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USP – Universidade de São Paulo

EACH – Escola de Artes, Ciências e Humanidades

ENSAIOS ECOTOXICOLÓGICOS APLICADOS A QUALIDADE DE ÁGUA: EFLUENTES INDUSTRIAIS

Integrantes:

Aline G. Z. Queiroz n°usp: 6414382

Dayane M. de Almeida n°usp:6414207

Iris de Barros n°usp: 5871210

Jacqueline P. Amádio n°usp:6414228

Natália Gaspar n°usp:6415021

Vanessa F. Kubo n°usp:6414913

SÃO PAULO

2010

A ecotoxicologia e sua importância

O termo “ecotoxicologia” foi criado no ano de 1969 pelo Dr. Rene Truhaut sendo definido como “o estudo dos efeitos adversos de substâncias químicas com o objetivo de proteger espécies naturais e populações” (TRUHAUT, 1977, apud RUBINGER, 2009, p. 4).

Além da definição dada por Truhaut para o termo “ecotoxicologia” outros autores também deram definições como é mostrado a seguir:

Segundo Fillman e Yunes (1992 apud RUBINGER, 2009, p. 5) a ecotoxicologia é uma ciência que estuda os tipos de contaminação do ambiente causada por agentes poluentes naturais ou artificiais produzidos pela atividade humana, assim como os mecanismos de ação e os efeitos que esses agentes têm sobre os seres vivos.

Para Bertoletti (1990 apud RUBINGER, 2009, p. 5) a ecotoxicologia é a ciência que estuda o comportamento de agentes e as transformações químicas no ambiente, assim como os efeitos e respostas sobre a biota.

A ecotoxicologia lida com os efeitos de poluentes ambientais na saúde e no meio ambiente e os testes ecotoxicológicos avaliam a toxicidade de substâncias químicas sobre os organismos aquáticos (BERTOLETTI e ZAGATTO, 2006).

Os ensaios ecotoxicológicos são testes que utilizam diferentes tipos de organismos vivos representativos no ambiente para analisar os efeitos agudos e crônicos que uma ou mais substâncias podem ter sobre eles. Para isso os organismos são expostos a várias concentrações das substâncias durante um tempo determinado (RUBINGER, 2009).

Para se ter a avaliação ecotoxicológica de um determinado ambiente além do estudo sobre os efeitos quantitativos e qualitativos dos compostos químicos sobre os organismos aquáticos também é importante conhecer as fontes de emissão dos poluentes, as transformações que ocorrem com eles, as difusões e os destinos que ele tem no ambiente (RUBINGER, 2009).

Os primeiros relatos de utilização de ensaios de toxicidade com organismos aquáticos datam da década de 20, sendo que os peixes foram os primeiros organismos utilizados (BERTOLETTI e ZAGATTO, 2006).

Durante a década de 50, países como a Alemanha, os Estados Unidos, a França e a Inglaterra começaram a aprimorar esses testes e passaram a selecionar outros tipos de organismos vivos que fossem representativos dos diferentes níveis tróficos presentes no meio aquático para realizar os ensaios (KNIE e LOPES, 2004, apud RUBINGER, 2009, p. 4).

No Brasil as pesquisas feitas com ensaios ecotoxicológicos começaram a ser realizadas em 1971 com o trabalho de Rocha ET al. Nesse trabalho os autores desenvolveram testes de toxicidade para verificar se a morte de peixes no rio Atibaia estava associada ao despejo de efluentes líquidos industriais contendo concentrações elevadas de agentes químicos. Para isso utilizaram a tilápia e o efluente de uma indústria que ficava na região (RUBINGER, 2009).

Esse foi um dos primeiros trabalhos feitos no Brasil, mas foi a partir de 1975 que os ensaios de toxicidade aguda e crônica começaram a se desenvolver mais e a utilizar diversos tipos de organismos como as algas, os microcrustáceos e os peixes de água doce e salgada (RUBINGER, 2009).

Durante a realização dos testes ecotoxicológicos pequenas variações no modo de execução faz com que os resultados obtidos sejam diferentes. Visando uniformizar os testes realizados diversos ensaios de toxicidade foram padronizados nacional e internacionalmente por associações ou organizações de normalização (BERTOLETTI e ZAGATTO, 2006)

No Brasil as primeiras normas relativas aos ensaios ecotoxicológicos com organismos aquáticos foram publicadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em 1987 (RUBINGER, 2009).



Os ensaios ecotoxicológicos podem ser utilizados para:

- determinar a toxicidade de agentes químicos, efluentes líquidos, lixiviados de resíduos sólidos, dentre outros;

- estabelecer critérios e padrões de qualidade das águas;

- estabelecer limites máximos de lançamento de efluentes líquidos em corpos hídricos;

- avaliar a necessidade de tratamento de efluentes líquidos quanto as exigências de controle ambiental;

- avaliar a qualidade das águas;

- avaliar a toxicidade relativa de diferentes substâncias

- avaliar a sensibilidade relativa de organismos aquáticos;

- subsidiar programas de monitoramento ambiental;

- estimar os impactos provocados em acidentes ambientais (RAND, 1980 apud BERTOLETTI e ZAGATTO, 2006 p. 118).

Neste sentido, Zagatto explana sobre quais seriam alguns ensaios indicados para corpos d’água doce e salgada, como é mostrado na tabela a seguir:


Tipo de amostra

Objetivo do estudo

Ensaios indicados

Água continental

(rio, represas, lagos)



Avaliação da qualidade de águas superficiais em programas de monitoramento ambiental

Toxicidade crônica com Ceriodaphnia dúbia e/ou peixes

Água continental

Avaliação da qualidade de água onde houver mortandade de peixes

Toxicidade aguda com Ceriodaphnia, peixes ou bactérias (testes exploratórios)

Água continental

Atendimento a projetos de pesquisa para avaliação da qualidade de águas

Toxicidade aguda, crônica, inclusive testes exploratórios

Água marinha (mar e estuários)

Avaliação da qualidade da água em programas de monitoramento ambiental

Toxicidade crônica com ouriço do mar

Água marinha

Avaliação da toxicidade da fração hidrossolúvel de petróleo (ex. de derrames de petróleo)

Toxicidade crônica com ouriço do mar ou toxicidade aguda com Mysidopsis juniae

Efluentes líquidos

Estabelecimento de critérios para proteção da vida em águas continentais (efluentes lançados em águas de classes 2 e 3)

Toxicidade aguda com Daphnia (48h), peixes ou algas (96h) e toxicidade crônica com Ceriodaphnia dúbia (7 dias)


Efluentes líquidos

Estabelecimento de critérios para a proteção para proteção da vida marinha e estuarina

Toxicidade aguda com misidáceos e crônica com ouriço do mar

Adaptada de Zagatto e Bertoletti

Com relação ao ensaio de toxicidade crônica com o microcrustáceo Ceriodaphnia dúbia indicado por Zagatto, a metodologia que a ABNT (2005) recomenda encontra-se na NBR 13373 de 2005. O método de ensaio para a avaliação da toxicidade crônica especificado por esta norma se dá através de amostras de efluentes líquidos, águas continentais subterrâneas ou superficiais e substâncias químicas dispersas em água ou solúveis, para as espécies Ceriodaphnia silvestrii e a Ceriodaphnia dúbia já mencionada. Alguns requisitos desta norma, a serem mencionados neste trabalho, referem-se a água de cultivo e de diluição, sendo estes requisitos considerados importantes para ensaios ecotoxicológicos.

No caso particular desta norma - NBR 13373 -, a água utilizada para diluição e cultivo, desde que propicie a sobrevivência dos organismos utilizados nos experimentos durante o tempo de manutenção em cultivo, podem ser natural subterrânea ou de superfície ou reconstituída. De acordo com a ABNT (2005) a água a ser utilizada deve apresentar dureza total na faixa de 40 mg/L a 48 mg/L em CaCO3 e pH na faixa de 7,2 a 7,6; sobre uma temperatura que varie entre 23°C a 27°C. Já o requisito referente aos organismos-teste usados nos ensaios devem apresentar idade aproximadamente de 6 h a 24 h, obtidos por partenogênese a partir de fêmeas com idade entre 7 dias e 21 dias.

No mundo, os ensaios ecotoxicológicos vêm sendo muito utilizados por diversos países na rotina de órgãos ambientais para o licenciamento e a fiscalização de atividades que são potencialmente poluidoras além de contribuir também para o monitoramento da qualidade das águas (RUBINGER, 2009).

O uso de ensaios ecotoxicológicos é amplamente utilizado mundialmente, como em países da Europa e dos Estados Unidos, tendo por base a legislação ambiental. Em geral estes países adotam os testes que passaram por padronização de ensaios realizados por entidades e ou institutos nacionais de normalização, possibilitando resultados comparáveis dentre diversos laboratórios. Em 1987 à Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT, por meio dos trabalhos desenvolvidos pelo GT02 (Grupo de Toxicidade) da Comissão Técnica de Qualidade das Águas, começa a publicar suas primeiras normas relativas a testes ecotoxicológicos com organismos aquáticos. A pesquisa ecotoxicológica vem revelando a importância das interações entre organismos, processos fisiológicos, fatores ambientais, e suas interações com as substâncias químicas antrópicas e esta cada vez mais sendo apoiada pela legislação.

No Brasil, por meio da Constituição Federal de 1988 (BRASIL-1988), iniciou-se legalmente a proteção do meio ambiente e a regulamentação das atividades potencialmente poluidoras. Em 8 de janeiro de 1997, foi instituída a Política Nacional de Recursos Hídricos no Brasil(BRASIL-1997), Lei nº. 9.433; cujos artigos 9º e 10º tratam do enquadramento dos corpos de águas em classes, ratifica que cabe à legislação ambiental estabelecer as classes dos corpos de água para enquadra-las segundo seus usos . Assim, os limites de emissão de efluentes encontram-se na Resolução nº. 357 do Conselho Nacional de Meio Ambiente-CONAMA (BRASIL, 2005), através dos padrões para o enquadramento de corpos receptores; já a inclusão de critérios ecotoxicológicos aparecem na Resolução nº. 396 do CONAMA (BRASIL, 2008) que trata sobre a classificação e diretrizes ambientais para o enquadramento das águas subterrâneas, no seu artigo 2º, inciso II, traz a definição de análise toxicológica remetendo ao emprego de ensaios com organismos vivos e também os ensaios químicos e bioquímicos como método de prevenir a poluição destes ambientes aquáticos:


“II - análises toxicológicas: análises químicas ou bioquímicas realizadas com a função de determinar compostos tóxicos, seus produtos de biotransformação ou seus efeitos em materiais biológicos de organismos potencialmente expostos;”
No inciso XVII, ocorre a definição de teste de toxicidade e os métodos biológicos para detecção da toxicidade na biota aquática:

“XVII - teste de toxicidade: testes realizados com organismos específicos (animais, plantas, microrganismos ou culturas de células) sob condições padronizadas que permitem estabelecer os possíveis efeitos adversos da amostra avaliada;”


Em seu artigo 13º, §4º, explicita que as avaliações de qualidade das águas subterrâneas devem ser complementadas com análises toxicológicas, assim a integridade ambiental destes ecossistemas pode ser atestada mais realisticamente:

“§ 4o A avaliação da qualidade da água subterrânea deverá ser complementada, quando tecnicamente justificado, por meio de testes de toxicidade com organismos apropriados para cada um dos usos ou por análises toxicológicas adequadas.”

A constituição de 1988 dá competência à União estabelecer normas gerais e aos Estados e Municípios de suplementá-las. Assim, as demais regulamentações federais são realizadas pelas Secretarias, Fundações ou Conselhos do Meio Ambiente, norteadas por critérios e ou resoluções nacionais. No Estado de São Paulo, o monitoramento ambiental fica a cargo da CETESB. Nesta instituição o controle ecotoxicológico de efluentes líquidos industriais foi implantado em meados dos anos 90.

A resolução SMA 03/2000 impulsionou o aperfeiçoamento deste controle e os ensaios de ecotoxicidade: “O Secretário do Meio Ambiente, em face da deliberação da Diretoria Plena da CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental aprovou a necessidade de implementar o controle ecotoxicológico de efluentes líquidos no Estado de São Paulo” (SÃO PAULO-2000).

Em São Paulo a CETESB começou a realizar esses testes ecotoxicológicos com organismos aquáticos no ano de 1992 com o objetivo de aprimorar as informações sobre a qualidade das águas (CETESB, 2009).

Na análise da qualidade da água são utilizados parâmetros essencialmente físico-químicos. Essa análise é feita em laboratório e além de ser muito custosa muitas vezes também é insuficiente para avaliar os possíveis efeitos das substâncias químicas sobre os seres vivos uma vez que é praticamente impossível determinar todos os componentes presentes em uma amostra de água. Sendo assim os ensaios ecotoxicológicos são importantes, pois, complementam a análise físico-química dos laboratórios sendo possível obter com eles os efeitos que a totalidade das substâncias presentes tem sobre os organismos vivos, ou seja, é analisado o efeito tóxico do somatório das substâncias e não apenas delas individualmente (DANNENBERG, 1993; SÄAR (b), 2005 apud RUBINGER, 2009, p. 1).

Com a utilização dos ensaios ecotoxicológicos somada às análises físico-químicas é realizado um melhor diagnóstico da qualidade ambiental, pois as informações são convergentes e se complementam (CAIRS e DICKSON, 1971; EXTENSE e FERGUSON, 1989 apud RUBINGER, 2009, p. 2).

Os ensaios ecotoxicológicos também são importantes para ações preventivas e mitigadoras de impactos (KNIE e LOPES, 2004 apud RUBINGER, 2009 p. 2). Essas ações preventivas dizem respeito a se estimar os riscos futuros que o lançamento de substâncias perigosas pode vir a causar no meio ambiente (RUBINGER, 2009).

Além disso, o conhecimento obtido com a realização dos ensaios ecotoxicológicos sobre a toxicidade das substâncias aos diferentes tipos de organismos aquáticos permite que seja estabelecido um limite permissível de diversas substâncias químicas visando a proteção da vida aquática e também avaliar qual o impacto momentâneo desses poluentes sobre os ecossistemas aquáticos.

Nos Estados Unidos, em um dos escritórios da Agência de Proteção Ambiental, desenvolvem-se ‘perfis de risco’ para diversos efluentes industriais, utilizando dados ecotoxicológicos. A EPA visa também a formação de leis para proteger o ambiente e a saúde pública. No entanto, a maioria destas leis não tem informação suficiente para ser posta em prática imediatamente. A EPA é uma agência reguladora, o Congresso do EUA a autoriza a criar regras explicando detalhes críticos necessários para implementar leis ambientais, e ela influencia ordens presidenciais do Executivo. Ou seja, há importante atuação institucional no sentido de preencher as lacunas de dados sobre toxicidade de efluentes, e conseguir informações para a atuação legal na proteção do meio ambiente. (Rand, 1995)



Tipos de testes toxicológicos e principais características

Estudos em campo analisam várias espécies em seu processo de interação, sendo possível observar os efeitos de substâncias em diferentes gerações e níveis tróficos. Os testes em campo procuram reproduzir as condições mais próximas à realidade, porém os testes em laboratório tendem a ser mais baratos e também geram resultados mais direcionados, pois pode acontecer de no campo as espécies apresentarem diferentes sensibilidades e respostas.

Qualquer ensaio toxicológico laboratorial requer o controle de condições ambientais específicas, como temperatura, pH, duração do teste, tipo de substrato e quais as espécies utilizadas, dependendo do objetivo do estudo, seguido da análise dos efeitos da amostra sobre os organismos. As variáveis biológicas para avaliação de efeitos tóxicos expressam resultados em formas estatísticas como CL50 e CE50.

Dentre os ensaios em laboratório há os de toxicidade aguda e toxicidade crônica. No primeiro se avalia os efeitos imediatos e agudos sobre os indivíduos expostos à amostra, como a mortalidade e alteração do comportamento do individuo. São mais rápidos e fáceis de fazer, e por produzirem dados significativos, tem constituído “a base de estudos ecotoxicológicos”. (Zagatto, 2006)

Na toxicidade crônica, o contato com o agente químico causa alterações, a longo prazo, no comportamento, no funcionamento do organismo, nos genes (efeitos teratogênicos). Podem incluir testes com ciclo de vida completo ou com os períodos de maior sensibilidade como nos primeiros estágios de vida. O primeiro é bem mais completo, porém custoso e vale a pena para organismos com ciclos de vida curtos, como vários tipos de algas, que se reproduzem rapidamente e também apresentam sensibilidade a variadas substâncias tóxicas. (Klaine & Lewis apud Zagatto, 2006)

Entre os crônicos há também os ensaios que medem especificamente os efeitos genotóxicos, estes incluem a alteração genética em células somáticas e nas reprodutivas. No primeiro caso, pode-se causar câncer, teratogênese, envelhecimento precoce, doenças cardiovasculares e degenerativas; no segundo caso, a reprodução pode ser impossibilitada ou os descendentes sofrem mutações ou doenças genéticas. Todos os ensaios supracitados são feitos a nível de comunidade ou do ecossistema. A nível do organismo, são feitos testes citogenéticos buscando a relação entre o(s) agente(s) tóxico(s) e os problemas apresentados.

É preciso atentar para determinados fatores que influenciam a toxicidade e podem modificar o resultado das análises. Alguns deles são: idade e tamanho dos organismos, estado nutricional dos mesmos; aspectos abióticos como pH, temperatura, oxigênio dissolvido (OD), dureza da água. É interessante acrescentar que em estudos para estabelecer critérios de qualidade da água, a dureza faz diferença, pois ela pode variar de uma região para outra, e assim os parâmetros de classificação também devem mudar. Pois segundo Zagatto, a dureza tem poucos efeitos sobre a toxicidade de poluentes orgânicos, mas pode interferir em outras substâncias.

Execução e análise de testes ecotoxicológicos

É importante salientar, desde o inicio, que os procedimentos gerais para testes em água salgada seguem os mesmo princípios gerais que os testes feitos em água doce: depende dos objetivos do estudo, dos requerimentos que forem padronizados, e dos organismos a ser utilizados.

A amostragem pode ser simples ou composta. Nesta, há coleta de amostras a intervalos periódicos, útil para quando uma indústria lança efluente continuamente em um rio, por exemplo, e os cálculos resultam no valor médio da toxicidade de efluentes líquidos. Os sistemas de exposição dos organismos à amostra podem ser estáticos, semi-estáticos ou de fluxo contínuo.

Nos testes deve-se usar ao menos 5 diferentes frações de diluições da substância, mais a solução controle, somente com o solvente e o número de organismos deve ser o mesmo para cada, e o número de réplicas varia. O tempo de duração deve adequar-se à natureza do teste (se agudo ou crônico) e do tipo de organismo (duração do ciclo de vida), e estes devem estar em condições semelhantes às naturais, em matéria de temperatura, OD, pH. O critério para a escolha de espécies a ser utilizadas é a sensibilidade, a facilidade de manipulação, se o teste é agudo ou crônico, e a própria recorrência do uso.

Para estimar o endpoint, ou resultados usados para estabelecer níveis de toxicidade da substância, para testes de efeitos agudos utiliza-se comumente os critérios letalidade e imobilização. O LC50 visa estimar a concentração em que se espera que seja letal ou imobilize os organismos em condições específicas, em determinado período de tempo (24, 48, 72 ou 96h), sendo calculado com vários métodos estatísticos.

Os testes crônicos permitem determinar os efeitos da substância teste por um período maior de tempo e principalmente estimar a concentração em que não se observam efeitos (NOEL, no observed effect level , ou NOEC ) ou em que efeitos são muito pequenos (LOEL, lowest observed effect level, ou LOEC - ). Ou seja, a concentração de toxicante máxima aceitável (MATC). Outro modo de encontrar endpoints em testes crônicos é a ICp, que mostra a concentração em que há determinada porcentagem de redução em algum efeito subletal, biologicamente mensurado. Por exemplo, um IC25 pode indicar que tal concentração causa 25% menos sucesso na reprodução ou crescimento dos organismos.

Os testes agudos são invalidados caso 10% dos organismos na amostra-controle morram, 20% dos organismos para os testes crônicos de curto prazo e 30% no caso de peixes. (RAND, 1995)

Estudo de Caso

Ensaio ecotoxicológico na análise de efluentes de indústrias têxtil e de corantes do Estado de São Paulo

Diante do exposto, selecionamos um estudo de caso para tentar ilustrar como pode ser aplicado um ensaio ecotoxicológico.

Este estudo de caso tem como objetivo avaliar a toxicidade aguda da indústria têxtil e da indústria química (fabricante de corantes), através de um ensaio ecotoxicológico.
Ensaio toxicológico é aquele que avalia os efeitos sofridos pelos organismos quando expostos ao agente químico, em um curto período de tempo. (Knie & Lopes, 2004; CETESB, 1986; ABNT 12713, 1993 e 2004; Zagatto e Bertoletti, 2006 apud Higa, 2008).
A metodologia utilizada neste estudo de caso para avaliar a toxicidade dos efluentes foi a expressada pelo CE (I) 50 que significa a concentração nominal da amostra no início do ensaio que causa efeito agudo em 50% dos organismos no tempo de exposição, nas condições do ensaio. É importante ressaltar que quanto menor o valor do CE (I) maior a toxicidade do composto. (Knie & Lopes, 2004; CETESB, 1986; ABNT 12713, 1993 e 2004; Zagatto e Bertoletti, 2006 apud Higa, 2008).

Outra metodologia empregada foi a do Microtox que usa como organismo-teste a bactéria luminiscente Vibrio fischeri, medindo a toxicidade do composto a partir de alterações nas reações enzimáticas dessas bactérias.

Dentre os vários tipos de classificação de toxicidade dos efluentes, feitos por diversos autores, neste estudo de caso escolheu-se o método de Bulich e seus colaboradores,em que estabeleceram quatro classe de toxicidade para classificar os efluentes:

(HIGA, 2008)

Para a realização do ensaio ecotoxicológico, deve-se escolher organismos-teste, que atendam a alguns requisitos como: apresentar sensibilidade aos diversos agente químicos, ser uma espécie de fácil cultivo em laboratório, ser uma espécie com ampla distribuição geográfica e com estabilidade genética em que possam se coletar lotes uniformes de organismos. (Zagatto e Bertoletti, 2006 apud Higa, 2008)

Neste estudo de caso, escolheram-se dois organismos- teste: o Daphnia similis, um microcrustáceo platônico de água doce, com comprimento máximo de 3,5 mm, que na cadeia alimentar atua como consumidor primário. Escolheu-se esse animal por ele apresentar um ciclo de vida relativamente curto, certa facilidade para cultivo em laboratório e sensibilidade à maioria dos compostos. (Borrey, 2001 apud Higa, 2008).

Escolheu-se também o Vibrio fischeri, uma bactéria marinha luminescente, gram-negativa, anaeróbia facultativa e que emite luz quando está em ambiente favorável.(CETESB, 2001 apud Higa, 2008)

Ensaio com o microcrustáceo Daphnia similis

Coletou-se amostras do efluente da industria têxtil e se fez várias diluições a fim de se obter diversas concentrações.

Após isso, foram expostos organismos jovens de o microcrustáceo D. similis às varias concentrações da substância teste por um período de 24 e 48 horas.
A partir do número de organismos imóveis foi estabelecido o valor do CE (I) 50.

Ensaio com a bactéria luminiscente Vibrio fischeri

A bioluminiscência da bactéria V. fischeri diminui com o aumento da toxicidade da amostra. A avaliação de toxicidade da amostra é feita então, a partir do decréscimo de luminiscência, medido após períodos de exposição à substância-teste, em intervalos de 15 e 30 minutos, ou opcionalmente de 5 minutos, considerando um fator de correção.(ABNT NBR 15411-2:2006; Norma CETESB L5.227: dez 2001 apud Higa, 2008)



Resultados

A tabela a seguir apresenta os resultados de toxicidade aguda medidos para os dois organismos-teste utilizados.

As amostras coletadas da indústria química fabricante de corantes receberam os códigos: ACD01, ACD02, ACD03, ACD04 e ACD05.

As amostras coletadas da indústria têxtil receberam os seguintes códigos: BTV01, BTV02, BTV03.




(HIGA, 2008)

Lembrando que quanto menor o valor do CE (I) obtido, maior o grau de toxicidade da amostra, de acordo com a tabela observa-se que as amostras da indústria química apresentou maior toxicidade inicial que a indústria têxtil, para ambos organismos-teste.



Conclusão

Os ensaios ecotoxicológicos surgiram a pouco tempo e são novas ferramentas pelas quais se pode ter um estudo melhor da qualidade das águas continentais e marinhas, dos efeitos tóxicos que as substâncias tem sobre os ecossistemas, de qual a sensibilidade dos organismos perante algumas substâncias presentes em efluentes a serem lançados por indústrias, causadores de desequilíbrios em toda a estrutura ecossistêmica de corpos hídricos., entre outros.

Submetendo organismos presentes na coluna d’água a diferentes concentrações de compostos químicos por um certo período de tempo esses ensaios ecotoxicológicos ajudam a complementar avaliações de qualidade da água para o abastecimento no geral e para usos destinados à conservação de ecossistema ao atuar completando as informações obtidas com os testes físico-químicos, e permitindo também se estimar parâmetros de risco para a saúde humana e ambiental.

Sendo assim, esses testes surgiram para aumentar a certeza que se tem sobre quais os efeitos das substâncias químicas sobre os seres vivos presentes no meio ambiente.



Referências Bibliográficas

ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Ecotoxicologia aquática – Toxicidade Crônica – Método de ensaio com Ceriodaphnia spp. (Crustacea, Cladocera). NBR 13373. Rio de Janeiro: ABNT, 2005.

BRASIL, 1988. Constituição da República Federativa do Brasil, Brasília, Diário Oficial da União, 5 de março de 1988.

BRASIL, 1997. Lei nº 9.433. Política Nacional de Recursos Hídricos, Brasília, Diário Oficial da União, 8 de janeiro de 1997.

BRASIL, 2005. Resolução nº. 357. Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA. Brasília, Diário Oficial da União, 17 de março de 2005.

BRASIL, 2008. Resolução nº. 396. Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA. Brasília, Diário Oficial da União, 12 de junho de 2008.

CETESB, Variáveis de qualidade das águas. Disponível em . Acesso em 25 de Maio de 2010.

RAND, Gary M. “Aquatic Toxicology : Effects Fate, and Risks Assessment” , 1995

RUBINGER, C. F. Seleção de métodos biológicos para avaliação toxicológica de efluentes industriais. 2009. 90 f. Dissertação (Mestrado em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos) – Escola de Engenharia, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais. 2009. Disponível em . Acesso em: 25 de Maio de 2010.

SÃO PAULO, 2000. Resolução da Secretaria de Meio Ambiente nº 3. Implementa o controle ecotoxicológico de efluentes líquidos no Estado de São Paulo. Publicado no Diário Oficial do Estado. Executivo de 23 de fevereiro de 2000.



ZAGATTO, Pedro A. BERTOLETTI, Eduardo. “Ecotoxicologia Aquática – Princípios e Aplicações”, 2006.

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