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Urgência das Ruas


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pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição.

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Organizador: Ned Ludd (Coletivo Baderna)



Título: Urgência das ruas: Black Block, Reclaim The Streets e os Dias de Ação Global

Capa: Giseli Vasconcelos & Marcelo Ramos

Tradução: Leo Vinícius

Data Publicação Original: 2002

Data da Digitalização: 2005

Urgência das Ruas



SUMÁRIO

Antes de tudo... 05

AGP e o inicio dos Dias de Ação Global 13

O J18 em Londres (OMC) - Janeiro de 1999 18

Texto do panfleto internacional,18 de junho de 1999 19

O que foi o dia 18 de Junho? 22

Abandone o ativismo 24

A ideologia da "globalização” · 38

OMC - Por que totemizar a opressão? 42



A Batalha de Seattle (OMC) - Novembro de 1999 46

O que foi o dia 30 de novembro (1999)? 47

Comunicado do N30 Black Block pelo coletivo ACME 50

Entrevista com participante do Black Block do N30 58

Sobre desorganização 64

Washington (Banco Mundial e FMI) - Abril de 2000 66

Dossiê antiglobalização/EUA - Black Block... 68

Black Block de Los Angeles... 79

Reação Global (Mayday) - Maio de 2000 82

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A política das ruas: uma resposta à cobertura da mídia do MayDay 84

Um S.O.S. ao MayDay: Terceira Onda versus Terceira Via 87



A Batalha de Praga (FMI) - Setembro de 2000 97

A polícia se prepara para Praga 98

Praga: um relato recebido... 100

Situação nas prisões 111

Entrevista com participante da Ação Global dos Povos 113

Cercando a ALCA 119

Usar uma camiseta toma você um terrorista 120

Por integrantes do Black Block – Canadá 122

Radicalize! Construindo a resistência à ALCA... 140

Comitê de Boas-Vindas ao Encontro das Américas (CASA) 144

O Black Block em Quebec: uma análise 147



O Cerco de Gênova (G8 e FMI) - Julho de 2001 150

Contra a criminalização do Black Block 154

Gênova, Itália: um relato 156

Gênova, 21 de julho... impressões após os distúrbios 182

De um irlandês no Black Block 184

Depois de Gênova 186

Não nos salvemos à custa do Black Block 187

Carta de dentro do Black Block 189

Uma entrevista com usuários do Black Block 191

Explicação da motivação do bloco negro/anarquista 192

Gênova: indo além do debate sobre a violência... 197

Um trabalho Italiano 207

Nova chamada à ação da convergência anticapitalista 208

Era assim antes... 219

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Apêndice 212

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Urgência das Ruas



ANTES DE TUDO...

Este livro não é sobre o "movimento antiglobalização". Tal movimento foi criado

na tela da 1V e nas colunas dos jornais burgueses. Infelizmente, cada vez mais pessoas

que têm protestado nas ruas do mundo estão assumindo essa identidade forjada pela

mídia, delegando assim explicitamente esse poder a ela. A definição dos próprios

termos da discussão, impondo assim limites a uma suposta dissidência, é o próprio

diagnóstico da saúde de qualquer relação de poder.

Ele também não pretende ser um retrato totalizante dos grupos e pessoas - seus

pensamentos e formas de ação - que têm ocupado as ruas de Seattle, Washington d.C.,

Londres, Praga, Quebec, Gênova... Apreender tamanha diversidade exigiria uma

enciclopédia e não apenas um volume, se é que tal empreendimento é possível.

Reduzir a complexidade da vida transformando-a em produto para o consumo de

espectadores é a especialidade da mídia. Deixemos esse trabalho sujo a ela.

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O fenômeno das manifestações-bloqueio em encontros dos gestores do

capitalismo internacional, ou mais genericamente os Dias de Ação Global, que têm

impedido e perturbado as reuniões de instituições reguladoras do capitalismo global -

como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Banco Mundial (BM), o Fundo

Monetário Internacional (FMI) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte

(OTAN) - nos países da Europa e da América do Norte, gerando verdadeiras batalhas

nas ruas, tem sido um fator importante de deslegitimação, senão das instituições

capitalistas como' um todo, ao menos do pensamento econômico neoclássico que tem

pautado de forma absolutista as políticas ditadas pelo BM, FMI, OMC, BID.

A partir desse processo de deslegitimação da vertente neoliberal do capitalismo,

a contestação praticada nas ruas, organizada basicamente por grupos de afinidade de

forma autogestionária, isto é, não-hierárquica, não-burocrática e autônoma,

naturalmente tenta ser capitalizada na forma de dividendos políticos pela esquerda

capitalista: representada por ONGs (Organizações NãoGovernamentais) e partidos que

buscam maior espaço na gestão do capitalismo. Afinal, transformar os impulsos de

revolta contra a sociedade instituída em simples reivindicações compatíveis com o

imaginário instituinte da sociedade capitalista sempre foi a prática da esquerda

institucionalizada.

De qualquer forma, o fato é que uma resistência anticapitalista e antiautoritária

tomou com força nessa virada de milênio os palcos das ruas da Europa e da América

do Norte. Esse tom anticapitalista e libertário que anima os Dias de Ação Global e as

manifestações-bloqueio - nascido das selvas de Chiapas (México), da música

verdadeiramente underground (não de Rage Against The Machine como gostam de

citar os jornais burgueses), de raves, de squats1 e infoshops anarquistas - ao mesmo

tempo que é por demais evidente e enormemente significativo, tende a ser desprezado

e preterido cada vez mais pela mídia e pelos capitalistas de esquerda, o que não

poderia deixar de ser diferente. Qual será o espaço reservado para esses anticapitalistas

e antiestatistas na história oficial? Serão eles engolidos nessa massa uniforme que

chamam “movimento antiglobalização”, "povos de Seattle" ou "povo de Porto

1 Casas ou prédios abandonados, que são transformados em locais de moradia e centros culturais e

sociais. (N.T.)

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Alegre?” E suas energias serão relembradas como se tivessem sido postas a serviço do

cancelamento da dívida do terceiro mundo, da taxação do capital financeiro ou do

orçamento participativo municipal? Servirão os "radicais" libertários de bucha de

canhão e tropa de choque para o ganho político dos capitalistas de esquerda? A

resposta será dada também pela capacidade de articulação e estruturação dessa

resistência anticapitalista e libertária.

Os textos apresentados aqui formam uma coletânea de relatos, comunicados,

artigos e entrevistas de participantes de "grupos" anticapitalistas e antiautoritários com

presença ativa, importante, destacada, e muitas vezes polêmica, nas manifestaçõesbloqueio

e nos Dias de Ação Global. Além de apresentar, documentar e difundir as

idéias e as práticas destes grupos anticapitalistas, os textos coletados buscam contar

um pouco da participação e das idéias de dois deles em especial: o carnavalesco



Rec1aim The Streets inglês, e os "malditos" Black Blocks.

Surgido na Inglaterra no início dos anos 90 a partir da luta antiestradas, uma das

características do Rec1aim The Streets (RTS) tem sido uma auto crítica severa, algo

realmente inspirado r e não muito comum, seja em indivíduos ou coletividades, o que

dá ao RTS a propriedade de estar sempre em movimento, procurando cobrir suas

insuficiências e encontrar as práticas adequadas para suplantar o capitalismo em prol

de sua visão de sociedade ecológica, comunista e libertária. Grande parte dos textos

produzidos e publicados pelo RTS são auto críticos, sendo que o leitor encontrará aqui

uma amostra deles. Essa reflexividade e autocrítica talvez tenham sido o motivo que

levou o RTS a reduzir sua iniciativa na organização e divulgação de Dias de Ação

Global Contra o Capitalismo ao longo do tempo. O RTS inglês foi inicialmente o

principal impulsionador na Europa, e talvez no mundo, do mecanismo de coordenação

de movimentos sociais chamado Ação Global dos Povos (AGP). Foi também ele um

dos grandes impulsionadores dos primeiros Dias de Ação Global. Sua auto crítica logo

o levou a compreender a limitação da prática do Dia de Ação Global, e provavelmente

já o fez dividir mais sua energia, caminhando por outros rumos. A diminuição do

protagonismo exibido pelo RTS inglês pode ser percebido ao longo dessa coletânea,

através da diminuição da própria produção de artigos pelo RTS concernentes aos Dias

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de Ação Global no decorrer do tempo.

Enquanto o RTS, os Black Blocks e os imensos e organizados distúrbios que

acompanham as tentativas de encontro dos gestores do capitalismo mundial têm sido

um fenômeno essencialmente do Norte (EUA, Canadá e Europa), algumas questões e

polêmicas levantadas em tomo dessas ações, e do Black Block em especial, não são

novas e concernem também ao Sul.

Muito provavelmente os manifestantes que formam os Black Blocks estão 'entre

os que menos nutrem ilusões em relação à natureza do capitalismo e do Estado, mesmo

em sua feição democrática. Seus métodos e práticas exprimem de alguma forma essa

percepção, e, coincidentemente ou não, recebem por isso a pecha de "violentos" tanto

pela mídia quanto por ONGs, partidos políticos, capitalistas de esquerda e de direita,

liberais, sejam eles também manifestantes ou não.

Certamente categorias tão carregadas de peso moral como violência e nãoviolência

têm tudo para se tomarem artifício retórico reacionário no contexto de

levantes populares. Todas as "greves selvagens" e insurreições populares, dos

communards aos zapatistas, sempre foram pelo menos em algum momento - até

quando os defensores da ordem estabelecida puderam sustentar seus discursos -

descritas como irrupções de violência, na tentativa de isolá-Ias, criminalizá-Ias e

desqualificá-Ias moralmente. Se levarmos em conta que as ações dos Black Blocks

nessas manifestações-bloqueio feriram sem gravidade no máximo apenas alguns

poucos policiais, enquanto milhares de manifestantes saíram feridos pelas investidas

policiais, tachá-Ios de "violentos" deveria ser algo RTSível, que só demonstra o quanto

àqueles que assim os rotulam ainda se encontram imersos e devedores da moral e da

ordem burguesa.

Com certeza não se deve deixar de criticar ou discordar das ações dos Black



Blocks com base em aspectos táticos ou de efetividade, caso a caso, mas o simples

apelo à categoria moral violência, quando se está a enfrentar a força repressiva do

Estado, faz tanto sentido quanto atirar balas de borracha neles ou prendêlos. Ou seja,

só faz sentido, só é racional, para aqueles que consciente ou inconscientemente

defendem a ordem instituída e a vida miserável naturalizada no capitalismo.

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Urgência das Ruas



Dessa forma, os Black Blocks têm levantado e explicitado certos conflitos que

aparecem também no Sul, onde muito freqüentemente os burocratas de esquerda são

os primeiros a isolar, criminalizar e condenar indiscriminadamente as "minorias

violentas", os "provocadores", aqueles que "não têm nada a dizer". E nem sequer são

capazes de reconhecer um fato que deveria ser lugar-comum, expressado nas palavras

de um manifestante durante a reunião do G-8 em Gênova (Itália):

"Nenhum político e nenhum grande banqueiro ficará impressionado com 500 mil

manifestantes pacíficos, uma vez que não haja dúvida de que eles irão permanecer

não-violentos todo o tempo. Somente a possibilidade de radicalização toma um

movimento ameaçador e por conseqüência forte".

Embora o manifestante tenha utilizado a categoria não-violência (o que implicou

a atribuição implícita da categoria violência aos "radicais") - que como o leitor notará

é muitas vezes utilizada infelizmente também por indivíduos que formam os Black

Blocks -, a afirmação acima expõe sublinearmente dois conceitos que, além de não

carregarem o peso moral da categoria violência, são muito mais explicativos dos reais

pontos de conflito que opõem de um lado "radicais" (adeptos ou não das práticas do

Black Block) e do outro aqueles que os condenam e criminalizam com base em

preceitos morais. São eles controle e disciplina.

É notório que os avanços sociais, mesmo as reformas, são sempre conseguidos

devido à ação das massas, pela pressão da revolta, ao contrário do que os "socialistas"

parlamentaRTStas induzem a pensar. A própria reforma agrária impulsionada pela

ação direta dos sem-terra no Brasil demonstra isso.

A questão que se coloca é por que sempre foi preciso a "agitação das massas"

para que os donos do poder cedam, para que sintam alguma ameaça? Em outras

palavras: o que na "agitação das massas" traz um medo ao status quo causando-lhe

uma pressão que a expressão verbal, entre outras, não causa?

A resposta a esta pergunta pode nos ajudar a responder por que 5 mil indivíduos

de grupos de afinidade tomando determinada forma de ação causaram maior impacto e

provavelmente maior pressão ao status quo do que 60 mil sindicalistas e ONGs em

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Urgência das Ruas



marchas, palestras e discursos em Seattle (EUA).

Foucault salientava que a disciplina que mantém e define um determinado

ordenamento social é uma técnica de operação sobre os corpos de modo a obter um

resultado concreto. A disciplina dos corpos exprime a estabilidade de um sistema.

Uma sala de aula só "funciona" porque os corpos dos alunos, isto é, os alunos, estão

disciplinados a se disporem de uma determinada maneira. E assim é em todos os

espaço-tempos na sociedade, de um teatro, passando por um exército, um show de

rock ou a locomoção pelas ruas.

A indisciplina do corpo em um determinado espaço-tempo, ordenado sob uma

disciplina específica, pode levar o sujeito muitas vezes à pRTSão ou ao hospício. O

"delito" e a "loucura" são algumas das criações que a nossa sociedade reservou para os

corpos indisciplinados.

Manifestantes que transformam seus corpos em catapultas, que atiram pedras em

barreiras num espaço que exige uma outra disciplina (ou uma disciplina), quebrando a

rotina e a tranqüilidade dos que dirigem e comandam a economia e a política, demonstram

(pelo menos em certo período e espaço) a ausência daquilo que mantém as

coisas em ordem e o capitalismo em vigor: a disciplina. As ruas não são o local

determinado no capitalismo para corpos atirarem pedras e nem serem barricadas, e não

são o local para enfrentamentos econômicos e políticos: as mesas de "negociações" e o

parlamento são os espaços na nossa sociedade para isso. O sinal dado aos homens no

poder por esta autoorganizada indisciplina em massa, a "agitação das massas", é de

que as pessoas começam a não se posicionar mais nos lugares estabelecidos e a não se

comportar mais do modo necessário para a continuidade do sistema, por motivo de um

desejo, aspiração ou reivindicação. O sinal dado pela indisciplina em massa, que

enfrenta o delito e a loucura (a marginalidade), assusta e pressiona muito mais os que

estão no poder do que outras formas de manifestação, por ser já um rompimento com a

disciplina do sistema, antecipando a imagem de um rompimento total.

Cinqüenta mil disciplinados manifestantes podem por isso ter menos peso em

uma pressão e ameaça aos dirigentes do que 5 mil indisciplinados e desobedientes.

Setecentas mil vozes gritando nas ruas pode ser pouco como instrumento de força,

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Urgência das Ruas



amedrontamento e pressão aos que estão no poder: se estes que estão no poder

continuam com a convicção de que eles não são capazes de romper com a disciplina da

democracia burguesa-liberal. Quinhentos bem organizados indisciplinados já podem

ser uma amos tra de que a disciplina das massas começa a ser quebrada e o jogo

começa a ser de fato, de alma e de corpo, questionado.

Em última instância, o controle garante a "não-radicalização" e a disciplina das

massas. Mas quem exerce o controle? Seria um engano achar que são apenas os

aparelhos juridico-repressivos do Estado, quando historicamente esse controle tem

sido exercido também por sindicatos verticalizados e partidos políticos de esquerda,

entre outros. Controle este que é muitas vezes exercido de forma sutil e invisível,

através da tentativa de isolamento e condenação dos "radicais" em nome de uma

suposta imagem a ser preservada (quando na realidade o que parece estar em jogo é a

preservação da ordem burguesa). Como se a "revolução" fosse ter uma bonita imagem

na TV e nas publicações burguesas!

Ademais é preciso salientar que a intenção dessa coletânea não é de modo algum

fazer uma apologia desses "grupos" anticapitalistas e suas práticas. As palavras e a

história estão escritas para servirem de inspiração tanto quanto para serem criticadas,

modificadas e superadas. As possíveis contradições, divergências e inconsistências que

o leitor poderá encontrar em meio aos textos, espelham a independência,

autodeterminação e iniciativa própria dos indivíduos que os escreveram, pessoas comuns,

e não arautos de uma ideologia, partido ou organização totalitária qualquer.

Uma vez que os Reclaim The Streets e os Black Blocks são formações voltadas à

ação e não à produção teórica - podendo até mesmo serem compreendidos como

formas de ação nas ruas -, os artigos e declarações produzidos por seus integrantes

perdem o sentido se destacados das próprias ações a que se referem. Por esse motivo

este livro possui também o caráter de relato histórico e cronológico dos Dias de Ação

Global desde sua gênese no início de 1998.

Para o leitor que achar poucas as citações nos textos e lastimar uma ausência de

aprofundamento filosófico neles, poderáencontrar a fonte do pensamento político

desses "grupos" em nomes como Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Emma Goldman,

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Urgência das Ruas



Alexandre Berkman, Guy Debord, Raoul Vaneigem, Murray Bookchin, Hakim Bey,

Ivan Illich e muitos outros que se inserem dentro do espectro anticapitalista e

antiautoritário.

Os ciberativistas e os hacktivistas estão deliberadamente ausentes dessa

coletânea, embora essas ações globais tenham tido uma participação significativa

deles.


A reação instrumentalizada - através dos serviços repressivos e de inteligência

estatais e supra-estatais aos contestadores que têm tomado as ruas durante essas

cimeiras políticas - daria com certeza um livro à parte. Assim como as violações e

atrocidades cometidas pelas amigáveis polícias dos Estados democráticos do primeiro

mundo.

Por fim, como eu dizia, esse livro não é sobre o .movimento antiglobalização.,



mas sobre a revolta e o desejo que ocupam as ruas, interrompendo a circulação dos

carros, dos cosméticos, da força de trabalho, dos antidepressivos, dos delivery fastfoods

e dos gestores de tudo isso. Dedicado a todas as atitudes visfveis e invisíveis que

representam um outro mundo, pautado pelo amor mútuo, solidariedade, liberdade e

autogestão, e em especial àqueles que estão presos em conseqüência de suas ações, e a

todos aqueles e aquelas, que como ChRTS Fisch2, carregarão seqüelas os restos de

suas vidas devido às violências a que foram submetidos pela polícia, e obviamente à

memória dos que foram mortos por quererem mudar o mundo.



Ned Ludd

2001

2 Para saber mais sobre ela. Veja nota 7 da página 120. (N.E.)

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AGP E O INÍCIO DOS

DIAS DE AÇÃO GLOBAL3

AÇAO GLOBAL DOS POVOS

Em 1996, os zapatistas, mesmo temendo que ninguém aparecesse, lançaram um

chamado para um encontro internacional de ativistas e intelectuais em Chiapas, com o

intuito de se discutir estratégias comuns, problemas e soluções. Seis mil pessoas

atenderam ao chamado, e passaram dias conversando e compartilhando suas histórias

de luta contra o inimigo comum: o capitalismo. A este se seguiu no ano seguinte um

encontro na Espanha, onde a idéia de uma campanha global mais concreta, chamada

Ação Global dos Povos, foi parida por um grupo formado por dez dos maiores e mais

inovadores movimentos sociais, incluindo o Movimento Sem Terra brasileiro e o

Sindicato dos Agricultores do Estado de Karnataka (KRRS), dos agricultores radicais

da Índia.

Quatro "pontos de partida" foram propostos por esse grupo (que veio a ser o

comitê convocado e da AGP, papel que seria rotativo anualmente) na perspectiva de

juntar pessoas em tomo de princípios comuns. Eles eram:

“Uma rejeição explícita das instituições que as multinacionais e os especuladores

construíram para tomar o poder das pessoas, como a OMC e outros acordos de

liberalização do comércio (como a APEC4, a UE5, a 6NAFTA etc.)7”;

“Uma atitude de confronto, uma vez que não achamos que tentar influenciar e

3 Trecho do artigo Our Resitance Is As Transnational As Capital, originalmente publicado na revista

Inglesa Do or Die! n. 8. e posteriormente publicado no livro Reflections on J1B do RTS de Londres.

4 Associação de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacifico. (N.T.)

5 União Européia. (N.T.)

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participar possa ter um grande impacto nessas viciadas e antidemocráticas

organizações, nas quais o capital transnacional é o único verdadeiro orientador das

políticas”;

"Uma chamada para a desobediência civil não-violenta e a construção de

alternativas locais pelas comunidades locais, como resposta para a ação dos

governos e das corporações8”;

“Uma filosofia organizacional baseada na descentralização e autonomia”.

Em fevereiro de 1998, a Ação Global dos Povos nasceu. Pela primeira vez os

movimentos populares do mundo estavam começando a conversar e trocar

experiências, sem a mediação de Organizações Não-Governamentais, e a primeira

conferência da AGP teve lugar em Genebra (Suíça) - lar da tão odiada OMC. Mais de

300 delegados de 71 países foram a Genebra para compartilhar sua raiva pelo domínio

corporativo. Das comunidades Uwa, passando pelos Funcionários do Correio

Canadense, Reclaim The Streets, militantes antinuclear, agricultores franceses,

ativistas Maori e Ogoni, sindicalistas coreanos, Rede de Mulheres Indígenas da

América do Norte, aos ambientalistas ucranianos, todos estavam lá para formar "um

instrumento global para comunicação e coordenação de todos aqueles que lutam contra

a destruição da humanidade e do planeta pelo mercado global, enquanto constroem

alternativas locais e poderes populares”.

Um dos participantes falou deste evento inspirador: "É difícil descrever o calor e

a profundidade dos encontros que tivemos aqui. O inimigo global é relativamente bem

conhecido, mas a resistência global que ele enfrenta raramente passa através do filtro

6 Acordo de Livre Comércio da América do Norte. (N.T.)

7 “Na Conferencia Internacional da AGP, realizada em setembro de 2001 em Cochabamba, alguns

princípios da AGP, assim como o manifesto, foram modificados, dando-lhes um caráter

explicitamente anticapitalista. O princípio citado passou a ser desde então: “Uma rejeição explicita do

feudalismo, do capitalismo e do Imperialismo; de todos os acordos, instituições e governos que

promovem a globalização destrutiva”(N.T.)

8 Após a III Conferencia da AGP, este principio foi modificado e passou a ser: "Uma chamada à ação

direta e desobediência civil, ao apoio às lutas dos movimentos sociais. propondo formas de

resistência que maximizem o respeito pela vida e pelos direitos dos povos oprimidos, assim como

pela construção de alternativas locais ao capitalismo global': Foi retirado o temo "nao-violenta", uma

vez que dizia respeito muito mais a uma cultura de ativismo influenciada por Gandhi e quase

exclusivamente presente no Norte. também devido às diferentes concepções de "não-violência"

existentes em diferentes regiões, e para evitar uma divisão no movimento e criminalização de uma

parte dele com base na dicotomia violência / não-violência. (N.T.)

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Urgência das Ruas



da mídia. E aqui encontramos pessoas que paralisaram cidades inteiras no Canadá com

greves gerais, que arriscaram suas vidas para obter a posse de terra na América Latina,

que destruíram a sede da Cargill na Índia ou o milho transgênico da Norvatis na

França. As discussões, os planos concretos de ação, as histórias de batalhas, as

personalidades, a entusiástica hospitalidade dos squatters9 de Genebra, o tom

apaixonado das mulheres e homens encarando a policia do lado de fora do prédio da

OMC, todos selaram uma aliança entre nós. Espalhados no mundo novamente, não

esqueceremos. Permanecemos juntos. Esta é nossa luta comum".

Um dos objetivos concretos da conferência era coordenar ações contra dois

eventos de importância global que aconteceriam em maio daquele ano, a reunião do G-

8 (um evento anual), dos lideres das oito nações mais industrializadas, que teria lugar

em Birmingham (Grã-Bretanha), e a segunda reunião ministerial da Organização

Mundial do Comércio que ocorreria um dia depois em Genebra.

Por quatro dias consecutivos em maio de 1998, atos de resistência ecoaram em

volta do planeta. Em Hyderabad, Índia, 200 mil agricultores clamaram pela morte da

OMC, em Brasília agricultores sem-terra e trabalhadores desempregados juntaram forças

e 50 mil deles foram às ruas, mais de 30 festas Reclaim The Streets10 ocorreram em

diversos locais, indo da Finlândia, passando por São Francisco, Toronto, Lion e

Berlim. Em Praga, ocorreu a maior mobílização desde a Revolução de Veludo em

1989, trazendo milhares de pessoas às ruas para uma festa móvel que terminou com

vários Mc Donald's recebendo um “novo design” e com batalhas com a policia,

Enquanto isso, no Reino Unido 5 mil pessoas paralisavam o centro de Birmingham

enquanto os lideres do G-8 escapavam da cidade para um resort local, a fim de

continuarem sua reunião em um lugar mais tranqüilo, No dia seguinte as ruas de

Genebra explodiram. O G-8 e muitos outros lideres mundiais convergiram lá para a

reunião ministerial da OMC, e para celebrar o qüinquagésimo aniversário do Acordo

Geral de Comércio de Tarifas (GATT), o precursor da OMC. Mais de 15 mil pessoas

de toda a Europa e muitos de outros continentes se manifestaram contra a tirania da

9 Pessoas que ocupam os squats. (N.T.)

10 O termo aqui se refere a uma mistura de carnaval e raves politizadas que ocupam as ruas. (N.T.)

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Urgência das Ruas



OMC. Bancos tiveram suas janelas quebradas, o Mercedes do diretor-geral da OMC

foi virado, e três dias com os maiores distúrbios já vistos em Genebra se seguiram. A

poeira baixou, os lideres mundiais presos em sua casamata de vidro, ao lado do lago

Genebra, produziram uma declaração dizendo que queriam que a OMC se tornasse

"mais transparente"' Como se isso fizesse a menor diferença.



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