Valmari Nogueira Em nome do amor



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Valmari Nogueira


Em nome do amor

I

O arrebol da aurora tingiu o horizonte de um intenso brilho incandescente. Era o prenúncio do alvorecer de mais um belo dia, que seria igual a tantos outros que ali nascem não fosse a grande movimentação de pessoas que se aglomeravam na rua. O entra-e-sai de parentes da moça, moradora da casa número 206, da Rua Tobias Barreto, chamou a atenção da vizinhança e de transeuntes curiosos. Todos queriam saber detalhes do que ali se passava.

Naquele dia a residência do carrancudo Herculano transformou-se num verdadeiro pandemônio em virtude do sumiço de sua filha mais velha. A menina anoiteceu, mas não amanheceu em casa. Sua esposa Inês – em copiosos prantos - era só lamento e desabafo. O pobre do marido já não aturava mais o bombardeio de impropérios desferidos contra si, pela mulher, culpando-o pelo acontecido. Tomando-se como ponto de partida a implicância nutrida por Herculano, referente ao namoro da filha, a primeira suspeita recaia sobre a fuga da menina com o namorado.

- Viu aí no que resultou a birra que você alimentava contra o rapaz, Herculano? – Interrogou a mulher. – Viu no que deu? – Tornou Inês, com veemência.

- Custava você aceitar o namoro dela com o filho de Miguel?

Custava seu Herculano?A esposa o interrogou mais uma vez. - Pelo menos era um rapaz conhecido nosso... Quer saber mais seu Herculano? Eu não via nada de mais nele que pudesse impedir que os dois se namorassem. – Insistiu.

- Mulher eu não criei filha pra namorar um calhorda qualquer não. Respondeu incontinenti o marido. - O sujeito só quer viver na gandaia. Jogando boca de calça, rua acima rua abaixo. Trabalhar que é bom, não quer. Um tipo assim não serve pra nosso genro não Inês! Vê se pelo menos uma vez na vida você me compreende e me dá razão! Ademais você também é culpada disso ter acontecido. Você apoiava o namoro daquele sujeito com nossa filha. – Recriminou o pobre homem.

– Infelizmente esse infortúnio bateu em nossa porta. – tornou Herculano. - Jamais pensei que uma situação dessas viesse acontecer dentro da nossa casa, mas parece que aconteceu. Agora não adianta chorar rios de lágrimas. Só nos resta tentar localizá-los, a fim de que aquele infeliz – se realmente foi ele que raptou a nossa filha - possa reparar o constrangimento que está nos causando e venha a se casar com ela, ainda que debaixo de varas... Embora seja um casamento contra a minha vontade, se não o realizarmos vamos ter o desprazer de ver a honra de nossa filha enxovalhada por uma corja de vagabundos que não faz outra coisa na vida a não ser difamar as pessoas de bem. – Argumentou.

- Por causa desses seus conceitos, e de suas birras, você viu no que deu! –Retrucou Inês. - Nossa menina ganhou o mundo. Agora, o que será dela, uma criaturinha ingênua que não conhece nada da vida, por aí afora entregue às mazelas desse mundo cão? Que o nosso bom Deus proteja nossa filhinha!

– Vertendo em lágrimas, a pobre esposa implorou ao altíssimo melhores dias para a sua filha, aonde quer que ela esteja.

- Por que ela não pensou nas conseqüências - que seu tresloucado ato pudesse ocasionar, antes de tomar uma decisão radical como essa? - Rebateu Herculano. – Responda-me por que Inês? Responda-me?Insistiu.

Diante do silêncio da esposa –, continuou Herculano: - que eu não ponha as mãos nela, pois acaso isto venha acontecer não me responsabilizo pelas conseqüências dos meus atos. Ora mulher, ela não queria aceitar os meus conselhos. Eram conselhos de pai. E pai nunca aconselha filhos para o caminho do mau. Os pais só querem o bem deles. Um dia ela cairá na realidade e voltará de joelhos pedindo perdão por essa tremenda ingratidão. “O tempo é senhor da razão”, minha senhora.

Filosofou o desventurado pai.

Na casa do namorado da moça, até aquela altura dos acontecimentos, ninguém havia notado o desaparecimento dele. Miguel, o pai do rapaz, havia saído cedo para a lida e tinha a certeza de que o filho se encontrasse dormindo em seus aposentos. A mãe também se levantou cedo da cama e logo se ocupou dos afazeres domésticos, não se preocupando se o filho estaria ainda dormindo ou não.


II
Herculano era um mulato forte, com cara de poucos amigos. No entanto era só a expressão facial carrancuda que o tornava temido pelas pessoas que não o conheciam. Porque apesar do seu semblante assustador, era ele possuidor de um desmedido coração, tal a generosidade em servir a quem o procurasse. Poder-se-ia considerá-lo um indivíduo de elevada estatura para os padrões nordestinos, ultrapassava 1,80m; espadaúdo1, caixa peitoral larga e estufada, braços musculosos como se praticasse halteres; rosto ligeiramente arredondado, olhos pretos que pareciam duas jabuticabas, cabelos castanhos escuros e lisos, bigodão de sargento e, andar ligeiramente empertigado, que lho dava ares de nobreza. Quem não o conhecesse - ao primeiro contato - poderia fazer péssimo juízo a seu respeito. Porém, se esse contato fosse um pouco mais aprofundado, a impressão por ele deixada no seu interlocutor era totalmente oposta. O bicho não era tão feio como se pintava. Para lhes ser mais preciso, afirmo, sem medo de errar que, no caso dele, nem sempre a primeira impressão era a que ficava. Ficavam sim: a primeira e a última. Essa era a fidedigna constatação a que facilmente chegávamos ao entabularmos com ele qualquer conversação mais duradoura. Entretanto, no tocante à criação de suas filhas – eram duas - não transigia. Trazia-as em corda curta. As meninas, quando raramente iam à rua era para comprar alguns víveres de que a família estivesse necessitando e, mesmo assim, teriam que voltar por cima do rastro. Participar de quaisquer festividades! Ir às novenas ou missas dominicais! Somente na companhia dele e de Inês. Ficar na rua, de bate-papo com amigas! Nem pensar.
Inês, também, era um amor de criatura. Meiga e atenciosa transmitia forte empatia ao primeiro contato. Dona de uma prosa cativante, tal qual o marido, carregava dentro de si, no seu pouco mais de 1,68m de altura um poço de generosidade para com todos que a ela recorresse. Pele morena clara, rosto comprido, nariz afilado, olhos castanhos, cabelos castanhos claros e lisos e belas coxas torneadas e proporcionais à sua massa corpórea. Era de uma altivez impar. Diríamos ser um exemplar que o Grande Arquiteto do Universo o fez sob medida. Suas características genéticas o Criador se incumbiu de transferi-las para as suas duas filhas, tornando-as duas Deusas do Olimpo2, que engalanavam não só a casa de seus pais, mas toda rua, quando elas raramente apareciam e deixavam muitos marmanjos embasbacados com suas formosuras.
III
Os comentários maldosos rapidamente se espalharam... Marmanjos despeitados em razão de não terem correspondidos os assédios endereçados à donzela, teciam maledicentes insinuações acerca de seu recato. Mulheres, invejosas da rara beleza da rapariga também não perdiam a oportunidade para atiçar mais lenha na fogueira.

- Deve ter fugido com o namorado. - Insinuou uma abelhuda.

- Ela era uma dissimulada, não mostrava as unhas porque o pai a trazia em corda curta. – Afirmava outra.

- Também com o pai que tem, ela tinha mais era que fugir mesmo. - Dizia uma terceira, referindo-se ao “casca grossa”, pai da fugitiva.

Mais afastados dois jovens mequetrefes, que acompanhavam o desenrolar do bafafá, na casa 206, travaram o seguinte diálogo:

- Que lugarzinho cheio de encrencas é esse, moço? – Inquiriu um ao outro. - Vira e mexe e acontece aqui uma novidade cabeluda! Esta terrinha está mesmo dando o que falar. Não faz muito tempo que um caso semelhante a este aconteceu por aqui. Você se lembra do, “pega pra capar” em que se viu envolvido Jurandir da Alfaiataria?

O rapaz namorava Núbia – aquele pedaço de mau caminho - filha do senhor Argolo -, e passou o pé adiante das mãos. Como dizem as más línguas, merendou antes do recreio, causando grande mal a honra da moça e da família dela. “Dizem que o negócio só veio à tona porque a danada deu com a língua nos dentes, contando para algumas amigas o ocorrido,” tim-tim por tim-tim”. Daí para o assunto cair na boca do povo foi como rastilho de pólvora.

- Coisas de mulher inexperiente. – Retrucou o segundo. - Ela não tinha nada que sair por aí falando o que fez ou o que deixou de fazer com o namorado. Era um segredo deles dois e que deveria permanecer bem guardado entre eles. A ninguém mais era dado o direito de saber. Se assim ela tivesse agido, eles poderiam ter continuado o namoro numa boa, desfrutando do bem bom, tranqüilamente, por muito tempo. Mas a sapeca na ânsia de querer meter inveja às outras, botou a boca no trombone e saiu a alarmar que já era mulher feita. Que já havia provado do fruto proibido com seu amado. – Arrematou.

- Amigo você falou a mais pura verdade. - Concordou o primeiro. - Segredo só é segredo enquanto tramita entre duas pessoas; quando chega ao conhecimento de uma terceira, “tem que se dar cabo a uma delas”, a fim de que o sigilo seja mantido a sete chaves. – Disse draconicamente. - Observe que foi por conta da inconfidência de Núbia que seu Argolo ao tomar conhecimento do ocorrido com ela tratou de prestar queixa, a fim de que o atrevido mancebo fosse preso e chamado à responsabilidade, e que culminasse na consumação do casório. Só assim repararia o terrível mal que ele causara à sua filha. Mas o rapaz, que nunca foi trouxa, ao pressentir que a “casa havia caído” tratou de escafeder-se. Até hoje ninguém sabe dar notícias de seu paradeiro.

- Aí é que você se engana amigo – disse o segundo -, falam por aí que ele fugiu daqui para Itabuna e lá embarcou num pau-de-arara e ganhou o mundo. Que foi parar em São Paulo. - Então você sabe do paradeiro dele? – Tornou o primeiro. - Olha que você pode se dar mal com essas conversas! Pense bem antes de falar certas coisas pra não se arrepender depois. – Advertiu.

- Qual nada meu, não me comprometa! – Contrapôs. - Falo o que todos aqui na vila estão cansados de ouvir por ai em todas as ruas e becos; que ele havia tomado essa direção. Muito me admira que o amigo, a esta altura dos acontecimentos, não esteja ciente dos fatos.

- Vá lá que o delegado ouve você falando com tanta convicção, sobre o paradeiro do rapaz, e resolve te botar no pau-de-arara pra você revelar detalhes do esconderijo dele lá em São Paulo, como você afirma que é lá que ele se encontra homiziado3. Daí, até ele se dar por convencido de que realmente você desconhece o paradeiro do sujeito, você já deve estar com o corpo todo moído dos catiripapos que já tomou nos lombos. E aí amigo o que você me diz? Cuida-te camarada! - Fez nova advertência o primeiro.

- Eu não tinha pensado nisso. Vou tomar mais cuidado ao falar. A partir de agora minha boca será lacrada e meus olhos vendados. Nada vi ou ouvi, e nada mais falo sobre esse assunto. Encerraram a conversa e ficaram apenas observando o desenrolar dos acontecimentos.
Comentários semelhantes, levados a efeito por outros mequetrefes, dominaram as conversas durante aquele dia e vararam a noite. Na vila de Pimenteira não se falava noutra coisa, senão no sumiço de Lorena. Também, com a corja de desocupados que ali imperava espalhar notícias ruins, para eles, era uma verdadeira diversão. Um hobby.
IV
Herculano estava um misto de cólera e perplexidade, devido ao sumiço da filha. Não parava de entrar e sair de casa a todo instante, ultimando providências a fim de localizá-la.

Ordenou, então, à caçula Luzia:

- Vá à casa de Miguel e veja se Rui (chamava-se Rui o namorado de sua filha) se encontra lá.

– Disse bastante aborrecido com o sumiço de Lorena.

A dois quarteirões dali, numa tosca casa com dois quartos, pequena sala, cozinha e banheiro, telhado de duas águas, fachada amarela, portas e janelas pintadas de azul celeste, muro recoberto de hera verde musgo cercando um pequeno jardim ornado com hibiscos de cores rosa e vermelha, a menina tocou a campainha. Ouviu-se lá de dentro uma voz meio sonolenta e rouca responder:

Era a mãe de Rui - o suposto raptor - que, de avental por sobre o vestido de chita e lenço na cabeça, vinha da cozinha onde estava no preparo do café matinal.

Ante a presença da menina interrogou:

- A que devo a honra de sua visita a minha casa a esta hora da manhã Luzia? Deu formiga na sua cama filha de Deus?Inquiriu Joana, tomada de surpresa pela presença da caçula de Herculano, ali na sua casa, mal o dia acabara de nascer.

- Dona Joana é que meu pai quer falar com Rui. Ele está em casa? – Indagou a menina.

Joana se dirigiu ao quarto do filho e para sua surpresa ele não estava deitado e nem se encontrava em casa.

Após a constatação da ausência de Rui em casa, e a inesperada visita de Luzia deixou Joana cismada pelo que pudesse ter acontecido, haja vista que ele não tinha por habito levantar tão cedo, tampouco ausentar-se sem lhe dar satisfações.

- Aconteceu alguma coisa com meu filho, que eu ainda não tenha tomado conhecimento, Luzia? – Tornou Joana. - Se você sabe de alguma coisa que me diga logo! Não me deixe apreensiva. – Insistiu.

- Foi nada não, dona Joana, é que meu pai queria falar com ele; é somente isso. – Respondeu a menina.

- Seu pai não vai muito com o meu menino. O que, afinal, ele quer falar? – Insistiu mais uma vez Joana.

Com muito jogo de cintura a menina escondeu o real motivo por que tinha ido ali, àquela hora, procurar por Rui.

– Pois diga a Herculano que meu menino não está aqui em casa não. E que a sua ausência está me deixando muito vexada.

Desesperada com o repentino sumiço de sua irmã e inseparável companheira, bem como esperançosa duma rápida solução para tê-la de volta ao aconchego do lar, Luzia voltou célere para casa deixando a pobre mulher bastante preocupada acerca do que poderia ter acontecido a seu filho.

- Luzia transmitiu ao pai a notícia que ele naquele momento não queria ouvir.

- Pai, dona Joana falou que Rui, anoiteceu, mas não amanheceu em casa. E que ela, também, está muito preocupada por não saber o paradeiro dele. - Falou.

Herculano ao ouvir o relato da caçula, enrubesceu a face, franziu o cenho e, tomado de grande inconformismo e indignação começou a pensar na atitude que tomaria a partir daquele momento. Imediatamente foi até o quarto, despiu-se da bermuda e da camisa de mangas curtas, vestiu a indumentária domingueira: calça coringa, camisa volta-ao-mundo4 bege de mangas compridas. Calçou os pés com o par de vulcabrás e saiu com destino à delegacia. Só em pensar no que os dois pombinhos poderiam estar aprontando, naquele exato momento, coisas boas não lhe ocuparam a mente. Teve acessos de ira.

- Mato aquele desgraçado, ou não me chamo Herculano! Proferiu, em solilóquio5, o angustiado pai.
V
Após o retorno de Luzia para casa, Joana voltou à cozinha para terminar de coar o café que já havia iniciado a coagem e teve que suspender para atender ao chamado dela. Porém, depois da sensação de algo negativo que lhe invadiu o peito - em razão da inesperada visita da menina - ela já não tinha ânimo para dar cabo às tarefas domésticas. A ida da caçula de Herculano, ainda cedo, à sua casa, caiu como uma ducha fria por sobre sua cabeça esparramando gelo por todo o corpo. Atinava em descobrir porque carga d’água Rui não havia amanhecido na cama. Esse fato a deixou bastante aflita. Em sua mente aflorou um turbilhão de maus presságios, que só contribuíram para aumentar sua preocupação. Tampou o bule cheio do café ainda quentinho que acabara de coar, despiu-se do avental, deu uma rápida ajeitada nos cabelos, maquiou-se rapidamente, a fim de melhorar a aparência de quem havia acabado de acordar e, muito ansiosa, tomou o rumo da casa da amiga Inês, com o objetivo de se inteirar do real motivo por que procuravam por seu filho, àquelas horas da manhã. Em suas cogitações, durante o trajeto, ela suspeitava da possibilidade de uma fuga do seu filho com Lorena, haja vista a avassaladora paixão que eles nutriam, um pelo outro. Sentimento esse que não era do consentimento de Herculano. Tal suspeita ganhava reforço em razão de Rui não haver amanhecido deitado em sua cama, como era de praxe.
VI
A porta da casa de Inês estava aberta quando Joana chegou. Inês se achava na sala sentada no sofá, com os olhos vermelhos e inchados de chorar pela filha. O ar de melancolia estampado no seu rosto era consternador.

- Bom dia Inês! – Falou Joana.

– Bom dia. – Correspondeu, entremeando choro e soluços à saudação da amiga. Em seguida mesmo aos prantos convidou Joana a entrar.

– Entre Joana. Precisamos mesmo conversar. - Disse.

- Herculano também está em casa? – Inquiriu a mãe de Rui.

- Não Joana, Herculano foi até a delegacia conversar com o delegado, a fim de que ele possa diligenciar para localizar nossa filha.

Joana entrou e se aboletou6 numa cadeira cedida pela dona da casa. Ao notar a aflição de Inês, não teve dúvidas em relação às suas suspeitas e, antes que ela puxasse qualquer conversa, foi logo se adiantando:

- Inês, diante dos acontecimentos do dia de hoje, eu não sei por onde começar a nossa conversa.

- Nem eu Joana – respondeu Inês –, mas é certo que estamos no mesmo barco, por causa da maluquice daqueles dois inconseqüentes.

- Inês – tornou a mãe de Rui, também vertendo em lágrimas que rolavam na face e se precipitavam no piso da sala de estar da casa da amiga -, filhos realmente são uma dádiva divina que recebemos, entretanto eles nos trazem sérias preocupações. Este é o pesado ônus que carregamos por toda a nossa existência. Agora mesmo os dois não me saem da cabeça. Só penso neles. Não tenho cabeça para mais nada e fico a matutar onde estarão neste exato momento. Se ao menos tivéssemos uma pista... Isto sem falar no imenso vazio que já me invade o peito só em pensar na ausência de meu único filho em nossa casa.

Entre lágrimas, soluços e os olhos já bastante vermelhos de chorar pela filha, disse Inês: - esses jovens de hoje parece que têm minhocas na cabeça. Como é que partem para uma tomada de decisão dessas e saem por aí, mundo afora, com uma mão na frente e a outra atrás. Herculano continuou ela -, está uma fera! E inconformado com tudo isso que está acontecendo. Com a raiva de que ele está possuído seria capaz de matar seu filho se pudesse botar a mão nele.
- Não me diga uma desgraça dessas não Inês! - Rebateu Joana, bastante apreensiva e assustada com o que acabara de ouvir da amiga. - Pelo amor de Deus Inês, isso só faz aumentar as minhas aflições! Sei que meu filho errou e sei também que ele não é nenhum santo, como também compreendo a ira de Herculano. Porém, Rui não tomou a decisão de fugir sozinho não; houve, também, a anuência de Lorena nessa história. Foi uma escolha que ambos fizeram. Por isso espero que Herculano leve esse fato em consideração antes de tomar qualquer atitude mais radical. – Ponderou.

- Olha Joana, por mim, nada disso teria acontecido porque eu não via nada de mais em os dois se namorarem. Era apenas o namorico de dois jovens que se conhecem desde crianças e se gostavam. Daí, esse namoro redundar em casamento ou não, somente com passar do tempo iríamos confirmar. Gosto de seu filho Rui. - Continuou Inês -, acho-o de boa índole e nunca soube de nada que desabonasse a sua conduta. Herculano implicava com ele, pelo simples fato dele não exercer qualquer atividade profissional, todavia, trabalhar como? Se aqui não se acha trabalho? Não se vai querer que pessoas possuidoras de diploma ginasial, como é o caso de nossos filhos, vá puxar cobra para os pés aí na lida diária nas lavouras cacaueiras. Quem sabe Joana, agora numa cidade grande - para onde espero que tenham ido – eles possam arranjar uma boa colocação? Preparados culturalmente estão. Resta saírem à luta e batalharem um bom emprego para que possam viver dignamente. E aproveitarem a oportunidade para estudar um pouco mais. Só os estudos é que bota as pessoas para frente. É a única riqueza que se leva no caixão quando a pessoa morre. O maior legado. – Concluiu Inês, meio desesperançada do retorno da filha para casa.

- Penso igual a você Inês – Concordou Joana -, não fosse a implicação de Herculano nada disso teria acontecido. Você sabe que tudo que é proibido aguça um ímpeto desafiador nos jovens e eles vão de encontro a essa proibição, às vezes, pelo puro prazer de contestá-la, sem medir as conseqüências advindas pela rebeldia de seus atos.

- É isso mesmo Joana.

E Miguel, já sabe do acontecido? – Indagou a mãe da moça.

- Ainda não tomou conhecimento do ocorrido porque ele saiu cedo para a lida. – Respondeu Joana. – Mas, tenho certeza, como dois mais dois são quatro, que ele irá reprovar a atitude que Rui tomou, contudo, pelo que eu conheço do meu marido, ele não vai esboçar qualquer atitude radical; vai sim, torcer para que tudo dê certo com aqueles dois malucos, daqui pra frente, e que a paz possa reinar (como sempre reinou) no seio de nossas famílias.


VII
Na delegacia local, o Sargento Humberto, delegado “calça curta” 7 do distrito, acabava de acordar e ultimava sua higiene pessoal, quando soou a campainha.

- Um momento! Já estou indo! – Berrou lá de dentro a autoridade. Ao cabo de cinco minutos o Sargento abriu a porta e ficou surpreso com a presença de Herculano, ali, tão cedo, na delegacia.

– O que foi que houve homem de Deus?! – Perguntou bastante curioso e surpreso, o delegado.

– Sargento eu quero prestar uma queixa sobre um fato grave que aconteceu hoje lá na minha casa.

– Então desembuche homem, que fato de tamanha gravidade foi esse? – Indagou.

- Minha filha Lorena, que o senhor bem conhece, foi raptada por Rui, filho de Miguel.

- Você tem certeza do que está falando Homem?! – Tornou mais surpreso ainda, o Sargento.

- Tenho sim Sargento, foi ele quem a raptou.

- Olhe que isso é uma grave acusação que você está fazendo. – Advertiu a autoridade.

- Não tenho dúvidas de que foi aquele sujeito que raptou a minha filha - continuou Herculano -, porque eles se namoravam e eu, como o senhor é conhecedor dos fatos, sempre preocupado com um futuro melhor para as minhas duas filhas, não aceitava o namoro de Lorena com aquele cafajeste. Um malandro de marca maior, que não queria nada com a “Hora do Brasil”. Um sujeito avesso ao trabalho. Um mandrião8.

– Mas Herculano, esse fato, por si só, não nos dá a certeza de que foi ele quem a raptou, a fim de que eu possa instaurar um inquérito por crime de rapto contra ele. - Rebateu o delegado.

- Sargento, as evidências são grandes demais. - Tornou Herculano. - Digo isto porque eu já mandei procurá-lo na casa de seus pais e a mãe dele mandou-me avisar, por intermédio de minha caçula, que ela também estava preocupada porque o filho dela não tinha amanhecido em casa e não sabia dizer nada sobre o paradeiro dele. E que não era comum ele agir dessa maneira: sair sem dizer para onde ir.

Diante dos fatos narrados, a autoridade matutou por um bom espaço de tempo e concluiu por atender ao pleito do aflito pai, resolvendo diligenciar em busca dos fugitivos. Ato contínuo dirigiu-se à porta da rua e chamou um garoto que passava em frente à delegacia.

– Ô garoto, chegue até aqui, por favor!

- Pois não senhor delegado? – Respondeu o prestativo menino.

- Você sabe onde fica a residência do Escrivão Marcelo?

– Sei senhor delegado. - Respondeu prontamente o guri.

– Pois então me faça esse favor. – Disse. - Vá a casa dele e diga que quero lhe falar e que não se demore muito de vir.

- Sim senhor, senhor delegado. – Obtemperou9 o moleque.

O garoto recebeu a missão e imediatamente se afastou a fim de cumpri-la. Ao chegar à casa do escrivão, o menino o encontrou debruçado sobre o peitoril da janela, absorto, baforando o seu continental sem filtro e, qual um dragão, expelindo cortinas de fumaça pela boca e narinas. Os pulmões daquele indivíduo já deviam estar em ruínas, uma vez que o infeliz consumia, diariamente, dois maços de tabaco. Cada aspirada que ele dava era acompanhada de uma tragada de fumaça que seguia rumo aos pulmões.

- Aquele sujeito ainda vai morrer de enfisema pulmonar, tal como aconteceu com seu Vivaldo da bodega Santo Antônio. – Comentou Nonô quando viu o escrivão na janela de casa, pigarreando e tossindo seco.

- “Seu” Marcelo, o senhor delegado quer que o senhor vá até a delegacia, agora mesmo, falar com ele. – Falou o garoto, que acabava de chegar à residência do escrivão e o achou ali debruçado no peitoril da janela.

- Você sabe o que ele quer falar comigo garoto? – Indagou o Escriba10.

– Sei não. Ele só me pediu pra falar que o senhor fosse à delegacia. E que não demorasse muito.

Como ocorrências no vilarejo só aconteciam de caju-em-caju, um chamado com toda essa urgência, despertava um misto de curiosidade e apreensão. Coisas da estressante função policial.

O Escrivão Marcelo emperiquitou-se todo, vestiu a sua melhor beca, escovou os dentes para tirar o horrível bafo de onça que lhe deixava o uso continuado do tabaco, calçou meias e sapatos, e se dirigiu à delegacia para dar cumprimento ao seu dever de ofício. Recebeu e autuou a portaria baixada pelo delegado, lavrou o termo de abertura do inquérito policial e em seguida tomou por termo a queixa de Herculano.



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