V conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe



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CAPÍTULO 2

OLHAR DOS DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS SOBRE A REALIDADE




2.1 A realidade que nos desafia como discípulos e missionários



33. Os povos da América Latina e do Caribe vivem hoje uma realidade marcada por grandes mudanças que afetam profundamente suas vidas. Como discípulos de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os “sinais dos tempos”, à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e “para que a tenham em abundância” (Jo 10,10).
34. A novidade destas mudanças, diferentemente do ocorrido em outras épocas, é que elas têm um alcance global que, com diferenças e matizes, afetam o mundo inteiro. Habitualmente elas são caracterizadas como o fenômeno da globalização. Fator determinante destas mudanças é a ciência e a tecnologia, com sua capacidade de manipular geneticamente a própria vida dos seres vivos, e com sua capacidade de criar uma rede de comunicações de alcance mundial, tanto pública como privada, para interagir em tempo real, ou seja, com simultaneidade, não obstante as distâncias geográficas. Como se costuma dizer, a história se acelerou e as próprias mudanças se tornam vertiginosas, visto que se comunica com grande velocidade a todos os cantos do planeta.
35. Esta nova escala mundial do fenômeno humano traz conseqüências para todos os campos de atividade da vida social, impactando a cultura, a economia, a política, as ciências, a educação, o esporte, as artes e também, naturalmente, a religião. Não nos compete, como pastores da Igreja, fazer uma análise técnica deste complexo fenômeno e de suas causas, ainda que isso seja importante e necessário para uma ação evangelizadora condizente com a realidade. Interessa-nos mais saber como ele afeta a vida de nossos povos e o sentido religioso e ético de nossos irmãos que buscam infatigavelmente o rosto de Deus, e que, no entanto, devem fazê-lo, agora desafiados por novas linguagens do domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino da vida humana redimida em Cristo. Sem uma clara percepção do mistério do Deus presente, o desígnio amoroso e paternal de uma vida digna para todos os seres humanos torna-se opaco também, ao menos em alguns âmbitos.
36. Neste novo contexto social, a realidade para o ser humano se tornou cada vez mais sem brilho e complexa. Isto quer dizer que qualquer pessoa individual necessita sempre mais informação da que dispõe, se deseja exercer sobre a realidade o senhorio o que, por vocação, está chamada a realizar. Este fato não é por si mesmo negativo. Ele tem nos ensinado a olhar a realidade cada vez com mais humildade, sabendo que ela é maior e mais complexa que as simplificações ideológicas com que costumávamos vê-la em um passado ainda não muito distante e que, em muitos casos, introduziram conflitos dentro da sociedade que deixaram muitas feridas que ainda não conseguiram cicatrizar. Mas também introduziram a dificuldade de que a consciência humana demora a perceber a unidade de todos os fragmentos dispersos que resultam da informação que reunimos. É freqüente que alguns queiram olhar a realidade unilateralmente a partir da informação econômica, outros a partir da informação política ou científica, outros a partir do entretenimento ou do espetáculo. No entanto, nenhum destes critérios parciais consegue nos propor um significado coerente para tudo o que existe. Quando as pessoas percebem esta fragmentação e limitação, costumam se sentir frustradas, ansiosas, angustiadas. A realidade social parece muito grande para uma consciência que, levando em consideração sua falta de saber e de informação, facilmente se crê insignificante, sem ingerência alguma nos acontecimentos, mesmo quando soma sua voz a outras vozes que procuram se ajudar reciprocamente.
37. Esta é a razão pela qual muitos estudiosos de nossa época sustentam que a realidade traz inseparavelmente uma crise do sentido. Eles não se referem aos múltiplos sentidos parciais que cada um pode encontrar nas ações cotidianas que realiza, mas ao sentido que dá unidade a tudo o que existe e nos sucede na experiência, e que os cristãos chamam de sentido religioso. Habitualmente, este sentido se coloca a nossa disposição através de nossas tradições culturais que representam a hipótese de realidade com que cada ser humano pode olhar o mundo em que vive. Em nossa cultura latino-americana conhecemos o papel tão nobre e orientador que a religiosidade popular desempenha, especialmente a devoção mariana, que conseguiu nos persuadir de nossa comum condição de filhos de Deus e de nossa comum dignidade perante seus olhos, não obstante as diferenças sociais, étnicas ou de qualquer outro tipo.
38. No entanto, devemos admitir que também esta preciosa tradição começa a se diluir. A maioria dos meios de comunicação de massa nos apresentam agora novas imagens, atrativas e cheias de fantasia. Ainda que todos saibam que elas não podem mostrar o sentido unitário de todos os fatores da realidade, oferecem ao menos o consolo de ser transmitidas em tempo real, ao vivo e direto, com atualidade. Longe de preencher o vazio produzido em nossa consciência pela falta de um sentido unitário da vida, em muitas ocasiões a informação transmitida pelos meios só nos distrai. A falta de informação só se resolve com mais informação, retro-alimentando a ansiedade de quem percebe que está em um mundo opaco o qual não compreende.
39. Este fenômeno talvez explique um dos fatos mais desconcertantes e originais que vivemos no presente. Nossas tradições culturais já não se transmitem de uma geração à outra com a mesma fluidez que no passado. Isso afeta, inclusive, esse núcleo mais profundo de cada cultura, constituído pela experiência religiosa, que parece agora igualmente difícil de ser transmitido através da educação e da beleza das expressões culturais, alcançando até mesmo a própria família que, como lugar do diálogo e da solidariedade inter-geracional, havia sido um dos veículos mais importantes da transmissão da fé. Os meios de comunicação invadiram todos os espaços e todas as conversas, introduzindo-se também na intimidade do lar. Ao lado da sabedoria das tradições, em competição, localizam-se agora a informação de último minuto, a distração, o entretenimento, as imagens dos vencedores que souberam usar a seu favor as ferramentas tecnológicas e as expectativas de prestígio e estima social. Isso faz com que as pessoas busquem denodadamente uma experiência de sentido que preencha as exigências de sua vocação, ali onde jamais poderão encontrá-la.
40. Entre os pressupostos que enfraquecem e menosprezam a vida familiar encontramos a ideologia de gênero, segundo a qual cada um pode escolher sua orientação sexual, sem levar em consideração as diferenças dadas pela natureza humana. Isto tem provocado modificações legais que ferem gravemente a dignidade do matrimônio, o respeito ao direito à vida e a identidade da família.22
41. Por esta razão, os cristãos precisam recomeçar a partir de Cristo, a partir da contemplação de quem nos revelou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido. Necessitamos nos fazer discípulos dóceis, para aprende d’Ele, em seu seguimento, a dignidade e a plenitude de vida. E necessitamos, ao mesmo tempo, que o zelo missionário nos consuma para levar ao coração da cultura de nosso tempo aquele sentido unitário e completo da vida humana que nem a ciência, nem a política, nem a economia nem os meios de comunicação poderão proporcionar. Em Cristo Palavra, Sabedoria de Deus (cf. 1 Cor 1,30), a cultura pode voltar a encontrar seu centro e sua profundidade, a partir de onde é possível olhar a realidade no conjunto de todos seus fatores, discernindo-os à luz do Evangelho e dando a cada um seu lugar e sua dimensão adequada.
42. Como nos disse o Papa em seu discurso inaugural: “só quem reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano”23. A sociedade que coordena suas atividades tão somente com informação, acredita que pode operar de fato como se Deus não existisse. Mas a eficácia dos procedimentos conseguida mediante informação, ainda que com as tecnologias mais desenvolvidas, não consegue satisfazer o desejo de dignidade inscrito no mais profundo da vocação humana. Por isso, não basta supor que a mera diversidade de pontos de vista, de opções e, finalmente, de informações, que costuma receber o nome de pluri ou multiculturalidade, resolverá a ausência de um significado unitário para tudo o que existe. A pessoa humana é, em sua própria essência, aquele lugar da natureza para onde converge a variedade dos significados em uma única vocação de sentido. As pessoas não se assustam com a diversidade. O que de fato as assusta é não conseguir reunir o conjunto de todos estes significados da realidade em uma compreensão unitária que lhes permita exercer sua liberdade com discernimento e responsabilidade. A pessoa sempre procura a verdade de seu ser, visto que é esta verdade que ilumina a realidade de tal modo que possa se desenvolver nela com liberdade e alegria, com gozo e esperança.

2.1.1 Situação Sócio-cultural



43. Portanto, a realidade social que em sua dinâmica atual descrevemos com a palavra globalização, antes que qualquer outra dimensão, impacta a realidade de nossa cultura e do modo como nos inserimos e nos apropriamos dela. A variedade e a riqueza das culturas latino-americanas, desde aquelas mais originárias até aquelas que com a passagem da história e a mestiçagem de seus povos foram se sedimentando nas nações, nas famílias, nos grupos sociais, nas instituições educativas e na convivência cívica, constitui um dado bastante evidente para nós o qual valorizamos como uma singular riqueza. O que hoje em dia está em jogo não é a diversidade que os meios de comunicação são capazes de individualizar e registrar. O que ninguém esquece é, pelo contrário, a possibilidade de que esta diversidade possa convergir em uma síntese que, envolvendo a variedade do sentido, seja capaz de projetá-la em um destino histórico comum. Nisto reside o valor incomparável do ânimo mariano de nossa religiosidade popular que, sob distintos nomes, tem sido capaz de fundir as histórias latino-americanas diversas em uma história compartilhada: aquela que conduz a Cristo, Senhor da vida, em quem se realiza a mais alta dignidade de nossa vocação humana.
44. Vivemos uma mudança de época cujo nível mais profundo é o cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus; “aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes do último século... Que excluem Deus de seu horizonte, falsificam o conceito da realidade e só podem terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas24. Surge hoje com grande força uma sobrevalorização da subjetividade individual. Independentemente de sua forma, a liberdade e a dignidade da pessoa são reconhecidas. Os fenômenos sociais, econômicos e tecnológicos estão na base da profunda vivência do tempo, ao que se concebe fixado no próprio presente, trazendo concepções de inconsistência e instabilidade. Deixa-se de lado a preocupação pelo bem comum para dar lugar à realização imediata dos desejos dos indivíduos, à criação de novos e muitas vezes arbitrários direitos individuais, aos problemas da sexualidade, da família, das enfermidades e da morte.
45. A ciência e a tecnologia quando colocadas a serviço do mercado, com os valores da eficácia, da rentabilidade e do funcional, criam uma lógica que invade as práticas sociais, as mentes e as cosmovisões. A utilização dos meios de comunicação de massa está introduzindo na sociedade um sentido estético, uma visão a respeito da felicidade, uma percepção da realidade e até uma linguagem, que se querem impor como uma autêntica cultura. No entanto, sua superficialidade termina por destruir o que de verdadeiramente humano há nos processos de construção cultural, que nascem do intercâmbio pessoal e coletivo.
46. Verifica-se, em nível intenso, uma espécie de nova colonização cultural pela imposição de culturas artificiais, desprezando as culturas locais e com tendência a impor uma cultura homogeneizada em todos os setores. Esta cultura se caracteriza pela auto-referência do indivíduo, que conduz à indiferença pelo outro, de quem não necessita e por quem não se sente responsável. Prefere-se viver o dia a dia, sem programas a longo prazo nem apegos pessoais, familiares e comunitários. As relações humanas estão sendo consideradas objetos de consumo, conduzindo a relações afetivas sem compromisso responsável e definitivo.
47. Também se verifica uma tendência para a afirmação exasperada de direitos individuais e subjetivos. Esta busca é pragmática e imediatista, sem preocupação com critérios éticos. A afirmação dos direitos individuais e subjetivos, sem um esforço semelhante para garantir os direitos sociais culturais e solidários, resulta em prejuízo da dignidade de todos, especialmente daqueles que são mais pobres e vulneráveis.
48. Nesta hora da América Latina e do Caribe, é imperativo tomar consciência da situação precária que afeta a dignidade de muitas mulheres. Algumas desde crianças e adolescentes, são submetidas a múltiplas formas de violência dentro e fora de casa: tráfico, violação, escravização e assédio sexual; desigualdades na esfera do trabalho, da política e da economia; exploração publicitária por parte de muitos meios de comunicação social que as tratam como objeto de lucro.
49. As mudanças culturais modificaram os papéis tradicionais de homens e mulheres, que procuram desenvolver novas atitudes e estilos de suas respectivas identidades, potencializando todas suas dimensões humanas na convivência cotidiana, na família e na sociedade.
50. A avidez do mercado descontrola o desejo de crianças, jovens e adultos. A publicidade conduz ilusoriamente a mundos distantes e maravilhosos, onde todo desejo pode ser satisfeito pelos produtos que têm um caráter eficaz, efêmero e até messiânico. Legitima-se que os desejos se tornem felicidade. Como só se necessita do imediato, a felicidade se pretende alcançar através do bem-estar econômico e da satisfação hedonista.
51. As novas gerações são as mais afetadas por esta cultura do consumo em suas aspirações pessoais profundas. Crescem na lógica do individualismo pragmático e narcisista, que desperta neles imagens especiais de liberdade e igualdade. Afirmam o presente porque o passado perdeu relevância diante de tantas exclusões sociais, políticas e econômicas. Para eles o futuro é incerto. Assim mesmo, participam da lógica da vida como espetáculo, considerando o corpo como ponto de referência de sua realidade presente. Têm um novo vício pelas sensações e crescem em uma grande maioria sem referência aos valores e instâncias religiosas. Em meio à realidade de mudança cultural emergem novos sujeitos, com novos estilos de vida, maneiras de pensar, de sentir, de perceber e com novas formas de se relacionar. São produtores e atores da nova cultura.
52. Entre os aspectos positivos desta mudança cultural aparece o valor fundamental da pessoa, de sua subjetividade e experiência, a busca do sentido da vida e da transcendência. Para dar respostas à busca mais profunda do significado da vida, o fracasso das ideologias dominantes, permitiu que a simplicidade e o reconhecimento do fraco e do pequeno na existência surgissem como valor, com uma grande capacidade e potencial que não podem ser desvalorizados. Esta ênfase na apreciação da pessoa abre novos horizontes, onde a tradição cristã adquire um renovado valor, sobretudo quando a pessoa se reconhece em um Deus que se encarna e nasce em um estábulo, assumindo uma condição humilde e pobre.
53. A necessidade de construir o próprio destino e o desejo de encontrar razões para a existência pode colocar em movimento o desejo de se encontrar com outros e compartilhar o vivido, como uma maneira de se dar uma resposta. Trata-se de uma afirmação da liberdade pessoal e, por isso, da necessidade de se questionar em profundidade as próprias convicções e opções.
54. Porém, junto com a ênfase na responsabilidade individual em meio a sociedades que promovem o acesso aos bens através dos meios. Paradoxalmente, nega-se às grandes maiorias o acesso aos mesmos bens, que constituem elementos básicos e essenciais para viverem como pessoas.
55. A ênfase na experiência pessoal e no vivencial nos leva a considerar o testemunho como um componente chave na vivência da fé. Os fatos são valorizados quando são significativos, ou seja, quando decisivos para a pessoa. Na linguagem testemunhal podemos encontrar um ponto de contato com as pessoas que compõem a sociedade e delas entre si.
56. Por outro lado, a riqueza e a diversidade cultural dos povos da América Latina e Caribe parecem evidentes. Existem em nossa região diversas culturas indígenas, afro descendentes, mestiças, camponesas, urbanas e suburbanas. As culturas indígenas se caracterizam sobretudo por seu apego profundo à terra e pela vida comunitária. Os afro descendentes se caracterizam, entre outros elementos, pela expressividade corporal, o enraizamento familiar e o sentido de Deus. A cultura camponesa está referida ao ciclo agrário. A cultura mestiça, que é a mais extensa entre muitos povos da região, tem buscado em meios às contradições sintetizar ao longo da história estas múltiplas fontes culturais originárias, facilitando o diálogo das respectivas cosmovisões e permitindo sua convergência em uma história compartilhada. A esta complexidade cultural haveria que se acrescentar também a de tantos imigrantes europeus que se estabeleceram nos países de nossa região.
57. Estas culturas coexistem em condições desiguais com a chamada cultura globalizada. Elas exigem reconhecimento e oferecem valores que constituem uma resposta aos anti-valores da cultura e que se impõem através dos meios de comunicação de massas: comunitarismo, valorização da família, abertura à transcendência e solidariedade. Estas culturas são dinâmicas e estão em interação permanente entre si e com as diferentes propostas culturais.
58. A cultura urbana é híbrida, dinâmica e mutável, pois amálgama múltiplas formas, valores e estilos de vida e afeta todas as coletividades. A cultura suburbana é fruto de grandes migrações de população, em sua maioria pobre, que se estabeleceu ao redor das cidades nos cinturões de miséria. Nestas culturas os problemas de identidade e pertença, relação, espaço vital e lar são cada vez mais complexos.
59. Existem também comunidades de migrantes que deixaram as culturas e tradições trazidas de suas terras de origem, sejam cristãs ou de outras religiões. Por sua vez, esta diversidade inclui comunidades que foram se formando com a chegada de diferentes denominações cristãs e outros grupos religiosos. Assim, assumir a diversidade cultural, que é um imperativo do momento, envolve superar os discursos que pretendem uniformizar a cultura, com enfoques baseados em modelos únicos.

2.1.2 Situação econômica



60. O Papa, em seu discurso inaugural, vê na globalização um fenômeno “de relações de nível planetário”, sendo “uma conquista da família humana”, porque favorece o acesso a novas tecnologias, mercados e finanças. As altas taxas de crescimento de nossa economia regional e, particularmente, seu desenvolvimento urbano, não seriam possíveis sem a abertura ao comércio internacional, sem acesso às tecnologias de última geração, sem a participação de nossos cientistas e técnicos no desenvolvimento internacional do conhecimento e sem o alto investimento registrado nos meio eletrônicos de comunicação. Tudo isso leva também consigo o surgimento de uma classe média tecnologicamente letrada. Ao mesmo tempo a globalização se manifesta como a profunda aspiração do gênero humano à unidade. Não obstante estes avanços, o Papa também assinala que a globalização “comporta o risco dos grandes monopólios e de converter o lucro em valor supremo”. Por isso, Bento XVI enfatiza que “como em todos os campos da atividade humana, a globalização deve se reger também pela ética, colocando tudo a serviço da pessoa humana, criada a imagem e semelhança de Deus”25.
61. A globalização é um fenômeno complexo que possui diversas dimensões (econômicas, políticas, culturais, comunicacionais, etc.). Para uma justa valorização dela, é necessária uma compreensão analítica e diferenciada que permita detectar tanto seus aspectos positivos quanto os negativos. Lamentavelmente, a face mais difundida e de êxito da globalização é sua dimensão econômica, que se sobrepõe e condiciona as outras dimensões da vida humana. Na globalização, a dinâmica do mercado absolutiza com facilidade a eficácia e a produtividade como valores reguladores de todas as relações humanas. Este peculiar caráter faz da globalização um processo promotor de iniqüidades e injustiças múltiplas. A globalização, tal como está configurada atualmente, não é capaz de interpretar e reagir em função de valores objetivos que se encontram além do mercado e que constituem o mais importante da vida humana: a verdade, a justiça, o amor, e muito especialmente, a dignidade e os direitos de todos, inclusive daqueles que vivem à margem do próprio mercado.
62. Conduzida por uma tendência que privilegia o lucro e estimula a competitividade, a globalização segue uma dinâmica de concentração de poder e de riqueza em mãos de poucos. Concentração não só dos recursos físicos e monetários, mas sobretudo de informação e dos recursos humanos, o que produz a exclusão de todos aqueles não suficientemente capacitados e informados, aumentando as desigualdades que marcam tristemente nosso continente e que mantêm na pobreza uma multidão de pessoas. O que existe hoje é a pobreza de conhecimento e do uso e acesso a novas tecnologias. Por isso é necessário que os empresários assumam sua responsabilidade de criar mais fontes de trabalho e de investir nas regiões mais pobres com o objetivo de contribuir para seu desenvolvimento.

63. Não se pode negar que o predomínio desta tendência não têm eliminado a possibilidade de se formar pequenas e médias empresas. Elas se associam ao dinamismo exportador da economia, prestam-lhe serviços colaterais ou aproveitam nichos específicos do mercado interno. No entanto, sua fragilidade econômica e financeira e a pequena escala em que se desenvolvem, tornam-nas extremamente vulneráveis frente às taxas de juros, ao risco do câmbio, aos custos previsíveis e a variação nos preços de seus insumos. A debilidade destas empresas se associa à precariedade do emprego que estão em condições de oferecer. Sem uma política de proteção específica dos estados a elas, corre-se o risco de que as economias dos grandes consórcios termine por se impor como a única forma determinante do dinamismo econômico.
64. Por isso, frente a esta forma de globalização, sentimos um forte chamado para promover uma globalização diferente, que esteja marcada pela solidariedade, pela justiça e pelo respeito aos direitos humanos, fazendo da América Latina e do Caribe não só o continente da esperança, mas também o continente do amor, como propôs SS. Bento XVI no Discurso Inaugural desta Conferência.
65. Isto deveria nos levar a contemplar os rostos daqueles que sofrem. Entre eles estão as comunidades indígenas e afro-descendentes que, em muitas ocasiões, não são tratadas com dignidade e igualdade de condições; muitas mulheres são excluídas, em razão de seu sexo, raça ou situação sócio-econômica; jovens que recebem uma educação de baixa qualidade e não têm oportunidades de progredir em seus estudos nem de entrar no mercado de trabalho para se desenvolver e constituir uma família; muitos pobres, desempregados, migrantes, deslocados, agricultores sem terra, aqueles que procuram sobreviver na economia informal; meninos e meninas submetidos à prostituição infantil ligada muitas vezes ao turismo sexual; também as crianças vítimas do aborto. Milhões de pessoas e famílias vivem na miséria e inclusive passam fome. Preocupam-nos também os dependentes das drogas, as pessoas com limitações físicas, os portadores e vítimas de enfermidades graves como a malária, a tuberculose e HIV-AIDS, que sofrem a solidão e se vêem excluídos da convivência familiar e social. Não nos esqueçamos também dos seqüestrados e aqueles que são vítimas da violência, do terrorismo, de conflitos armados e da insegurança na cidade. Também os anciãos que, além de se sentirem excluídos do sistema produtivo, vêem-se muitas vezes recusados por sua família como pessoas incômodas e inúteis. Sentimos as dores, enfim, da situação desumana em que vive a grande maioria dos presos, que também necessitam de nossa presença solidária e de nossa ajuda fraterna. Uma globalização sem solidariedade afeta negativamente os setores mais pobres. Já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e opressão, mas de algo novo: da exclusão social. Com ela o pertencimento à sociedade na qual se vive fica afetado, pois já não se está abaixo, na periferia ou sem poder, mas se está de fora. Os excluídos não são somente “explorados”, mas “supérfluos” e “descartáveis”.
66. As instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo, debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações, especialmente quando se trata de investimentos de longo prazo e sem retorno imediato. As indústrias extrativistas internacionais e a agroindústria muitas vezes não respeitam os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais das populações locais e não assumem suas responsabilidades. Com muita freqüência se subordina a destruição da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos á biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática. Uma nova tendência com múltiplas implicações na região é a crescente produção de agro combustíveis, que não deve ser feita a custa da necessária produção de alimentos para a sobrevivência humana. A América Latina possui os aqüíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões de território selvagem, que são pulmões da humanidade. Assim se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais que não são reconhecidos economicamente. A região se vê afetada pelo aquecimento da terra e a mudança climática provocada principalmente pelo estilo de vida não sustentável dos países industrializados.
67. A globalização tem celebrado freqüentes Tratados de Livre Comércio entre países com economias assimétricas, que nem sempre beneficiam os países mais pobres. Ao mesmo tempo pressiona-se os países da região com exigências desmedidas em matéria de propriedade intelectual, a tal ponto que se permitem direitos de patente sobre a vida em todas as suas formas. Além disso, a utilização de organismos geneticamente manipulados tem mostrado o que nem sempre contribui para o combate contra a fome, nem para o desenvolvimento rural sustentável.
68. Ainda que se tenha progredido muitíssimo no controle da inflação e na estabilidade macro-econômica dos países da região, muitos governos se encontram severamente limitados para o financiamento de seu orçamento público pelos elevados serviços da dívida externa26 e interna e que, por outro lado, não contam com sistemas tributários verdadeiramente eficientes, progressivos e eqüitativos.
69. A atual concentração de renda e riqueza acontece principalmente pelos mecanismos do sistema financeiro. A liberdade concedida aos investimentos financeiros favorecem o capital especulativo, que não tem incentivos para fazer investimentos produtivos de longo prazo, mas busca o lucro imediato nos negócios com títulos públicos, moedas e derivados. No entanto, segundo a Doutrina Social da Igreja, “o objeto da economia é a formação da riqueza e seu incremento progressivo, em termos não só quantitativos, mas qualitativos: tudo é moralmente correto se está orientado para o desenvolvimento global e solidário do homem e da sociedade na qual vive e trabalha. O desenvolvimento, na verdade, não pode se reduzir a um mero processo de acumulação de bens e de serviços. Ao contrário, a pura acumulação, ainda que para o bem comum, não é uma condição suficiente para a realização de uma autêntica felicidade humana”27. A empresa é chamada a prestar uma contribuição maior na sociedade, assumindo a chamada responsabilidade social-empresarial, a partir dessa perspectiva.
70. É também alarmante o nível de corrupção nas economias envolvendo tanto o setor público quanto o setor privado, ao que se soma uma notável falta de transparência e prestação de contas à cidadania. Em muitas ocasiões, a corrupção está vinculada ao flagelo do narcotráfico ou do narconegócio ,e por outro lado, vem destruindo o tecido social e econômico em regiões inteiras.
71. A população economicamente ativa da região é afetada pelo subemprego (42%) e o desemprego (9%). O trabalho informal atinge quase a metade dela. O trabalho formal, por sua vez, vê-se submetido à precariedade das condições de emprego e à pressão constante da sub-contratação, que traz consigo salários mais baixos e falta de proteção na área da segurança social, não permitindo a muitos o desenvolvimento de uma vida digna. Neste contexto, os sindicatos perdem a possibilidade de defender os direitos dos trabalhadores. Por outro lado, é possível destacar fenômenos positivos e criativos para enfrentar esta situação por parte dos afetados, que vêm estimulando diversas experiências, como por exemplo, micro-finanças, economia local e solidária e comércio justo.
72. Os homens do campo, em sua maioria, sofrem por causa da pobreza, agravada por não terem acesso à terra própria. No entanto, existem grandes latifúndios em mãos de poucos. Em alguns países, esta situação tem levado a população a exigir uma Reforma Agrária, estando atentos aos males que podem lhes ocasionar os Tratados de Livre Comércio, a manipulação de drogas e outros fatores.
73. Um dos fenômenos mais importantes em nossos países é o processo de mobilidade humana no qual milhões de pessoas migram ou se vêem forçadas a migrar dentro e fora de seus respectivos países. As causas são diversas e estão relacionadas com a situação econômica, a violência em suas diversas formas, a pobreza que afeta as pessoas e a falta de oportunidades para a pesquisa e o desenvolvimento profissional. Em muitos casos as conseqüência são de enorme gravidade em nível pessoal, familiar e cultural. A perda do capital humano de milhões de pessoas, de profissionais qualificados, de pesquisadores e amplos setores d agricultura, vai nos empobrecendo cada vez mais. A exploração do trabalho chega, em alguns casos, a gerar condições de verdadeira escravidão. Acontece também um vergonhoso tráfico de pessoas, que inclui a prostituição, inclusive de menores. Merece especial menção a situação dos refugiados, que questiona a capacidade de acolhida da sociedade e das igrejas. Por outro lado, no entanto, a remessa de divisas dos emigrados a seus países de origem tem se tornado uma importante e, às vezes, insubstituível fonte de recursos para os países da região, ajudando o bem-estar e à mobilidade social ascendente daqueles que conseguem participar com êxito neste processo.

2.1.3 Dimensão sócio-política



74. Constatamos como fato positivo o fortalecimento dos regimes democráticos em muitos países da América Latina e do Caribe segundo demonstram os últimos processos eleitorais. No entanto, vemos com preocupação o acelerado avanço de diversas formas de regressão autoritária por via democrática que em certas ocasiões resultam em regimes de corte neo-populista. Isto indica que não basta uma democracia puramente formal, fundada em procedimentos eleitorais honestos, mas que é necessário uma democracia participativa e baseada na promoção e respeito dos direitos humanos. Uma democracia sem valores como os mencionados torna-se facilmente uma ditadura e termina traindo o próprio povo.
75. Com a presença da Sociedade Civil assumindo uma atitude mais protagonista e a irrupção de novos atores sociais como são os indígenas, os afro-americanos, as mulheres, os profissionais, uma extensa classe média e os setores marginalizados organizados, está se fortalecendo a democracia participativa e estão se criando maiores espaços de participação política. Estes grupos estão tomando consciência do poder que têm em suas mãos e da possibilidade de gerarem mudanças importantes para a conquista de políticas públicas mais justas, que revertam sua situação de exclusão. Neste plano, percebe-se também uma crescente influência de organismos das nações unidas e de Organizações Não-Governamentais de caráter internacional que nem sempre ajustam suas recomendações a critérios éticos. Não faltam também atuações que radicalizam as posições, fomentam a conflitividade e a polarização extremas e colocam esse potencial a serviço de interesses alheios aos seus, o que, ao final, pode frustrar e reverter negativamente suas esperanças.

76. Depois de uma época de debilidade dos Estados devido a aplicação de ajustes estruturais na economia, por recomendação de organismos financeiros internacionais, olha-se, atualmente, com bons olhos um esforço por parte dos Estados em definir e aplicar políticas públicas nos campos da saúde, educação, segurança alimentar, previdência social, acesso à terra e à moradia, promoção eficaz da economia para a criação de empregos e leis que favorecem as organizações solidárias. Tudo isto mostra que não pode existir democracia verdadeira e estável sem justiça social, sem divisão real de poderes e sem a vigência do Estado de direito28.
77. Cabe assinalar como um grande fator negativo, o recrudescimento da corrupção na sociedade e no Estado em boa parte da região, envolvendo os poderes legislativos e executivo em todos os seus níveis, alcançando também o sistema judicial. Este, muitas vezes, inclina seu juízo a favor dos poderosos e gera impunidade, o que coloca em sério risco a credibilidade das instituições públicas e aumenta a desconfiança do povo, fenômeno que se une a um profundo desprezo pela legalidade. Em amplos setores da população e particularmente entre os jovens cresce o desencanto pela política e particularmente pela democracia, pois as promessas de uma vida melhor e mais justa não se cumpriram ou se cumpriram só pela metade. Neste sentido, esquece-se de que a democracia e a participação política é fruto da formação que se faz realidade somente quando os cidadãos são conscientes de seus direitos fundamentais e de seus deveres correspondentes.
78. A vida social em convivência harmônica e pacífica está se deteriorando gravemente em muitos países da América Latina e do Caribe pelo crescimento da violência, que se manifesta em roubos, assaltos, seqüestros, e o que é mais grave, em assassinatos que a cada dia destroem mais vidas humanas e enchem de dor as famílias e a sociedade inteira. A violência se reveste de várias formas e tem diversos agentes: o crime organizado e o narco-tráfico, grupos paramilitares, violência comum sobretudo na periferia das grandes cidades, violência de grupos de jovens e crescente violência intra-familiar. Suas causas são múltiplas: a idolatria elo dinheiro, o avanço de uma ideologia individualista e utilitarista, a falta de respeito pela dignidade de cada pessoa, a deterioração do tecido social, a corrupção inclusive nas forças de ordem e a falta de políticas públicas de equidade social.
79. Alguns parlamentos ou assembléias legislativas aprovam leis injustas contra os direitos humanos e a vontade popular, precisamente por não estar perto de seus representados, nem saber escutar e dialogar com os cidadãos, mas também por ignorância, por falta de acompanhamento e porque muitos cidadãos abdicam de seu dever de participar na vida pública.
80. Em alguns países tem aumentado a repressão, a violência dos direitos humanos, inclusive o direito à liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a liberdade de ensino, assim como o desprezo à objeção de consciência.
81. Ainda que alguns países tenham conseguido acordos de paz superando dessa forma conflitos antigos, em outros, continua a luta armada com todas as suas seqüelas (mortes violentas, violações dos Direitos Humanos, ameaças, crianças na guerra, seqüestros, etc.), sem que se possa observar soluções em curto prazo. A influência do narconegócio nestes grupos dificulta ainda mais as possíveis soluções.
82. Na América Latina e no Caribe vê-se com bons olhos uma crescente vontade de integração regional com acordos multilaterais, envolvendo um número crescente de países que geram suas próprias regras no campo do comércio, dos serviços e das patentes. À origem comum unem-se a cultura, a língua e a religião que podem contribuir para que a integração não seja só de mercados, mas de instituições civis e de pessoas. Também é positiva a globalização da justiça, no campo dos direitos humanos e dos crimes contra a humanidade que permitirá a todos viver progressivamente sob normas iguais chamadas a proteger sua dignidade, sua integridade e sua vida.

2.1.4 Biodiversidade, ecologia, Amazônia e Antártida



83. A América Latina é o Continente que possui uma das maiores biodiversidades do planeta e uma rica sócio diversidade representada por seus povos e culturas. Estes possuem um grande acervo de conhecimentos tradicionais sobre a utilização dos recursos naturais, assim como sobre o valor medicinal de plantas e outros organismos vivos, muitos dos quais formam a base de sua economia. Tais conhecimentos são atualmente objeto de apropriação intelectual ilícita, sendo patenteados por indústrias farmacêuticas e de biogenética, gerando vulnerabilidade dos agricultores e suas famílias que dependem desses re-cursos para sua sobrevivência.
84. Nas decisões sobre as riquezas da biodiversidade e da natureza as populações tradicionais têm sido praticamente excluídas. A natureza foi e continua sendo agredida. A terra foi depredada. As águas estão sendo tratadas como se fossem uma mercadoria negociável pelas empresas, além de haver sido transformadas em um bem disputado pelas grandes potências. Um exemplo muito importante nesta situação é a Amazônia29.
85. Em seu discurso aos jovens, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, o Papa Bento XVI chamou a atenção sobre a “devastação ambiental da Amazônia e as ameaças à dignidade humana de seus povos”30 e pediu aos jovens “um maior com-promisso nos mais diversos espaços de ação31”.
86. A crescente agressão ao meio-ambiente pode servir de pretexto para propostas de internacionalização da Amazônia, que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais. A sociedade panamazônica é pluriétnica, pluricultural e plurirreligiosa. Nela, está-se intensificando, cada vez mais, a disputa pela ocupação do território. As populações tradicionais da região querem que seus territórios sejam reconhecidos e legalizados.
87. Além disso, constatamos o retrocesso das geleiras em todo o mundo: o degelo do Ártico cujo impacto já está se vendo na flora e fauna desse ecossistema; também o aquecimento global se faz sentir no estrondoso crepitar dos blocos de gelo ártico que reduzem a cobertura glacial do Continente e que re-gula o clima do mundo. Profeticamente, há 20 anos, desde a fronteira das Américas, João Paulo II assinalou: “Desde o Cone Sul do Continente Americano e frente aos ilimitados espaços da Antártida, lanço um chamado a todos os responsáveis de nosso planeta para proteger e conservar a natureza criada por Deus: não permitamos que nosso mundo seja uma terra cada vez mais degradada e degradante”32.

2.1.5 Presença dos povos indígenas e afro-americanos na Igreja



88. Os indígenas constituem a população mais antiga do Continente. Estão na raiz primeira da identidade latino-americana e caribenha. Os afro-americanos constituem outra raiz que foi arrancada da África e trazida para cá como gente escravizada. A terceira raiz é a população pobre que migrou da Europa a partir do século XVI, em busca de melhores condições de vida e o grande fluxo de imigrantes de todo o mundo a partir de meados do século XIX. De todos estes grupos e de suas correspondentes culturas se formou a mestiçagem que é a base social e cultural de nossos povos latino-americanos e caribenhos, como já o reconheceu a III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano celebrada em Puebla, México33.
89. Os indígenas e afro-americanos são, sobretudo, “outros” diferentes que exigem respeito e reconhecimento. A sociedade tende a menosprezá-los, desconhecendo o porquê de suas diferenças. Sua situação social está marcada pela exclusão e pela pobreza. A Igreja acompanha os indígenas e afro-americanos nas lutas por seus legítimos direitos.
90. Hoje, os povos indígenas e afros estão ameaçados em sua existência física, cultural e espiritual; em seus modos de vida; em suas identidades; em sua diversidade; em seus territórios e projetos. Algumas comunidades indígenas se encontram fora de suas terras porque elas foram invadidas e degradadas, ou não tem terras suficientes para desenvolver suas culturas. Sofrem graves ataques a sua identidade e sobrevivência, pois a globalização econômica e cultural coloca em perigo sua própria existência como povo diferentes. Sua progressiva transformação cultural provoca o rápido desaparecimento de algumas línguas e culturas. A migração, forçada pela pobreza, está influindo profundamente na mudança de seus costumes, de relacionamentos e inclusive de religião.
91. Os indígenas e afro-americanos emergem agora na sociedade e na Igreja. Este é um “kairós” para aprofundar o en-contro da Igreja com estes setores humanos que reivindicam o reconhecimento pleno de seus direitos individuais e coletivos, serem levados em consideração na catolicidade com sua cosmovisão, seus valores e suas identidades particulares, para viver um novo Pentecostes eclesial.
92. Já, em Santo Domingo, os pastores reconheciam que “os povos indígenas cultivam valores humanos de grande significado”34; valores que “a Igreja defende... diante da força dominadora das estruturas de pecado manifestas na sociedade moderna”35; “são possuidores de inumeráveis riquezas culturais, que estão na base de nossa identidade atual”36; e, a partir da perspectiva da fé, “estes valores e convicções são fruto de ‘sementes do Verbo’, que já estavam presentes e operavam em seus antepassados”37.
93. Entre eles podemos assinalar: “abertura à ação de Deus pelos frutos da terra, o caráter sagrado da vida humana, a valorização da família, o sentido de solidariedade e a co-responsabilidade no trabalho comum, a importância do cultual, a crença em uma vida ultra terrena”38. Atualmente, o povo tem enriquecido amplamente estes valores através da evangelização e os tem desenvolvido em múltiplas formas de autêntica religiosidade popular.
94. Como Igreja que assume a causa dos pobres, estimulamos a participação dos indígenas e afro-americanos na vida eclesial Vemos com esperança o processo de inculturação discernido à luz do magistério. É prioritário fazer traduções católicas da Bíblia e dos textos litúrgicos nos idiomas desses povos. Necessita-se, igualmente, promover mais as vocações e os ministérios ordenados procedentes destas culturas.
95. Nosso serviço pastoral à vida plena dos povos indígenas exige que anunciemos a Jesus Cristo e a Boa Nova do Rei-no de Deus, denunciemos as situações de pecado, as estruturas de morte, a violência e as injustiças internas e externas e fomentemos o diálogo inter-cultural, inter-religioso e ecumênico. Jesus Cristo é a plenitude da revelação para todos os povos e o centro fundamental de referência para discernir os valores e as deficiências de todas as culturas, incluindo as indígenas. Por isso, o maior tesouro que podemos oferecer a eles é que cheguem ao encontro com Jesus Cristo ressuscitado, nosso Salva-dor. Os indígenas que já receberam o Evangelho, como discípulos e missionários de Jesus Cristo, são chamados a viver com imensa alegria sua realidade cristã, a explicar a razão de sua fé em meio a suas comunidades e a colaborar ativamente para que nenhum povo indígena da América Latina renegue sua fé cristã, mas ao contrário, sintam que em Cristo encontram o sentido pleno de sua existência.
96. A história dos afro-americanos tem sido atravessada por uma exclusão social, econômica, política e, sobretudo, racial, onde a identidade étnica é fator de subordinação social. Atualmente, são discriminados na inserção do trabalho, na qualidade e conteúdo da formação escolar, nas relações cotidianas e, além disso, existe um processo de ocultamento sistemático de seus valores, história, cultura e expressões religiosas. Permanece, em alguns casos, uma mentalidade e um certo olhar de menor respeito em relação aos indígenas e afro-americanos. Desse modo, descolonizar as mentes, o conhecimento, recuperar a memória histórica, fortalecer os espaços e relacionamentos inter-culturais, são condições para a afirmação da plena cidadania destes povos.
97. A realidade latino-americana conta com comunidades afro-americanas muito vivas que participam ativa e criativa-mente na construção deste continente. Os movimentos pela recuperação das identidades, dos direitos dos cidadãos e contra o racismo e os grupos alternativos de economias solidárias, fazem das mulheres e homens negros sujeitos construtores de sua história e de uma nova história que se vai desenhando na atualidade latino-americana e caribenha. Esta nova realidade se baseia em relações inter-culturais onde a diversidade não significa ameaça, não justifica hierarquias de um poder sobre outros, mas sim diálogo a partir de visões culturais diferentes de celebração, de inter-relacionamento e de re-avivamento da esperança.


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