Variáveis escolares: escola, professores e alunos leomir Souza Costa1 resumo



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VARIÁVEIS ESCOLARES: ESCOLA, PROFESSORES E ALUNOS

Leomir Souza Costa1


RESUMO: Este trabalho se insere no campo de estudo da Sociologia da Educação, e de maneira particular, no âmbito das pesquisas sobre o ensino de Sociologia no ensino médio. Busca-se fazer uma análise das variáveis intra e extra-escolares e a interferência destas no processo ensino-aprendizagem de Sociologia. Primeiramente, focalizamos o eixo escola, observando a infraestrutura, o quadro docente, as orientações político-filosóficas, dentre outros elementos. Em seguida, analisamos o perfil dos professores de Sociologia e as variáveis extra-escolares, representadas aqui, pelo perfil dos alunos (origem sócio-econômica-cultural).
Palavras-chave: variáveis escolares; escolas; ensino de Sociologia.
INTRODUÇÃO
Para o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica – SAEB, uma boa escola caracteriza-se por uma série de fatores que podem ser evidenciados a partir das informações coletadas e analisadas junto a alunos, professores e diretores. Esses fatores podem ser agrupados em dois eixos.
O primeiro diz respeito às condições de vida dos alunos, de suas famílias e de seu contexto social, cultural e econômico. O segundo refere-se à própria escola e pode ser descrito por meio dos professores, diretores, projeto pedagógico, insumos, instalações, estrutura institucional, ‘clima’ da escola e relações intersubjetivas no cotidiano escolar (BRASIL, 2004b, p.45).

São as chamadas variáveis escolares que podem ser subdivididas em variáveis intra-escolares ou “efeito escola” (condições propriamente escolar) e variáveis extra-escolares (relativas principalmente às condições de vida do aluno). Ao estudarem os fatores que impactam o desempenho dos alunos da educação básica, Soares e Andrade (2006, p. 109) destacam que somente analisando as variáveis intra e extra-escolares em conjunto, é que se consegue explicar esse desempenho:


Hoje, reconhece-se que os fatores que determinam o desempenho cognitivo do aluno pertencem a três grandes categorias: a estrutura escolar, a família e características do próprio aluno. Nesse campo de pesquisa educacional as melhores análises incorporam todos esses fatores ao invés de se apoiar em apenas uma área. Ou seja, nem os fatores extra-escolares conseguem sozinhos explicar o desempenho cognitivo, nem a escola faz toda a diferença [...]. (2006, p. 109).

Da mesma forma, acreditamos que o processo ensino-aprendizagem de Sociologia e a relação dos alunos com a disciplina são influenciados por essas variáveis. Na tentativa de dialogar sobre estas questões, escolhemos duas escolas públicas da cidade de São Luís/MA, integrantes da mesma rede de ensino, mas em regiões geográfico-socioeconômicas distintas, ou seja, a escolha foi feita procurando contemplar escolas que usufruísse prestígios escolares2 visivelmente opostos.

Começaremos observando alguns elementos relacionados ao segundo eixo do SAEB, tais como infraestruturas das escolas investigadas, composição do quadro docente, orientações político-filosóficas, recursos materiais e humanos disponíveis, bem como o funcionamento dos mesmos, considerando que, direta ou indiretamente estes fatores tem grande influência nos resultados do processo ensino-aprendizagem em Sociologia. Em seguida, analisamos o perfil dos professores de Sociologia e dos alunos, na tentativa de nortear quais as interferências desses fatores no ensino-aprendizagem da disciplina.

DEFINIÇÃO DO OBJETO E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS


Há a tendência em se crer, em Ciências Sociais, que a importância social ou política do objeto é por si mesmo suficiente para dar fundamento à importância do discurso que lhe é consagrado. Um tema socialmente irrelevante pode se transformar em tema sociologicamente relevante. Ao mesmo tempo, é importante perceber que um problema social nem sempre é um problema sociológico, e saber converter problemas muito abstratos em operações científicas, atentando-se para o fato de que objetos de pesquisa não necessariamente são problemas de pesquisa.

O primeiro passo do sociólogo deve ser definir aquilo de que se trata, para que se saiba e para que ele saiba bem o que está em causa (DURKHEIM, 2007). A definição do objeto é sempre provisória, pois ele nunca é fixo, fechado, definitivo. Aquilo que se apresenta em um dado momento não é a totalidade da realidade investigada.

Na construção do nosso objeto de estudo, a primeira ideia era fazer um mapeamento do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB3– das escolas de São Luís e verificar qual a melhor e a pior4. Consequentemente, se ambas ministrassem Sociologia, escolheríamos como referenciais empíricos para a pesquisa. No entanto, o IDEB é uma escala de medida utilizada apenas para comparar escolas públicas de ensino fundamental, ou seja, aquelas instituições que oferecem apenas ensino médio não possuem essa nota e, portanto, iriam ficar de fora dessa primeira análise.

Assim sendo, tivemos que procurar outra forma de “selecionar” nosso campo de pesquisa – escolas. A ideia agora era que fossem duas escolas públicas que, além de apresentarem disparidades consideráveis e disporem de “reputações claramente opostas” (COSTA, op. cit.), também se localizassem em diferentes regiões geográficas – e socioeconômicas – da cidade, oferecendo uma visão representativa da sua heterogeneidade social e espacial.

Tivemos acesso a uma pesquisa5 realizada pelo Ministério Público do Estado do Maranhão (MP/MA), através da Promotoria de Justiça Especializada na Defesa da Educação (PJEDE), que possibilitou-nos mapear as escolas ludovicenses que oferecem ensino médio e, tomando como referência os resultados apresentados no relatório da pesquisa aludida, selecionamos as duas escolas nas quais realizamos o trabalho empírico. A primeira delas já tinha indicação prévia, por ser considerada uma escola pública de referência no sistema estadual de educação. Como indicação à segunda, tínhamos a área composta pelos bairros Cidade Olímpica e Cidade Operária – região periférica de São Luís e deficitária nos serviços de saúde, educação, infraestrutura, saneamento básico, moradia, dentre outros. Como no bairro Cidade Olímpica não há nenhuma escola de nível médio, fomos impelidos a optar por uma do segundo bairro.

Depois desse primeiro passo, entramos em contato com a direção das duas escolas para saber se ambas ministravam aulas de Sociologia e, em seguida, solicitamos aos gestores a permissão para a realização da pesquisa. O fato de serem todas da rede pública foi um elemento facilitador desse acesso.

Por conseguinte, adotaram-se alguns procedimentos metodológicos no decurso da pesquisa. Na parte teórica do trabalho, utilizamos a pesquisa bibliográfica, tendo como principais instrumentos os documentos bibliográficos primários (resultantes da análise dos questionários, das entrevistas e depoimentos) e secundários (colhidos em livros, dissertações, revistas, textos diversos e outras fontes impressas ou eletrônicas).

Sabendo que essas leituras se constituem como interpretações de segunda e terceira mão (GEERTZ, 1989), a investigação empírica da realidade escolar e do processo ensino-aprendizagem de Sociologia se fez importante. Foram mais de três meses de presença nas escolas, ao longo do ano de 2011, realizando entrevistas, observações e assistindo às aulas da disciplina.

Aplicou-se três entrevistas com professores de Sociologia e duas com os gestores das escolas, norteando-se pelos questionários elaborados previamente. Além disso, um survey foi realizado com o universo dos alunos das duas escolas. No total foram aplicados questionários a 176 alunos, tentando extrair uma amostra representativa das três séries do ensino médio de cada uma delas.

Aproximando-se da abordagem de Zaia Brandão (2008), o trabalho busca superar a oposição entre a macrossociologia e a microssociologia, reconhecendo que nem a pesquisa quantitativa – onde os dados podem oferecer certa ilusão de objetividade – nem a pesquisa qualitativa são de excelência por si só; utilizando-se, portanto, da conjunção desses dois tipos, o que a referida autora denominou de “jogos de escala”. Estes vêem superar as disputas – falsas e incoerentes – entre partidários das macro e microanálises e em seus desdobramentos problemáticos na produção dos pesquisadores “quanti” e “quali”. Tais jogos têm por caráter singular, demonstrar que a realidade social não é a mesma dependendo do nível de análise, ou seja, que ela é mais complexa que a teoria. Portanto, os jogos de escala mantêm um horizonte teórico-metodológico eclético e permitem construir explicações mais flexíveis, tanto no âmbito micro quanto no macrossocial.

Os micro-dados, imprescindíveis nas análises de fenômenos escolares, geralmente obtidos por meio de surveys, trazem consigo certa “ilusão de objetividade”, pois comumente não possibilitam uma análise condensada da realidade social pesquisada. Eles carecem de complementos microssituacionais, de abordagens fenomenológicas, nas quais as percepções dos agentes sociais – geralmente através de entrevistas e depoimentos – possam ser representadas.
Escolas pesquisadas
Como já indicado, a presente pesquisa foi desenvolvida em duas escolas da rede pública de São Luís: o Centro de Ensino YPÊ e Unidade Integrada SACI6. A primeira escola é de grande porte7, e a segunda é de médio porte, funcionando ambas, nos três turnos. A Tabela 1 oferece uma visão mais detalhada sobre as mesmas.
Tabela 1 (Informações gerais sobre as escolas pesquisadas)


Escolas

Localização (Bairro)

Ano de fundação

Nº de alunos

Níveis de ensino*

Turnos**

Ypê

Centro

1838

2.513

EM

M; V; N

Saci

Cidade Operária

1991

1.169

EF; EM e EJA

M; V; N

*EF (Ensino Fundamental); EM (Ensino Médio); EJA (Educação de Jovens e Adultos).

** M (Matutino); V (Vespertino) e; N (Noturno).


Pela localização, o observador atento à geografia de São Luís, constata que essas escolas estão situadas em áreas distintas da cidade, oferecendo uma visão representativa da sua heterogeneidade espacial e social. A escola Ypê encontra-se no centro comercial e econômico (na parte mais antiga da cidade, onde outrora habitava a elite citadina), o que a principio, pode ser algo desprezível, se levarmos em consideração que essas áreas são geralmente “pouco residenciais”. Por outro lado, isso torna-se um elemento positivo, por ser de fácil acesso a transportes coletivos, com recursos de deslocamento para qualquer área da cidade; fator importante, pois como veremos posteriormente, a escola recebe alunos de todas as áreas da cidade.

O colégio Saci situa-se em uma área pobre da cidade, de baixo valor imobiliário relativo, dispondo de poucos recursos de toda sorte, como saúde, educação, saneamento básico e segurança pública; menor acesso a bens e instalações públicas, bem como a oportunidades de cultura e lazer. É uma região que conta com grande contingente populacional e enfrenta sérios problemas referentes à violência e criminalidade.

Estudando a desigualdade educacional brasileira, Rocha e Perosa (2008) chamam a atenção para a interdependência entre as variáveis intra e extra-escolares para a construção de uma “boa escola”. Não é objetivo, porém, deste trabalho, fazer julgamento do que seja uma boa escola, tampouco comparar as escolas selecionadas como campo empírico da pesquisa. Esta, inclusive, é uma das justificativas de termos optado por não utilizar os seus nomes verdadeiros.

Centro de Ensino Ypê

O Centro de Ensino Ypê é uma escola da rede pública estadual que focaliza suas atividades apenas no ensino médio, sendo este disponibilizado nos três turnos – matutino, vespertino e noturno8. É uma tradicional escola de São Luís, localizada no centro da cidade. No Maranhão, em meio a fortes crises políticas e sociais do período regencial, a 24 de julho de 1838, nascia o primeiro colégio público secundário do Estado e o segundo do país, criado um ano após o Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro. Pelos seus 173 anos de história, é considerado um símbolo de referência na educação do Estado.

A escola é estruturada em dois andares, e possui: vinte salas de aula (a maioria climatizada); oito banheiros para os alunos, sendo quatro masculinos e quatro femininos; dois banheiros dos professores e um dos gestores; sala dos professores; sala dos gestores; os laboratórios de Biologia, Física, Informática, Matemática, Química e Orto–Medicinal; sala de arte e de vídeo; auditório; sala de recursos especiais – para os alunos com necessidades especiais; dois depósitos; duas cantinas; secretaria; duas quadras de esportes, sendo uma coberta e outra descoberta; recursos didáticos, como retro-projetor, data-show, computador, DVD, TV, xerox, caixa de som amplificada, microfone e micro-sistem.

A biblioteca da escola contém um acervo de aproximadamente 2.500 volumes, dentre os quais estão livros de Literatura (1569); revistas vindas da Biblioteca Nacional (267); livros de disciplinas distintas, os quais estão distribuídos nas áreas de Artes, Biologia, Direito, Espanhol, Filosofia, Física, Geografia Geral e do Brasil, Historia Geral e do Brasil, Inglês, Matemática, Português, Química, Sociologia (157); além de uma coleção de autores maranhenses. No que tange ao quadro docente da instituição, este é composto atualmente por 117 professores nomeados, mais 15 contratados9, cuja distribuição por disciplina assim como níveis de formação estão dispostos nas tabelas abaixo.


Tabela 2 (Professores da escola Ypê nomeados, por disciplina, turno e habilitação)

Disc.que leciona

Mat.

Vesp.

Not.

Total

Habilitação

Artes

02

02

02

06

04 Lic.em Ed. Artística; 02 Lic. Em artes

AEE.Def.Visual10

01

---

----

01

Licenciado (a) em Pedagogia

Biologia

04

04

03

11

10 Lic. em Ciências Biológicas e 01 Lic. em Medicina Veterinária com Esquema I em Biologia

Ed. Física

02

01

05

08

Todos Licenciados em Ed. Física

Espanhol

02

02

01

05

Todos Licenciados em Letras

Filosofia

02

01

02

05

04 Lic. em Filosofia e 01 Lic. em Pedagogia

Física

04

04

04

12

11 Lic. em Física; 01 Lic.em Fis. e em Engª Elétrica

Geografia

02

02

03

07

06 Lic. em Geog. e 01 Lic.e Bacharel em Geog.

Historia

03

03

03

09

08 Lic. em História e 01 Lic.e Bacharel em História

Inglês

01

01

02

04

Todos licenciados em Letras

Inst./Libras

----

----

01

01

Lic. em Letras, com Especialização em Libras

Matemática

04

04

05

13

Todos licenciados em Matemática, sendo que um já conclui mestrado

Português

07

07

06

20

19 Lic. em Letras e 01 com Magistério

Química

03

03

04

10

09 Lic. em Química e 01 Lic. em Ciências Biológicas/ Química

Sociologia

02

01

02

05

02 Lic. em Ciências Sociais; 02 Lic. em Pedagogia e; 01 Lic. em Filosofia11

A estrutura técnico-administrativa da escola é composta por: 01 gestor geral (diretor) – licenciado em Historia; 02 gestores auxiliares (vice-diretores) – licenciados em Geografia; 07 supervisoras, sendo 06 habilitadas em Pedagogia e 01 licenciada em Filosofia; 09 Pedagogas, que estão distribuídas em três áreas: 03 na área de Ciências da Natureza; 03 na área de Ciências Humanas; e 03 na área Ciências Sociais.

Sua direção orgulha-se em afirmar que a escola se dedica a preparar os alunos para vestibulares de acesso a instituições superiores de ensino. Em função disso, o número de alunos evadidos e de repetentes é muito pequeno. Essa questão evidencia-se nas palavras do diretor Cândido, quando perguntado sobre quais as razões que fazem com que a escola Ypê seja considerada uma referência na rede pública estadual de educação.
Além de toda história que o Ypê tem, e já chamar atenção, é justamente a questão da escola ainda aprovar muitos alunos no vestibular; por exemplo, neste ultimo ano, nós tivemos em tono de 30012 alunos que passaram [no vestibular]. Isso não é qualquer escola particular que consegue. Em termos proporcionais é diferente, mas em termos de número, nós temos um aproveitamento bastante considerável e isso chama atenção. Porque na verdade, a nossa clientela aqui tem um pensamento diferenciado; porque o objetivo do pessoal é chegar aqui e entrar na universidade, e nós temos que dar as condições para que o aluno ao final do terceiro ano letivo tenha condições de entrar na universidade (entrevista com o diretor Cândido).

Há um seletivo burocrático como forma de acesso a ela (apenas para o primeiro ano), e este é um dos principais fatores de diferenciação desta escola em relação às outras da rede pública estadual. O seletivo não é feito pela escola, mas pela SEDUC. A escola apenas disponibiliza uma determinada quantidade de vagas para o primeiro ano em cada turno, e o órgão responsável pela seleção realiza todas as etapas do processo seletivo. Podem se inscrever quantos candidatos quiserem. Segundo a direção, na última seleção a concorrência estava em torno de 25 a 30 alunos por vaga.

Esta seleção acirra uma competição entre seus aspirantes, e ao mesmo tempo, proporciona aos seus egressos, pretensões futuras competitivas. O Ypê reproduz interna, e principalmente externamente, uma imagem valorizada e um círculo virtuoso, e procura incitar os diversos agentes13 que configuram o seu clima escolar, a adotarem atitudes positivas que contribuam para o sucesso e prestigio escolar deste estabelecimento de ensino.

Unidade Integrada Saci

A Unidade Integrada Saci é uma instituição pública da rede estadual de ensino, localizada no bairro Cidade Operária, periferia de São Luís, fundada em 11 de fevereiro de 1991. É estruturada fisicamente em dois pavilhões e possui doze salas de aula, sala de professores, secretaria, sala de direção, um laboratório de informática, biblioteca, cantina/cozinha, refeitório, depósito, dois banheiros (um masculino e um feminino), pátio coberto e uma área descoberta interna. Não possui auditório, sala de vídeo, laboratório de ciências, quadra de esportes e salas especiais. A escola dispõe dos seguintes recursos didáticos: TV; DVD; data show; retro-projetor; computador; micro-sistem; microfone; e caixa de som amplificada.

Esta é uma escola localizada em um dos maiores bairros periféricos da capital maranhense e recebe alunos deste e de outros bairros periféricos adjacentes – alguns considerados “bolsões de pobreza” –, em sua maioria, provenientes de famílias de baixa renda, cujos pais exercem principalmente atividades secundárias e terciárias. Acolhe, por exemplo, uma clientela bastante expressiva dos bairros Janaína e Cidade Olímpica. Isso porque não existe nenhuma escola de nível médio nesses dois bairros e o Saci é a mais próxima. Neste último existe uma escola inacabada que, há quatro anos está sendo construída. Essa realidade provoca uma série de problemas que interferem na aprendizagem dos alunos.

O diretor Gilson informou que as instalações elétricas e hidráulicas da escola são velhas, estando há mais de dez anos sem passar por nenhuma reforma e que, em função disso, estão sempre dando problema. “Há duas caixas d’água e uma cisterna que enche e seca, enche e seca e não se sabe de onde vem nem para onde vai à água”.

Segundo o diretor, a estrutura e o quantitativo de pessoal técnico-administrativo não atende satisfatoriamente. Já o pessoal de serviços gerais, por ser terceirizado, consegue atender as necessidades da escola.

O quadro docente é composto de 49 professores – incluindo ensino fundamental, ensino médio e EJA. No ensino médio são 19 docentes, cujas formações e disciplinas que lecionam encontram-se dispostas na tabela abaixo:




Tabela 3 (Professores do ensino médio da escola Saci, por disciplina e habilitação)

Disciplina que leciona

Habilitação

Total

Artes

01em Artes Cênicas; 01 Pedagogia

02

Biologia

01 em Biol.; 01 em Química

02

Ed. Física

Educação Física

01

Espanhol

Todos em Letras

02

Filosofia

Pedagogia

01

Física

01 em Física; 01 em Matemática

02

Geografia

Todos em Pedagogia

02

História

01 em História; 01 em Pedagogia

02

Matemática

Todos em Matemática

02

Português

Todos em Letras

03

Química

Todos em Química

02

Sociologia

Pedagogia

01

01 professor (a), habilitado (a) em Pedagogia, leciona as disciplinas de Artes, História e Geografia, para que possa completar sua carga horária.
No Plano de Ação da escola, alguns problemas foram diagnosticados. Dentre eles estão a deficiência alimentar e nutricional de uma parcela dos alunos. Algumas estratégias de soluções desse problema são: incrementar a merenda escolar; elaborar um cardápio que atenda às exigências nutricionais; e oferecer um atendimento diferenciado aos alunos mais carentes. Outros problemas são absenteísmo, atraso e não cumprimento do horário escolar diário por parte dos professores. Algumas estratégias de solução para tais são: implantar um sistema de monitoramento e acompanhamento da frequência dos professores; formação continuada com foco na modernização; humanização do processo ensino-aprendizagem; e valorização e incentivo do docente. Em relação ao absenteísmo e atraso por parte do alunado, as estratégias de soluções a serem adotadas são: implementar um sistema de monitoramento e acompanhamento da frequência dos alunos; realização de atividades diversificadas que promovam a permanência do aluno na escola; e apresentação de aulas atraentes e dinâmicas.

A escola apresenta também índices negativos de evasão e reprovação dos alunos. Segunda a direção,


A política maior que a gente pode fazer para melhorar os índices de evasão e reprovação é melhorar o processo educacional, de ensino aprendizagem; o cumprimento dos 200 dias letivos; segurança da integridade física do aluno; ações que combatam a reprovação, porque aluno que não fica reprovado não fica distorcido; formação continuada dos professores; ações pedagógicas; incentivos para a presença dos professores na sala de aula; a sensibilização da família sobre a frequência do aluno (entrevista com o diretor Gilson).

A imagem externa valorizada de uma escola seria um elemento que proporciona competição pelo acesso a ela, o que permite algum tipo de seleção. Por outro lado, uma imagem externa negativa relega o acesso a tais escolas àqueles com menos recursos competitivos (capital cultural) ou de menores aspirações no campo educacional14, o que resultaria em uma situação de fracasso escolar dos alunos.


ORIENTAÇÃO POLÍTICO-FILOSÓFICA
O Projeto Político Pedagógico (PPP) é o planejamento global de uma escola e deve ser elaborado de forma coletiva entre a direção, corpo docente e representatividade dos alunos e dos pais que fazem parte dos conselhos escolares. A elaboração de um PPP pressupõe um debate amplo sobre como organizar o trabalho pedagógico da escola, para efetivação dos objetivos escolares. Os principais pontos discutidos para sua montagem são: o processo ensino-aprendizagem, que implica a definição do currículo escolar; as atividades a serem desenvolvidas em cada disciplina; e o planejamento da escola em sua totalidade, com a efetiva participação dos diretores, professores, alunos e todos envolvidos com a escola. Sua elaboração requer ainda, uma profunda reflexão sobre a realidade na qual a escola está inserida. Portanto, exige um conhecimento aprofundado do que se pretende planejar, e como vivenciar o plano a ser elaborado. A primeira etapa para o delineamento desse projeto está voltada para o diagnóstico, ou seja, a fotografia da população escolar, dos que fazem a escola e dos que estão envolvidos com ela – pais, lideranças locais, pessoas interessadas em um ensino de qualidade. Uma vez realizado o diagnóstico, a etapa seguinte diz respeito ao planejamento ou, melhor dizendo, à construção do projeto pedagógico.

No que concerne ao PPP da escola Ypê, este foi iniciado em 1996 e retomado há dois anos, mas só foi colocado em prática a partir de 2010. Participaram da sua elaboração, toda a comunidade escolar (corpo docente e discente) e as famílias dos alunos.


Primeiro foi feito uma sondagem com os alunos, professores, pais dos alunos, com os funcionários; aplicado um questionário com eles, com objetivos de saber o que a escola representa para eles, o que ela se pretende. Aí foi feita uma normatização para levantar todos esses dados e elaborar-se o projeto (entrevista com o diretor Cândido).

Da mesma forma, no colégio Saci, o PPP está em vigor desde 2010. A primeira etapa, ou seja, o diagnóstico da realidade escolar, foi realizada pela escola; entretanto, na fase de conclusão a escola teve que contratar uma assessoria para terminar de elaborar o seu PPP.


Na verdade, a princípio a gente discutiu os problemas da escola, fizemos um diagnóstico, uma série de discussão acerca daquilo que queríamos, mas na parte final a gente teve que contratar uma assessoria para montar. Isso não foi por falta de capacidade, foi por falta de condições, principalmente por falta de tempo, mas que a gente tem conhecimento do que seja um PPP, isso daí a gente tem (entrevista com o diretor Gilson).

Analisando as duas escolas, percebemos como se expressam as desigualdades educacionais em um determinado espaço geográfico (cidade de São Luís) e social, que são conseqüência das desigualdades educacionais do sistema de ensino brasileiro como um todo. Porém, esses dados não são suficientes para ponderarmos acerca do ensino de Sociologia em cada uma das instituições. Uma variável decisiva para isso diz respeito ao perfil dos professores da disciplina.


PERFIL DOS PROFESSORES DE SOCIOLOGIA
Como já apontado, entrevistamos os professores de Sociologia das duas escolas investigadas na pesquisa. Podemos observar, conforme a tabela abaixo, que são professores com idades distribuídas em diversas faixas: uma professora jovem e com pouca experiência de sala de aula; por outro lado, tem-se uma professora mais idosa e com bastante tempo de docência; e entre elas, um professor em idade “mediana”, que reúne atualidade em relação aos jovens e a sociedade contemporânea, e experiência na prática da disciplina. O mesmo se verifica em relação ao perfil religioso e à origem geográfica, ou seja, professores de religiões/igrejas diferentes e de diferentes lugares de origem.

Tabela 4 (Professores de Sociologia por gênero, idade, religião/igreja e origem geográfica)

Escolas ►

Ypê

Saci

Professores►

Indicadores 

Pedro

Flávia

Raquel


Gênero

Masc.

X







Fem.




X

X



Idade


De 21 a 30 anos




X




De 31 a 40 anos

X







De 41 a 50 anos










De 51 a 60 anos







X

Religião/Igreja

Protestante

(Ass. de Deus)


Católica

Católica (não praticante)


Origem Geográfica

Paraguaminas/PA

São Luis/MA

São Bernardo/MA

Com o propósito mais de contribuir para a reflexão do que apresentar um estudo exaustivo, destacamos alguns traços da condição desses professores de Sociologia, que não foge da realidade da maioria dos docentes da rede pública estadual. Os resultados apontam que as condições de trabalho dos professores (podemos falar assim, vez que os de Sociologia não constituem uma categoria diferenciada) não são das mais confortáveis. O quadro indicado é de precarização do trabalho docente. Nota-se professores com um grande número (para não falarmos exorbitante) de alunos, responsáveis por oito ou mais turmas. No caso da professora Flávia, isso é ainda mais gritante, pois além de possuir em torno de 450 alunos, ela ministra vinte aulas por semana, ou seja, possui uma carga horária de 20 horas em um único turno, além de ter que participar de reuniões semanais para planejamento.

Quanto à renda mensal desses docentes, tem-se uma variação que vai de 01 a 05 salários mínimos. Tais valores reforçam o argumento da precarização do trabalho. Por ser contratada, e estar há pouco tempo trabalhando, a professora Flávia é a que tem a renda mais baixa. Por outro lado, a professora Raquel, por possuir muito mais tempo de magistério (fator que interfere na remuneração) é quem recebe o melhor salário entre os três professores. Todos eles afirmaram ter a renda do magistério como principal. Algumas das principais questões referentes às atividades e a atuação dos professores estão expressas nas tabelas 5 e 6.
Tabela 5 (Professores e atividades docentes)


Professores►

Indicadores 

Pedro

Flávia

Raquel

Tempo de magistério

03 Anos

01 Ano e 05 meses

26 Anos

Tempo de magistério nessa escola

02 Anos

05 Meses

03 Anos


Área de formação

Ciências Sociais

Filosofia

Pedagogia

Habilitação

Bacharel e Licenciado

Graduanda

Bacharel e Licenciada

Instituição formadora

UFMA

UFMA

UFMA


Titulação

Mestre (Mestrado)


Graduanda



Especialização em

magistério e uma alfabetização



Faixa de renda

De 2 a 3 salários mínimos

Até 1 salário mínimo

De 3 a 5 salários mínimos

Sua renda como professor é principal ou complementar?

Principal


Principal


Principal



Além do magistério, tem outra fonte de renda?

Sim (Sociólogo/Cargo Técnico)

Sim (Bolsista PIBID/UFMA)

Não

Os três professores são oriundos das Ciências Sociais, Filosofia e Pedagogia. Estas duas últimas são as principais áreas que ainda aprovisiona docentes para a disciplina de Sociologia no ensino médio. No caso de São Luís, e extensivamente do Maranhão, essa questão também tem a ver com a história recente do curso de Ciências Sociais, sobretudo da Licenciatura, comparativamente às outras áreas de formação de professores15. Embora o tempo de existência não seja um fator suficientemente explicativo, ele sugere que este curso ainda não possui um lugar consolidado e socialmente legitimado. Ainda não se conseguiu disseminar a ideia de um curso com identidade própria e relevância social. Esse discurso afirmativo encontra-se em fase recente de construção e afirmação, disputando espaços com outras áreas da licenciatura e principalmente aquelas consagradas pelo tempo como tradicionais, como Direito, Engenharia e Medicina. Não é objetivo deste trabalho, porém, tratar da formação de professores (um tema inexplorado no âmbito das pesquisas sobre ensino de Sociologia), apenas alçamo-la como forma de reflexão.


Tabela 6 (Atuação como professor/a de Sociologia)

Professores ►

Indicadores 

Pedro

Flávia

Raquel

Tempo como professor (a) de sociologia

03 anos

5 meses

5 meses 16

Leciona em quantos turnos

Um

Um

Um

Nº de turmas de Sociologia

08

10

09

Ministra outra disciplina

Não

Sim (Filosofia)

Não

Carga horária docente por semana

20 horas

20 horas

20 horas

Carga horária como professor (a) de Sociologia

16 horas

20 horas

16 horas

Número médio de alunos por turma

40

45

40/42

Ingressou nessa escola através de

Concurso Público

Seletivo Meritório

Remoção17

Ensina em outra escola

Não

Não

Não

Uma das questões de interesse para esse estudo refere-se às razões que conduziram ao recrutamento ou seleção de professores de Sociologia. O professor Pedro ingressou na UFMA para cursar Ciências Sociais em 1999, graduando-se em 2003, obtendo apenas a habilitação de bacharelado. Lembrou que sempre trabalhou durante o curso. Curiosamente, só ficou algum tempo desempregado depois que concluiu sua graduação. Em virtude da falta de mercado de trabalho na educação básica, foi fazer outras coisas, que não fosse trabalhar na docência.

Isso dito, em 2009, por meio do seletivo meritório, entrou como professor em uma escola no bairro do Vinhais; e em 2010 ingressou no colégio Ypê, através do último concurso público, realizado pela SEDUC/MA. Dessa forma, as razões que o conduziram a ser professor de Sociologia foram: a falta de mercado de trabalho alternativo à docência e; uma oportunidade que teve de fazer licenciatura em Ciências Sociais, que ele próprio qualificou como “dourada” 18. A professora Flávia disse que é contratada do Estado há três anos, e que neste ano escolheu lecionar na escola Ypê:
Na verdade eu vim para a escola para ser professora de Filosofia das 2ª e 3ª séries, mas quando eu cheguei aqui, cerca de três semanas depois, chegou um professor de Filosofia nomeado – através do ultimo concurso público para professor do Estado; e como ele tinha prioridade, as turmas nas quais eu iria lecionar foram alocadas para ele. Como a escola estava precisando de professor (a) de Sociologia no turno matutino e para evitar que eu fosse para outra escola, tivesse um desgaste, então acordei com a direção da escola que assumiria a disciplina (entrevista com a professora Flávia).

Ela disse que quando houve essa troca, um dos diretores da escola disse: “ah, professora, quem dá Filosofia, dá Sociologia”. Para utilizar algumas expressões da professora, ela disse que “se vira” e “faz o que pode”, mas reconhece que existem muitas diferenças entre as duas disciplinas, no que diz respeito às categorias, correntes epistemológicas, entre outros elementos.

Por seu turno, as razões que conduziram a professora Raquel à docência de Sociologia foram circunstanciais, como ela própria definiu. Ela lecionava didática no curso de magistério, entretanto, com o término do curso, ela tinha duas opções: lecionar Filosofia ou Sociologia. Inicialmente (no ano de 2009) ficou encarregada da primeira disciplina, mas como chegou um professor habilitado em Filosofia na escola, no seu entendimento não seria coerente permanecer com a disciplina, tendo um profissional qualificado na área. No final de 2010, eles acordaram que ele doutrinaria a ciência na qual é graduado, e ela instruiria Sociologia.



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