V conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe



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6.2. O processo de formação dos discípulos missionários



276. A vocação e o compromisso de ser hoje discípulos e missionários de Jesus Cristo na América Latina e no Caribe, requerem uma clara e decidida opção pela formação dos membros de nossas comunidades, a favor de todos os batizados, qualquer que seja a função que desenvolvem na Igreja. Olha-mos para Jesus, o Mestre que formou pessoalmente a seus apóstolos e discípulos. Cristo nos dá o método: “Venham e vejam” (Jo 1, 39), “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Com Ele podemos desenvolver as potencialidades que estão nas pessoas e formar discípulos missionários. Com perseverante paciência e sabedoria, Jesus convidou a todos para que o seguissem e introduziu aqueles que aceitaram segui-lo no mistério do Reino de Deus. Depois de sua morte e ressurreição, enviou-os a pregar a Boa Nova na força do Espírito. Seu estilo se torna emblemático para os formadores e cobra especial relevância quando pensamos na paciente tarefa formativa que a Igreja deve empreender no novo contexto sócio-cultural da América Latina.
277. O caminho de formação do seguidor de Jesus lança suas raízes na natureza dinâmica da pessoa e no convite pessoal de Jesus Cristo, que chama os seus por seu nome e estes o seguem porque conhecem a sua voz. O Senhor despertava as aspirações profundas de seus discípulos e os atraía a si, maravilhados. O seguimento é fruto de uma fascinação que responde ao desejo de realização humana, ao desejo de vida plena. O discípulo é alguém apaixonado por Cristo a quem reconhece como o mestre que o conduz e o acompanha.

6.2.1 Aspectos do processo



278. No processo de formação de discípulos missionários destacamos cinco aspectos fundamentais que aparecem de maneira diversa em cada etapa do caminho, mas que se complementam intimamente e se alimentam entre si:


  1. O Encontro com Jesus Cristo: Aqueles que serão seus discípulos já o buscam (cf. Jo 1,38), mas é o Senhor quem os chama: “Segue-me” (Mc 1,14; Mt 9,9). É necessário descobrir o sentido mais profundo da busca, assim como é necessário propiciar o encontro com Cristo que dá origem à iniciação cristã. Este encontro deve se renovar constantemente pelo testemunho pessoal, pelo anúncio do querigma e pela ação missionária da comunidade. O querigma não é somente uma etapa, mas o fio condutor de um processo que culmina na maturidade do discípulo de Jesus Cristo. Sem o querigma, os demais aspectos deste processo estão condenados à esterilidade, sem corações verdadeiramente convertidos ao Senhor. Só a partir do querigma acontece a possibilidade de uma iniciação cristã verdadeira. Por isso, a Igreja precisa tê-lo presente em todas as suas ações.




  1. A Conversão: É a resposta inicial de quem escutou o Senhor com admiração, crê nEle pela ação do Espírito, decide-se ser seu amigo e ir após Ele, mudando sua forma de pensar e de viver, aceitando a cruz de Cristo, consciente de que morrer para o pecado é alcançar a vida. No Batismo e no sacramento da re-conciliação se atualiza para nós a redenção de Cristo.




  1. O Discipulado: A pessoa amadurece constantemente no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre, aprofunda no mistério de sua pessoa, de seu exemplo e de sua doutrina. Para isso são de fundamental importância a catequese permanente e a vida sacramental, que fortalecem a conversão inicial e permitem que os discípulos missionários possam perseverar na vida cristã e na missão em meio ao mundo que nos desafia.




  1. A Comunhão: Não pode existir vida cristã fora da comunidade; seja nas famílias, nas paróquias, nas comunidades de vida consagrada, nas comunidades de base, outras pequenas comunidades e movimentos. Como os primeiros cristãos, que se reuniam em comunidade, o discípulo participa na vida da Igreja e no encontro com os irmãos, vivendo o amor de Cristo na vida fraterna solidária. Ele também é acompanhado e estimulado pela comunidade e seus pastores para amadurecer na vida do Espírito.




  1. A Missão: O discípulo, à medida que conhece e ama a seu Senhor, experimenta a necessidade de compartilhar com outros a sua alegria de ser enviado, de ir ao mundo para anunciar Jesus Cristo, morto e ressuscitado, a fazer realidade o amor e o serviço na pessoa dos mais necessitados, em uma palavra, a construir o Reino de Deus. A missão é inseparável do discipulado, o qual não deve ser entendido como uma etapa posterior à formação, ainda que ela seja realizada de diversas maneiras de acordo com a própria vocação e ao momento da maturidade humana e cristã em que se encontre a pessoa.

6.2.2 Critérios gerais

6.2.2.1 Uma formação integral, querigmática e permanente


279. A missão principal da formação é ajudar os membros da Igreja a se encontrar sempre com Cristo, e assim reconhecer, acolher, interiorizar e desenvolver a experiência e os valores que constituem a própria identidade e missão cristã no mundo. Por isso, a formação obedece a um processo integral, ou seja, que compreende várias dimensões, todas harmonizadas entre si em unidade vital. Na base destas dimensões está a força do anúncio querigmático. O poder do Espírito e da Palavra contagia as pessoas e as leva a escutar a Jesus Cristo, a crer nEle como seu Salvador, a reconhece-lo como quem dá o pleno significado a suas vidas e a seguir seus passos. O anúncio se fundamenta no fato da presença de Cristo Ressuscitado hoje na Igreja, e é fator imprescindível no processo de formação de discípulos e missionários. Ao mesmo tempo, a formação é permanente e dinâmica, de acordo com o desenvolvimento das pessoas e como serviço que são chamadas a prestar, em meios às exigências da história.
6.2.2.2 Uma formação atenta a dimensões diversas

280. A formação abrange diversas dimensões que deverão ser integradas harmonicamente ao longo de todo o processo de formação. Trata-se da dimensão humana comunitária, espiritual, intelectual, comunitária e pastoral-missionária.


  1. A Dimensão Humana e Comunitária. Tende a acompanhar processos de formação que levam a pessoa a assumir a própria história e a curá-la, com o objetivo de se tornar capaz de viver como cristão em um mundo plural, com equilíbrio, fortaleza, serenidade e liberdade interior. Trata-se de desenvolver personalidades que amadureçam em contato com a realidade e abertas ao Mistério.




  1. A Dimensão Espiritual: É a dimensão formativa que funda o ser cristão na experiência de Deus manifestado em Jesus e que o conduz pelo Espírito através dos caminhos de um amadure-cimento profundo. Por meio dos diversos carismas a pessoa se fundamenta no caminho da vida e do serviço proposto por Cristo, com um estilo pessoal. Assim como a Virgem Maria, essa dimensão permite ao cristão aderir de coração e pela fé aos caminhos alegres, luminosos, dolorosos e gloriosos de seu Mestre e Senhor.




  1. A Dimensão Intelectual: O encontro com Cristo, Palavra feita carne, potencializa o dinamismo da razão que procura o significado da realidade e se abre para o Mistério. Ela se expressa em uma reflexão séria, feita diariamente no estudo que abre, com a luz da fé, abre a inteligência à verdade. Também capacita para o discernimento, o juízo crítico e o diálogo sobre a realidade e a cultura. Assegura de uma maneira especial o conhecimento bíblico-teológico e das ciências humanas para adquirir a necessária competência em vista dos serviços eclesiais que se requeira e para a adequada presença na vida secular.




  1. A dimensão Pastoral e Missionária: Um autêntico caminho cristão preenche de alegria e esperança o coração e leva o cristão a anunciar a Cristo de maneira constante em sua vida e em seu ambiente. Projeta para a missão de formar discípulos missionários para serviço do mundo. Habilita a propor projetos e estilos de vida cristão atraentes, com intervenções orgânicas e de colaboração fraterna com todos os membros da comunidade. Contribui para integrar evangelização e pedagogia, comunicando vida e oferecendo itinerários de acordo com a maturidade cristã, a idade e outras condições próprias das pessoas ou dos grupos. Incentiva a responsabilidade dos leigos no mundo para construir o Reino de Deus. Desperta uma inquietude constante pelos distanciados e pelos que ignoram o Senhor em suas vidas.
6.2.2.3 Uma formação respeitosa dos processos


281. Chegar à altura de uma vida nova em Cristo, identificando-se profundamente com Ele164 e sua missão, é um caminho longo que requer itinerários diversificados, respeitosos dos processos pessoais e dos ritmos comunitários, contínuos e graduais. Na diocese o eixo central deverá ser um projeto orgânico de formação, aprovado pelo Bispo e elaborado com os organismos diocesanos competentes, levando em consideração todas as forças vivas da Igreja local: associações, serviços e movimentos, comunidades religiosas, pequenas comunidades, comissões de pastoral social e diversos organismos eclesiais que ofereçam a visão do conjunto e da convergência das diversas iniciativas. Requer-se, também, equipes de formação convenientemente preparadas que assegurem a eficácia do próprio processo e que acompanhem as pessoas com pedagogias dinâmicas, ativas e abertas. A presença e contribuição de leigos e leigas nas equipes de formação apresenta uma riqueza original, pois, a partir de suas experiências e competências, eles oferecem critérios, conteúdos e testemunhos valiosos para aqueles que estão se formando.

6.2.2.4 Uma formação que contempla o acompanhamento dos discípulos


282. Cada setor do Povo de Deus requer que a pessoa seja acompanhada e formada de acordo com a peculiar vocação e ministério para o qual tenha sido chamada: o bispo é o princípio da unidade na diocese devido a seu tríplice ministério de ensinar, santificar e governar; os presbíteros cooperam com o ministério do bispo, no cuidado do povo de Deus que lhes foi confiado; os diáconos permanentes no serviço vivificante, humilde e perseverante como ajuda valiosa para os bispos e presbíteros; os consagrados e consagradas no seguimento radical do Mestre; os leigos e leigas cumprem sua responsabilidade evangelizadora colaborando na formação de comunidades cristãs e na construção do Reino de Deus no mundo. Requer-se, portanto, capacitar aqueles que possam acompanhar espiritual e pastoralmente a outros.
283. Destacamos que a formação dos leigos e leigas deve contribuir, antes de mais nada, para sua atuação como discípulos missionários no mundo, na perspectiva do diálogo e da transformação da sociedade. É urgente uma formação específica para que possam ter uma incidência significativa nos diferentes campos, sobretudo, “no mundo vasto da política, da realidade social e da economia, como também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos meios de comunicação e de outras realidades abertas à evangelização”165.
6.2.2.5 Uma formação na espiritualidade da ação missionária


284. É necessário formar os discípulos em uma espiritualidade da ação missionária, que se baseia na docilidade ao impulso do Espírito, a sua potência de vida que mobiliza e trans-figura todas as dimensões da existência. Não é uma experiência que se limita aos espaços privados da devoção, mas que procura penetra-lo completamente com seu fogo e sua vida. O discípulo e missionário, movido pelo estímulo e ardor que provêm do Espírito, aprende a expressa-lo no trabalho, no diálogo, no serviço e na missão cotidiana.
285. Quando o impulso do Espírito impregna e motiva todas as áreas da existência, então também penetra e configura a vocação específica de cada pessoa. Assim se forma e desenvolve a espiritualidade própria de presbíteros, de religiosos e religiosas, de pais de família, de empresários, de catequistas, etc. Cada uma das vocações tem um modo concreto e diferente de viver a espiritualidade, que dá profundidade e entusiasmo para o exercício concreto de suas tarefas. Dessa forma, a vida no Espírito não nos fecha em uma intimidade cômoda e fechada, mas sim nos torna pessoas generosas e criativas, felizes no anúncio e no serviço. Torna-nos comprometidos com os sinais da realidade e capazes de encontrar um profundo significado a tudo o que nos toca fazer pela Igreja e pelo mundo.

6.3 Iniciação à vida cristã e catequese permanente

6.3.1 Iniciação à vida cristã



286. São muitos os cristãos que não participam na Eucaristia dominical nem recebem com regularidade os sacramentos, nem se inserem ativamente na comunidade eclesial. Sem esquecer a importância da família na iniciação cristã, este fenômeno nos desafia profundamente a imaginar e organizar novas formas de aproximação deles para ajudá-los a valorizar o sentido da vida sacramental, da participação comunitária e do compromisso cidadão. Temos uma alta porcentagem de católicos sem consciência de sua missão de ser sal e fermento no mundo, com uma identidade cristã fraca e vulnerável.
287. Isto constitui um grande desafio que questiona a fundo a maneira como estamos educando na fé e como estamos alimentando a experiência cristã; um desafio que devemos encarar com decisão, com coragem e criatividade, visto que em muitas partes a iniciação cristã tem sido pobre e fragmentada. Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em conta-to com Jesus Cristo e convidando-as para seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora. Impõem-se a tarefa irrenunciável de oferecer uma modalidade de iniciação cristã, que além de marcar o que, dê também elementos para o quem, o como e o onde se realiza. Dessa forma, assumiremos o desafio de uma nova evangelização, à qual temos sido reiteradamente convocados.
288. A iniciação cristã, que inclui o querigma, é a maneira prática de colocar alguém em contato com Jesus Cristo e iniciá-lo no discipulado. Dá-nos, também, a oportunidade de fortalecer a unidade dos três sacramentos e aprofundar a pessoa em seu rico sentido. A iniciação cristã propriamente falando, refere-se à primeira iniciação nos mistérios da fé, seja na forma do catecumenato batismal para os não batizados, seja na forma do catecumenato pós-batismal para os batizados não suficientemente catequizados. Este catecumenato está intimamente unido aos sacramentos da iniciação: batismo, confirmação e eucaristia, celebrados solenemente na Vigília Pascal. Teríamos que distingui-la, portanto, de outros processos catequéticos e de formação que podem ter a iniciação cristã como base.

6.3.2 Proposta para a iniciação cristã



289. Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação na vida cristã que comece pelo querigma que guiado pela Palavra de Deus, que conduza a um encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem166, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e a um amadurecimento de fé na prática dos sacramentos, do serviço e da missão.
290. Recordamos que o caminho de formação do cristão na tradição mais antiga da Igreja “teve sempre um caráter de experiência, na qual era determinante o encontro vivo e persuasivo com Cristo, anunciado por autênticas testemunhas”167. Trata-se de uma experiência que introduz o cristão numa profunda e feliz celebração dos sacramentos, com toda a riqueza de seus sinais. Deste modo, a vida vem se transformando progressivamente pelos santos mistérios que se celebram, capacitando o cristão a transformar o mundo. Isto é o que se chama “catequese mistagógica”.
291. Ser discípulo é um dom destinado a crescer. A iniciação cristã dá a possibilidade de uma aprendizagem gradual no conhecimento, no amor e no seguimento de Cristo. Dessa forma, ela forja a identidade cristã com as convicções fundamentais e acompanha a busca do sentido da vida. É necessário assumir a dinâmica catequética da iniciação cristã. Uma comunidade que assume a iniciação cristã renova sua vida comunitária e desperta seu caráter missionário. Isto requer novas atitudes pastorais por parte dos bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e agentes de pastoral.
292. Como características do discípulo que indica a iniciação cristã destacamos; que ele tenha como centro a pessoa de Jesus Cristo, nosso Salvador e plenitude de nossa humanidade, fonte de toda maturidade humana e cristã; que tenha o espírito de oração, seja amante da Palavra, pratique a confissão freqüente e participe da Eucaristia; que se insira cordialmente na comunidade eclesial e social, seja solidário no amor e um fervoroso missionário.
293. A paróquia precisa ser o lugar onde se assegure a iniciação cristã e terá como tarefas irrenunciáveis: iniciar na vida cristã os adultos batizados e não suficientemente evangelizados; educar na fé as crianças batizadas em um processo que os leve a completar sua iniciação cristã; iniciar os não batizados que, havendo escutado o querigma, querem abraçar a fé. Nesta tarefa, o estudo e a assimilação do Ritual de Iniciação Cristã de Adultos é uma referência necessária e um apoio seguro.
294. Assumir esta iniciação cristã exige não só uma renovação de modalidade catequética da paróquia. Propomos que o processo catequético de formação adotado pela Igreja para a iniciação cristã seja assumido em todo o Continente como a maneira ordinária e indispensável de introdução na vida cristã e como a catequese básica e fundamental. Depois, virá a catequese permanente que continua o processo de amadurecimento da fé, na qual se deve incorporar um discernimento vocacional e a iluminação para projetos pessoais de vida.

6.3.3 Catequese permanente



295. Quanto a situação atual da catequese, é evidente que tem havido um progresso. Tem crescido o tempo que se dedica à preparação para os sacramentos. Tem-se tomado maior consciência de sua necessidade tanto nas famílias como entre os pastores. Compreende-se que ela é imprescindível em toda formação cristã. Tem-se constituído ordinariamente comissões diocesanas e paroquiais de catequese. É admirável o grande número de pessoas que se sentem chamadas a se fazer catequistas, com grande entrega. A elas, esta Assembléia manifesta um sincero reconhecimento.
296. No entanto, apesar da boa vontade, a formação teológica e pedagógica dos catequistas não costuma ser a desejável. Os materiais são com freqüência muito variados e não se integram em uma pastoral de conjunto; e nem sempre são portadores de métodos pedagógicos atualizados. Os serviços de catequese das paróquias frequentemente carecem de uma colaboração próxima das famílias. Os párocos e demais responsáveis não assumem com maior empenho a função que lhes corresponde como primeiros catequistas.
297. Os desafios que apresenta a situação da sociedade na América latina e no Caribe requerem uma identidade católica mais pessoal e fundamentada. O fortalecimento desta identidade passa por uma catequese adequada que promova uma adesão pessoal e comunitária a Cristo, sobretudo aos mais fracos na fé168. É uma tarefa que incumbida a toda a comunidade de discípulos, mas de maneira especial a nós que, como bispos, temos sido chamados a servir à Igreja, pastoreando-a, conduzindo-a ao encontro com Jesus e ensinando-a a viver tudo o que Ele nos tem mandado (cf. Mt 28,19-20).
298. A catequese não deve ser só ocasional, reduzida a momentos prévios aos sacramentos ou à iniciação cristã, mas sim “um itinerário catequético permanente”169. Por isto, compete a cada Igreja local, com a ajuda das Conferências Episcopais, estabelecer um processo catequético orgânico e progressivo que se propague por toda a vida, desde a infância até a terceira idade, levando em consideração que o Diretório Geral de catequese considera a catequese de adultos como a forma fundamental da educação na fé. Para que o povo conheça a Cristo a fundo e o siga fielmente, deve ser conduzido especialmente na leitura e meditação da Palavra de Deus, que é o primeiro fundamento de uma catequese permanente170.
299. A catequese não pode se limitar a uma formação meramente doutrinal, mas precisa ser uma verdadeira escola de formação integral. Portanto, é necessário cultivar a amizade com Cristo na oração, o apreço pela celebração litúrgica, a experiência comunitária, o compromisso apostólico mediante um permanente serviço aos demais. Para isso, seriam úteis alguns subsídios catequéticos elaborados a partir do Catecismo da Igreja Católica e do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, estabelecendo cursos e escolas de formação permanente aos catequistas.

300. Deve ser dada uma catequese apropriada que acompanhe a fé já presente na religiosidade popular. Uma maneira concreta pode ser oferecer um processo de iniciação cristã em visitas às famílias, onde não só seja comunicado elas os conteúdos da fé, mas que também as conduza à prática da oração familiar, à leitura orante da Palavra de Deus e ao desenvolvimento das virtudes evangélicas, que as consolidem cada vez mais como Igrejas domésticas. Para este crescimento na fé, também é conveniente aproveitar pedagogicamente o potencial educativo presente na piedade popular mariana. Trata-se de um caminho educativo que, cultivando o amor pessoal à Virgem, verdadeira “educadora na fé”171 que nos leva a nos assemelhar cada vez mais a Jesus Cristo, provoque a apropriação progressiva de suas atitudes.

6.4 Lugares de formação para os discípulos missionários



301. A seguir, consideraremos brevemente alguns lugares de formação de discípulos missionários.

6.4.1 A Família, primeira escola da fé



302. A família, “patrimônio da humanidade”, constitui um dos tesouros mais valiosos dos povos latino-americanos. Ela tem sido e é o lugar e escola de comunhão, fonte de valores humanos e cívicos, lar no qual a vida humana nasce e se acolhe generosa e responsavelmente. Para que a família seja “escola de fé” e possa ajudar os pais a serem os primeiros catequistas de seus filhos, a pastoral familiar deve oferecer espaços de formação, materiais catequéticos, momentos celebrativos, que lhes permitam cumprir sua missão educativa. A família é chamada a introduzir os filhos no caminho da iniciação cristã . A família, pequena Igreja, deve ser, junto com a Paróquia, o primeiro lugar para a iniciação cristã das crianças172. Ela oferece aos filhos um sentido cristão de existência e os acompanha na elaboração de seu projeto de vida, como discípulos missionários.
303. É, além disso, um dever dos pais, através especial-mente através de seu exemplo de vida, a educação dos filhos para o amor com dom de si mesmos e a ajuda que eles prestam para descobrir sua vocação de serviço, seja na vida laica como na vida consagrada. Deste modo, opera-se a formação dos filhos como discípulos de Jesus Cristo, nas experiências da vida diária na família cristã. Os filhos têm o direito de poder contar com o pai e a mãe para que cuidem deles e os acompanhem até a plenitude de vida. A “catequese familiar”, implementada de diversas maneiras, tem-se revelado como uma ajuda eficiente à unidade das famílias, oferecendo, além disso, uma possibilidade eficiente de formar os pais de família, os jovens e as crianças, para que sejam testemunhas firmes da fé em suas respectivas comunidades.

6.4.2 As Paróquias



304. A dimensão comunitária é intrínseca ao mistério e à realidade da Igreja que deve refletir a Santíssima Trindade. Esta dimensão especial tem sido vivida de diversas maneiras ao longo dos séculos. A Igreja é comunhão. As Paróquias são células vivas da Igreja173 e os lugares privilegiados em que a maioria dos fiéis tem uma experiência concreta de Cristo e de sua Igreja174. Encerram uma imensa riqueza comunitária porque nelas se encontra uma imensa variedade de situações, de idades, de tarefas. Sobretudo hoje, quando as crises da vida familiar afeta a tantas crianças e jovens, as Paróquias oferecem um espaço comunitário para se formar na fé e crescer comunitariamente.
305. Portanto, deve se cultivar a formação comunitária especialmente na paróquia. Com diversas celebrações e iniciativas, principalmente com a Eucaristia dominical, que é “momento privilegiado do encontro das comunidades com o Senhor ressuscitado”175, os fiéis devem experimentar a paróquia co-mo uma família na fé e na caridade, onde mutuamente se a-companhem e se ajudem no seguimento de Cristo.
306. Se queremos que as paróquias sejam centros de irradiação missionária em seus próprios territórios, elas devem ser tam-bém lugares de formação permanente. Isto requer que se orga-nizem nelas várias instâncias formativas que assegurem o a-companhamento e o amadurecimento de todos os agentes pas-torais e dos leigos inseridos no mundo. As paróquias vizinhas também podem unir esforços neste sentido, sem desperdiçar as ofertas formativas da Diocese e da Conferência Episcopal.

6.4.3 Pequenas comunidades eclesiais



307. Constata-se que nos últimos anos está crescendo a espiritualidade de comunhão e que, com diversas metodologias, não poucos esforços tem sido feitos para levar os leigos a se integrar nas pequenas comunidades eclesiais, que vão mostrando frutos abundantes. Nas pequenas comunidades eclesiais temos um meio privilegiado para chegar a Nova Evangelização e para chegar a que os batizados vivam como autênticos discípulos e missionários de Cristo.
308. Elas são um ambiente propício para se escutar a Palavra de Deus, para viver a fraternidade, para animar na oração, para aprofundar processos de formação na fé e para fortalecer o exigente compromisso de ser apóstolos na sociedade de hoje. Elas são lugares de experiência cristã e evangelização que, em meio à situação cultural que nos afeta, secularizada e hostil à Igreja, se fazem muito mais necessários.
309. Se desejamos pequenas comunidades vivas e dinâmicas, é necessário despertar nelas uma espiritualidade sólida, baseada na Palavra de Deus, que as mantenham em plena comunhão de vida e ideais com a Igreja local e, em particular, com a comunidade paroquial. Por outro lado, conforme Há a-nos estamos propondo na América Latina, a Paróquia chegará a ser “comunidade de comunidades”176.
310. Destacamos que é preciso reanimar os processos de formação de pequenas comunidades no Continente, pois nelas temos uma fonte segura de vocações ao sacerdócio, à vida religiosa e à vida leiga com especial dedicação ao apostolado. Através das pequenas comunidades, também se poderia conseguir chegar aos afastados, aos indiferentes e aos que alimentam descontentamento ou ressentimento em relação à Igreja.

6.4.4 Os movimentos eclesiais e novas comunidades



311. Os novos movimentos e comunidades são um dom do Espírito Santo para a Igreja. Neles, os fiéis encontram a possibilidade de se formar na fé cristã, crescer e se comprometer apostolicamente até ser verdadeiros discípulos missionários. Assim exercitam o direito natural e batismal de livre associação, como o indicou o Concílio vaticano II177 e confirma o Código de Direito Canônico. Seria conveniente incentivar a alguns movimentos e associações que mostram hoje certo cansaço ou fraqueza e convida-los a renovar seu carisma original, que não deixa de enriquecer a diversidade com que o Espírito se manifesta e atua no povo cristão.
312. Os movimentos e novas comunidades constituem uma valiosa contribuição na realização da Igreja local. Por sua própria natureza expressam a dimensão carismática da Igreja: “na Igreja não há contraste ou contraposição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática, da qual os movimentos são uma expressão significativa, porque ambos são igualmente essenciais para a constituição divina do Povo de Deus”178. Na vida e na ação evangelizadora da Igreja, constatamos que no mundo moderno devemos responder a novas situações e necessidades da vida cristã. Neste contexto também os movimentos e novas comunidades são uma oportunidade para que muitas pessoas afastadas possam ter uma experiência de encontro vital com Jesus Cristo e, assim, recuperar sua identidade batismal e sua ativa participação na vida da Igreja179. Neles “podemos ver a multiforme presença e ação santificadora do Espírito”180.
313. Para aproveitar melhor os carismas e serviços dos movimentos eclesiais no campo da formação dos leigos desejamos respeitar seus carismas e sua originalidade, procurando que se integrem mais plenamente na estrutura originária que acontece na diocese. Ao mesmo tempo, é necessário que a comunidade diocesana acolha a riqueza espiritual e apostólica dos movimentos. É verdade que os movimentos devem manter sua especificidade, mas dentro de uma profunda unidade com a Igreja local, não só de fé mas de ação. Quanto mais se multiplicar a riqueza dos carismas, mais os bispos serão chamados a exercer o discernimento espiritual para favorecer a necessária integração dos movimentos na vida diocesana, apreciando a riqueza de sua experiência comunitária, formativa e missionária. Convêm dar especial acolhida e valorização àqueles movimentos eclesiais que já passaram pelo reconhecimento e discernimento da Santa Sé, considerados como dons e bens para a Igreja universal.

6.4.5 Os Seminários e Casas de formação religiosa



314. No que se refere à formação dos discípulos e missionários de Cristo ocupa um lugar particular a pastoral vocacional, que acompanha cuidadosamente todos os que o Senhor chama a servir à Igreja no sacerdócio, na vida consagrada ou no estado de leigo. A pastoral vocacional, que é responsabilidade de todo o povo de Deus, começa na família e continua na comunidade cristã, deve se dirigir às crianças e especialmente aos jovens para ajudá-los a descobrir o sentido da vida e o projeto que Deus tem para cada um, acompanhando-os em seu processo de discernimento. Plenamente integrada no âmbito da pastoral ordinária, a pastoral vocacional é fruto de uma sólida pastoral de conjunto, nas famílias, na paróquia, nas escolas católicas e nas demais instituições eclesiais. É necessário intensificar de diversas maneiras a oração pelas vocações, com as quais também se contribui para criar uma maior sensibilidade e receptividade diante do chamado do Senhor; assim como promover e coordenar diversas iniciativas vocacionais181. As vocações são dom de Deus, portanto, em cada diocese, não devem faltar orações especiais ao “Dono da messe”.
315. Diante da escassez de pessoas que respondam à vocação ao sacerdócio e à vida consagrada na América Latina e no Caribe, é urgente dedicar um cuidado especial à promoção vocacional, cultivando os ambientes nos quais nascem as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada, com a certeza de que Jesus continua chamando discípulos e missionários para estar com Ele e para enviá-los a pregar o Reino de Deus. Esta V Conferência faz um chamado urgente a todos os cristãos e especialmente aos jovens para que estejam abertos a uma possível chamada de Deus ao sacerdócio ou à vida consagrada; re-corda que o Senhor dará a graça necessária para responder com decisão e generosidade, apesar dos problemas gerados por uma cultura secularizada, centralizada no consumismo e no prazer. Convidamos as famílias a reconhecerem a benção de ter um filho chamado por Deus para esta consagração e a apoiar sua decisão e seu caminho de resposta vocacional. Aos sacerdotes, estimulamo-os a dar testemunho de vida feliz, alegre, entusiástica e de santidade no serviço do Senhor.
316. Sem dúvida, os seminários e as casas de formação constituem um lugar privilegiado – escola e casa – para a formação de discípulos e missionários. O tempo da primeira formação é uma etapa onde os futuros presbíteros compartilham a vida a exemplo da comunidade apostólica ao redor do Cristo ressuscitado: oram juntos, celebram uma mesma liturgia que culmina na Eucaristia, a partir da palavra de Deus recebem os ensinamentos que vão iluminando sua mente e modelando seu coração para o exercício da caridade fraterna e da justiça, prestam serviços pastorais periodicamente a diversas comunidades, preparando-se assim para viver uma sólida espiritualidade de comunhão com Cristo Pastor e docilidade à ação do Espírito Santo, convertendo-se em sinal pessoal e atrativo de Cristo no mundo, segundo o caminho de santidade próprio do ministério sacerdotal182.
317. Reconhecemos o esforço dos formadores dos Seminários. Seu testemunho e preparação são decisivos para o acompanhamento dos seminaristas para um amadurecimento afetivo que os faça aptos para abraçar o celibato e capazes de viver em comunhão com seus irmãos na vocação sacerdotal; neste sentido, os cursos de formadores que se tem implementado são um meio eficaz de ajuda a sua missão183.
318. A realidade atual exige de nós maior atenção aos projetos de formação dos Seminários, pois os jovens são vítimas da influência negativa da cultura pós-moderna, especialmente dos meios de comunicação, trazendo consigo a fragmentação da personalidade, a incapacidade de assumir compromisso definitivos, a ausência de maturidade humana, o enfraquecimento da identidade espiritual, entre outros, que dificultam o processo de formação de autênticos discípulos e missionários. Por isso, antes do ingresso no Seminário, é necessário que os formadores e responsáveis façam uma esmerada seleção dos candidatos que leve em consideração o equilíbrio psicológico de uma sã personalidade, uma motivação genuína de amor a Cristo, à Igreja, ao mesmo tempo que capacidade intelectual adequada às exigências do ministério no tempo atual184.
319. É necessário um projeto de formação do Seminário que ofereça aos seminaristas um verdadeiro processo integral: humano, espiritual, intelectual e pastoral, centrado em Jesus Cristo, Bom pastor. É fundamental que, durante os anos de formação, os seminaristas sejam autênticos discípulos, chegando a realizar um verdadeiro encontro pessoal com Jesus Cristo na oração com a palavra, para que estabeleçam com Ele relações de amizade e amor, assegurando um autêntico processo de iniciação espiritual, especialmente, no Período Propedêutico. A espiritualidade que se promove deverá responder à identidade da própria vocação, seja diocesana ou religiosa185.
320. Ao longo da formação, procurar-se-á desenvolver um amor terno e filial a Maria, de maneira que cada formando chegue a ter com ela uma espontânea familiaridade e a “acolha em sua casa” como o discípulo amado. Ela oferecerá aos sacerdotes força e esperança nos momentos difíceis e os estimulará a ser incessantemente discípulos missionários para o Povo de Deus.
321. Especial atenção deverá ser prestada ao processo de formação humana para a maturidade, de tal maneira que a vocação ao sacerdócio ministerial dos candidatos chegue a ser para cada um deles um projeto de vida estável e definitivo, em meio a uma cultura que exalta o descartável e o provisório. Diga-se o mesmo da educação para o amadurecimento da afetividade e da sexualidade. Esta deve levar a compreender melhor o significado evangélico do celibato consagrado como valor que configura a Jesus Cristo, portanto, como um estado de amor, fruto do dom precioso da graça divina, segundo o exemplo da doação nupcial do Filho de Deus; a acolhê-lo como tal com firme decisão, com magnanimidade e de todo o coração e a vivê-lo com serenidade e fiel perseverança, com a devida ascese em um caminho pessoal e comunitário, como entrega a Deus e aos demais com o coração pleno e indivisível186.
322. Em todo o processo de formação, o ambiente do Seminário e da pedagogia formativa deverão cuidar do clima de sã liberdade e de responsabilidade pessoal, evitando criar ambientes artificiais ou itinerários impostos. A opção do candidato pela vida e ministério sacerdotal deve amadurecer e se apoiar em motivações verdadeiras e autênticas, livres e pessoais. A isso se orienta a disciplina nas casas de formação. As experiências pastorais, discernidas e acompanhadas no processo de formação são sumamente importantes para confirmar a autenticidade das motivações no candidato e a ajudá-lo a assumir o ministério como um verdadeiro e generoso serviço, no qual o ser e o agir, pessoa consagrada e ministério, são realidades inseparáveis.
323. Ao mesmo tempo, o Seminário deverá oferecer uma formação intelectual séria e profunda, no campo da filosofia, das ciências humanas e, especialmente, da teologia e da missiologia, a fim de que o futuro sacerdote aprenda a anunciar a fé em toda a sua integridade, fiel ao Magistério da Igreja, com atenção crítica atento ao contexto cultural de nosso tempo e às grandes correntes de pensamento e de conduta que deverá evangelizar. Simultaneamente, deverá se reforçar o estudo da palavra de Deus no acadêmico nos diversos campos de formação, procurando que a palavra de Deus divina não se reduza só a noções, mas que seja uma verdade de espírito e vida que ilumine e alimente toda a existência. Portanto, será necessário contar em cada seminário com o número suficiente de professores bem preparados187.
324. É indispensável confirmar que os candidatos sejam capazes de assumir as exigências da vida comunitária, o que implica diálogo, capacidade de serviço, humildade, valorização dos carismas alheios, disposição para se deixar interpelar pelos outros, obediência ao bispo e abertura para crescer em comunhão missionária com os presbíteros, diáconos, religiosos e leigos, servindo à unidade na diversidade. A Igreja necessita de sacerdotes e consagrados que nunca percam a consciência de serem discípulos em comunhão.
325. Os jovens provenientes de famílias pobres ou de grupos indígenas, requerem uma formação inculturada, ou seja, devem receber a adequada formação teológica e espiritual para seu futuro ministério, sem que isso faça perder suas raízes e, desta forma, possam ser evangelizadores próximos a seus povos e culturas188.
326. É oportuno indicar a complementaridade entre a formação iniciada no Seminário e o processo de formação que abrange as diversas etapas de vida do presbítero. É necessário despertar a consciência de que a formação só termina com a morte. A formação permanente “é um dever principalmente para os sacerdotes jovens e precisa ter aquela freqüência e programação de encontros que, simultaneamente, prolongam a seriedade e a solidez da formação recebida no seminário, levem progressivamente os jovens presbíteros a compreender e viver a singular riqueza do “dom” de Deus – o sacerdócio – e a desenvolver suas potencialidades e aptidões ministeriais, também mediante uma inserção cada vez mais convencida e responsável no presbitério e, portanto, na comunhão e na co-responsabilidade com todos os irmãos189” Em relação a isso, requerem-se projetos diocesanos bem articulados e constante-mente avaliados.
327. As casas e os centros de formação da Vida Religiosa são também lugares privilegiados de discipulado e de formação dos missionários e missionárias, segundo o carisma próprio de cada instituto religioso.

6.4.6 A Educação Católica



328. A América latina e o Caribe vivem uma particular e delicada emergência educativa. Na verdade, as novas formas educacionais de nosso continente, impulsionadas para se adaptar às novas exigências que vão se criando com a mudança global, aparecem centradas prioritariamente na aquisição de conhecimentos e habilidades e denotam um claro reducionismo antropológico, visto que concebem a educação preponderante-mente em função da produção, da competitividade e do mercado. Por outro lado, com freqüência, elas propiciam a inclusão de fatores contrários á vida, a família e a uma sã sexualidade. Desta forma, elas não manifestam os melhores valores do jovens nem seu espírito religioso; menos ainda ensinam-lhes os caminhos para superar a violência e se aproximar da felicidade, nem os ajudam a levar uma vida sóbria e adquirir aquelas atitudes, virtudes e costumes que tornariam estável o lar que estabelecessem, e que os converteriam em construtores solidários da paz e do futuro da sociedade190.
329. Diante desta situação, fortalecendo a estreita colaboração com os pais de família e pensando em uma educação de qualidade à que tem direito, sem distinção, todos os alunos e alunas de nossos povos, é necessário insistir no autêntico fim de toda escola. Ela é chamada a se transformar, antes de mais nada, em lugar privilegiado de formação e promoção integral, mediante a assimilação sistemática e crítica da cultura, fato que consegue mediante um encontro vivo e vital com o patrimônio cultural. Isto supõe que esse encontro se realize na escola em forma de elaboração, ou seja, confrontando e inserindo os valores perenes no contexto atual. Na realidade, a cultura, para ser educativa, deve se inserir nos problemas do tempo no qual se desenvolve a vida do jovem. Desta maneira, as diferentes disciplinas precisam se apresentar não só um saber por adquirir, mas valores por assimilar e verdades por descobrir.
330. Constitui uma responsabilidade estrita da escola, enquanto instituição educativa, destacar a dimensão ética e religiosa da cultura, precisamente com o objetivo de ativar o dinamismo espiritual do sujeito e de ajudá-lo a alcançar a liberdade ética que pressupõe e aperfeiçoa à psicológica.. Mas não se dá liberdade ética, a não ser na confrontação com os valores absolutos dos quais depende o sentido e o valor da vida do ser humano. Inclusive no âmbito da educação, manifesta-se a tendência a assumir a realidade como parâmetro dos valores, correndo dessa forma o perigo de responder a aspirações secundárias e superficiais, e de perder de vista as exigências mais profundas do mundo contemporâneo (E.C. 30). A educação, humaniza e personaliza o ser humano quando consegue que este desenvolva plenamente seu pensamento e sua liberdade, fazendo-o frutificar em hábitos de compreensão e em iniciativas de comunhão com a totalidade da ordem real. Desta maneira, o ser humano humaniza seu mundo, produz cultura, transforma a sociedade e constrói a história191.
6.4.6.1 Os centros educativos católicos


331. A missão primária da Igreja é anunciar o Evangelho de maneira tal que garanta a relação entre a fé e a vida tanto na pessoa individual como no contexto sócio-cultural em que as pessoas vivem, atuam e se relacionam entre si, Assim mediante a força do Evangelho, a Igreja procura “transformar os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade que estão em contraste com a Palavra de Deus e o desígnio de salvação”192.
332. Portanto, quando falamos de uma educação cristã, entendemos que o mestre educa para um projeto de ser humano no qual habite Jesus Cristo com o poder transformador de sua vida nova. Existem muitos aspectos nos quais se educa e entre os quais consta o projeto educativo. Existem muitos valores, mas estes valores nunca estão sozinhos, sempre formam uma constelação ordenada, explícita ou implicitamente. Se a ordenação tem a Cristo como fundamento e fim, então esta educação está recapitulando tudo em Cristo e é uma verdadeira educação cristã; se não, pode falar de Cristo, mas corre o perigo de não ser cristã193.
333. Deste modo, é produzida uma identificação entre os dois aspectos. Isto significa que não se concebe a possibilidade de se anunciar o Evangelho sem que este ilumine, infunda alento e esperança e inspire soluções adequadas aos problemas da existência; muito menos que possa se pensar em uma verdadeira e plena promoção do ser humano sem abri-lo a Deus e anunciar-lhe Jesus Cristo.194
334. Em suas escolas, a Igreja é chamada a promover uma educação centrada na pessoa humana que é capaz de viver na comunidade. Diante do fato de que muitos se encontram excluídos, a Igreja deverá estimular uma educação de qualidade para todos, formal e não-formal, especialmente para os mais pobres. Uma educação que ofereça ás crianças, aos jovens e aos adultos o encontro com os valores culturais do próprio país, descobrindo ou integrando neles a dimensão religiosa e transcendente. Para isso, necessitamos de uma pastoral da educação dinâmica e que acompanhe os processos educativos, que seja voz, que legitime e salvaguarde a liberdade de educação diante do Estado e o direito a uma educação de qualidade para os mais despossuídos.
335. Deste modo, estamos em condições de afirmar que no projeto educativo da escola católica, Cristo o Homem perfeito, é o fundamento em quem todos os valores humanos encontram sua plena realização e, a partir daí, sua unidade. Ele revela e promove o sentido novo da existência e a transforma, capacitando o homem e a mulher a viverem de maneira divina; ou seja, para pensar, querer e agir segundo o Evangelho, fazendo das bem-aventuranças a norma de suas vidas. Precisamente pela referência explícita e compartilhada por todos os membros da comunidade escolar, a visão cristã – ainda que em grau diverso, e respeitando a liberdade de consciência e religiosa dos não cristãos presentes nela – a educação é “católica”, pois os princípios evangélicos se convertem para ela em normas educativas, motivações interiores e, ao mesmo tempo, em metas finais. Este é o caráter especificamente católico da educação. Jesus Cristo, pois, eleva e enobrece a pessoa humana, dá valor a sua existência e constitui o perfeito exemplo de vida. Esta é a melhor notícia, proposta pelos centros de formação católica aos jovens195.
336. Portanto, a meta que a escola católica se propõe com relação às crianças e jovens, é a de conduzir ao encontro com Jesus Cristo vivo, Filho do Pai, irmão e amigo, Mestre e Pastor misericordioso, esperança, caminho, verdade e vida e, dessa forma, à vivência da aliança com Deus e com os homens. Faz isso colaborando na construção da personalidade dos alunos, tendo Cristo como referência no plano da mentalidade e da vida. Tal referência, ao se fazer progressivamente explícita e interiorizada, ajudará a ver a história com Cristo a vê, a julgar a vida como Ele faz, a escolher e amar como Ele, a cultivar a esperança como Ele nos ensina e a viver nEle a comunhão com o Pai e o Espírito Santo. Pela fecundidade misteriosa desta referência, a pessoa se constrói na unidade existencial, isto é, assume suas responsabilidades e procura o significado último de sua vida. Situada na Igreja, comunidade de cristãos, ela consegue com liberdade viver intensamente a fé, anunciá-la e celebrá-la com alegria na realidade de cada dia. Como conseqüência, amadurecem e parecem co-naturais as atitudes humanas que levam a se abrir sinceramente à verdade, a respeitar e amar as outras pessoas, a expressar sua própria liberdade na doação de si e no serviço aos demais para a transformação da sociedade.
337. A Escola católica é chamada a uma profunda renovação. Devemos resgatar a identidade católica de nossos centros educativos por meio de um impulso missionário corajoso e audaz, de modo que chegue a ser uma opção profética plasmada em uma pastoral da educação participativa. Tais projetos devem promover a formação integral da pessoa, tendo seu fundamento em Cristo, com identidade eclesial e cultural, e com excelência acadêmica. Além disso, há de gerar solidariedade e caridade para com os mais pobres. O acompanhamento dos processos educativos, a participação dos pais de família neles e a formação de docentes, são tarefas prioritárias da pastoral educativa.
338. Propõe-se que nas instituições católicas a educação na fé seja integral e transversal em todo o currículo, levando em consideração o processo de formação para encontrar a Cristo e para viver como discípulos e missionários e inserindo nela verdadeiros processos de iniciação cristã. Ao mesmo tempo, recomenda-se que a comunidade educativa (diretores, mestres, pessoal administrativo, alunos, pais de família, etc.) enquanto autêntica comunidade eclesial e centro de evangelização, assuma seu papel de formadora de discípulos e missionários em todos seus estratos. Que, a partir dali, em comunhão com a comunidade cristã que é sua matriz, promova um serviço pastoral no setor em que se insere, especialmente aos jovens, à família, na catequese e na promoção humana dos mais pobres. Estes objetivos são essenciais nos processos de admissão de alunos, de suas famílias e na contratação dos docentes.
339. Um princípio irrenunciável para a Igreja é a liberdade de ensino. O amplo exercício do direito á educação, como condição para sua autêntica realização, reivindica por sua vez, a plena liberdade que deve gozar toda pessoa na escolha educação de seus filhos que considere mais adequada aos valores que eles mais estimam e que consideram indispensáveis. Pelo fato de haver dado a vida aos filhos, os pais assumiram a responsabilidade de oferecer a eles condições favoráveis para seu crescimento e a séria obrigação de educá-los. A sociedade precisa reconhecê-los como os primeiros e principais educadores. O dever da educação familiar, como primeira escola de virtudes sociais, é de tanta transcendência que, quando falta, dificilmente pode ser suprida. Este princípio é irrenunciável196.
340. Este direito intransferível, que implica uma obrigação e que expressa a liberdade da família na esfera da educação por seu significado e alcance precisa ser decididamente garantido pelo Estado. Por esta razão, o poder público, a quem compete a proteção e a defesa das liberdades dos cidadãos, atendendo à justiça distributiva, deve distribuir as ajudas públicas – que provêm dos impostos de todos os cidadãos – de tal maneira que a totalidade dos pais, independente de sua condição social, possam escolher, segundo sua consciência, em meio a uma pluralidade de projetos educativos, as escolas adequadas para seus filhos. Esse é o valor fundamental e a natureza jurídica que fundamenta a subvenção escolar. Portanto, nenhum setor educacional, nem sequer o próprio Estado, tem o privilégio e a exclusividade de escolher a escola dos mais pobres, sem com isso infringir importantes direitos. Deste modo, respeitam-se direitos naturais da pessoa humana, da convivência pacífica dos cidadãos e do progresso de todos.
6.4.6.2 As universidades e centros superiores de educação católica


341. Segundo sua própria natureza, a Universidade Católica presta uma importante ajuda à Igreja em sua missão evangelizadora. Trata-se de um vital testemunho de ordem institucional de Cristo e de sua mensagem, tão necessários e importantes para as culturas impregnadas pelo secularismo. As atividades fundamentais de uma universidade católica deverão se vincular e se harmonizar com a missão evangelizadora da Igreja. Essa missão se realiza através de uma pesquisa realizada à luz da mensagem cristã, que coloque os novos descobrimentos humanos a serviço das pessoas e da sociedade. Dessa forma oferece uma formação dada em um contexto de fé, que prepara pessoas capazes de um juízo racional e crítico, conscientes da dignidade transcendental da pessoa humana. Isto implica uma formação profissional que compreende os valores éticos e a dimensão de serviço às pessoas e à sociedade; o diálogo com a cultura, que favorece uma melhor compreensão e transmissão da fé; e a pesquisa teológica que ajuda a fé a se expressar em linguagem significativa para estes tempos. Porque é cada vez mais consciente de sua missão salvífica neste mundo, a Igreja quer sentir estes centros pertos de si mesma e deseja tê-los presentes e operantes na difusão da mensagem autêntica de Cris-to197.
342. As universidades católicas, por conseguinte, terão que desenvolver com fidelidade sua especificidade cristã, visto que possuem responsabilidades evangélicas que instituições de outro tipo não estão obrigadas a realizar. Entre elas, encontra-se, sobretudo, o diálogo fé e razão, fé e cultura e a formação de professores, alunos e pessoal administrativo através da Doutrina Social e Moral da Igreja, para que sejam capazes de compromisso solidário com a dignidade humana, de serem solidários com a comunidade e de mostrar profeticamente a novidade que representa o cristianismo na vida das sociedades latino-americanas e caribenhas. Para isso, é indispensável que se cuide do perfil humano, acadêmico e cristão dos que são os principais responsáveis pela pesquisa e docência.
343. É necessária uma pastoral universitária que acompanhe a vida e o caminhar de todos os membros da comunidade universitária, promovendo um encontro pessoal e comprometido com Jesus Cristo e múltiplas iniciativas solidárias e missionárias. Também deve-se procurar uma presença próxima e dialogante com membros de outras universidades públicas e centros de estudo.
344. Nas últimas décadas na América Latina e no Caribe observamos o surgimento de diversos Institutos de Teologia e Pastoral, orientados para a formação e atualização de agentes de pastoral. Neste caminho, tem-se conseguido criar espaços de diálogo, discussão e busca de respostas adequadas aos enormes desafios enfrentados pela evangelização no Continente. Ao mesmo tempo, tem sido possível formar inumeráveis líderes a serviço das Igrejas locais.
345. Convidamos a se valorizar a rica reflexão pós-conciliar da Igreja presente na América Latina e no Caribe, assim como a reflexão filosófica, teológica e pastoral de nossas Igrejas e de seus centros de formação e pesquisa, a fim de fortalecer nossa própria identidade, desenvolver a criatividade pastoral e potencializar o nosso. É necessário fomentar o estudo e a pesquisa teológica e pastoral frente aos desafios da nova realidade social, plural, diferenciada e globalizada, procurando novas respostas que dêem sustentação à fé e à experiência do discipulado dos agentes de pastoral. Sugerimos também uma maior utilização dos serviços que oferecem os institutos de formação teológica pastoral existentes, promovendo o diálogo entre os mesmos e destinar mais recursos e esforços conjuntos na formação de leigos e leigas.
346. Esta V Conferência agradece o inestimável serviço que diversas instituições de educação católica prestam na promoção humana e na evangelização das novas gerações, como sua contribuição à cultura de nossos povos e apoio às dioceses, congregações religiosas e organizações de leigos católicos que mantêm escolas, universidades, institutos de educação superior e de capacitação não formal, a prosseguirem incansavelmente em sua abnegada e insubstituível missão apostólica.




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