Vale Tudo Tim Maia



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Vale Tudo: O SOM E A FÚRIA DE TIM MAIA

O Som e a Fúria de Tim Maia

Nelson Motta

Pesquisa de Denilson Monteiro

http://groups.google.com/group/digitalsource

Copyright 2006 by Mix Criação e Produção Ltda.

EDITORA OBJETIVA LTDA.

www.objetiva.com.br 

Ouça todas as músicas deste livro no site:

www.objetiva.com.br/valetudo

CAPA E PROJETO GRÁFICO Luiz Stein Design (LSD)

DESIGNERS ASSISTENTES Cláudio Rodrigues João Marcelo

PRODUÇÃO LSD Solange Barcellos

COORDENAÇÃO EDITORIAL Isa Pessoa

ASSISTÊNCIA EDITORIAL Maryanne Linz Marcelo Diego

PESQUISA DE TEXTO E IMAGEM Denílson Monteiro

PESQUISA DE FOTOS E LEGENDAS Sônia Peçanha

PRODUÇÃO GRÁFICA Marcelo Xavier

REVISÃO Raquel Corrêa Ana Kronemberger Diogo Henriques

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Abreu’s Systems Ltda.

IMPRESSÃO Lis Gráfica

CIP-BRASIL.CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

M857v Motta, Nelson Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia / Nelson Motta. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. 392p.

ISBN 978-85-7302-874-4 Inclui bibliografia Maia, Tim, 1942-1998 - Biografia. 2. Músicos - Brasil - Biografia. 3. compositores - Brasil - Biografia. I. Título 07-3689 

CDD:927.8042 

CDU:929:78.067.26



Minha filha ganhou um gatinho e contei a Tim que ela ia dar o seu nome ao bicho. Ele adorou:

Já sei, porque é preto, gordo e cafajeste!”



O gato era cinzento, magrinho e carinhoso, e só nos deu amor e alegria.

À sua memória N. M.

NOVA YORK, JULHO DE 1997

De manhã cedo, atendi o telefone e ouvi a voz inconfundível, em ritmo acelerado e inglês perfeito: "Good morning, Mister Nelson Motta, here's your good old friend Tim Maia, calling from room 9-B of the Delmonico's Hotel, Park Avenue, New York City.”

Que alegria! Foi a maior surpresa, nem imaginava que ele estivesse na cidade, onde eu morava havia cinco anos. Não o via desde um espetacular show no Scala, numa viagem ao Brasil, uns dois anos antes.

"Ô Nelsomotta, eu tô aqui sentado numa cadeira e tomando café numa mesa tão antiga que estou me sentindo um Dom João VI, porque tudo é antigaço nesse hotel, mas o fogão está funcionando e você está convidado a tomar um breakfast e a torrar unzinho comigo. Now!”

Cinco estações de metrô depois, cheguei à esquina da Park Avenue com a Rua 59 e entrei no decadente Delmonico's, que não vivia mais os seus dias de glória mas ainda mantinha os pisos de mármore, os janelões e grandes espelhos, as imensas suites com cortinas de veludo, paredes forradas de madeira e um mobiliário escuro e antigo, que davam mesmo um ar de Dom João VI doidão a Tim Maia comendo um croissant numa cadeirona, atrás de uma pesada mesa de madeira trabalhada.

"Tá vendo? Agora só me falta escrever com uma pena de ganso", soltou uma gargalhada e se levantou para me receber. Nos abraçamos e beijamos, celebrando uma amizade iniciada em 1969, quando ele começava sua carreira e o convidei a participar do disco de Elis Regina que eu produzia. Quase trinta anos de música, escândalos e gargalhadas.

Ofereceu logo um baseado de boas-vindas: tinha acionado suas conexões nova-iorquinas e já estava com três qualidades diferentes de skunk, e ainda tinha um haxixe paraguaio, coisa de que eu nunca ouvira falar, mas que ele recomendou muito.

Enquanto enrolava um tronco do que chamava de misto-quente, gritou para sua secretária, na cozinha da suíte:

"Adriana, faz umas torradas e uns ovos mexidos pro meu amigo Nelsomotta e traz mais uma rodada pra mim. E traz panquecas também. E mel. E maple. E geléia. Traz tudo.”

Estava muito feliz de reencontrá-lo tão alegre e bem-disposto, achei até que estava um pouco mais magro — embora ainda imenso — do que em nosso último encontro no Rio. Me contou em detalhes a sua epopéia de três cirurgias no saco e seu rompimento definitivo com o goro e a brizola; jurou que nunca mais tinha faltado a um show, que a vida estava dura mas estava boa.

Mostrou fotos e contou histórias hilariantes sobre a viagem que fizera de Miami a Nova York, cruzando nove estados numa limusine pilotada pelo português Bonáveres, refazendo o seu itinerário de 36 anos atrás, que terminara numa prisão na Flórida e na sua deportação para o Brasil, em 1964. E, passando o braço de urso pelos meus ombros, mandou Adriana tirar uma foto do nosso encontro, os dois felizes e sorridentes.

Animadíssimo, Tim estava com 55 anos e me parecia razoavelmente saudável — para os padrões Maia —, muito afetuoso e doidão como sempre. Contou que iria a Tarrytown, a uma hora de Manhattan, em peregrinação aos lugares onde vivera dos 17 aos 18, lembrou de dramas e comédias de seus cinco anos nos Estados Unidos, a iniciação na maconha, a primeira prisão, a descoberta do rhythm-and-blues e do soul, os 19 endereços diferentes onde morou em Nova York.

Entusiasmado com seu estúdio e seus novos trabalhos, me deu os quatro discos que havia gravado no último ano e estava lançando pela sua gravadora Vitória Régia — "a única que paga aos sábados, domingos e feriados depois das 21 horas" — com uma dedicatória que me comoveu, uma das mais honrosas que já recebi: "Com o respeito do Tim Maia.”

Pô, vindo de quem não respeitava ninguém, ou quase, era uma condecoração. Desfrutar de sua amizade e testemunhar sua carreira eram um privilégio: um incessante espetáculo de grande música e alta comédia, protagonizado por um personagem único em sua paixão pelo excesso — de talento, de volume, de peso, de comida, de sexo, de drogas, de amor à arte, de cafajestice e agressividade, de ternura e generosidade — sintetizada em seu grito de guerra: "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!”

Só consegui sair depois de horas de muita conversa e gargalhadas, entre várias rodadas de café completo, ovos mexidos e incessante carburação, me divertindo com histórias que qualquer ficcionista consideraria inverossímeis, mas eram apenas fatos e acontecimentos corriqueiros do cotidiano de Tim Maia.

Mas que ficcionista seria capaz de criar um personagem como Tim Maia? E quem acreditaria?

 
Os Maias.
Maria Imaculada Maia nasceu em 1902, na vila de Sebolas, no interior do estado do Rio, filha única de uma negra e um italiano de olhos azuis.

Sua mãe, Carolina Caetana Nogueira, havia abandonado o marido, também negro, para viver com o mascate italiano António Regina. Nessa família com vida confortável, Maria Imaculada nasceu e cresceu, mas, por motivos nunca revelados — talvez uma outra família na Itália —, nunca foi registrada pelo pai.

Apaixonada e sonhadora, Carolina foi muito feliz por algum tempo: António ia frequentemente à Europa para renovar suas mercadorias, trazia lindos presentes, mas as viagens começaram a ser mais freqüentes e mais longas as ausências. Carolina ficava em casa, vendo o tempo passar na janela, criando a filha, costurando e esperando. Costurava cada vez melhor, passava temporadas trabalhando na fazenda dos Paes Leme e em outras da região cafeeira de Paraíba do Sul, que disputavam os seus serviços.

Maria Imaculada era adolescente quando seu pai viajou para a Itália e nunca mais voltou, sumiu sem deixar rastros. Sua mãe enlouqueceu de amor: sua vida se tornou uma eterna espera, ela ouvia passos e dizia "é o António", sentia sua presença em tudo, pedia à filha que colocasse o nome dele em seu primeiro filho. Foi tomada por uma profunda e irreversível depressão.

Dois anos mais velho que Maria Imaculada, Altivo nasceu em 1900, também em Sebolas, filho do português Manoel Rodrigues Maia, conhecido como Neca Maia, e de Joana Maria da Conceição, uma índia escura de origem amazônica, de cabelos lisos e negros em longas tranças, que fumava cachimbo e gostava de uma boa briga.

Mestiço de pele clara, muito simpático, com belos dentes branquíssimos, Altivo conhecia Maria Imaculada desde garoto, e com 18 anos, quando a viu vindo da missa de domingo, linda em um vestido feito pelas mãos exímias de Carolina, disse ao pai:

"Eu vou casar com essa moça!”

O pai achou graça, mas o advertiu:

"Se você quer namorar essa moça, primeiro tem que usar uma gravata.”

No domingo seguinte, de gravata, Altivo pediu Maria Imaculada em namoro e foi aceito. Já estavam noivos, felizes e enamorados, quando a bomba estourou: mãe do noivo — uma índia quizumbeira — brigou feio com a da noiva, em depressão cada vez mais profunda, e exigiu que o noivado acabasse imediatamente.

Separado à força de sua amada, Altivo foi para o Rio de Janeiro, mas continuou se correspondendo com Maria e esperando que a vida melhorasse e a raiva entre as mães passasse. Foi trabalhar, primeiro como copeiro e depois como garçom, na mansão da família Modesto Leal. Juntou um dinheirinho, aprendeu a cozinhar e foi trabalhar como cozinheiro em uma pensão, sonhando em algum dia ter a sua.

Em 1922, no aniversário da cidade, Altivo voltou a Sebolas, de gravata, para enfrentar não só sua mãe, como a ex-futura sogra, que já havia até arrumado um noivo para a filha. O amor venceu, as mães ficaram com seu ódio e os filhos se casaram e foram morar no Rio de Janeiro, onde Altivo alugou um velho casarão na Rua Afonso Pena, na Tijuca, e abriu a sua pensão.

A clientela inicial era de alguns hóspedes da pensão em que havia trabalhado, a que logo se somaram novos fregueses, atraídos pela comida farta, saborosa e barata do seu Altivo, feita em um velho fogão a lenha. A pensão tinha cinco quartos e cinco mesinhas na sala, e Maria ajudava nas compras, na arrumação e a servir a comida. Logo nascia o primeiro filho, que Maria chamou de António, cumprindo o prometido à mãe. Altivo ficou furioso, queria que tivesse o seu nome. Maria prometeu que o próximo teria, mas ele emburrou e disse que depois não queria mais.

Quando o segundo filho nasceu, Altivo foi o nome escolhido de comum acordo. Com suave firmeza, a católica e recatada Maria conseguia tudo do alegre e festeiro Altivo e comandava a vida do casal — da cozinha para fora — enquanto criava os filhos:

António, Altivo, Hugo, Maria Aparecida, José, Isolda, Luzia, João, Luiz, Maria Imaculada, Anna Maria e finalmente Sebastião.

No dia 28 de setembro de 1942, na Rua Afonso Pena 24, minha mãe, Maria Imaculada, concebeu o gordinho mais simpático da Tijuca. E recebi o nome de Sebastião Rodrigues Maia.



Tijuca, 1954, 60KG
"É a puta que te pariu!”

Gritava Sebastião, quando algum moleque na Rua o xingava de Tião Marmiteiro. Carregando duas pilhas de marmitas penduradas nas pontas de uma vara Atravessada sobre os ombros, como um pescador chinês de carnaval, Tião percorria as ruas da Tijuca sob o sol escaldante do meio-dia, quando os outros três moleques que ajudavam na pensão não davam conta das entregas.

Tião tinha 12 anos, estudava de manhã no Ginásio Vera Cruz e odiava entregar as marmitas com as refeições preparadas por seu Altivo. As irmãs ajudavam na cozinha e na limpeza, e Tião era encarregado das entregas quando os pedidos aumentavam. A vida era dura, mas era doce, salgada e apimentada no casarão dos Maia.

Seu Altivo suava a camisa no fogão a lenha, a freguesia crescia, e, graças a amizade de Maria Imaculada com os capuchinhos da Igreja de São Sebastião, seu Altivo ganhou um velho fogão a gás italiano dos padres, quando eles compraram um novo.

Com o dinheiro que estava economizando para o fogão, seu Altivo surpreendeu dona Maria comprando um telefone, um dos raros nas redondezas. Ela achou que era falta de juízo, coisa de gente rica, mas ele argumentou que estava investindo no seu trabalho. E os pedidos se multiplicaram.

Tião não tinha do que reclamar. Mais de vinte anos o separavam de seu irmão António, e, sendo o caçula, era mimado pelos pais e pelas irmãs mais velhas, que o paparicavam como a um filho. Cuidavam de suas roupas, preparavam sua merenda, levavam o menino ao colégio. Esperto, preguiçoso e comilão, Tião era mesmo o gordinho mais simpático da Tijuca, o único dos 12 irmãos a ganhar uma bicicleta, inglesa, de segunda mão, que seu Altivo fora praticamente obrigado a comprar no seu décimo segundo aniversário.

No casarão da Afonso Pena, os quartos eram amplos, de pé-direito alto. As meninas dormiam em um e os meninos em outro, menos António, o mais relho, que já era funcionário do Ministério do Trabalho e tinha seu próprio quarto, cheio de imagens de santos e livros de religião. António puxara à mãe, mas era ainda mais religioso, ia à missa e comungava diariamente, freqüentava com assiduidade a igreja dos capuchinhos e a Cúria Metropolitana, era um católico militante, quase um padre.

Para o bem e para o mal, a saborosa comida do seu Altivo era cada vez mais apreciada, a freguesia aumentava — e com ela o peso nos ombros e nas pernas gorduchas do pequeno Sebastião. A bicicleta era inútil nas ladeiras da Tijuca.

Num dia de calor alucinante, empapado de suor, louco de fome e puto da vida, Tião se arrastava pela Tijuca com seus sapatos dois números maiores — que dona Maria comprava para durar mais — quando passou por uma pracinha de terra onde um bando de garotos descalços jogava futebol com uma bola de borracha.

"Entra aí, Tião", gritou Erasmo, um menino da mesma idade, moreno e grandalhão, que morava na Rua Professor Gabizo com a mãe, o padrasto e duas tias baianas e bonitonas, que freqüentavam a pensão e recebiam galanteios de seu Altivo e olhares ciumentos de dona Maria.

Tião baixou as marmitas e sentou num banco à sombra de uma árvore. Tirou a camisa, enxugou o suor do rosto e da barriga roliça e, quando se preparava para adentrar o terreno, teve uma idéia melhor. Abriu as marmitas e comeu um pedaço de frango de uma, um croquete de outra, um bifinho de panela aqui, algumas batatas fritas ali, e fechou com pedaços de goiabada e queijo, tirados de três marmitas.

Ao mesmo tempo Tião aliviava a fome e o peso das marmitas. As porções de seu Altivo eram fartas, ninguém notaria. Desistiu da pelada e encontrou uma nova motivação nas entregas. Tirou os sapatos folgados que lhe faziam bolhas nos pés, pendurou-os na vara das marmitas e saiu cantarolando um sucesso do rádio, como gostava de fazer, baixinho, para amenizar o peso, as ladeiras e a raiva de ouvir a molecada gritando Tião Marmiteiro. Cantava sambas de Ângela Maria e Cauby Peixoto, baiões de Carmélia Alves, boleros de Anísio Silva e do Trio Los Panchos, que ouvia no rádio da casa, desde cedo ligado em alto volume. Caminhava marcando o ritmo das músicas no asfalto quente.

Na mesma Praça, pouco depois, teve sua primeira e única briga com Erasmo. Enquanto seu padrasto esperava, faminto e impaciente, pela marmita do seu Altivo, Erasmo desconfiou dos motivos do atraso, olhou da janela e viu Tião jogando bola na Praça e as marmitas, certamente aliviadas de algum peso, esfriando no chão. Desceu furioso e, com a autoridade de seu tamanho, chamou Tião à responsabilidade. Mas logo voltou correndo para casa, perseguido pelo marmiteiro aos palavrões, que tinha uma barra de ferro na mão. Ficaram alguns dias distantes, mas logo reataram a amizade.

Depois de entregar a última marmita, Tião voltava para casa de bonde, saltando com surpreendente agilidade quando o cobrador se aproximava. Depois pegava outro bonde e completava o resto do trajeto antes que o cobrador cumprisse seu dever. E, assim, transformava em sorvete as moedas que o pai lhe dava para a passagem. Quando chegava em casa, a grande mesa já estava posta, todos falavam ao mesmo tempo, o rádio tocava alto e Tião enchia o prato.

Diante dos pratos cheios de boa comida, seu Altivo brincava, feliz:

"Eu não tenho essa pensão para ganhar dinheiro, é só para alimentar meus 12 filhos.”

Com 13 anos, Tião finalmente conseguiu se livrar das marmitas. Depois de muitos apelos e promessas, seu Altivo concordou que o filho fosse trabalhar como contínuo em uma firma na Praça Saens Pena. Passaria as tardes entregando cartas e pacotes, buscando lanches e fazendo pequenas tarefas no escritório, ganhando meio salário mínimo. Nos primeiros dias se sentia feliz como um escravo alforriado. Três meses depois era despedido porque não fazia nada direito, não aceitava críticas e respondia malcriado aos chefes.

No emprego seguinte, nas mesmas funções, durou ainda menos. Mas disso ninguém em casa precisava saber. Com as tardes livres, Tião se sentia solto como o vento, a Tijuca era o coração do Rio de Janeiro. Com os moleques da Rua conheceu a cidade de leste a oeste — do Andaraí, Grajaú e São Cristóvão aos morros do Salgueiro e do Turano — e de norte a sul — da Usina e do Alto da Boa Vista ao Flamengo e à longínqua Copacabana. Como a cidade era tão grande e o tempo tão curto, Tião começou a matar aulas de manhã para conhecer o Rio ainda melhor. Sem o peso das marmitas, cantava com mais prazer quando caminhava pelas ruas, praias e favelas da Cidade Maravilhosa.

Além de cantar, comer e passear pela cidade, Tião adorava batucar. Em qualquer lata que aparecesse, em qualquer objeto que produzisse algum som, ele fazia um samba, um baião ou um mambo. Seu Altivo gostava, achava que o filho tinha muito ritmo, e teria lhe dado a bateria que tanto pedia se seus parcos recursos permitissem.

Mas o que seu pai da terra não podia lhe dar, seu Pai do Céu lhe ofereceria, por intermédio de frei Cassiano, um capuchinho da igreja de São Sebastião. Tião recebeu como um milagre a notícia de que os padres bancariam um conjunto musical para os garotos da vizinhança, comprariam os instrumentos e eles poderiam ensaiar no salão paroquial.

A família era muito católica e a missa de domingo obrigatória. Quem faltava ficava de castigo em casa, sem poder ir ao cinema. Além de António, muito ligado aos padres, dona Maria Imaculada ia à missa diariamente e vivia fazendo novenas com senhoras da paróquia. Foi para atender a um pedido dela que Tião, meio a contragosto, fizera um breve estágio como coroinha na igreja de São Sebastião. Seu momento preferido era quando o padre dizia:

"Ite Missa est.”

E ele respondia aliviado:

"Deo gratias.”

Aos 14 anos, o ex-marmiteiro formava seu primeiro grupo musical e assumia os vocais e a bateria Veril, nova em folha, dos Tijucanos do Ritmo. Com Tião PM no trompete, Valdir no saxofone, Valtinho no acordeão e Edson Trindade no violão e nos vocais, Os Tijucanos do Ritmo animaram as quermesses e domingueiras no salão paroquial tocando sucessos do rádio, como "Cerejeira rosa" e "Lisboa antiga", até seu prematuro fim, numa briga coletiva em que a bateria foi destruída.

Quando fez 15 anos, Tião exigiu e teve o que nenhuma de suas irmãs jamais ousou sonhar: uma festa-baile, como de uma debutante. Além de ter um xodó especial por Tião, seu Altivo era festeiro, promovia serenatas em casa, freqüentadas por seu amigo Ismael Neto, criador do conjunto vocal Os Cariocas, e outros músicos, e adorou a idéia. Tião debutou com tudo a que tinha direito: música, dança, comida, bebida e alegria.

Pouco depois, António voltou de uma viagem a Roma com os capuchinhos e, junto com os terços bentos pelo papa para presentear a família, trouxe um violão italiano para Tião. Com Edson Trindade, China e seu irmão Luiz Maia, formou o seu primeiro conjunto vocal. O quarteto não chegou a ter nome - pensou-se em chamá-lo Universal - nem a fazer nenhuma apresentação. Acabou em pancadaria ainda nos ensaios, quando Luiz sugeriu que Tião não tocasse nas cordas mas batucasse nas costas do violão, como um bongô. O instrumento foi destroçado no conflito.

Mas Tião não parou de tocar. Aproveitou uma velha mesinha-de-cabeceira jogada fora por uma vizinha, usou-a como caixa acústica, adaptou o que sobrara do braço, as cravelhas e as cordas mais graves do falecido violão e criou uma espécie de baixo acústico.

Desta vez o santo milagreiro foi mesmo de casa: compadecido, seu Altivo comprou, a duras penas, um bom violão e matriculou o filho num curso na Rua Barão de Itapagipe. Tião se dedicou de corpo e alma ao instrumento e aprendeu rápido, ficava horas cantando e se acompanhando no violão, tinha muito mais prazer em cantar, cantava cada vez melhor. Seu coração musical batia mais forte pela grande novidade do momento: o rock-and-roll, que ouvia na Hora da Broadway, da Rádio Metropolitana, todos os dias às cinco da tarde. O programa tinha um segmento com a parada de sucessos da Cash Box e era a única possibilidade de ouvir Bill Halley, Elvis Presley, Little Richard e Chuck Berry no rádio carioca.

O melhor do rock — para um violonista principiante — era que três acordes bastavam para acompanhar todas as músicas, o resto era um ritmo forte e pulsante com a mão direita. E isso não faltava a Tião, que logo desenvolveu uma batida suingada de rock e cantava "Long Tall Sally" imitando Little Richard, "Tutti Frutti" imitando Elvis Presley e "Bop-a-Lena", um rock de Ronnie Self, que no inglês de Tião virava "Babulina".

Seu Altivo adorava música e cada vez mais se sentia ligado ao filho caçula, feliz com os seus progressos musicais, encantado em vê-lo mais em casa e relativamente sossegado. Mas para Tião não bastava cantar e tocar para a família, e logo ele passou a se apresentar em quermesses e festinhas do bairro e a freqüentar a turma de adolescentes que se reunia no restaurante e lanchonete Divino, na esquina da Rua do Matoso com Haddock Lobo, ao lado do imponente Cine Madrid.

Como a maioria dos garotos da turma, Tião nunca tinha dinheiro para as pizzas, os hot dogs, sundaes e ice cream sodas do Divino e quase sempre se contentava com uma Coca-Cola, que adorava. Ao longo do grande balcão, alguns rapazes mais velhos e abonados tomavam cerveja e cuba-libre. Nas mesinhas da calçada, jovens casais de namorados saíam do cinema e lanchavam, olho no olho e canudos de palhinha na boca, dividindo o mesmo milk-shake, e Tião os invejava duplamente.

No Divino, que começou a freqüentar com os amigos Edson Trindade e Arlênio Livio, Tião conheceu Paçoca, Nenéu, Mandoca, Pinto Nu, Sérgio Maluco, Wellington, e reencontrou seu velho companheiro de peladas Erasmo, então com 17 anos, que chegava sempre na garupa da Vespa de Almir, o único motorizado da turma. A turma adorava música, filmes e carros, todos tinham visto as fitas de Elvis, de James Dean e de Marilyn Monroe e eram fãs do Fantasma e do Capitão América. Todos gostavam de rock, e quando aparecia um violão era uma rara oportunidade para o mulato gordo e pobre dar o ar de sua graça, com a sua sensacional batida de "Long Tall Sally" e seus gritos à Little Richard.

Mas, quando não havia violão, Tião sofria com as piadas e os deboches dos rapazes e a absoluta indiferença das moças, padecia com sua fome de pizzas, shakes e, como todos os outros garotos, a fome permanente de sexo.

A noite em que tocou "Bop-a-Lena" foi só alegria. Entusiasmado, viu que até algumas meninas que estavam em volta aplaudiam. O pessoal gostou tanto que ele teve de bisar, a pedidos:

"Babulina, babulina-á ô shiz mai gué-éélll.”

Voltou para casa feliz e faminto, devastou a geladeira e dormiu como um anjo. No dia seguinte encontrou Erasmo no Divino e disse que estava pensando em adotar o apelido de Babulina. O pessoal gostava da música, ele estava cantando em muitas festas, era uma ótima oportunidade de se livrar da memória detestável do Tião Marmiteiro. Erasmo achou que o apelido cabia bem no gordinho, lembrava bolinha, ficava até engraçado, mas também fez uma advertência:

"Olha, Tião, eu acho legal esse apelido de Babulina, mas pode dar problemas. Tem um cara lá do Rio Comprido, da turma dos Cometas, que de vez em quando aparece aqui, que também toca violão, também canta essa música e também tem o apelido de Babulina. O cara pode não gostar, e como ele é muito mais alto e muito mais forte que você, dizem até que é capoeirista... não sei não.”

Tião aparentemente não se importou, mas, na noite em que o Babulina do Rio Comprido apareceu no Divino, ficou muito nervoso e até pensou em ir embora. O cara era um mulato alto e atlético, com pinta de jogador de futebol, estava com um violão numa capa de lona e se chamava Jorge Ben. Com seu estilo malandro de falar e de andar, tinha mesmo um jeito de Babulina.

Quando Erasmo apresentou Babulina a Babulina, Tião ficou nervosíssimo e fechou a cara. Jorge foi simpático e cordial, achou divertida a coincidência, tirou o violão da capa e começou a tocar e cantar "Bop-a-Lena". Teve de insistir várias vezes para que Tião cantasse junto, mas ele só entrou quando alguém gritou "Canta aí, ô Tião Marmiteiro!". Aí entrou furioso, cantando forte e enchendo o ar do Divino com sua voz de trovão.

A noite acabou em samba e rock em frente ao apartamento da veterana prostituta Lili, que havia iniciado muitos garotos da Tijuca. Tião havia debutado sexualmente aos 15 anos, com uma certa Penha, que era feiosa, não tinha um hálito lá muito perfumado, mas dava para todo mundo, era só pedir.

Com a família de Edinho viajando, ela enfileirou Tião, Erasmo, Arlênio e o dono da casa. Tião foi o quarto da fila, e depois o oitavo e o décimo.

Mas a maior contribuição do Babulina do Rio Comprido à turma do Divino não foi musical, e sim futebolística. Driblador e estiloso, avante impetuoso, Jorge batia um bolão em campo, estava até fazendo testes para o juvenil do Flamengo e foi um formidável reforço para o time do Divino. Foram muitos os sábados de glória, jogando em campos de várzea em Pilares, Caxias e Guadalupe, goleando adversários e comendo churrascos depois dos jogos.

Embora não jogasse, Tião nunca deixou de acompanhar o time, especialmente nos churrascos. Mas, por via das dúvidas, sempre levava um lanche ou ficava "tomando conta" do lanche do pessoal.

Na volta de uma dessas excursões futebolísticas, como o churrasco tinha sido fraco e o trem atrasara muito, parte do time resolveu fazer uma boquinha no restaurante popular do SAPS — um serviço de alimentação da Previdência Social — ao lado da estação da Praça da Bandeira. Além de comida quase de graça, o restaurante dava diversão e arte: um locutor anunciava os nomes no microfone e cantores amadores subiam em um tablado e cantavam, acompanhados por um violonista. O time não precisou pedir duas vezes e logo Tião se apresentou e foi anunciado como o Babulina da Tijuca. Naquela tarde, o Babulina do Rio Comprido não tinha jogado e o Divino fora derrotado.

Com a batida forte e ritmada de seu violão, Tião cantou com perfeição "Little Darlin'", do grupo vocal The Diamonds, e foi aplaudido com entusiasmo pelo restaurante lotado. Na volta para casa, começou a pensar em formar um conjunto vocal, para cantar as músicas sensacionais de The Platters e The Diamonds, os sucessos do momento no rádio, além dos rocks de Elvis, Little Richard e Chuck Berry.

Tião sempre gostou de conjuntos vocais. Seu Altivo tinha discos do Bando da Lua, dos Anjos do Inferno e dos Quatro Ases e um Coringa, do Conjunto Farroupilha. O irmão António era amigo de Ismael Neto e Severino Filho, integrantes de Os Cariocas, que faziam harmonias vocais arrojadas e dissonantes, à maneira dos grandes grupos jazzísticos americanos, como os Hi-Los e os Four Freshmen. Tião adorava ouvir Os Cariocas, com cada voz fazendo uma melodia e todas se encontrando num acorde cheio de timbres e notas diferentes que soavam como uma só.

Em outubro de 1957, a União Soviética lançou com sucesso o satélite artificial Sputnik, abrindo a era espacial na frente dos americanos. Tião vibrou, tinha grande atração pelo cosmo, muita curiosidade pelo espaço sideral, e até acreditava em seres de outros planetas e em discos voadores. Quando começou a pensar num nome para seu futuro grupo, que também seria moderno, voaria alto e seria admirado por todos, achou que The Sputniks seria perfeito.

Chamou Arlênio Lívio, sobrevivente do natimorto conjunto Universal, e Wellington Oliveira, que cantava bem e tinha uma razoável pronúncia de inglês — porque o grupo só cantaria músicas americanas. Uma noite, levado por Arlênio, seu colega no Curso Supletivo da Escola Ultra, Roberto Carlos apareceu no Divino e foi apresentado a Tião como candidato à última vaga nos Sputniks. Era um moreninho magrelo de Cachoeira de Itapemirim, de cabelos crespos e olhos tristes, que puxava um pouco de uma perna, mas adorava rock e cantava muito bem, segundo Arlênio.

Tião chegou com metade do rosto coberto por uma máscara de borracha, para proteger o nariz rachado em uma briga de Rua. Estava mal-humorado e não foi com a cara do magrelo, mas Roberto ficou louco quando o viu fazendo a sua batida de "Long Tall Sally" no violão. Aquilo não lhe saía da cabeça, e assim que voltou para casa, no subúrbio de Lins de Vasconcelos, ficou tocando-a no violão até aprender, ou quase. Foi dormir com muita vontade de fazer parte daquele conjunto vocal do gordinho mascarado.

O encontro seguinte foi na pensão de seu Altivo e dona Maria, agora na Rua Barão de Itapagipe. No porão-quarto-estúdio de Tião, Roberto cantou "Tutti Frutti", "Long Tall Sally" e "Little Darlin'" e todos gostaram, até Tião. Certamente por narcisismo, já que Roberto tocava "Long Tall Sally" com uma batida bem parecida com a dele. O branqueio de voz doce foi aceito, os Sputniks estavam na rampa de lançamento, começava a contagem regressiva.

Os ensaios foram tensos, com muitas brigas na escolha do repertório, dos solistas e de quem tocaria o violão. A solução foi manter os dois, com Tião tocando o mais rítmico e Roberto o mais harmônico. Roberto sabia muito bem o que queria: o mesmo que Tião, ser um solista, um cantor popular. The Sputniks era apenas uma plataforma de lançamento, os dois queriam voar alto.

Sob a liderança caótica de Tião, os horários de ensaio eram aleatórios. Em meio às confusões, a melhor parte era sempre o final, quando seu Altivo chegava com uma bandeja de sanduíches, salgadinhos e rabanadas para os briguentos famintos. Muitas vezes, a convite de dona Maria, todos acabavam subindo para a sala e sentavam-se à grande mesa para jantar com a família e os pensionistas.

Roberto gostava mais do romântico e topetudo Elvis, e Tião preferia o negro, gay e escandaloso Little Richard, de batom, com as unhas pintadas e a cabeleira arrepiada, tocando piano com os pés e fundando uma nova escola musical, agressiva, transgressora e suingada, uma das mais poderosas influências na história da música pop americana.

Em dezembro de 1957, graças ao irmão António, Tião e os Sputniks fizeram sua estréia oficial no salão paroquial da Igreja de São Sebastião dos Capuchinhos, na Tijuca. E agradaram muito. Foram convidados pelos padres para se apresentarem depois das missas dominicais. O convite era honroso, mas o horário, cruel: nove da manhã. Foi o primeiro e único show nesse horário na breve carreira dos Sputniks.

A apresentação mais importante do conjunto foi justamente num dia de derrota: na festa de aniversário do Clube Municipal, na Rua Haddock Lobo, ficaram em segundo lugar no concurso de calouros. Mas foram os primeiros na sorte, porque um amigo de Wellington gostou tanto que prometera apresentá-los ao produtor Carlos Imperial, que tinha um programa na televisão e era louco por rock. Nenhum Sputnik tinha ouvido falar de Imperial — mas ele seria decisivo na vida de Tião e de Roberto.

Carlos Eduardo Corte Imperial era de Cachoeira de Itapemirim, como Roberto. De origem aristocrática e estilo cafajeste, era filho de um banqueiro e uma dona de colégio e morava com a família em um tríplex em Copacabana. Imperial adorava música e tinha uma seção de 15 minutos, "Clube do Rock", todas as terças-feiras, no programa de variedades que Jacy Campos apresentava diariamente na TV Tupi, na hora do almoço.

Foi no "Clube do Rock" que Tião e Roberto conheceram o gordo Imperial, compositor, produtor e empresário artístico, o principal divulgador do rock-and-roll no Rio de Janeiro, que também promovia shows em clubes da Zona Norte e dos subúrbios. Depois de um breve teste numa sala da emissora, no antigo Cassino da Urca, Imperial escalou-os imediatamente. Foi a primeira e única apresentação dos Sputniks na televisão.

A estréia vitoriosa na tevê, cantando "Little Darlin'" em arranjo idêntico ao da gravação original do conjunto The Diamonds, marcou também o início do fim do grupo, quando, depois do programa, Tião e Roberto bateram boca aos gritos na porta do estúdio e quase saíram no tapa.

A confusão começou depois do programa. Tião estava com fome e foi com Arlênio e Wellington comer um salgado num bar. Roberto ficou na porta da televisão, e quando viu Imperial saindo, lhe disse que também era de Cachoeiro e que imitava Elvis Presley. Imperial tinha gostado da apresentação dos Sputniks e deixou que Roberto cantasse alguma coisa de Elvis. Depois de ouvir "Tutti Frutti" e "Jailhouse Rock", com Roberto se acompanhando no violão, Imperial não teve dúvidas e escalou-o para o próximo programa.

A turma voltou do bar, Roberto contou feliz a novidade e Tião a recebeu como alta traição. A terra tremeu, os berros ecoaram pelas históricas paredes do Cassino da Urca:

"Seu filho-da-puta! Eu boto você no meu conjunto e você vai cantar sozinho, porra!”

Roberto tentava explicar que os seus números de Elvis não prejudicariam em nada o trabalho com os Sputniks, mas Tião estava irado, tomado de um ciúme devastador, de um ódio mortal.

No dia seguinte, se reuniram para ensaiar na casa de Tião. Tinham um show marcado para domingo no Colégio Mackenzie, no Méier, onde ganhariam uns trocados. Tião continuou criticando e provocando Roberto durante todo o ensaio, que terminou com gritos de "tu não canta porra nenhuma" e Roberto saindo sem dizer uma palavra. No domingo à tarde, no Mackenzie, Tião, Arlênio e Wellington esperaram mais de uma hora e tiveram de fazer o show sem Roberto. Os Sputniks tinham ido para o espaço.

Na terça-feira seguinte, Tião soltou uma saraivada de palavrões quando viu Carlos Imperial na televisão anunciando no "Clube do Rock":

"Alô, brotos, vamos tirar o tapete da sala e afastar os móveis porque hoje é dia de rock! E agora com vocês, o Elvis Presley brasileiro... Robeeeerto Caaaarlos!”

Espumou de raiva ao ver Roberto entrar sorridente com seu violão e cantar "Jailhouse Rock" sentado em uma lambreta e cercado por jovens que dançavam rock-and-roll.

"Se ele é o Elvis Presley então eu posso ser o Little Richard, e muito melhor!", pensou Tião, pegando o violão e tomando um ônibus para o Cassino da Urca.

Procurou Imperial, anunciou o fim dos Sputniks e obrigou-o a ouvir um "Long Tall Sally" eletrizante. Imediatamente foi escalado, ainda que meio a contragosto, porque Imperial não tinha simpatizado nada com aquele gorducho encrenqueiro, mas não era surdo e nem burro: o cara cantava demais, talvez melhor até que Roberto, e seria um sensacional Little Richard brasileiro. Só não podia se chamar Tião, que não era nome de artista. Imperial sugeriu Tim e ele não gostou, achou meio afrescalhado, mas acabou aceitando.

Outro que cantava muito era o secretário de Imperial, um mulato folgado e simpático de Copacabana, que estava sempre ao seu lado e o seguia pelos estúdios com uma prancheta na mão, anotando escalações e providências de produção. Tim gostou logo dele, de suas gírias da Zona Sul, de sua malandragem e de seu humor carioca; ficaram amigos. E logo se tornaram colegas no "Clube do Rock", quando ele também começou a ser escalado por Imperial:

"E agora com vocês, o Harry Belafonte brasileiro... Wiiiiiilson Simonaaaaaaal!”

O jamaicano Belafonte era a sensação do momento, o calipso a grande novidade dançante e "The Banana Boat Song" o seu maior sucesso. Foi o número de estréia de seu cover brasileiro, cercado de brotos que ondulavam os quadris na levada caribenha.

O Brasil entrava em 1958 com um novo presidente, o mineiro Juscelino Kubitschek, e o ano começava cheio de promessas e esperanças. O governo JK ia de vento em popa, logo surgiriam os primeiros carros nacionais, novas estradas seriam abertas, Brasília entraria em construção acelerada. O Brasil começava a descobrir o futuro.

E no futuro despontava a televisão, a era do rádio já era. O rock crescia, e com ele os novos ritmos da juventude, o twist, o hully gully, o calipso e o cha-cha-chá. Além de comandar o "Clube do Rock" e o programa de rádio, Imperial organizava shows que percorriam bares, festas e clubes de subúrbio, apresentando as novidades e ganhando uns trocados.

O "Clube do Rock" entrava em cena com a banda Os Terríveis (Vitor Sérgio e Edson Moraes nas guitarras, Amílcar na guitarra havaiana, João Maria na bateria) e o próprio Imperial fazendo umas mise-en-scènes no piano e no acordeão, os solistas Roberto Carlos e Paulo Silvino, o conjunto vocal Dry Boys (Garotos enxutos), formado pelos irmãos Roberto e Wilson Simonal, Marcos Moran, Edson Bastos e José Ary, e o negão Tony Checker, de quase 2 metros de altura, que depois adotaria o nome de Tony Tornado, fazendo mímica e dançando.

O palco pegava fogo quando o gordo chamava os dançarinos Maria Gladys, Cidinho Cambalhota, Nilza, Bolão e Clito para ensinar ao público como se dançava o tal do rock-and-roll. Braços para um lado, pernas para o outro, volteios e rodopios, acrobacias e movimentos sensuais e provocativos, que horrorizavam os pais e levavam ao delírio os filhos dos subúrbios cariocas. Para o bem ou para o mal, o rock era mesmo o que o juiz de menores de São Paulo pensava, quando proibiu a entrada de quem tivesse menos de 18 anos nos filmes de rock, argumentando que "o novo ritmo é excitante, frenético, alucinante e mesmo provocante, de estranha sensação e de trejeitos exageradamente imorais".

Quando o local do show era mais ajeitadinho, num teatro ou num pequeno cinema, Imperial encenava um número de grande efeito, explorando o pouquíssimo conhecimento que as platéias suburbanas tinham do novo mundo do rock-and-roll. Colocava Paulo Silvino, um mulato alto, de olhos verdes e voz de barítono, vestido com uma capa tipo Humphrey Bogart, anonimamente sentado na platéia. E em dado momento, como se fosse um americano que estava ali por acaso, ele era chamado por Imperial e subia ao palco, abria a capa dramaticamente e cantava um trepidante "Tutti Frutti", imitando a voz e o rebolado de Elvis. Era sempre aplaudidíssimo quando fechava a capa e voltava para seu lugar. Imperial achava que Silvino tinha mais futuro na comédia do que na música.

Por sua natureza turbulenta e pela desconfiança de Imperial, Tim foi chamado poucas vezes para integrar as caravanas roqueiras nas noitadas suburbanas, quando era apresentado como o Little Richard brasileiro. Da turma, Tim só mantinha proximidade com Erasmo, que formara com Arlênio Lívio, China e Edson Trindade o quarteto vocal The Snakes (Os cobras) para acompanhar os cantores do "Clube do Rock" e estava sempre no Divino, na garupa da Vespa de Almir.

Como ninguém tocava qualquer instrumento nos Snakes, Erasmo pediu ao amigo que o ensinasse a tocar violão. Tim mostrou-lhe os três acordes do rock e disse que o resto era só ritmo e malandragem.

Foi um ano extraordinário: em junho de 1958, pela primeira vez e contra todas as expectativas, a Seleção Brasileira ganhou a Copa do Mundo de futebol, na Suécia, goleando os adversários e encantando o mundo com sua arte de jogar bola. A Tijuca e o Brasil explodiram de alegria. O ancestral complexo de vira-lata e a sina de perdedor do Brasil se dissolviam no ar, entre foguetes, jatos de lança-perfume e gritos de vitória e de carnaval. O governo JK vivia seu melhor momento, e o Brasil se contagiava com o seu otimismo e arrancava para o futuro.

Com 16 anos, na Tijuca, Tim sentiu o mesmo impacto que Erasmo, Roberto e Jorge Ben, ao ouvir pela primeira vez no rádio aquela estranha música com aquele cantor mais estranho ainda, num ritmo contagiante que ninguém jamais tinha ouvido. João Gilberto cantava "Chega de saudade" e inventava a bossa nova.

Ao mesmo tempo, em São Paulo, o jovem estudante de Arquitetura Chico Buarque sentia o mesmo impacto, como o académico de Direito Edu Lobo, em Copacabana, e os universitários Gilberto Gil e Caetano Veloso em Salvador. A vida de todos esses rapazes tão diferentes — e da música brasileira — não seria mais a mesma depois daquele disco.

O rock, fustigado por precoce desgaste e pelos novos ritmos dançantes, por Elvis Presley fora de cena prestando serviço militar na Alemanha, pela morte de Buddy Holly, a prisão de Chuck Berry e a conversão de Little Richard a pastor evangélico, parecia estar em decadência irreversível, uma moda que tinha passado. E, com ela, o futuro do Elvis e do Little Richard brasileiros.

Todos estavam apaixonados pela bossa nova de João Gilberto, por aquele ritmo sincopado que parecia samba mas não era samba, por aquele cantor de voz pequena e doce cantando aquela melodia sinuosa e aquela letra coloquial cheia de diminutivos. Tudo era muito diferente, oposto mesmo ao rock-and-roll elétrico, direto e barulhento.

Sem patrocínio, o "Clube do Rock" saiu do ar, e Carlos Imperial partiu para uma temporada nos Estados Unidos. Os pais podiam recolocar os tapetes na sala porque não era mais dia de rock, e eles eram indispensáveis nas noitadas de bossa nova em Copacabana, para os brotos se sentarem no chão, sem sapatos, tocando violão e cantando as novidades da dupla Tom Jobim e Vinícius de Moraes, bem baixinho.

Ao contrário do rock, em que três acordes de violão resolviam, a bossa nova de João Gilberto se baseava em seqüências harmônicas complexas, acordes dissonantes, divisões rítmicas dificílimas de tocar, uma batida quase impossível de se repetir. Ficou mais dura a vida dos aspirantes a bossa-novistas como Tim, Roberto e Erasmo.

"Chega de saudade" tinha dezenas de acordes diferentes, a maioria deles completamente desconhecidos para Tim. No seu porão calorento ele lutava com as cordas e os dedos gorduchos, na procura da sonoridade certa e da batida perfeita. Ouvia o LP de João Gilberto o dia inteiro e logo aprendeu a tocar "Saudade fez um samba", que era mais facilzinha, e depois "Se é tarde me perdoa", da nova dupla Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Apaixonado pela bossa nova e por uma garota do bairro que não o notava, não "se mancava" e não percebia seu afeto, fez sua primeira experiência no gênero, com o sambinha "Mancômetro":

"Se eu fosse você, eu compraria, amor, um mancômetro francês, e saberia o quanto eu gosto de você.”

Erasmo vibrava, jamais se esqueceria daquela música tão ingênua e divertida. Aprendia novos acordes com Tim, tiravam músicas juntos, faziam planos de ter um conjunto de bossa nova, de morar em Copacabana e de comer todas aquelas garotinhas que iam à praia de maiô de duas peças e apareciam nas fotos da Manchete e de O Cruzeiro em volta da turma da bossa nova. Os encontros no porão, além da comida do seu Altivo, tinham o atrativo extra de uma janela gradeada no nível da Rua, com a perturbadora visão das pernas e coxas das moças que passavam pela calçada.

A primeira namorada de Tim foi a morena Deuzuite, uma garota de tipo meio indígena, com cabelos pretos e lisos, que tinha o apelido de Deuzi. O namoro não durou muito, mas logo Tim estava de novo apaixonado.

Voltando da aula de datilografia na Praça da Bandeira, passou pela Rua do Matoso e viu uma menina bonita, de pele clarinha e olhos tristes, debruçada numa janela que dava para a calçada. Trocaram sorrisos, se apresentaram, conversaram e riram, Tim foi feliz para casa e voltou no dia seguinte. Marlene, que era paraplégica e passava o dia em uma cadeira de rodas, estava sempre na janela, por onde Tim passava todas as noites. Logo estavam namorando, primeiro na janela, depois dentro de casa, e, aos domingos, ele a levava na cadeira de rodas para passear na Praça Saens Pena.

No início de 1959, Carlos Imperial voltou dos Estados Unidos e levou um susto. A bossa nova tinha tomado conta da cena, a garotada estava fascinada com a batida de João Gilberto, nem os suburbanos queriam mais saber de rock. As academias de violão pipocavam em Copacabana, para ensinar aos jovens a batida da bossa nova, como ele e seus pupilos ensinavam a dançar rock-and-roll.

O Divino da Zona Sul era o Bob's, no coração de Copacabana; o porão de Tim era o luxuoso apartamento de Nara Leão de frente para o mar, onde a turma se reunia para cantar e tocar bossa nova; o Cine Madrid era o gigantesco Rian, na Avenida Atlântica, onde jovens enlouquecidos pelo rock rasgaram as cadeiras na estréia de Ao balanço das horas.

Imperial era o rei das garotinhas de Copacabana, fazia parte da turbulenta e temida Turma da Miguel Lemos, convivia com lambretistas e jovens de casacos de couro e canivetes de mola no Snack Bar, no Posto Seis. Era a antítese da bossa nova e desprezado pelos garotos sofisticados que gostavam de jazz e cultuavam a bossa, que debochavam de seus programas de rock na televisão com seus mímicos e bailarinos suburbanos.

Os rapazes de Copacabana não queriam saber de forasteiros da Zona Norte e desconfiavam de tudo que vinha de um cafajeste como Imperial. Liderada por Ronaldo Bôscoli, que era namorado de Nara Leão e parceiro de Carlos Lyra e Roberto Menescal, a turma da bossa nova estava fazendo nos colégios, clubes e festas da Zona Sul o que o "Clube do Rock" fizera nos subúrbios.

Mas para Tim, Roberto e Erasmo, o gordo Imperial era a única ponte — ou túnel — possível entre a Zona Norte e a Zona Sul. A coisa estava feia para os neo-bossa-novistas tijucanos. Com o oportunismo e a agilidade que o caracterizavam, Imperial logo começou a compor bossa nova, à sua maneira, parodiando-a. E passou a levar Roberto Carlos a festinhas de bossa nova, quase sempre sem ter sido convidado, e a apresentá-lo como "o futuro príncipe da bossa nova'', produzido por Imperial, o ex-Elvis Presley brasileiro gravaria dois compactos com bossas do gordo que não tocariam no rádio, não venderiam nem o tornariam conhecido. E, muito menos, aceito na turma da bossa nova.

O problema de Roberto era que ele cantava "igualzinho" a João Gilberto o que não deixava de ser uma façanha, mas já havia um João original e insuperável. E as músicas de Imperial, diante das de Tom Jobim, Carlos Lyra e Roberto Menescal, eram apenas caricaturas de bossa nova que ninguém levava a sério Mas mesmo assim Roberto agradava, com sua voz doce e afinadíssima, cantava com muito charme, seu olhar tristonho e sua aparência desprotegida faziam as mulheres suspirar. Com um repertório melhor e um pouquinho mais de personalidade, certamente seria um ótimo cantor de bossa nova. Já Tim, com seu timbre grave e seu estilo exuberante, era o oposto do minimalismo gilbertiano. Mas ele amava a bossa e a cantava à sua maneira, com força e alegria, sonhando em algum dia gravar um disco com Os Cariocas.

Se para Roberto, que era branquinho e bonitinho, cantava "igualzinho" a João Gilberto e ainda era protegido de Imperial, estava tão difícil, a coisa estava feia e preta para o gorducho Tim e o grandalhão Erasmo, que não conheciam ninguém em Copacabana e nem sequer tinham dinheiro para chegar até lá de ônibus. Erasmo convenceu Imperial a levá-lo a algumas festinhas, mas se sentiu tão mal tão deslocado, tão estrangeiro, que logo percebeu que aquela nunca seria a sua praia — por mais que ele quisesse.

O que Erasmo, Tim e Roberto queriam muito, mas muito mesmo, era fazer parte da turma da bossa nova. Cantar em português, canções novas e lindas sem copiar cantores americanos em músicas de três acordes. Mas os liderados de Ronaldo Bôscoli eram muito fechados, garotos brancos de classe média que se achavam donos da bossa e desprezavam tudo que se passava longe da praia de Copacabana. Restava voltar à Tijuca e aos três acordes do rock.
O SONHO AMERICANO, 1959, 75KG

 Fulminado por um câncer na próstata, seu Altivo resistiu poucos meses e morreu em fevereiro de 1959, deixando Tim tristíssimo, mas também se sentindo mais livre para lutar por seu sonho de ir para os Estados Unidos.

O pai era antiamericanista ferrenho, detestava tudo que era americano, vivia dizendo que Tim tinha de conhecer o Brasil primeiro. Dona Maria também não gostava nada da idéia, ele não tinha nem 17 anos. Aconselhava-o a tentar a vida em Brasília, que estava sendo construída e cheia de oportunidades.

Com o rock decadente e sem chances de se integrar ao mundinho Zona Sul da bossa nova, Tim se sentia mais preto, gordo e pobre do que nunca. Lembrou-se de conversas com o produtor Jacy Campos, na TV Tupi, nos tempos do "Clube do Rock", sobre cursos de televisão nos Estados Unidos, como o que Jacy havia feito graças a uma bolsa de estudos. Voltou ao Cassino da Urca, procurou-o e conseguiu na Embaixada americana alguns folhetos de cursos de televisão. Queria ser diretor, gostava de som e de imagens, de novas tecnologias, de mandar. Claro, seria também o apresentador e artista principal de seu programa musical.

O único problema, além dos textos em inglês, era conseguir uma bolsa de estudos. O inglês foi resolvido por frei Cassiano, da igreja dos Capuchinhos. As condições e exigências, somadas a seu péssimo histórico escolar, reduziam suas esperanças de conseguir uma bolsa a zero. Restava- lhe tentar a vida nos Estados Unidos com a cara, a coragem e um dinheirinho arrecadado com os parentes e com a venda de tudo que tinha, inclusive o violão.

Certamente por intervenção da providência divina, a Arquidiocese do Rio de Janeiro conseguiu da agência de viagens Camilo Khan grandes descontos para levar um grupo de sacerdotes e paroquianos aos Estados Unidos. Assim que foi informado, frei Cassiano chamou Tim, encorajou-o e foi o primeiro a fazer uma doação para a viagem. Era preciso agir rápido, o avião partiria dentro de um mês. Mesmo com grandes descontos, a passagem, só de ida, custava muito dinheiro — e era pouco o tempo para Tim arrancá-lo de onde pudesse. Começou uma campanha em casa e durante duas semanas pediu qualquer dinheiro a qualquer pessoa que, por alguma obscura razão, se dispusesse a doá-lo ao ex-baterista dos Tijucanos do Ritmo.

Milagrosamente, por intermédio de frei Cassiano, que fechou a conta com uma doação extra do próprio bolso, Tim conseguiu pagar a passagem três dias antes da data fatal. No Divino e nas redondezas, o ex-marmiteiro anunciava a partida, se despedia e contava orgulhoso que faria um curso de televisão na New York University e moraria na casa de amigos de sua família, uma brasileira casada com um americano.

Prometia apaixonadamente a Marlene que ficaria famoso nos Estados Unidos, ganharia dinheiro e mandaria buscá-la para que fosse operada com as novas tecnologias americanas e pudesse voltar a andar.

Restava arranjar uma graninha para a chegada e para se agüentar nos primeiros dias. Na família, tinha conseguido três daquelas notas verdinhas de um dólar, que ele via pela primeira vez. Nas vésperas da viagem, encontrou Erasmo no Divino e ficou sabendo que a noite seria de chumbo grosso.

Uma velha casa de cômodos da Rua do Matoso ia ser demolida. O último inquilino já havia saído, o pardieiro estava vazio e caindo aos pedaços e, como era muito antigo, todos os encanamentos eram de chumbo — e o chumbo valia 35 cruzeiros o quilo numa lojinha na Leopoldina. Não seria a primeira vez. Os garimpeiros de chumbo dividiam a casa por áreas e cada um ficava com a sua, para não ter briga. Só os canos de uma privada, tubos imensos de chumbo, garantiam uma semana de vida mansa e, para garotos pobres da Tijuca, farta.

Depois daquela noite, toda a turma comprou roupas novas na Ducal e Tim conseguiu mais 9 dólares, trocando os cruzeiros do chumbo a peso de ouro numa joalheria da Haddock Lobo. Achou que era pouco dólar para muito chumbo.

No dia 13 de agosto, uma sexta-feira, com 16 anos, 12 dólares no bolso e uma carta para a Senhora Cardoso, sem falar uma palavra de inglês, Tim embarcou num quadrimotor do Lóide Aéreo para uma longuíssima viagem até Nova York.

Tim evitava pensar na crendice popular que atribuía mau agouro à presença de padres a bordo, talvez por ligá-los à expectativa de uma extrema-unção momentos antes da queda fatal. Afinal, eles seriam inevitáveis em um vôo promovido pela Arquidiocese.

O dia já havia começado mal para ele no aeroporto do Galeão, quando chegara para o embarque. Despachou sua mala no balcão do Lóide, despediu-se da mãe e dos irmãos e seguiu para a fila de embarque apenas com uma pasta de couro marrom, presente do irmão António. Tinha recusado a ridícula maletinha de lona azul e fecho éclair oferecida pela agência de viagem, que dava um ar de excursão escolar ao grupo.

Na sala de embarque encontrou três padres e um bispo, todos com as maletinhas de lona da Camilo Khan. Quando se encaminhava para a escada do avião, talvez por ser o mais jovem do grupo e o único que não carregava uma maleta azul, um dos sacerdotes lhe pediu que levasse a do bispo. E Tim subiu as escadas bufando com a pesadíssima, talvez cheia de Bíblias, maldita maleta azul do bispo.

O vôo foi atribulado, com o avião sacudido por fortes turbulências, pessoas vomitando, carrinhos de comida virando. Tim só se livrou da abominável maleta quando chegou a Nova York e o bispo entrou num táxi amarelo com os padres e se despediu:

"Obrigado, meu filho, que Deus o abençoe.”

Ia mesmo precisar. Ao contrário do que imaginara, sonhara e contara para todo mundo, não havia nenhuma família americana o esperando no aeroporto. De tanto contar e aumentar as suas histórias, acabara acreditando nelas e estava profunda e sinceramente decepcionado por não haver ninguém à sua espera.

Também não havia nenhum curso e nem qualquer amigo ou conhecido americano ou brasileiro, nem mesmo o frio que ele esperava encontrar no hemisfério norte. Estava um calor do cão, como na Tijuca em fevereiro, e um bafo quente o fazia suar em bicas e empapar a camisa e o paletó. Às onze da manhã, Tim pegou um táxi e repetiu algumas vezes o endereço da Senhora Cardoso até que o motorista jamaicano o entendesse. Ou quase.

Duas horas depois ainda rodavam pelas ruas de Terryton, uma área do Brooklyn — a mais de 40 quilômetros de distância da cidadezinha de Tarrytown, no condado de Westchester, onde morava a Senhora Cardoso — para onde o taxista o havia levado por engano, ou sotaque. Desesperado, vendo o taxímetro disparar e seu coração acelerar, sem encontrar o maldito endereço, Tim acabou batendo boca com o motorista, cada um xingando em sua língua. Terminou de mala na mão numa Avenida do Brooklyn, louco de fome, de calor e de raiva e com menos 7 dólares no bolso.

Estava em um ponto de ônibus, com uma expressão tão apalermada e carente que atraiu a compaixão de uma senhora que esperava na fila e tentou descobrir de onde vinha e que estranha língua falava aquele jovem. Quando viu seu passaporte, foi até uma cabine telefônica e ligou 411 para informações, escreveu um endereço num papel e colocou Tim num ônibus que cruzaria o East River e o deixaria a duas quadras do Consulado do Brasil, na Quinta Avenida. E ainda lhe deu o dinheiro da passagem e explicou ao motorista onde ele deveria saltar. Tim cruzou a ponte do Brooklyn com o coração aos pulos e desceu na esquina da Rua 42 com a Quinta Avenida. Caminhou algumas quadras olhando para cima, deslumbrado com a altura dos edifícios, assustado com a quantidade de carros na Rua e de gente na calçada.

Um brasileiro menor de idade, com 5 dólares no bolso e sem ter onde ficar era encrenca na certa. A política do vice-cônsul exigia repatriação imediata, explicou o funcionário simpático a um Tim apavorado, segurando o passaporte com as duas mãos. Ofereceu-lhe um café e um bolinho, Tim se acalmou um pouco e lhe assegurou que estava sendo esperado, que deveriam estar preocupados com sua demora. O funcionário escreveu dois cartões: um com o endereço da senhora Cardoso em Tarrytown, outro, em inglês, dizendo quem ele era, de onde vinha e o apresentando à família. E pediu-lhe para esperar alguns minutos, pois quando saísse para o almoço o colocaria num táxi para a Grand Central Station, onde deveria pegar o trem para Tarrytown.

Com o cartão na mão, conseguiu chegar ao guichê e ao trem e uma hora depois desembarcava em Tarrytown, à beira do rio Hudson e à margem da rodovia 87, para começar a vida em uma terra estranha, sem falar a língua e sem conhecer ninguém. Sua única referência era a tal senhora Cardoso, que nem mesmo Cardoso se chamava, e sim O'Meara, sobrenome de seu marido americano, e era conhecida, sim, mas de uma família que era freguesa das marmitas dos Maia. E não tinha recebido nenhum pedido para receber Tim em sua casa, nem mesmo um aviso de que alguém chegaria do Brasil. O cartão no bolso de Tim apresentava-o como estudante de televisão e pedia abrigo e proteção. Mas, ao conseguir chegar ao endereço, a senhora O'Meara não estava, não havia ninguém em casa.

Um vizinho se aproximou para ajudar e Tim mostrou- lhe os cartões. Foi levado para a YMCA — Associação Cristã de Moços — próxima à casa dos O'Meara, onde pôde tomar uma chuveirada, trocar de roupa, comer e desabar em um sofá. Acordou assustado com um americano enorme, rindo muito e sacudindo-o pelos pés. Mostrou-lhe os cartões e o gringo fez sinal de que era a pessoa certa e de que ia levá-lo para a casa dos O'Meara, a poucas quadras dali. O casal era muito simpático e sorridente, ela se chamava Lilian e falava português com um sotaque carregado por seus trinta anos na América, e o marido William só falava inglês. O gringo que fora buscá-lo se chamava Richie e era irmão de William. Ao lado do casal, estava um garoto mais ou menos de sua idade, só que muito alto e magrelo, também simpático, Douglas.

Passou seu primeiro inverno tiritando de frio e enrolado em cobertores, mas nunca se esqueceria do seu deslumbramento com a nevasca que cobriu a cidade às vésperas do Natal. O chato foi dividir com Douglas, de pá na mão, a tarefa de tirar meio metro de neve da frente da casa, para que o carro dos O'Meara pudesse sair da garagem. Mas Tim não reclamava de nada, dava graças a Deus e às preces de dona Maria Imaculada por estar ali, com aquelas pessoas que lhe davam casa, comida e a máquina de lavar roupa.

Tim logo entendeu que falar bem a língua era fundamental para a sua sobrevivência. Com a ajuda de seu brother e de seu prodigioso ouvido musical, logo estava reproduzindo o sotaque, as cadências e sonoridades do inglês de Rua, embora seu vocabulário ainda fosse pequeno e grande a confusão entre pronomes e tempos verbais. Primeiro aprendeu palavrões e gírias, depois entrou para um "curso de americanização" na Sleepy Hollow High School, e o resto veio rapidamente com a televisão, a música e a Rua. Em pouco tempo, falava fluentemente e quase sem sotaque, com as gírias e os erros de concordância dos jovens negros e porto-riquenhos com quem convivia. Adotou o nome de Jimmy, the Brazilian.

Jimmy teve um Merry Christmas e ganhou presentes de todo mundo. Não estava habituado a beber, mas comemorou o New Year com um porre monumental e coletivo com os O’Meara, o seu primeiro em família. E começou a entender por que o pessoal da casa sempre ria tanto. E por que sempre acabavam brigando entre eles. Desde o dia da sua chegada, quando fora acordado pelo tio Richie às gargalhadas, trocando as pernas e com um bafo de álcool, Tim notara que todos ali eram chegados a um goró. O mais engraçado era que eles chamavam goró de spirits.

Os O’Meara eram gente boa e trabalhadora. Pelo menos até o fim da tarde. Depois que começavam a encher a cara de gim e de bourbon, tudo podia acontecer. Riam, choravam, brigavam, faziam as pazes, riam de novo. Eram irlandeses sanguíneos e passionais, sujeitos a chuvas e trovoadas.

Seu primeiro emprego foi como ajudante de caixa num pequeno supermercado de Orchard Street, um tipo de loja que não existia na Tijuca nem no Brasil, onde as pessoas enchiam um carrinho com o que queriam e depois pagavam no caixa. Para ele, acostumado a feiras, quitandas e armazéns, era novidade absoluta. Colocava as compras das madames em sacolas e ganhava gorjetas levando-as até os carros.

Tim passava as tardes no caixa vendo os gringos pegando nas prateleiras o que queriam, à vontade, sem ninguém fiscalizando ou prestando atenção, e se lembrava da marcação cerrada que o portuga do armazém da Tijuca e sua mulher exerciam sobre a molecada de dedos rápidos e olho grande. E mesmo assim não conseguiam evitar que, uma vez ou outra, um chiclete ou um chocolate desaparecessem à passagem de Tim e seus amigos. Era impossível resistir àquelas prateleiras cheias do bom e do melhor dando sopa em Tarrytown.

A cena musical americana fervia em 1960, uma nova onda negra estava se formando nos subterrâneos das grandes cidades. O rock parecia perder força, embora Elvis Presley estivesse mais forte — e romântico — do que nunca, voltando triunfalmente aos Estados Unidos depois de prestar serviço militar na Alemanha. Seu grande sucesso do ano foi "It's Now or Never", uma versão em inglês do clássico napolitano "O sole mio", o rock começava a virar pizza, os jovens queriam novidades. Bob Dylan explodia no Village com um novo folk rebelde e sofisticado.

O estéreo revolucionava o mundo do disco, as paradas de sucesso eram invadidas por negros como Ray Charles ("Geórgia on my Mind") e Sam Cooke ("Chain Gang"), e The Marvelettes e Smokey Robinson and The Miracles estouravam os primeiros hits da Motown.

Diante dos olhos e ouvidos assombrados de Tim, um novo mundo se abria. Numa esquina escura de Tarrytown, com uma turma de jovens negros e porto-riquenhos e o rádio de pilha tocando R&B no volume máximo, fumou o seu primeiro baseado. E adorou. Não passaria mais sem eles.

Depois de três meses, saiu do supermercado para lavar pratos em uma lanchonete. Começava a ganhar um dinheirinho e a ficar de saco cheio dos porres e brigas dos O’Meara. Comemorou festivamente seus 18 anos junto com Douglas, com uma grande bebedeira, e tomou a péssima decisão de abandonar o aconchego, mesmo turbulento, do lar e ir morar com dois amigos em um muquifo sem aquecimento, na parte mais pobre da cidade.

Para enfrentar o inverno, ganhara um velho sobretudo de lã de Douglas, que era bem maior do que ele. Miss Lilian cortou 20 centímetros na altura e fez uma bainha, mas mesmo assim ficou muito folgado no corpo — o que se revelaria de grande utilidade para Tim em tempos mais duros, de fome e desemprego, quando fizesse suas feiras informais no supermercado: o casacão era largo o suficiente para abrigar um frango.

Embora não estivesse desempregado — pelo contrário, passara de lavador de pratos a fritador de hambúrgueres, panquecas e steaks na lanchonete — e muito menos com fome, já que comia bastante a sua própria produção, começou a empreender incursões experimentais no supermercado, nas horas de maior movimento, fazendo pequenos produtos desaparecerem nos bolsos do casacão. Passava pela caixa, cumprimentava a garota, pagava seu bubblegum — que não existia no Brasil, onde só havia goma de mascar — e saía feliz e despreocupado pelas ruas de Tarrytown fazendo bolas cor-de-rosa de chicletes.

Também não tinha nenhuma dificuldade em surrupiar um chocolate ou um bolinho e comê-lo rapidamente no local, abaixado como quem amarra os sapatos. O supermercado era um jardim das delícias para Tim, que durante meses o freqüentou com assiduidade e discrição. Até que um dia foi pego pelo gerente com a mão na massa e a boca na botija. Foi sua primeira visita a uma delegacia americana e lhe custou o emprego na cozinha da lanchonete.

Desempregado, passando frio e queimado no supermercado, foi obrigado a buscar em outras lojas das redondezas a sua sobrevivência. Mantinha contato com os O'Meara e, de vez em quando, filava uma bóia em seu antigo lar, onde bebiam e brigavam como sempre.

Apertados no muquifo gelado, todos desempregados e vivendo de biscates, a convivência era marcada pela disputa do pouco que, às vezes, havia na geladeira. Afinal, Tim conseguiu um emprego de entregador de pizza, exaustivo nos fins de semana, mas capaz de lhe garantir boas gorjetas, almoço e jantar, embora o menu fosse sempre pizza com uma Coca-Cola grande — que enchia dois copos e ainda não existia no Brasil. Pelo menos podia variar entre mussarela, calabresa e peperoni.

Mas logo se cansou das entregas e, principalmente, das pizzas. E foi trabalhar em uma fábrica de câmeras fotográficas, onde plastificava 3 mil caixas por dia. A grana era melhorzinha, mas o trabalho era mecânico e animalesco. Tim achou melhor voltar ao ramo de alimentos, como garçom de um pequeno restaurante. Começou então a procurar algum emprego que lhe garantisse, além da comida, uma casa. Talvez em uma escola, um hospital, um asilo.

Mas acabou encontrando algo melhor: um jovem casal amigo dos O'Meara precisava de alguém para tomar conta de seu filho de 3 anos, duas noites por semana. Tim se tornou baby-sitter e só teve alegrias na nova profissão: adorava crianças e desenhos animados na televisão e tinha uma farta geladeira sua disposição.

Uma noite o garoto dormiu e Tim levou um susto quando viu na televisão a data de 28 de setembro. Era o dia de seu aniversário. Estava perdendo a noção do tempo, fazendo 19 anos sozinho em uma terra estranha, trabalhando como babá. Teve vontade de chorar e se sentiu profundamente triste e deprimido.

Uma tarde estava saindo do Music Hall depois de ver um filme e se as sustou quando alguém tocou no seu ombro e chamou "Sebastião, Sebastião", um nome que havia anos ele não ouvia. Era alguém que vira sua foto no jornalzinho brasileiro de Nova York, publicada pelo jornalista brasileiro Louis Serrano, que fora procurado por sua irmã Luzia, a pedido da mãe, quando dava uma entrevista no programa de rádio de Luís de Carvalho. Dona Maria estava desesperada, de meses sem notícias do filho, não sabia se estava vivo ou morto, se tinha enlouquecido como suas duas avós, e o jornalista se dispusera a procurá-lo com uma mensagem aflita de sua mãe. Tim se arrependeu amargamente de seu descaso escreveu uma longa carta para dona Maria Imaculada, contando suas aventuras americanas e lhe pedindo desculpas e a sua bênção.

No final de 1961, conheceu o ítalo-americano Félix De Masi, também músico e cantor, e começaram a fazer planos de um conjunto vocal. Félix trouxe seu amigo Roger Bruno e Tim chamou Cornelius, um jovem negro que conhecera cantando num bar. Nasciam The Ideais, dois brancos e dois pretos cantando rhythm-and-blues, com vocais à Four Tops.

A temporada de ensaios no muquifo de Tim foi longa e barulhenta, pontuada por brigas no conjunto e reclamações de vizinhos. Mas o som estava ficando bom, as garotas começaram a aparecer, atraídas pelo look italiano e o soul negro. Os ensaios foram se transformando em festas e logo Tim foi obrigado a se mudar, e os Ideais passaram a ensaiar na garagem da casa de Félix.

Os gringos, tanto os pretos como os brancos, gostavam de ouvir Tim tocar e cantar sambas e bossas nos ensaios. Com ele o som dos Ideais ganhava um tempero tropical e um ritmo contagiante. Começaram a se apresentar em bares e festas de Tarrytown, ganhando 10, 15 dólares, mas comendo, bebendo e se divertindo. Tim reforçava o orçamento cantando em festinhas de amigo de Douglas, onde ficava fazendo fundo musical enquanto a garotada dançava e fazia o making-out, que era o sarrinho deles, o bate-coxa, o mela cueca.

O pessoal se agarrando no escurinho e Tim cantando "Olê mulé rendeira, olê mulé rendá".

Logo Tarrytown estava pequena demais para Tim, e ele se mudou para Nova York, onde teria 19 endereços diferentes nos dois anos seguintes.

Morou em hotéis piolhentos e em abrigos para homeless cheios de bêbados e loucos, onde todo mundo roubava todo mundo. Dormiu em hospedarias com e sem travesseiro, em vãos de escada, sótãos, depósitos e até em apartamentos carpetados e com aquecimento. No verão, ainda dava para dormir no parque, mas no inverno, com 10 graus abaixo de zero e o vento cortante do rio, era impossível ficar pela Rua. Os vagões do metrô eram aquecidos e Tim podia passar a noite viajando sem destino, só pelo calorzinho, mas só quando tinha os 10 cents do bilhete. Ao contrário dos cobradores dos bondes da Tijuca, as catracas do metrô nova-iorquino eram implacáveis.

Afinal, conseguiu um ótimo emprego: faxineiro em um asilo de velhinhos, onde tinha casa, comida, 40 dólares por semana e muita sujeira e porcaria para limpar. Mas podia se dedicar mais à música, a tocar violão, a ouvir discos nas lojas e a freqüentar bares do Village e do Harlem e os shows do legendário Apollo Theater, na Rua 125.

Mas a vida na América não era apenas soul e R&B. O ex-bossa-novista Tim viu a bossa nova de Tom Jobim e João Gilberto ser aclamada nos Estados Unidos, no histórico e caótico concerto no Carnegie Hall. Tim leu as notícias e mentiu para os amigos que tinha assistido ao show do balcão graças a um ingresso milagroso. Estava orgulhoso da música brasileira, que começava a ser gravada por muitos jazzistas importantes como Stan Getz, Gerry Mulligan e Miles Davis.

No verão de 1963, Tim estava muito feliz, contava em cartas para Erasmo. Finalmente arranjara uma namorada: Jeannie, filha de um pastor presbiteriano, uma moreninha animada que era fã dos Ideais. Aos domingos, namorava e comia peru na casa do pastor. Apaixonado, compôs a bossa-soul "New Love", em parceria com Roger Bruno, e começou a ensaiá-la com o grupo, reforçado pelo baterista Milton Banana. Seria a primeira gravação dos Ideais:

"Yes I loved, more than I was supposed to love...”

Mas o inverno estava chegando, o frio e o vento cortavam, Nova York congelava. Com três amigos, decidiu correr atrás do sol e do calor. Num carro roubado, fazendo pequenos furtos em uma cidade e vendendo em outra, cruzaram o país e passaram por nove estados.

Preto e latino ao mesmo tempo, Tim já sentira na pele o preconceito e a discriminação quando tentava alugar um apartamento em Nova York. Pelo telefone, com seu sotaque perfeito e educado, tudo corria bem. Mas quando se apresentava no local, a pia estava sempre entupida, o cano furado, o apartamento já havia sido alugado. Em estados sulistas, como Geórgia, Alabama, Mississipi, havia banheiros para brancos e coloreds e lugares separados em restaurantes. Nos bares eram comuns os cartazes "Negro, leia e corra. Se não souber ler, corra do mesmo jeito".

A viagem foi marcada por muitas garrafas, incontáveis baseados e cinco prisões, três ligeiras, por brigas, desacatos e bebedeiras, e uma de dez dias, por roubo de gasolina em um posto. E terminou mal, na penitenciária agrícola de Daytona, na Flórida, onde os quatro foram trancafiados depois de presos pela polícia rodoviária e condenados pelo juiz por "felonious possession of illegal substances and car theft", com a perspectiva de uma longa etapa atrás das grades, ou pior: era a quinta anotação no seu criminal record.

Trancado na cela, cercado de bandidos, Tim se desesperava. Se envolveu em uma briga braba com outro detento, que terminou com ele mordendo ferozmente a orelha do adversário, que lhe apertava o saco com mão de ferro, um não largava do outro e os dois urravam de dor quando finalmente foram separados. Em setembro, quando fez 21 anos, foi transferido para outro pavilhão, com comida razoável e roupa lavada duas vezes por semana. E conheceu pelo rádio a música sensacional do fenômeno Little Stevie Wonder, de 12 anos. Mas ninguém lhe dizia nada, lhe deram um advogado que não fazia nada. Ele se preparava para o pior. E, na Flórida, o pior era a cadeira elétrica, tremia de pensar.

Depois de um inverno infernal, mourejando nas plantações de sol a sol, como um escravo de E o vento levou, um dia o carcereiro gritou "Maia", e Tim tremeu. Acompanhou-o até a sala do diretor como um prisioneiro que vai para o corredor da morte.

Mas não foi mandado para a cadeira elétrica, apenas deportado para o Brasil.



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