Venho neste ensaio discutir o teatro como invasão sob o âmbito da dramaturgia que o espaço oferece ao artista



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COLAGEM: DRAMATURGIA ESCRITA X DRAMATURGIA DO ESPAÇO – PROCESSO DE MONTAGEM DO 13º ATO.
José Tomaz de Aquino Júnior – tomazdeaquino1@yahoo.com.br
Venho neste ensaio discutir o teatro de invasão sob o âmbito da dramaturgia que o espaço oferece ao artista. O grupo 13º Ato1, do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), escolheu trabalhar com uma dramaturgia pronta, cinco obras de Nelson Rodrigues: Vestido de Noiva, Toda Nudez será Castigada, Álbum de Família, Senhora dos Afogados e A Serpente. A dramaturgia rodriguiana serviria como mote para a inspiração da turma, pois a mesma identificaria as pulsões recorrentes nos cinco textos para uma convergência.
Optou-se por sair do âmbito casa – edifício teatral – recorrente a dramaturgia escolhida e sentiu-se a necessidade de identificar essas pulsões na rua. Em quais locais de Fortaleza poderíamos ter algo similar? Em quais locais da cidade encontramos essa memória que
transborda de dentro da personagem (...); que paradoxalmente, o liberta e o aprisiona, e cujo espaço encontramos em algum lugar onde a nossa memória se encontra com a ilusão do espaço dramático. O espaço da cidade é materializado na cena através da lembrança ou impressão de cada espectador e das ações e reações dos atores/personagens. Não é possível entender a força da dramaturgia rodriguiana sem este personagem que é a cidade.
Como cita DRAGO (2008:98) para entender Nelson é preciso entender a cidade, a sua memória, a cultura imbuída nos espaços, as heterotopias, sua organização (costume, ética, moral) e regras sociais (castrações, o proibido), assim sendo, o grupo debruçou seu foco para a rua, não como ferramenta de resgate político-social de um público que se perdeu no contexto histórico devido aos edifícios teatrais, mas a escolha da cidade, como espaço que já carrega em seu “corpo” um significado que é público e que interfere na cena antes da mesma se estabelecer e, que proporciona uma dramaturgia, porque é produtora de sentido (CARREIRA, 2009: 3). Logo, optou-se em percorrer as ruas do entorno do IFCE, no bairro Benfica, por meio da Deriva e do corpo poroso/amoroso2. Mas restou a pergunta: como trazer essas sensações/impressões para os corpos dos atores e sair do verbo?
Começamos então a trabalhar com o Viewpoints3 em sala de treino para que os atores compreendessem a ideia proposta Anne Bogart e Tina Landau. Passado esse primeiro treino, saímos aos espaços escolhidos pelos atores para apresentarem as cenas que intitulamos Exercício Nº1. Após derivar o local, os atores voltavam à sala de treino para narrar o acontecido nos espaços, depois sem o uso da fala e somando a um processo de repetição - colhido do cotidiano da cidade que se repete a cada dia - descobria-se uma matriz dada pela narração corporal do que o ambiente propusera-lhes, era pedido, então aos atores que eles começassem a enxertar a dramaturgia rodriguiana e assim, havia uma colagem do que o espaço propunha com a obra de Rodrigues. Porém, outra questão surgiu, quando da apresentação pública do Exercício Nº14, a cidade perdeu-se, o ambiente tornou-se cenário e o fluxo pouco foi interrompido.
Em sala, discutimos a possibilidade de como a dramaturgia da cidade poderia colar-se ao nosso processo, a cidade como cenário é linda, mas não estávamos contentes com isso e partimos para a elaboração do Exercício Nº2. Dessa vez, no centro da cidade. Parque das Crianças e seu entorno. Vestido de noiva ganhou comentaristas (médicos e fotógrafos que aparecem na obra), aqui, os transeuntes da rua que interferiam na encenação e compunham a cena das noivas em meio ao fluxo de carros na Av. Duque de Caxias que fora interrompido com mais eficácia. Os espectadores também se tornaram atores, porque o transeunte sempre joga o duplo papel de observador e partícipe, a assim introduz novos elementos no modelo de atuação que serve de referência, dado que na rua todos vêem e são vistos (CARREIRA, mimeo), sobretudo no diálogo com Herculano, um cego e noivo - características dadas pelo texto do espaço escolhido pelos atores e que modificou a dramaturgia e a personagem rodriguiana - no qual uma senhora dialoga com o ator e o cuida até a chegada da noiva, mas quem aparece é Geni. A serpente reforçou o ar de mendicância - que os atores não pensaram, mas que a cidade deu - em torno dos mendigos que ali habitam, questionando a relação público-privado e os não-lugares e sendo interferida pelo fluxo de veículos que passava ao lado, que ditava o ritmo da cena. Porém, Senhora dos Afogados e Álbum de Família, ainda utilizaram-se do espaço como cenário. Sala de treino. Exercício Nº3. Ainda em processo, as pesquisas se convergem em como transpor o texto da rua para a cena em diálogo com a dramaturgia de Nelson. Dessa forma, fizemos uma cartografia da cidade e identificamos a pulsões rodriguianas nos bairros, e neste, destacamos os espaços mais propícios das pulsões serem melhor apreendidas.5
O espaço escolhido para o Exercício Nº3 foi o Passeio Público (antiga Praça dos Mártires), outrora habitada pela elite fortalezense, a praça serviu durante muito tempo como ponto de garotas de programa. Higienizada pela Prefeitura, as prostitutas foram expulsas de seu habitat e atuam no entorno da praça. Segundo PESAVENTO (2002: 27),
Os traços do passado lá estão, na sua materialidade, na sua presença visual e passível de reproduzir uma experiência sensível, mas é pelo olhar de quem rememora que se pode dar a ver uma ausência (...). É só pelos olhos da memória que é possível ver, mesmo na ausência material do traço ou do resto do passado, a presença daquilo que já foi. Neste sentido, ao passar por uma rua, ou parar diante de um prédio, é possível enxergar não a concretude daquilo que se oferece à vista, mas a presença daquilo não mais ali está.
No Passeio, a memória do espaço não são os mártires da Confederação do Equador, nem tampouco a elite, mas as prostitutas, suas últimas habitantes. Cheio de vida, organização e regras, as ruas do Passeio, depois da Deriva, contribuíram para uma possível colagem dessas dramaturgias, onde detectamos tipos e não mais, personagens.
A cidade é rica em dramaturgia, na Catedral o sacristão discute com o mendigo. No motel, o homem oferece uma fanta laranja a sua dama no quarto nº4. Em frente ao Marina Park Hotel, o mendigo defeca. Um casal compra apetrechos sexuais num sex shop. No cinemão, a prostituta oferece seus serviços. Alguém oferece um lanche ao mendigo e ele, gentilmente, recusa. Pessoas andam nas ruas devido as calçadas serem tomadas de privatizações. Uma senhora toma uma cotovelada. O menino parou o fluxo dos transeuntes, foi atropelado pelos mesmos. Estranhamento quando se sai do fluxo. Escambo. Alguém se perde no fluxo da cidade e é reconhecido. Seu Dedé, tem seu ponto desde 1980, ele é o homem que a arte de consertar. Casamentos civis na Castro e Silva. Sessões de fotos no Passeio e a noiva que espera o noivo. Juíza discursa sobre o casamento, enquanto, no cartório, o expediente corre normal. O casamento é um negócio. Rua Castro e Silva, a rua dos negócios de felicidade. A praça da Estação virou instalação e só vai lá quem é de Caucaia. Um espaço ressignificado, a esperteza dos malandros e a molecagem cearense. Fofocas. No passeio, perguntam se a atriz trabalha lá. Do lado de fora, as prostitutas dizem: “menina nova na parada e que não tem peito” . A nenê da casa. De inimigas a amigas, as prostitutas oferecem trabalho à atriz na pensão do Seu Barbosa. E o Passeio muda o nome para PÚBLICO. Na Rua Assunção a memória da memória da avó. A banalidade do atendimento na Santa Casa; atendentes viajam em Ruth e Raquel. A mulher que bolina o homem sob a mesa. Um encontro na rua que desvenda a família a por parte de pai e faz reencontrar a família. Um mendigo que come do lixo. Pássaros que cantam no PÚBLICO à tarde e D. Eduarda Drummond dos Afogados surge talhada na madeira. E no Seu Barbosa não se cobra para entrar, mas paga-se para sair. E um casal que pega a tarde inteira pela Rua Caio Prado, protegidos pela esfinge do PÚBLICO, no belo por do sol e ao nascer da lua de frente para o mar.6
A partir dessa Deriva, a qual fomos sem saber quais as cenas nos textos a serem trabalhadas no Exercício Nº3, o que proporcionou uma melhor absorção do acaso, pudemos observar o quanto de dramaturgia a cidade pode nos fornecer durante o processo e colar com a dramaturgia rodriguiana. Por mais que o espaço definitivo não seja o PÚBLICO e o seu entorno, mas as pulsões que ali identificamos, ele proporcionou a colagem com o que o grupo buscava e ajudou na descoberta de tipos/figuras para a construção da dramaturgia, desvencilhando-se ainda mais de Nelson, utilizando-o como potencia de inspiração e não mais de uma dramaturgia fechada. Assumindo o risco, atuar é sempre enfrentar situações de risco. O trabalho do ator se faz intenso exatamente na visita aos territórios desconhecidos e até mesmo proibidos. É ali que os atores inventam sua arte (CARREIRA, mimeo), o risco de descobrir o novo que instiga os atores nessa empreitada de ir para um caminho do desconhecido, não apenas o risco físico, mas o risco de caminhar na descoberta de uma luz no fim do túnel em um teatro feito com a rua.

A relação do ator com a cidade como espaço significante é o elemento que pode estabelecer referencias sobre os quais se apoiará o projeto de encenação. A experiência concreta do ator no ambiente, sem a preocupação prévia com a realização de uma encenação, abre espaços para uma construção performativa que contempla o fluxo da cidade. Isso permite que a criação se estabeleça a partir de procedimentos que nasçam da vivência da cidade como dramaturgia (CARREIRA, mimeo).

BIBLIOGRAFIA
BRAGA, Bya. Raspas e restos me interessam. In: CARREIRA, André [et. al.] (org). Metodologia de pesquisa em artes cênicas. Rio de Janeiro : 7Letras, 2006.

CALDEIRA, Solange. O espaço e a cidade na produção coreográfica de Pina Bausch: uma cartografia do imaginário. In: LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Espaço e teatro: do edifício teatral à cidade como palco. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

CARREIRA, André. Ambiente, fluxo e dramaturgias da cidade: materiais do teatro de invasão. O percevejo, Rio de Janeiro, n. 13, artigo 2, 2009.

______. Sobre um ator para um teatro que invade a cidade. Mimeo, s/l: s/a.

­­­­­______. Reflexões sobre o conceito de teatro de rua. Mimeo, s/l: s/a.

______. Espaço urbano, medo e labirintos dos mitos urbanos... um rápido pensamento a partir de Giulio Carlo Argan. Disponível em:



<http://pesquisateatral.blogspot.com/2011/11/andre-carreira-espaco-urbano-medo-e-os.html >. Acessado em 17.nov.2011.

______. Teatro de invasão: redefinindo a ordem da cidade. In: LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Espaço e teatro: do edifício teatral à cidade como palco. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

DEBORD, Guy. Sociedade do espetáculo. São Paulo: Contraponto, 1997.

DRAGO, Niuxa Dias. Espaços da cidade na dramaturgia de Nelson Rodrigues. In: LIMA, Evelyn Furquim Werneck. Espaço e teatro: do edifício teatral à cidade como palco. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

MEYER, Sandra. Viewpoints: efeitos no espaço e no tempo. Mimeo. s/l: s/a.

LOPES, B. Entrevista concedida sobre a peça Silêncio [on-line]. Disponível em: <http://teatrochik.terra.com.br/entrevistas/entrevista.asp?codigo=29 >. Acessado em 16.out.2006.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Memória, História e cidade. In: ArtCultura. Uberlândia – MG, Vol. 4, nº4, p23-35. Junho/2002.

ANEXOS


Imagens do Exercício Nº2, realizado dia 23/11/11 no entorno do Parque das Crianças – Centro de Fortaleza.
Vestido de Noiva


Toda Nudez será Castigada

A Serpente

Álbum de Família e Senhora dos Afogados









1 13º Ato é um grupo formado por 13 alunos da disciplina TCC1: Montagem do Espetáculo Teatral, do Curso de Licenciatura em Teatro do IFCE, o qual sou professor orientador.

2 A Deriva, conceito de Gui Debord , consiste em uma técnica de passagem rápida por ambientes urbanos variados, esquecendo as preocupações e as relações naturais (afetivas, de trabalho, lazer), permitindo-se aos encontros que surgem, a recepção do espaço e o que ele lhe proporciona. Utilizamos a metáfora de um corpo poroso/amoroso como uma esponja a qual as coisas podem penetrar e ser absorvidas.

3 O Viewpoints é um método desenvolvido por Anne Bogart e Tina Landau e “explora processos de criação por meio de improvisação e composição corporal e vocal envolvendo estados de percepção, atenção, escuta e memória. Viewpoints é definido por Bogart e Landau (2005) como um processo aberto, e não uma técnica rigidamente formatada” (MEYER, mimeo).

4 A ideia de fazer os exercícios públicos surgiu da necessidade de observamos a cidade e poder colher o que ela nos proporciona em estado de representação, buscando quebrar a ideia de cidade como cenário e permitindo que a mesma possa virar texto, conforme nos explica CARREIRA (mimeo): Quando uma prática invasora realiza uma ação de abordagem da cidade, e por isso mesmo não trata este espaço apenas como cenografia, está redimensionando a cidade como texto, está buscando ressignificar esse lugar e o instante presente de estar nesse lugar.

5 Este processo ainda esta em andamento. Apenas mapeamos a cidade e identificamos tais pontos. Ainda marcaremos os dias de visitar tais espaços e praticar a Deriva nos mesmos.

6 Relato da Deriva feita pelos atores do 13º Ato no dia 30/11/11 como processo do Exercício Nº3.


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