Veredas de uma Vida foi o meu primeiro livro. Quando imaginei escrevê-lo o fiz debruçando-me na informal capacidade que tenho de projetar-me sobre acontecimentos e situações vividos por mim



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Introdução
Veredas de uma Vida foi o meu primeiro livro. Quando imaginei escrevê-lo o fiz debruçando-me na informal capacidade que tenho de projetar-me sobre acontecimentos e situações vividos por mim. Aproveitei a benevolência de minhas memórias para fazer uma viagem através do sentimento. Ao redescobrir caminhos, obedecendo a um olhar novo de ver-me no tempo, percebi que poderia adicioná-lo à minha página na internet, disponibilizando-o desta vez para que todos possam lê-lo em on-line.
Quis explorar alguns ângulos de observação e análise do conjunto de minha vida, abrindo campo à descoberta e ao imprevisto, impondo mais clareza sobre o que parecia oculto a uma visão mais imediata ou comum. Tentei com isso dar mais veracidade às várias passagens aqui descritas, que constituem fatos importantes da minha vida. Com um enfoque inteiramente voltado à autenticidade, realcei alguns aspectos de minha personalidade, cujo tempo havia mostrado esquecidos, clareando-os de modo a torná-los mais consistentes e útil ao entendimento do leitor.

Aqui o leitor poderá encontrar formas não convencionais, de uma realidade vivida por mim, em tempos alternados, para chegar facilmente aos olhos daquele que costuma ler com o coração. São velhas experiências que adquirem significativa dosagem emocional, certamente pouco comum ao cotidiano das pessoas. Não é meu desejo levar uma mensagem meramente descritiva. Melhor será inserir no imaginário coletivo a formatação de suas associações de idéias, onde todos possam projetar-se.


Para isso evoco fatos permeados de emoção e puro lirismo. Haverá espaço para narrar casos que podem lembrar muito bem uma oração ou mesmo um desencanto ou uma alegria em forma de poesia. Para mim, o sentido mais plausível da existência está nos pequenos momentos, nas menores alegrias, no prazer de desfrutar a felicidade na mais completa afirmação da rotina diária. Algo que nos remeta à mais profunda alegria de ser.

Luiz Aurélio Peregrino Maia

Recife, 11 de julho de 2003

Uma viagem pelos sentimentos

Por Paulo Caldas
Nesses últimos vinte anos, na lida de escrever e editar, poucas vezes tivemos em mãos um texto tão marcado pelo emocional quanto este "Veredas de uma Vida".
Desde agosto de 1947, quando Luiz Maia (Luizinho) inicia o traçado de sua rota, até os dias de hoje, a emoção esteve presente como uma bússola a guiá-lo a cada curva do tortuoso caminho, como é fácil interpretar nesta sua narrativa.
Em alguns momentos da viagem estivemos juntos. Lá pelos idos dos inesquecíveis anos 60, quando tudo era divino e maravilhoso para nós, que nos embalos das velhas tardes de domingo amávamos os Beatles e os Rolling Stones.
Dos anos 70 em diante, seguimos caminhos diversos. Em sua rota, tal o perfil de uma senóide, Luizinho teve grandes momentos e vivenciou situações que lhe trouxeram marcas profundas.
Hoje, no árduo ofício de escrever, o inesperado nos juntou no mesmo barco. Tanto quanto antes, somos tão sonhadores quanto o minúsculo colibri, que julga apagar o incêndio da floresta levando água no bico. Quem escreve, ao modo do colibri, pensa em salvar o mundo fazendo a sua parte: coisa de sonhadores.
A partir deste "Veredas de uma Vida", podemos, quem sabe, ver nascer um novo talento para o universo literário pernambucano. Muitos dos ingredientes ele já possui: paixão, emoção e uma outra virtude indispensável: a perseverança.
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Contracapa

Por Evaldo Donato
Através deste livro Luiz Maia, Luizinho, nos oferece uma pujante narrativa. Uma verdadeira radiografia de corpo inteiro, onde o Autor se desnuda e revela, sem guardar segredos, a sua trajetória de vida.
Vindo de antecedentes com raizes fincadas na região de Vila do Conde, essas suas revelações de vida vivida, por coincidência ou não, emocionam tal e qual o Fado, a bela e dolente canção portuguesa.
Por ser um trabalho de forte conteúdo emocional, o leitor certamente se emocionará com cada página que ler, todas densamente impregnadas de puro lirismo, objetividade, reminiscências, decepções, força de vontade.
Sente-se que no enorme coração de Luizinho não existe espaço para mágoas ou rancores. Este perfil faz com que a minha admiração por ele aumente com o passar dos anos. Pelos laços de uma amizade que já perdura há quatro décadas, pelo que já viveu, pelo que fez, faz e fará, confesso, orgulhosamente, que Luizinho é o "Meu Tipo Inesquecível".
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Recife - 20 de agosto de 1947 - espoucara a champanhe no ar. Eu havia nascido. O parto foi o mais difícil e sofrido que a minha mãe tivera. Eu estava virado e nasci ao contrário dos partos normais, ou seja, de bunda para o mundo. Este seria o meu primeiro nascimento já que outros "aconteceriam" ao longo de minha vida. Nós nascemos mais de uma vez. Umas, acidentalmente, mas outra, em especial, por extrema necessidade.

Sou o mais velho dos irmãos, de um total de sete filhos que o meu pai e minha mãe tiveram. Nossa família era remediada: meu pai, um imigrante português, foi sempre um pequeno empresário do ramo de ferragens, mas muito zeloso para conosco, levando uma vida inteira dedicada à família. Minha mãe sempre foi muito presente e atuante, vindo a ser o ponto de equilíbrio da família: além de dar tempo integral, cuidando de todos e da casa, ainda reunia forças para ajudar nosso pai no armazém.


No começo de minha infância fui tomado por um vírus, início de meningite, mas sendo curado a tempo. Devido a esse problema, fui obrigado a conviver com os remédios por um longo período. O gosto de Calcigenol e Poliplex ainda hoje está bem vivo em minha mente. Alimentava-me mal e assim mesmo à custa de muito sacrifício. Esse momento eu vivia em meio à natureza e rodeado de brinquedos, tudo permeado por muito amor e carinho de meus pais. Nossa família era bastante unida, sendo esta uma característica marcante.
Minha casa sempre teve muitos animais, cachorros e passarinhos, já que o meu pai os adorava, mesmo encontrando em minha mãe uma forte resistência, já que, quando um cão nos mordia, o trabalho de nos levar a um posto médico era dela, para tomar umas vinte injeções na barriga. Antigamente era assim..
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Começo dos anos sessenta e eu vivia a minha adolescência. Muito livre e solto, detestava regras e disciplina. Fui um aluno difícil e cheguei a freqüentar vários estabelecimentos de ensino, sendo o Ginásio Pernambucano o mais famoso deles. Mas minhas péssimas notas eram um indicador de que não iria muito longe. Fui um adolescente inconseqüente, irreverente e contestador. Tal postura causou muito mal-estar e tristeza a meus pais, só tendo a perder sendo assim.
O tempo passava rápido e eu era só brincadeiras, bebidas, cigarros, passeios, namoros e muita irresponsabilidade. Não sinto a menor saudade desse tempo. Só contabilizei perdas e aborrecimentos nesse período que se foi. Não soube aproveitar as oportunidades que me apareciam, tanto em nível profissional como escolar, passando pelo terreno amoroso já que não conseguia me amarrar em namorada nenhuma. Deveria ter levado a sério coisas que envolviam o sentimento. Por essas e outras que hoje entendo que a alma não envelhece: ela não acompanha os efeitos cronológicos ao nosso corpo. Minha alma vive radiante, toda poesia, mas preciso tomar cuidado para não parecer ridículo, até mesmo a um simples elogio a uma bela mulher. Sim, porque belas são as mulheres, por mais predileção que eu venha a ter a uma em especial.
Minha primeira namorada surgiu quando eu estava com apenas dezoito anos. Ela, com apenas treze, era uma criança. Ao seu lado eu ficava todo ancho, como se fosse o dono do mundo. Meu ciúme era tremendo, embora fizesse o maior esforço para parecer tranqüilo. Esse ciúme carrego comigo até os dias de hoje, pois sou perfeccionista e os meus objetos os guardo com muito carinho e cuidado, imaginem quando se trata de pessoas! Assume uma maior dimensão. Esse ciúme já me prejudicou bastante nas minhas relações amorosas. Precisava administrar melhor esse sentimento para não machucar ninguém, nem a mim. Tudo era uma questão de tempo. Ah!... O tempo...

 

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A década de sessenta foi marcada pelos movimentos culturais no mundo, a começar pelos Hippies que contestavam o sistema e os costumes, tendo como lema o "Faça amor não faça a guerra". Eu gostava da filosofia deles embora não me atrevesse a segui-los. Elvis Presley continuava reinando. Eu era um de seus fãs e não perdia os filmes dele, sem falar nos vários LPs que colecionei por um bom tempo. Mas os Beatles foram chegando para se tornarem o maior fenômeno musical do século. Dancei muito embalado pelo maravilhoso som de suas músicas. No Brasil, simultaneamente com outros movimentos, surgiu a Jovem Guarda sob o comando de Roberto Carlos. Junto com ele uma dezena de cantores e cantoras que, além de cantar e dançar, lançavam modas mexendo com os costumes de então.
Não perdia um só programa que, no Recife, era exibido o vídeo-tape aos sábados à noite, através da TV Tupi. Claro que eu não podia perdê-lo. Logo após o seu término lá ia eu ao encontro da namorada que, como todas as moças da época, assitia ao programa com suas músicas rimando amor com dor, com as eternas juras de amor. Mais adiante, com muita força, surgiam os mais importantes e famosos festivais da música popular brasileira (MPB).
Foi aí que despontaram nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Taiguara, Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Novos Baianos, etc. Eu vivia todos esses fatos sem me dar conta que o país atravessava um regime de exceção, estando debaixo de uma feroz ditadura. Os artistas eram perseguidos e muitas letras de músicas eram censuradas. Agumas conseguiam ser executadas, sendo proibidas lá adiante. Eu era um alienado e não sabia absolutamente nada do que ocorria no país.
No dia 20 de julho de 1969 acontecia um fato histórico que galvanizou o mundo para si: o homem conseguiu pisar em solo lunar. No exato momento eu me aproveitava do silêncio da cidade, com as pessoas grudadas à frente das TVs, para poder retirar as calcinhas de minha namorada, com sua cumplicidade, e assim poder namorar à vontade. Foi uma noite maravilhosa que ficou marcada para sempre em minha mente. Era o homem pisando na Lua e nós dois firmes em Terra.

 

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O Clube Náutico Capibaribe era o meu clube preferido. Toda minha família era alvirrubra, seguindo a orientação de meu pai. Freqüentei o Náutico por mais de dez anos seguidos, tempo suficiente para alcançar o clube em seu grande apogeu, pois de 1963 a 1968 o Clube Náutico conseguiu o honroso título de hexa-campeão de futebol pernambucano. O time de futebol que conseguiu essa façanha, segundo a ótica de Pelé, estava dentre os três melhores do mundo, que ele vira jogar. Os dois outros eram o Palmeiras, de Ademir da Guia, conhecido à época como a "academia de futebol", sendo o terceiro o próprio Santos, de Pelé e Cia, claro!
Freqüentei por vários anos sua sede social e cheguei a presenciar a inauguração de seu parque aquático. Em sua sede jogávamos sinuca, basquete, futebol e o que aparecesse mais. Brinquei anos seguidos os seus famosos carnavais, os mais disputados pela alegria e animação que os caracterizavam. O Náutico foi muito presente em minha adoslescência, cuja importância não posso negar em minha vida, a ponto de merecer esse registro. Quem nunca ouviu falar, alguma vez na vida, daquele legendário time de futebol com seus destaques, Lula, Gena, Mauro, Salomão, Fraga, Clóvis, Nado, Bita, Nino, Ivan, Lala?
O Clube Náutico Capibaribe tinha um traço em seu perfil muito negativo que o acompanhou até o ano de 1960, quando não admitia em seus quadros atletas de cor, muito menos sócios. Para se ter uma idéia, o primeiro treinador de futebol negro, admitido na história do clube, foi Gentil Cardoso, mesmo assim a contragosto de muitos. Esta página demorou muitos anos para ser virada. Era o clube da elite pernambucana, onde os aristocráticos predominavam, onde seus pontos de vista eram sempre acatados por uma casta insensível de dirigentes racistas e preconceituosos. Hoje a realidade é bem diferente, com o clube atravessando dias nebulosos, parecendo viver apenas de recordações.
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Dia 2 de janeiro de 1970. 2h30. Lá estava eu dentro de um ônibus rumo a São Paulo. Estava dando os primeiros passos para quebrar as amarras que me prediam à família. Buscava novos horizontes, uma melhoria de vida mesmo à custa de muita saudade da família e da namorada, que ficavam para trás. Minha ousadia em alçar esse vôo deveu-se a uma excelente proposta de trabalho de um amigo meu, Antonio Arruda, onde eu passaria a perceber como salário quatro vezes mais do que aquilo que eu ganhara até então.
Contava apenas 22 anos e fui à luta. Em minha cabeça conservo ainda bem gravado o beijo e o abraço silenciosos que eu dera em meu pai e na minha mãe. Todos estávamos com os olhos cheios d'água. Logo caíra a noite e o ônibus seguia célere sua viagem, em meio ao silêncio dos passageiros. Naquela noite, quanta coisa se passara pela minha cabeça... Essa seria a primeira vez em que eu saia de casa, ainda muito novo e inexperiente. A saudade da namorada era grande, e sua ausência aumentava a saudade que batia forte em mim. Eu começara a sentir falta dos beijos, dos abraços e do carinho dela. Ah! Por que essa vida é tão complexa, meu Deus?
A viagem decorria normalmente quando aconteceu o primeiro susto: chegávamos a Penedo e ali tínhamos de embarcar numa balsa para atravessar o rio São Francisco. De um lado ficaria Alagoas no outro alcançaríamos Sergipe. O perigo consistia em ver uma balsa cheia de veículos em cima, atravessando uma largura considerável de rio, e ainda por cima numa escuridão de fazer medo a todos nós. Felizmente tudo passou e o susto ficara para trás.
Logo adiante o ônibus parou para enfrentarmos a nossa primeira refeição. Lá estavam Antonio, eu e demais passageiros degustando um belo frango assado. Acontece que o bendito galeto tinha mais gordura que macacão de mecânico, e no meio da estrada paramos todos por causa de uma tremenda disenteria. Só então descobrimos que o ônibus não tinha toalete... Que horror foi saber disso! Paramos todos para evacuar no mato, na noite escura e fria numa dessas BRs da vida. As horas corriam rapidamente e a vontade de chegar à cidade grande aumentava na mesma proporção. Eu era todo ansiedade diante das incertezas que me esperavam por lá.
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Cinco de janeiro de 1970. Enfim, chegávamos à Estação Rodoviária de São Paulo. Antonio e eu fomos direto à casa de seu tio Jair, que ficava no bairro de Jaçanã, distante demais do centro da cidade. Foi então que passei a perceber que lá tudo é distante, tudo é grandioso, tudo é muito difícil se compararmos ao Recife. Mas foi aí que descobri o meu espírito aventureiro. Sempre me identifiquei com os desafios e São Paulo me proporcionaria uma excelente oportunidade para tal. Fiquei por um mês na casa de Jair, saindo de lá para uma vaga na Alameda Dino Bueno. Fui morar numa rua com alguns casarões antigos, mal-cuidados e conhecidos como "repúblicas" ou "cortiços".
Mas o local ficava próximo ao meu trabalho, na Rua Corrêa de Melo, bairro do Bom Retiro. Lá trabalhei durante um ano e meio, e gostava da vida que levava. Só tenho boas recordações daquele tempo: gostava do bairro, do trabalho, da cidade, dos companheiros e amigos de trabalho. Enfim, passei a gostar até da correria desenfreada. Mas de uma coisa não conseguia deixar de me queixar: a falta de uma namorada. Eu sentia falta de uma mulher ao meu lado... Como é importante a figura da mulher ao lado do homem. Isso seria tema de inúmeras conversas minhas com os amigos que começávamos a fazer.
Não havia o afrouxamento moral dos dias atuais, certamente por vivenciarmos uma época de muita repressão político-social. As moças "mais avançadas" eram rotuladas de "garotas de programas". Mais adiante, usando-se de eufemismos, dizia-se que fulana está curtindo uma "amizade colorida". Isso seria só um atenuante para evitar possíveis constrangimentos, no que hoje se costuma dizer "ficar". Eu sempre fui um romântico e sonhador que via na pessoa da mulher algo fascinante, um ideal quase que inatingível. Deus primeiramente criou o homem, e vendo que ficava muito a desejar resolveu caprichar ao criar a mulher. Sou um amante do belo e entendo que não há nada mais perfeito na natureza que a mulher. Ela é o equilíbrio de tudo.
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São Paulo, 2 de maio de 1970. Resolvi ir conhecer o Rio de Janeiro. À meia-noite lá estava eu dentro do ônibus com destino à "Cidade Maravilhosa". Estava realizando um sonho que era poder conhecer o Rio e os encantos daquela cidade tão beneficiada que foi pela generosidade da natureza. Eu viajei em companhia do amigo Antonio e às 6h00 estávamos desembarcando na Rodoviária Novo Rio. Fomos direto para o apartamento de minha prima Selma, que nos recebeu com muito carinho. Estávamos em plena Copacabana quando resolvemos alugar um táxi para visitarmos todos os pontos turísticos que fosse possível.
Lembro-me que fomos ao Cristo Redentor, Alto da Boa Vista, Pão de Açúcar, Castelinho, e à tarde demos uma passadinha no Maracanã, onde jogavam Vasco da Gama e Olaria. Tudo era muito lindo e penso não existir lugar mais belo no mundo que o Rio de Janeiro. O motorista do táxi era um sujeito divertido e dizia ser um carioca da gema, afirmando que dificilmente moraria em São Paulo. Travamos uma amizade enquanto estava à nossa disposição. E, quando nos despedimos, trocamos um forte abraço e recebemos dele o seu endereço como forma de agradecimento por tê-lo escolhido para passearmos durante todo sábado.
A noite chegou rápido demais. Logo sentamos à mesa para jantar ao lado de Selma e seu marido. Conversamos um bom tempo, mas minha cabeça girava em torno da maravilha de dia que acabara de usufruir. Os assuntos daquela conversa não conseguiam prender minha atenção. Logo após nos abraçamos e cumprimentamos o casal, e assim nos despedimos seguindo o caminho de volta a São Paulo. Aceitei o convite da prima Selma para que fosse mais vezes à sua casa. Não demorou muito e eu já estava novamente usufruindo as belezas daquela cidade, passeando nas praias de Ipanema, Copacabana e Barra da Tijuca. A única coisa que achei desagradável foi a temperatura das águas do mar, onde o frio difere das águas mornas das praias do Nordeste, das praias do Recife.
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Junho de 1970. Duas coisas inesquecíveis aconteciam comigo. Primeiro eu estava me mudando para um apartamento, juntamente com os amigos Antonio, José Carlos e João Turugo. Compramos alguns móveis: camas, um sofá, uma vitrola, TV e um fogão. Contratamos os serviços de uma empregada para fazer as tarefas diárias, coisa nada fácil já naquela época. Dividíamos todas as despesas pelos quatro: aluguel, empregada, supermercado e algumas prestações em comum. Zé Carlos e João residiam no município de Capivari, interior próximo de Campinas. Trabalhávamos todos no mesmo escritório, isso facilitava muito nossas vidas. Íamos para o trabalho a pé, já que o apartamento ficava no mesmo bairro do Bom Retiro, um reduto dos Judeus. Começaria uma vida nova para mim, com reais perspectivas pela frente.
Não demorou muito e o país mergulhou na desenfreada torcida para a seleção de futebol tornar-se tricampeã no México. Sendo um amante do futebol, dificilmente perdia os jogos do Corinthians. Ao lado de João, íamos a todos os jogos, fosse noite ou fosse dia, por isso chego a entender os jovens de hoje que fazem de tudo para ver seus clubes jogarem, de preferência ganhando os jogos e vibrando a cada emoção. Eu fui assim um dia.
Mal a Copa do Mundo dera início e o Brasil já triturava um a um seus adversários. Nós assistíamos aos jogos juntos, no local de trabalho. Henriquinho levava seu televisor portátil, e após o término de cada jogo saíamos para comemorar na cantina mais próxima. Lugar para se comer e beber é o que não falta em São Paulo. Durante um mês respiramos apenas futebol. Enfim, chegou a finalíssima! Em campo estavam Brasil e Itália. Antonio, eu e Jaime fomos assistir ao jogo na casa de Víctor, aproveitando a ausência de seus pais que haviam ido ao interior. À medida em que o jogo ia transcorrendo, nós outros bebíamos tudo que tinha pela frente. Lá pela metade da partida estávamos os quatro completamente bêbados, abraçados para comemorar o título de tricampeão mundial de futebol. Acontece que estamos bêbados demais, e assim mesmo resolvemos fazer a besteira de sair de carro para comemorar na Av. Paulista. O carro era um fusquinha de Jaime, e até hoje não sei como posso estar aqui contando essa história, pois o que cometemos de imprudência, de irresponsabilidade e insanidade juntas ninguém pode imaginar jamais. Por pouco não morremos naquele dia. Quanta bobagem em vão!
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Os dias passavam rapidamente e eu executava minha rotina com extremo bom gosto. À medida em que os dias passavam eu aprendia a gostar da capital paulista. Sua grandeza e sua dinâmica me fascinavam a ponto de passar horas a fio caminhando por entre largas avenidas, a apreciar suas lojas com seus letreiros luminosos, num verdadeiro convite ao consumo. Seus cinemas, teatros, restaurantes e casas de shows me deixavam admirado.
Nessa cidade cosmopolita, sua cozinha ganhou fama além-mar por ser lá onde melhor se come no mundo, segundo os melhores gourmets do país. Não foi à toa que engordei cerca de vinte quilos em apenas dezoito meses morando lá. Quando eu ia trabalhar gostava de vestir uma calça jeans, camisa de lã com mangas compridas e minha inseparável japona de camurça de cor marrom. Metia as mãos nos bolsos e lá estava eu preparado para enfrentar aqueles dias de inverno. O frio paulistano me era cruel. Aquela umidade e o vento soprando forte nos davam a certeza de muita dor nos ossos, e a falsa impressão que a temperatura era bem mais baixa que a registrada.
Naquele tempo eu tinha o péssimo vício de fumar. E, para aqueles que fumam, nada melhor que tomar um cafezinho ou mesmo um chocolate super quente, na vã tentativa de afastar aquela sensação de frio para longe. Em que pese os vários contrastes dessa cidade, garanto que sinto saudade daquele tempo. Às vezes me pego pensando por que não fiquei lá em definitivo, já que estava ambientado, em plena ascensão com um futuro promissor. O certo é que o destino vem e diz (às vezes) não.
Lembro-me de um dia em que sai pela cidade, com rumo e destino incertos. Após andar toda José Paulino, logo alcancei a Ipiranga. Adiante dobrei a São João e deparei-me com um cinema que estava exibindo o filme "Perdidos na Noite". Nada mais pertinente. Não tive dúvida em comprar o ingresso. O enredo era muito parecido com a minha própria história, com aquele meu momento de deslumbrado numa cidade grande. O filme narrava a estória de um jovem vaqueiro americano que fora tentar a sorte numa megalópole, tendo no percurso enfrentado inúmeros obstáculos. Um belo filme!
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Sheila e Clarete... Ambas estudavam no Colégio Israelita e moravam no Bom Retiro. Eram judias e seus pais industriais do ramo têxtil. Antonio começou a namorar com Sheila. Ela era muito amiga de Clarete, uma moça bonita que sempre estava ao seu lado. Fiquei muito amigo delas e logo passamos a sair os quatros juntos: Antonio, Sheila, Clarete e eu marcávamos sempre presença nos restaurantes distantes da cidade. Parecia que a minha vida ia mudar, embora me contentasse em ser (apenas) amigo de Clarete.
Juntos, chegamos a conhecer várias cidades do interior paulista: São Vicente, Santos, Santo André, Campinas, Capivari, Pindamonhagaba e São Roque. Mas o que eu mais gostava era de ir ao Parque do Ibirapuera. Lá renovava minhas energias e matava saudade do verde, esse bem tão escasso na capital paulista. Eram momentos agradáveis ao lado de Clarete, onde ficávamos horas até a noite chegar. Ah, quanta vontade eu sentia de falar de namoro à Clarete, só não o fazendo devido a uma estúpida timidez. Eu sentia que o seu sentimento para comigo dizia muito mais que uma simples amizade. Mesmo pensando assim, demorava a declarar meus sentimentos... Os dias se passavam na mesma "tranqüilidade" de sempre, e as coisas pareciam não se mexer de lugar. Eu não queria que fosse assim... Alguma coisa poderia acontecer a qualquer momento. Mas o quê? Qual a notícia que poria um fim naquele nosso remanso?
Pois bem, Sheila e Clarete, demonstrando muito nervosismo, diziam para Antonio que os pais de Sheila estavam desconfiados que ela estava namorando algum rapaz que não era judeu, e a partir dali as coisas seriam diferentes. As duas teriam de tomar todo cuidado possível para não serem vistas conosco de jeito nenhum. Lamentável era aquilo tudo que estava acontecendo conosco. Ficamos tristes e ao mesmo tempo indignados com tamanho absurdo. Esse descabido preconceito nós não tínhamos tomado conhecimento em nossas vidas. Como viver às escondidas o tempo todo, em nome de um besta preconceito que visava apenas destruir sentimentos dos mais puros? Os judeus são muito unidos e têm forte tradição de apego à cultura, seria quase impossível qualquer aproximação nossa sem que eles soubessem. Estávamos nos sentindo excluídos sem poder fazer nada. Mas viriam as férias...
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