não referidos, o leitor é colocado diante de algo parecido com uma representação.

"Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma idéia que me veio sem que nenhum rabo-de-saia a provocasse. Não me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é um bicho esquisito, difícil de governar." (p. 57)

Desde o começo do romance, o leitor depara-se com um narrador que sabe exatamente o que quer: enérgico, decidido, que não desanima diante do fracasso. "Há uma voz narrativa que dirige o leitor e dirige o resto também, o que fica para o leitor é a sua força [de Paulo Honório] que domina tudo" (LAFETÁ, 1977, p. 193). Aliás, até mesmo o leitor é empurrado para dentro da narrativa, sem rodeios nem avisos. Exemplo desta força de rolo compressor está quando Paulo Honório fala do jornalista Gondim:
"[...]eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as idéias confusas que me fervilhavam na cabeça." (p. 6)
Com uma técnica narrativa que marca vigorosamente o tempo, o jogo da velocidade e os recuos temporários, Paulo Honório narra a posse de São Bernardo e de Madalena. Até a posse de Madalena a narrativa segue em linha reta de ação. A partir daí, a narrativa prossegue de forma enovelada: o dinamismo de Paulo Honório encontra-se constrangido, afinal é o momento em que ele se apaixona, mesmo que tenha tentado dizer que era somente para ter um "herdeiro". A ação em linha reta é retomada no desfecho da narrativa. No final do capítulo 35, o estilo revela a impotência do herói; assim finda este penúltimo capítulo:
"E recomecei os meus passeios mecânicos pelo interior da casa. Às vezes empurrava a porta do escritório para dar uma ordem a seu Ribeiro. Parecia-me ver d. Glória malucando no pomar, com o romance. E os meus passos me levavam para os quartos, como se procurassem alguém." ( RAMOS, p. 183)
A objetividade que caracteriza o romance nasce da postura do narrador face ao mundo e do distanciamento no tempo; Paulo Honório lança um olhar sobre sua vida e procura recapitulá-la, contando-a para si e para o leitor. "Ao entrarmos no presente da enunciação, o distanciamento desaparece, o ritmo rápido da enunciação é substituído pelos compassos mais lentos de uma reflexão. Paulo Honório abandona a ação e volta-se sobre si mesmo." (LAFETÁ, 1977, p. 194)

No instante em que o ato de escrever e o tempo da enunciação são concomitantes há a infiltração da subjetividade de Paulo Honório:


Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritório abre-se de manso, os passos de seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Terá realmente piado a coruja? Será a mesma que piava há dois anos? [...]. (Cap. 19, p. 102-103)
A objetividade inicial do romance é aos poucos substituída pela subjetividade do autor-narrador e aparece com mais força em dois momentos da narrativa: no período do casamento e no ciúme, o que retira a segurança do narrador e que o faz duvidar do que vê:
Afastava-me, lento, ia ver o pequeno, que engatinhava pelos quartos, às quedas, abandonado. Acocorava-se e examinava-o. Era magro. Tinha os cabelos louros, como os da mãe. Olhos agateados. Os meus são escuros. Nariz chato. De ordinário as crianças têm o nariz chato. Interrompia o exame, indeciso: não havia sinais meus; também não havia os de outro homem. (RAMOS, p. 137)

 

"[...] Paulo Honório escreve seu livro e busca o sentido de sua vida. [...] São Bernardo romance é a tentativa de encontrar o sentido da vida perdido e encontro final e trágico consigo mesmo e com a solidão" (LAFETÁ, 1977, p. 196-197).


Assim finda o livro: "E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns instantes." (RAMOS, 1995, p. 191)
5. tempo
Não se sustenta que se possa medir o valor de qualquer romance totalmente em termos de sucesso com que nele seja tratado o elemento temporal. [...] Tudo o que se reivindica, e a reivindicação é grande, é que o elemento temporal em ficção é da maior importância, e que em grande parte determina a escolha e o tratamento por parte do autor, o modo pelo qual este articula e dispõe os elementos de sua narrativa e o modo como usa a linguagem para expressar o seu senso do processo e do significado de viver. (MENDILOW, 1972 p. 263)

Em São Bernardo equilibram-se as tendências cronológicas e psicológicas, embora haja vantagem para as segundas.

A narrativa cobre toda a vida de Paulo Honório até aos 50 anos, idade que tem no presente da escrita, mas o seu andamento no tempo sofre alterações não conhecidas em São Bernardo. Há um primeiro período que vai até aos 18 anos e é relatado em pouco mais de meia página. Um segundo período que se estende até aos 45 anos e abrange mais ou menos 7 capítulos e meio, nos quais são mencionados alguns fatos e personagens que interessam para o enredo: a personalidade de Padilha, a aquisição de São Bernardo, a história de Seu Ribeiro e as intrigas de Mendonça. Por fim, um terceiro período mais curto, dos 45 aos 50 anos, em que ocorrem os acontecimentos que levaram à escrita do romance.

Neste curto período de 5 anos, iniciado com o conhecimento de Madalena, há ainda a assinalar os três anos de vida de casados e, dentro desse tempo, o ano em que os acontecimentos se precipitaram: o ano do ciúme, do suicídio de Madalena e da escrita do romance. Estas etapas definidas representam o tempo dos acontecimentos.

Na primeira fase (até aos 18 anos), o ritmo é vertiginoso, porque se trata de um tempo que deixou na consciência do protagonista poucas marcas. A segunda, que compreende 27 anos é apresentada em andamento vagaroso, sem preocupações cronológicas. A terceira decorre em marcha lenta, com confusões de tempo psicológico e cronológico, abrangendo 25 capítulos.

Considerando que a história começa quando o narrador-protagonista, Paulo Honório, fala desde sua infância, os dois primeiros capítulos são prolépticos.

No primeiro capítulo, três páginas concentram uma boa quantidade de informação. O narrador-protagonista, cujo nome só saberemos no capítulo III apresenta como objetivo escrever um livro e caracteriza sumariamente várias personagens que o ajudariam na empreitada: Padre Silvestre, João Nogueira, Arquimedes, Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, o próprio narrador.

O leitor é jogado em um mundo que desconhece, sem nenhuma palavra que sirva para localizá-lo, nenhuma descrição que lhe permita conhecer de antemão o mundo que vai agora visitar. Só uma voz narrativa, em primeira pessoa, o guia. O ritmo rápido prossegue e logo o leitor fica sabendo das razões do fracasso do projeto de Paulo Honório escrever o livro em conjunto.

No segundo capítulo o narrador-protagonista fala que pretende contar a sua história. Ficamos sabendo que tem 50 anos e que é fazendeiro. Paulo Honório também nos fala sobre sua dificuldade de escrever um livro.

O ritmo dos primeiros capítulos é vertiginoso. No terceiro, Paulo Honório começa a contar sua história. Através de um modo de narrar bastante conciso, ficamos sabendo de fatos decisivos da vida de Paulo Honório: sua infância miserável, o crime que o deixou “três anos, nove meses e quinze dias” na cadeia, os primeiros negócios e violências no sertão.

O episódio do esfaqueamento por causa da Germana é relatado por Paulo apenas no essencial:
Depois botou os quartos de banda e enxeriu-se com o João Fagundes, um que mudou o nome para furtar cavalos. “O resultado foi eu arrumar uns cocorotes na Germana e esfaquear João Fagundes” (RAMOS, 2005, pg. 16).
Com relação à duração, podemos dizer que nos primeiros capítulos do romance predomina o sumário que de acordo com Norman Friedman “é a exposição generalizada de uma série de eventos, abrangendo um certo período de tempo e uma variedade de locais”, portanto imprimindo rapidez à narrativa. Segundo Friedman, diferentemente do que acontece na cena, na qual o acontecimento é mais importante, no sumário o que mais interessa é a atitude do narrador.

O fato de o narrador contar algo que já aconteceu, estar distanciado do tempo dos fatos dá a narrativa um tom objetivo. Paulo Honório seleciona alguns momentos que acha importantes de sua evolução. Podemos falar de uma pseudo-onisciência.

Lafetá em “O mundo à revelia” diz que a objetividade que ressoa em todo o romance se dá também pela marcação obsessiva do tempo, cronometrado com precisão pelo narrador; pela linguagem seca, econômica, brusca e sem rodeios de Paulo Honório, ou seja, pela postura do narrador-protagonista face ao mundo.

Caracterizam ainda a objetividade da história de Paulo Honório as elipses sucessivas que ali se produzem. Paulo Honório nos apresenta muitos acontecimentos como simplesmente consumados como, por exemplo, o nascimento do filho.

Paulo Honório quantifica tudo ao seu redor, até ele mesmo. Para ele tudo é mensurável, catalogado. E movido pelo sentimento de propriedade não mede esforços para conquistar seus objetivos, portanto, o fim justifica os meios.

Principalmente com a morte de Madalena, Paulo Honório começa a não ter mais controle sobre as coisas. É o que Lafetá chamou de “o mundo à revelia”, fora do domínio do narrador-protagonista.

Segundo o autor, a partir daí entramos em uma outra etapa, a vida atual de Paulo Honório. Em contraste com a narrativa, o tempo que se instala agora traz problemas diferentes e, em conseqüência, proporciona mudanças no conteúdo e na composição do livro.

De acordo com Lafetá, a duplicidade temporal – o tempo do enunciado (se refere aos eventos que ocorreram na vida de Paulo Honório) e o tempo da enunciação (o momento em que se escreve o livro) - está ligada ao problema do ponto de vista narrativo.

No presente de enunciação o distanciamento desaparece e tem implicações profundas na narrativa. A linguagem seca do tempo de enunciado cede espaço a uma mais lírica, de lamentação; o ritmo acelerado dá lugar a compassos mais lentos. Paulo Honório abandona a ação e volta-se para si mesmo, buscando na memória de sua vida o ponto em que se desnorteou “numa errada”.

No tempo da enunciação notamos imediatamente a infiltração dos signos da subjetividade, a irrupção do monólogo interior, o abalo do ponto de vista pseudo-onisciente. A narração do tempo que antes aparecia de forma obsessiva e precisa agora parece escapar ao domínio de Paulo Honório:


Uma pancada no relógio da sala de jantar. Que horas seriam? Meia? Uma? Uma e meia? Ou metade de qualquer outra hora? [...] Segunda pancada no relógio. Uma hora? Uma e meia? Só vendo. [...] Ah, sim, ver as horas. Empurrava a porta, atravessava o corredor, entrava na sala de jantar. Sempre era alguma coisa saber as horas. (RAMOS, 2005, p. 181).
A capacidade de controlar o tempo estava ligada à capacidade de ação e domínio. Neste momento, a dúvida, a oscilação, a insegurança simbolizam a incapacidade do narrador de controlar um mundo que já não pode reduzir à objetividade da medida exata, que foge de seu controle.

Mas é de fato no momento em que o tempo da enunciação começa a ser representado, quando Paulo Honório escreve, que a subjetividade aparece com toda força. O capítulo XIX é crucial, bem no meio do romance (que possui trinta e seis capítulos), pois mistura objetividade e subjetividade, memória e presente.

Enfim, Paulo Honório, corroído pelo sentimento de frustração, busca a partir da escritura (e o faz através da memória) se equilibrar, procura um sentido para sua vida. Assim, o narrador-protagonista se aproxima o máximo do ser humano, capaz de refletir, porém, incapaz de chegar a respostas definitivas: “E vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos”.(RAMOS, 2005, p.221).

6. espaço
As ações do romance São Bernardo se passam predominantemente na fazenda São Bernardo, situada no município de Viçosa, que fica na zona da mata de Alagoas.

De acordo com Luiz Costa Lima (1969, p. 49), a evidente proximidade entre a realidade social e o ambiente de S. Bernardo cria uma confusão de planos deformadora, o que faz com que muitos acabem vendo o romance como um exemplo de realismo fotográfico, ou seja, com peças componentes copiadas da realidade externa. No entanto, é importante lembrar ainda que, se pensarmos no romance como um documento sociológico, fatalmente ele merecerá um lugar secundário, já que o mesmo não conta com dados rigorosos de pesquisa e de estatística.

Na verdade, a natureza sob o modo de paisagem está praticamente ausente da obra. É que as referências à paisagem são escassas. Não temos, como diz Antonio Candido, descrições no sentido romântico e naturalista, em que há visões ou arrolamentos da natureza ou das coisas encaixadas no texto periodicamente. Em S. Bernardo,
[...] surgem a cada passo a terra vermelha, em lama ou poeira; o verde das plantas; o relevo; as estações; as obras do trabalho humano: e tudo forma enquadramento constante, discretamente referido, com um senso de oportunidade que, tirando o caráter de tema, dá significado, incorporando o ambiente ao ritmo psicológico da narrativa. [...]. (CANDIDO, 1992, p. 32, grifo do autor).
Graciliano Ramos exprime o espaço com fidelidade, mas podemos dizer que ele é psicológico porque o mesmo aparece em função do Paulo Honório, narrador de sua memória. As referências ao espaço na narrativa aparecem segundo sua visão. A paisagem exterior é uma projeção do homem nesta narrativa, segundo Álvaro Lins (1967, p.262). Como Paulo Honório é uma personagem prática, objetiva, ele só repara nas coisas que lhe podem ser rendosas. Ele constrói uma escola e uma igreja na propriedade, mas as vê como capital. Neste trecho, em que a personagem relata sua viagem de trem podemos perceber bem essa quantificação do espaço:
Uma coisa que omiti e produziria bom efeito foi a paisagem. Andei mal. Efetivamente a minha narrativa dá idéia de uma palestra realizada fora da terra. Eu me explico: ali, com a portinhola fechada, apenas via de relance, pelas outras janelas, pedaços de estações, pedaços de mata, usinas e canaviais. Muitos canaviais, mas este gênero de agricultura não me interessa. Vi também novilhos zebus, gado que, na minha opinião, está acabando de escangalhar os nossos rebanhos. (RAMOS, 1995, cap. 13, p. 77-8).

Paulo Honório não vê as coisas na sua variedade de formatos, de cheiros, de cores, pois as transforma em quantidades. Ele é como um rei Midas mais modesto, nas palavras de Luiz Costa Lima. Em todo o romance, o narrador abre as portas da memória para se comprazer nos tons da paisagem poucas vezes: quando procura dar expressão panorâmica dos seus sentimentos íntimos, ou seja, da sua alegria vitoriosa após casar-se com Madalena, de maneira rigorosamente indireta e até lírica (MOURÃO, 1971, p.67).


Casou-nos o padre Silvestre, na capela de S. Bernardo, diante do altar de São Pedro.

Estávamos em fim de janeiro. Os paus-d’arco, floridos, salpicavam a mata de pontos amarelos; de manhã a serra cachimbava; o riacho, depois das últimas trovoadas, cantava grosso, bancando rio, e a cascata em que se despenha, antes de entrar no açude, enfeitava-se de espuma. (RAMOS, 1995, cap. 17, p. 94).


Como diz Mourão, como não ficamos sabendo nada sobre a solenidade ou os convidados do casamento, o estado psicológico de Paulo Honório ganha extraordinário relevo através dessa descrição.

Paulo Honório coisifica tudo e se coisifica também. Como lembra Cândido, ele chega ao ponto de incorporar a fazenda S. Bernardo ao seu próprio ser, como atributo penosamente elaborado. Paulo Honório é caracterizado pelo seu exterior. Podemos, inclusive acompanhar sua trajetória através da do estado em que se encontra a fazenda. Quando o narrador adquire a mesma, a propriedade está em cacos e a casa grande com as paredes caídas, apesar de a terra ser excelente. Depois, o narrador enriquece e se torna poderoso, invade as terras alheias deslocando as cercas, e reconstrói a casa. Para ele, S. Bernardo era o lugar mais importante do mundo, mas com sua decadência, encontramos uma fazenda em que desaparecem as diversas culturas, as laranjas amadurecem e apodrecem nos pés, tudo fica abandonado, os marrecos-de-pequim que ele elogiara a Madalena enquanto tentava conquistá-la morrem, as cercas dos vizinhos avançam em seu terreno e a casa, outrora sempre cheia de visitantes, fica vazia.

Em São Bernardo encontramos ainda alguns traços de ambientação. No capítulo 31, na cena da igreja, que antecede o suicídio de Madalena, por exemplo, a mesma aparece como que do outro lado das coisas terrenas. Isso acontece devido ao diálogo que se estabelece, mas também devido à identificação de Madalena com os santos dependurados na parede. Além disso, a vela que se apaga, a escuridão, o vento frio, o gemido da porta, as folhas secas, o relógio parado representam a morte que se aproxima.

No momento da enunciação, ou seja, enquanto Paulo Honório escreve sua história, temos também alguns traços. A atmosfera noturna acompanha o processo de escritura do narrador, e não por acaso, pois é durante a noite que o homem perde um pouco as fronteiras do cotidiano e do racional. Esta é representada na narrativa pela sua maior característica, isto é, a escuridão e por objetos, como as laranjeiras e as corujas. As folhas das laranjeiras, elementos recorrentes no texto, estão ligadas à reflexão e ao processo de escrita:

As corujas, zoomorfização da noite, animais noturnos, portadores de elementos que conotam morte ou tragédia, aves amaldiçoadas como o próprio Paulo Honório o diz, desencadeiam o processo de escritura através do seu pio e o assombram mesmo depois de as mesmas terem sido mortas. Podemos falar ainda do relógio, que acompanha a trajetória de Paulo Honório, pois quando este está no controle das situações, temos indicações na narrativa do horário em que acontecem os fatos, mas quando o protagonista perde este controle, perde também a capacidade de saber as horas.
7. tema
No romance São Bernardo de Graciliano Ramos o tema é a reificação. A personagem Paulo Honório aplica conceitos e práticas capitalistas em suas relações humanas, e tal fenômeno acaba por provocar um drama moral e o homem que conquistou as terras de São Bernardo com este pensamento, vê seu mundo desfeito, a fazenda abandonada e ele mesmo, sozinho.

Sendo assim, escreve suas memórias na tentativa de compreender suas ações, seus motivos e seus erros, que o levaram a esta situação.

De acordo com José Luiz Lafetá (1977, p.187), o conceito de reificação consiste no afastamento e na abstração “de toda qualidade sensível das coisas, que é substituído na mente humana pela noção de quantidade” e tem sua origem no capitalismo que é classificado pelo mesmo crítico como “empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente, dinâmico e transformador” (op. Cit., p.181), como a personagem de Paulo Honório.

Como a reificação afeta as relações interpessoais, acaba por destituí-las de qualquer valor sensível, criando ilusoriamente um valor de troca. Sendo assim, as relações humanas transformam-se em relações entre possuidor e objeto possuído.

Conforme Luiz Costa Lima (1950, p.53) em “A reificação de Paulo Honório”, “a profundeza, bem como a tragédia de Paulo Honório tem suas raízes na reificação da vida e dos valores estabelecidas pelo seu afã de posse de S. Bernardo”. Porém não se deve pensar na personagem como sendo determinada unicamente pelo meio, como nos diz Antonio Candido (1971, p.104), que chama a atenção para um antinaturalismo presente na obra: “a técnica é determinada pela redução de tudo, seres e coisas, ao protagonista. Não se trata mais de situar uma personagem no contexto social, mas de submeter o contexto ao seu drama íntimo”. O contexto surge, portanto, através da visão do narrador.

Sob a mesmo perspectiva, Otto Maria Corpeaux (1943, p. 348), coloca como chave para a interpretação da obra de Graciliano Ramos a situação de sonho, na qual as personagens são imersos, e que o egoísmo dessa personagem...


É o egoísmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro de um mundo real, só ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, de certo toda ‘generosidade’; mas a substitui por um sentimento mais vasto de identificação quase místico com as criaturas da própria imaginação.
Paulo Honório acredita que é diferente das pessoas que o cercam e escreve: “coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante”.(RAMOS, 1975, p.195). Na visão dele, os seres humanos são classificados como bichos:
Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns nos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.(RAMOS, 2005, cap 34, p.207).

Contudo, não podemos ignorar a crítica social existente na obra. Ela não está anulada, mas apresentada de modo a adquirir feição artística e literária, ultrapassando os limites do determinismo, pois conforma afirma Luis Costa Lima (1959 p.69):



Nenhuma obra de ciência, nenhuma pesquisa social nos poderia indicar com veracidade a ultimo ponto atingido pela reificação do individuo. As palavras em um romance, não são apenas signos que apontam para a realidade exterior. Ela sem duvida que levam a realidade, mas à uma realidade cuja inteireza não pode ser confundida com a socialmente dada. Por assim dizer, a palavra ficcional, viola a realidade para melhor alcançá-la e então dizê-la.



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