Vi congresso de iniciaçÃo científica da universidade federal de campina grande



Baixar 91.87 Kb.
Encontro07.04.2018
Tamanho91.87 Kb.

Vi Congresso de Iniciação Científica da Universidade Federal de Campina Grande



PIBIC/CNPq/UFCG-2009




EURICO, O PRESBÍTERO E MEMORIAL DO CONVENTO: ENTRE A HISTÓRIA E A LITERATURA

Samyra Lara Ferreira de Almeida1 Naelza de Araújo Wanderley2
RESUMO

Estudo sobre as obras Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano e Memorial do convento, de José Saramago que buscou compreender o processo de apropriação ficcional da matéria histórica nos contextos dos séculos XIX e XX, observando os pontos convergentes e divergentes entre os dois textos no que diz respeito à postura narrativa, diante do recorte histórico, assumida pelo escritor de cada uma das obras estudadas. Objetivou, principalmente, a realização de um estudo comparativo dos referidos romances de Alexandre Herculano e José Saramago, descrevendo como se dá a articulação dos episódios e das personagens históricas no texto de ficção. O trabalho foi desenvolvido a partir de levantamento bibliográfico e de consultas a periódicos eletrônicos e bibliotecas virtuais com vistas a posteriores produções acadêmico-científicas. O estudo, através da temática abordada, destaca não somente o importante papel que o romance histórico desempenha no contexto da literatura portuguesa, como também abre espaço para novas pesquisas sobre as constantes discussões acerca das fronteiras entre o histórico e o literário na literatura portuguesa.


PALAVRAS-CHAVE: Eurico, o presbítero; Memorial do Convento; leitura comparativa
ABSTRACT

Study about the works "Eurico, the presbyter", by Alexandre Herculano and "Memorial of the convent", by José Saramago which sought to understand the process of fictional appropriation of the historical substance in the context of the 19th and 20th centuries, observing the convergente and divergent points between the two texts respecting to the narrative posture, in face of the historical clipping, assumed for the writer of each of the works to be studied. Aimed, mainly, the accomplishment of a comparative study of the referred novels by Alexandre Herculano and José Saramago, describing how occurs the articulation of the episodes and historical characters in the fiction text. The work was developed from bibliography survey and from consultations on electronic journals and virtual libraries in view of posterior academic-scientific productions. The study, through the boarded thematic, emphasizes not just the important role that the historical novel performs in the context of the Portuguese literature, as well as opens space for new researches on the constant discussions about the boundaries between the historical and the literary in Portuguese literature.


KEYWORDS: Eurico, the presbyter; Memorial of the convent; comparative reading; literature; history.
INTRODUÇÃO
A apropriação ficcional da matéria histórica e a articulação dos episódios e das personagens históricas através das obras produzidas pelos seus interlocutores, ou atores, de seus respectivos tempos, tem sido uma postura comum abraçada pela narrativa de ficção desde o século XIX, com o advento do romance histórico. Assim, não cabe à literatura uma reflexão sobre os fatos sociais históricos, enquanto conjunto factual da vida humana, mas cabe a ela uma (re)construção do passado sob o manto da ficção que possibilita ao leitor uma leitura analítica que tem como ponto de partida a comparação entre obras que se revelam como histórico-literárias e que apresentam caminhos narrativos que, ora se aproximam, ora se distanciam na expressão literária de cada autor.

Ao longo dos séculos, “recortes” históricos são recolhidos pelos ficcionistas e inseridos na ficção como forma de representação do passado. Enquanto veículo dessa modalidade narrativa, os romances históricos passam a assumir conscientemente essa forma de expressão a partir do século XVIII e coordenam em seu enredo as convenções de ficcionalidade e veracidade no interior da obra literária.


O motivo maior desta pesquisa é a investigação acerca do modo como acontece o rompimento, por parte dos romancistas, da fronteira que, ao longo dos anos, estudiosos ora estabelecem, ora eliminam, entre literatura e história. Essa postura foi assumida por escritores portugueses como Alexandre Herculano e José Saramago nos séculos XVIII (com o advento do Romantismo) e XX (através da expressão moderna do romance português), respectivamente.

Ao contrário de Alexandre Herculano, que, como historiador de reconhecidos méritos, soube, eficientemente, encaixar à ficção o relato de fatos históricos, Saramago não se considera um escritor que atua no campo da História, mas um autor que insere na História uma história.

Na obra de Saramago os elementos históricos são moldados pela ficcionalidade, fugindo da precisão que envolve a narrativa histórica. Na obra Memorial do convento o autor elabora a narrativa de tal forma que o elemento histórico está entrelaçado com o fictício e o fantástico na composição do enredo e dos personagens.

Observe-se que os trajetos percorridos nos projetos literários desses dois escritores portugueses, enquanto autores de narrativas que se envolvem a temática da fronteira entre História e ficção constituir-se-ão na grande questão que norteia esta pesquisa.

Assim sendo, é traçado um estudo comparativo entre as obras Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano e Memorial do Convento, de José Saramago, buscando compreender o processo de apropriação ficcional da matéria histórica nos contextos dos séculos XIX e XX, assim como observando os pontos convergentes e divergentes entre os dois textos no que diz respeito à postura assumida pelo escritor de cada uma das obras estudadas.


METODOLOGIA

Os princípios metodológicos que nortearam o desenvolvimento deste trabalho obedeceram aos seguintes critérios e etapas relacionados ao levantamento bibliográfico:



  • Levantamento teórico;

  • Leitura comparativa do corpus literário – as obras: Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano e Memorial do convento, de José Saramago;

  • Análise do elemento histórico como fonte da elaboração textual literária;

  • Produção de artigo científico;

  • Produção de relatórios;

  • Construção do texto final.

Em conformidade com o modelo teórico abordado, essa pesquisa se constitui como qualitativa, já que se apóia numa reflexão, estudo e descrição dos mais diversos aspectos que caracterizam as obras tomadas como objeto de investigação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A matéria e a narrativa históricas
A fronteira entre escrita literária e a escrita histórica vem sendo discutida desde a antiguidade com Aristóteles quando este, em sua Poética, já afirmava haver uma distinção entre poesia3 e história, pois, segundo ele, “diz um [o historiador] as coisas que sucederam, e outro [o poeta] as que poderiam suceder” (1973, p.451). Faz ainda uma referência ao escritor como fabulador que, mesmo diante de um fundo histórico, não deixaria de lado o seu compromisso estético: “ainda que lhe aconteça fazer uso de sucessos reais, nem por isso deixa de ser poeta.” (1973, p.451).

Em seu IX capítulo da Poética, Aristóteles faz uma célebre distinção entre história e poesia. Argumenta que cabe ao poeta representar não o que de fato aconteceu, mas o que poderia ter acontecido, o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade. Uma das diferenças entre o poeta e o historiador não está na forma como escrevem (verso e prosa), mas no seu conteúdo. Enquanto o historiador se detém a apresentar acontecimentos comprováveis, ou seja, contar o que realmente aconteceu, o poeta explora a representação ou uma necessidade.

Logo, a poesia imita o universal, a história imita o particular. Assim sendo, os poetas se interessam não pelos fatos em si, mas por sua estrutura, enquanto ao historiador interessam os fatos em sua singularidade. Com isso, a poesia encerra mais filosofia, elevação e universalidade, por falar de verdades desejáveis ou possíveis.

O poeta é definido mais como aquele que compõe histórias (mitos), do que versificador, já que se identifica como poeta pela representação de ações, que podem até, verossimilmente, provir de fatos reais. Embora lhe aconteça de apresentar fatos reais, nem por isso deixa de ser poeta, pois nada impede que a existência de alguns dos acontecimentos ocorridos tenham sido “criados” por ele.

Modernamente, será Hayden White o grande defensor da abolição das fronteiras entre o literário e o histórico. O autor coloca lado a lado as representações históricas e literárias como formas de representação do passado, sem que haja qualquer diferença entre elas.

Durante o Romantismo, um gênero do romance romântico coloca-se como palco perfeito para o encontro entre História e Literatura, é o romance histórico do qual Walter Scott4 foi o grande criador. Essa narrativa faz uma volta ao passado glorioso da pátria tendo como base fatos reconhecidos. Os romances passam da ação ao envolvimento romântico sem deixar de ter as inserções históricas que registram fatos, datas e locais. O seu interesse pela história e tradições regionais o levou a ser um grande pesquisador, coletando dados e a partir deles escrevendo romances com características nacionais, que na época eram ameaçadas pela crescente influência. Com esse tipo de romance, muitos puderam conhecer a história do próprio país, tornando esse tipo de literatura quase que uma obra didática. E é esse modo como Walter Scott descreve o passado de seu país que atribui a sua obra um caráter nacionalista, valorizando sua pátria ao descrever momentos gloriosos e de conquistas. O autor consegue mesclar todas essas informações mais seus personagens heróicos e românticos. Aventuras, ação e humor que se aliam ao sobrenatural e ao patético, características essas imbricadas de tal maneira que atrai o interesse e a imaginação dos seus leitores.

Esse tipo de romance foi utilizado por muitos escritores, principalmente na época do Romantismo. É o ponto de partida para a criação de outros tipos de romances históricos, nos quais os escritores recontam a sua maneira e constroem a história de seu país de forma bem particular. É com base no romance histórico de Walter Scott, com novas roupagens, que se desenvolvem os romances de Alexandre Herculano e José Saramago, aqui estudados a partir de uma leitura comparativa.

Quando falamos em leitura comparativa nos vêm à mente a definição de uma postura crítica que compara duas ou mais literaturas. Ao observamos os estudos comparativistas, percebemos que essa definição restringe muito o sentido do que realmente é a literatura comparada. Como possui diferentes formas de investigação, de metodologias, e uma grande diversidade de objetos de análise, ela acaba abraçando um grande campo de atuação.

Ao comparar duas ou mais literaturas, temos a preocupação em observar as semelhanças e diferenças não se prendendo à conclusão sobre a natureza dos elementos confrontados.

No desenvolvimento dos estudos comparativistas, surgem duas escolas de grande importância: a francesa e a norte-americana. Elas se distinguem por suas propostas de análise da literatura. Segundo Tânia Franco Carvalhal, a escola francesa era “(...) um grupo representativo de estudos onde predominam as relações “causais” entre obras ou entre autores, mantendo uma estreita vinculação com a historiografia literária” (1986, p. 14). A escola norte-americana aceitava, dentro das fronteiras de uma única literatura, os estudos comparativistas, ponto este recusado pela escola francesa.

As propostas defendidas para o desenvolvimento da literatura comparada fizeram cada escola crescer e aplicar suas formas de comparar, mostrando-nos que a literatura comparada não pode ser definida com apenas um sentido.

Assim sendo, utilizamos como ponto de partida para esta pesquisa a leitura comparativista de dois autores de uma mesma literatura, a literatura portuguesa, observando como os escritores Alexandre Herculano (romântico) e Saramago (modernista), trabalhando com a mesma temática, o romance histórico, ora se aproximam, ora se distanciam ao trabalhar com a matéria histórica.


ito suas formas de comparar, mostrando-nos que nda Saramago e Herculano
Alexandre Herculano, grande escritor português do século XIX, produziu obras importantes no campo literário e obras fundamentais da história de Portugal no campo histórico. A grande maioria delas faz um resgate do passado de seu país, exaltando-o, histórica e literariamente. Apesar de Herculano ser historiador, ele elabora uma busca do passado através da literatura, ou seja, une a literatura e a história para retomar o passado de Portugal, através do romance histórico. Foi dessa maneira que ele escreveu Eurico, o Presbítero, obra com forte presença histórica e com grandes características românticas. Esse romance relata a Espanha Visigótica no início do século VIII; e é nesse cenário que Eurico e Hermengarda viveram a sua triste história de amor.

Na leitura da obra, nos fica bem claro que Herculano possui mais fins históricos do que literários, pois observamos que ela está mais ligada ao contexto histórico do que ao drama amoroso. A cada capítulo somos postos em uma determinada parte da história e esse detalhamento é feito minuciosamente com muita precisão. Essa característica nos fica perceptível logo no primeiro capítulo:


Os curtos anos de esplendor da monarquia visigótica tinham sido para ela como um dia formoso de inverno, em que os raios do sol resvalam pela face da terra sem a aquecerem, para depois vir a noite, úmida e fria como as que a precederam. Debaixo do governo de Vítiza e de Roderico a antiga Cartéia é uma povoação decrépita e mesquinha, à roda da qual estão espalhados os fragmentos da passada opulência e que, talvez, na sua miséria, apenas nas recordações que lhe sugerem esses farrapos de louçainhas juvenis acha algum refrigério às amarguras da malfadada velhice. (HERCULANO, 2005, p. 21)

Observamos que temos toda uma apresentação do contexto histórico do qual os personagens farão parte. Esse contexto será a principal característica que faz com que a narrativa se desenvolva.

Herculano promove uma ampliação na sua obra, através da fusão entre o contexto histórico e o imaginário, ampliando o seu universo ficcional. Em notas feitas pelo próprio autor, ele deixa claro que em alguns capítulos o fato narrado é histórico, mas as cenas são fictícias. Como o próprio autor diz: “O fato narrado neste capítulo é histórico. O lugar da cena e a época é que são inventados” (HERCULANO, 2005, p. 104). Essa característica marcante faz de Alexandre Herculano um grande autor, pois ele consegue fazer essa união entre História e Literatura de maneira inovadora já no século XIX.

Outro escritor que se destacou na literatura através desse tipo de união foi José Saramago, escritor do Modernismo português que obteve reconhecimento junto ao público. Sem dúvida, uma de suas obras mais significativas foi Memorial do convento, publicada em 1982. O romance narra a história de Portugal no século XVIII.Tem como temática a construção do convento em Mafra. De maneira genial, Saramago nos apresenta três faces presentes em sua narrativa: a história, a ficção da história e o imaginário.

Nesse romance temos a presença de personagens históricos (D.João V, Ana Maria Josefa, Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão) e personagens ficcionais (Blimunda e Baltasar) que se entrecruzam no decorrer da história. Observamos que na obra de Saramago não há a ‘fixação’ pela descrição detalhada da história como é vista em Herculano. Saramago utiliza-se de um narrador intruso que nos apresenta o ambiente em que se desenvolve a história, fazendo sua história ficar mais “ao seu modo”. Outro ponto que destaca essa característica é a mesclagem entre esses personagens, pois em toda a obra personagens históricos se envolvem com os personagens ficcionais, “alterando” assim a história. O autor utiliza-se da ficcionalização da história, com a qual ele brinca, transforma e acrescenta, criando, assim, sua própria história. Apesar disso, Memorial do convento não deixa de ser um romance histórico, marcado por essas novas características que atreladas ao contexto histórico constituem-se o pilar para o desenvolvimento da narrativa.
Eurico, o presbítero e Memorial do convento: entre a história e a ficção
Eurico, o presbítero
Alexandre Herculano é autor da primeira geração do Romantismo Português. Suas obras tiveram grande importância e por ser historiador (uma das suas características mais marcantes) sempre buscava ater-se à “verdade” dos fatos. Consolidou o romance histórico em Portugal. Explorou temas medievais, as velhas tradições do seu país e revigorou a prosa de ficção. A verdade é que ele soube articular história com a imaginação sem que uma destruísse a outra. Ele consegue reunir em Eurico, o Presbítero, elementos da crônica, da ficção, da poesia e drama.

Este romance conta a triste história de amor entre Hermengarda e Eurico. A história se passa no início do século VIII na Espanha Visigótica. A obra é composta por um prólogo, 19 capítulos e notas feitas pelo autor, que facilitam a compreensão. As epígrafes no início dos capítulos antecipam os temas que serão abordados e revelam as fontes de pesquisa e inspiração do narrador: Concílio Toledo IV, livros de crônicas, Memorial dos Santos, Código Visigótico, etc.

Alexandre Herculano deixa bem explícito, já no prólogo, aspectos importantes para o entendimento de sua obra. Numa nota do próprio autor, fica claro o conflito na classificação do seu romance, na qual temos:
Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me aflige demasiado. Sem ambicionar para ele a qualificação de poema em prosa - que não o é por certo - também vejo, como todos hão de ver, que não é um romance histórico, ao menos conforme o criou

o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o imortal Scott. (HERCULANO, 2005, p. 15)


Nesse trecho fica perceptível que o autor não se aflige com a classificação de sua obra, mas já se atém dizendo que não se trata de um romance histórico de acordo com o modelo de Walter Scott, assumindo, assim, uma proposta diferenciada do modelo criado pelo pai do romance histórico.

Apesar de ambos os autores apresentarem esse caráter de resgatar o passado glorioso de seu país, com precisões históricas retratadas nos espaços em que a narrativa se desenrola, o que difere entre eles é o modo como é feito esse resgate do passado.

O fato de ambos estarem ligados à tendência romântica, faz com que enalteçam esse passado relatando a idealização de sua pátria e isso é muito frisado nos romances de Walter Scott. Em Alexandre Herculano, encontramos outra forma de articular história e ficção. O passado é exposto minuciosamente, com precisão e verossimilhança. É perceptível que a sua obra está mais ligada ao contexto histórico do que, de fato, ao drama amoroso, ou seja, a trama amorosa, fundamental para a estética romântica, fica sem a devida atenção, servindo como pano de fundo na obra. Sendo assim, o romance do casal é apenas um pretexto com fins historicistas, como é visto em Eurico, o presbítero. É interessante observar que o autor tentou criar uma história de sociedades e não de indivíduos, apresentando o fator histórico e político como resultado da dinâmica social sempre existente numa comunidade. Os personagens das obras de Alexandre Herculano são condicionados por paixões, mantendo grandes dramas psicológicos, diferentemente dos romances de Walter Scott nos quais os personagens são focados no puro heroísmo e por isso sempre acabam bem.

Como enfatiza bem Antônio José Saraiva (1999) em seu livro História da Literatura Portuguesa:


As principais personagens dos romances de Herculano são como que encarnações, dotadas de forças sobre-humanas, anjos ou diabos, consagrados a uma obra de maldição ou de santificação: (...) Eurico, anjo negro no meio dos combates. (SARAIVA, 199, p.744).
A história, na maioria dos romances de Walter Scott funciona como algo primordial do texto, enquanto Herculano a utiliza como um intensificador a sua história ficcional.Ao mesmo tempo em que o autor se prende ao concreto, aparecem os cenários vagos, imaginários, situados numa época em que Herculano dispunha de poucas informações.

A supervalorização do homem é vista na figura de Eurico, o típico herói romântico medieval. Um homem insatisfeito com a vida, cheio de contradições. Eurico não consegue resignar-se espiritualmente ao celibato sacerdotal. Personagem tida como uma encarnação: anjo negro no meio dos combates e de outras personagens dos seus romances, ou seja, há a presença forte do maniqueísmo.

No decorrer da obra, ficam visíveis muitas contradições que a preenchem de maneira fabulosa. Entre elas temos: Amor de Hermengarda / Sacerdócio. Desde o começo, Eurico nos é apresentado como um ser triste e desencantado da vida, desgraçado por um amor não realizado, fato que leva consigo e justifica sua tristeza em todo o romance: “mas o amor devorou na mente de Eurico todos os outros sentimentos, como a lava cadente devora tudo o que encontra, quando o vulcão a vomita, alagando a superfície da terra.” (HERCULANO, 2005, p. 51). Desta forma, Eurico é levado a viver o sacerdócio como um meio de fuga do seu sofrimento. Mesmo assim, o sacerdócio não consegue fazer dele um homem livre do sofrimento causado pelo amor negado. Com isso, Eurico tem a escolha de Pecado e Redenção, pois Hermengarda ao descobrir que ele é o Cavaleiro Negro, pretende viver, enfim, o amor entre eles. Mas Eurico escolhe a redenção ao pecado, prefere o sacrifício ao sacrilégio, entregando-se voluntariamente à Guerra Santa.

Essas características são confrontadas em um único personagem, Eurico, refletindo uma visão de homem de honra, um verdadeiro herói que prefere salvar outros a salvar a si próprio.

Assim, Herculano nos coloca diante de uma obra regida de aventuras, cenas heróicas, amorosas, mas acima de todas essas características, prevacele a supervalorização do historicismo.
Memorial do convento
Uma das grandes obras de José Saramago é, sem dúvida, Memorial do Convento, publicada em 1982. O romance narra a construção de um Convento, em Mafra, por causa de uma promessa do rei D. João V a sua mulher em troca de um filho. Além dessa descrição de um fato “verídico”, no decorrer da obra são apresentadas outras situações e personagens cruciais para o desenvolvimento da narrativa, como o Padre Bartolomeu, com a construção de sua passarola, e o casal Blimunda e Baltasar.

A obra estrutura-se em 25 capítulos, não numerados, com uma “estranha pontuação”, que é característica forte em Saramago. Essa pontuação não obedece à marcação comum e os diálogos entre as personagens são introduzidos por vírgulas (só conseguimos chegar a essa conclusão porque observamos que a primeira palavra da fala seguinte começa com letra maiúscula) que se interpõem entre os discursos diretos.



Memorial do Convento é construído com uma mesclagem de características fortes que se destacam no romance de forma que o autor faz uma imbricação da história, a ficção da história e o imaginário.

Ao utilizar-se dessa implantação do plano histórico em seu romance, Saramago retoma momentos históricos em sua obra, utilizando-se de personagens reais da história de Portugal, pertencentes ao século XVIII, como: D.João V, rei de Portugal, Ana Maria Josefa, princesa austríaca que se tornou rainha de Portugal, Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, brasileiro que inventou a passarola e Domenico Scarlatti, músico italiano barroco.

Ao servir-se da história como uma “inspiração” para seu livro, o autor tem a preocupação de colocar características próprias desses personagens históricos. Mas, ele não se prende a características resumidas dos mesmos, pois seu diferencial vai mais além, quando inclui o plano da ficção na história. O autor português amplia a visão sobre eles, moldando-os a seu modo, acrescentando qualidades e defeitos, ou seja, ele capta importantes características próprias deles, de acordo com a História, e as transfigura para sua obra, de maneira caricaturista, como exemplo, pode ser indicada a figura de D. João V da história de Portugal e o D. João V samaraguiano.

Esse método também é utilizado quando retrata ambientes de Portugal, situações cotidianas, pois José Saramago, de maneira genial, extrai pedaços da História de Portugal e constrói uma história diferente, ou seja, é uma história dentro de outra história. Poderíamos dizer que um dos intensificadores dessa característica na obra é o narrador, que é múltiplo, mas com predominância em terceira pessoa, ocorrendo também de ele ser, em certos momentos, ora terceira pessoa ora primeira pessoa (de forma cambiante). Esse narrador de terceira pessoa é uma pessoa crítica, com uma opinião formada sobre tudo que descreve, é ele que nos direciona para ter tais opiniões a respeito de algo ou alguém ou para nos mostrar uma “dura realidade” da época como podemos verificar no trecho a seguir:


São mistérios mercantis que os de fora ensinam e os de dentro vão aprendendo, embora estes sejam ordinariamente estúpidos, de mercadores falamos, que nunca mandam vir eles próprios as mercadorias das outras nações, antes se contentam com comprá-las aqui aos estrangeiros que se forram da nossa simplicidade e forram com ela os cofres, comprando a preços que nem sabemos e vendendo a outros que sabemos bem de mais, porque os pagamos com língua de palmo e a vida palmo a palmo. (1994, p. 60)
Essa forma de Saramago de expor um narrador com idéias próprias acrescenta os elementos da narrativa, consequentemente, modifica a visão do leitor.

Introduzindo o plano imaginário, somos apresentados a dois personagens que têm grande destaque: Blimunda de Jesus (Sete-Luas), Baltasar Mateus (Sete-Sóis). Esses personagens têm grande presença em toda a obra, mantendo contato com os outros personagens (históricos) e fazendo, assim, “alterações” na História. Um dos episódios no qual fica perceptível esse elemento é no momento em que o Padre Gusmão, Baltasar e Blimunda voam na passarola, assim como também o fato de Baltasar ter ajudado na construção do Convento em Mafra.

Mas além desses personagens, de certa maneira, “modificar” a História, há também momento em que eles colaboram com ela, ou seja, eles tornam-se um veículo para a demonstração da história a ser exposta. Um exemplo disso é o fato de a mãe de Blimunda ter sido vítima da Inquisição, temos aí a visão de como eram castigadas tais pessoas e como todo o processo ocorria. Outros episódios que são apresentados são os autos de fé, a construção do convento e os casamentos dos infantes. Tendo isso em vista, Marilda Coan Antunes nos afirma que:
O mergulho de Saramago por dentro da história do século XVIII traz à tona os deslizes religiosos e morais, mostrando o papel da Inquisição, a corrupção causada pela Igreja contra fiéis, a morte em praça pública, o degredo, a dízima, a tomada de bens. O investimento do rei, para em trocar ter riqueza, se faz à custa do povo: a construção de templos e de conventos monumentais. (ANTUNES, 2004, p. 53)
Com esses episódios fica o elo entre essas duas faces e a preocupação do autor em expor críticas a situações da época. Saramago soube cuidadosamente dosar essas características trazendo-nos as mais diversas informações do século XVIII através de uma história que permite maior conhecimento do próprio ser humano.

Em Memorial do Convento podemos dizer que existem pontos fortes de um romance histórico, pois apesar de o autor fazer as suas modificações, nada faz com que se percam as inserções históricas que são mantidas no decorrer de sua obra. O próprio narrador nos indica ambientes, lugares, nos posiciona para a história da qual a obra se desencadeia, de maneira que percebemos que a há uma construção de uma história na História.

Desse modo, o romance de José Saramago é um grande palco de personagens do povo oprimido, da indiferença da realeza, da corrupção da Igreja, e muitos outros que nos são apresentados no decorrer da leitura. Através de um texto composto de uma riquíssima intertextualidade e múltiplos significados, o autor mostra-nos que tem como manter uma harmonia entre essas três faces tão fortes: história, imaginário e ficção da história de maneira coerente e verossímil.
Eurico, o presbítero e Memorial do convento: convergências e divergências.
A partir dessa pesquisa, podemos verificar que entre esses autores, apesar de tratarem de diferentes épocas de Portugal e de maneiras diferentes, existem pontos divergentes e algumas convergências através de uma leitura comparativa de maneira bem simplificada.

Na obra de Herculano, percebemos maior aprofundamento no contexto histórico do que no drama amoroso Eurico/Hermengarda, e a exposição desse contexto é feita de maneira mais centrada na descrição “pura e real”. Em Memorial do convento, Saramago utiliza-se de um momento da História de Portugal (construção do convento de Mafra), mas ele não se fixa somente nessa descrição. Ele também se mantém na história do par Blimunda/Baltasar, assim como também na imaginária construção da passarola do Padre Gusmão. Essa forma com que Saramago maneja a história é um grande diferencial entre eles. No primeiro capítulo de seu livro, percebemos como Saramago já inicia sua romance com árduas críticas do rei D. João V e a rainha D. Josefa:


D. João, quinto nome na tabela real, irá está noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmuram na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca (...) Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo sua mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. (1994, p. 11)
Nesse trecho, percebemos o tom irônico presente já no começo da narrativa. A verdade é que temos um narrador com uma opinião formada sobre os personagens (tanto os históricos como os ficcionais) que não se atêm a mostrar o que realmente pensa sobre os tais personagens descritos. Como é perceptível no trecho, o autor faz uma caricaturização desses personagens históricos, acrescentando características que irão compor a história saramagueana.

Essa característica difere muito da utilizada por Herculano, pois enquanto Saramago se desprende de vínculos pré-estabelecidos dos personagens e da própria história, Alexandre Herculano se mostra disposto a seguir um detalhamento quase que propriamente histórico em sua obra, se atendo a detalhes e explicações da história contada por ele. Como um desses exemplos é o artifício utilizado para causar uma maior verossimilhança na obra, presentes nos capítulos V a VIII, em que nos são apresentadas cartas de Eurico direcionadas a outros personagens. Esses capítulos possuem um grande poder de verossimilhança. Ele se apropria muito de contextos históricos e tem uma grande preocupação com fato de expor ao leitor a história em que os personagens serão inseridos. Mas essa preocupação de Herculano é referente ao fazer sua obra ser a mais verossímil possível em relação à história da Espanha Visigótica. Logo no primeiro capítulo são jogadas muitas informações propriamente históricas de modo até complicado de entendermos sem ter um conhecimento prévio de tantos nomes citados da história de Portugal e esses nomes (homens históricos)são citados em toda a obra. Se observarmos bem, nesse primeiro capítulo Herculano faz um grande retorno à história a fim de que entendamos o porquê dos acontecimentos que virão mais adiante. Como o próprio autor diz no final desse capítulo: “tal era, o resumo, o estado político e moral da Espanha na época em que aconteceram os sucessos que vamos narrar”. (2005, p.20)

O fator da verossimilhança também é utilizado na obra de Saramago. O primeiro recurso é o emprego de personagens históricos em sua obra. Esse recurso possui grande efeito do “real”, que no início não são apresentados de uma maneira histórica, mas sim literária, ou seja, um narrador observa os personagens e nos diz como eles são. Nesse tipo de descrição não há um distanciamento entre o personagem e o leitor, como ocorre na descrição histórica, mas sim há certa humanização do personagem. Logo, o que Saramago faz é com que o leitor consiga ver um personagem histórico de maneira mais próxima do contexto, sem ter características pré-estabelecidas ou fixas a tal personagem histórico. Ele consegue fazer o leitor aceitar sua descrição, como por exemplo, a do rei D. João V, e formar sua própria opinião referente a um personagem histórico. Então, essa nova visão que o escritor consegue que os leitores façam desses personagens é um ponto que deixa a obra mais verossímil.

Outro ponto interessante em Saramago é a maneira como o narrador vai descrevendo o contexto da obra. Conseguimos nos situar facilmente no contexto histórico, graças a sua maneira simples de nos relatar.

Em suma, Herculano e Saramago utilizam a verossimilhança como fonte para o resgate do contexto histórico no qual sua obra está inserida. O primeiro se utiliza através de descrições detalhistas, deixando aflorar mais seu lado historiador. Já o segundo, utiliza-se de uma descrição de fácil entendimento, em que qualquer leitor poderá entender o contexto a partir do qual será desenvolvida a trama. Utilizando-se de personagens históricos e de grandes momentos da história de Portugal, a obra ganha um grande caráter de verossimilhança importante para a absorção dos vários sentidos que Saramago nos propõe na leitura de Memorial do convento.
Eurico, o presbítero e Memorial do convento: diferentes perfis para a mulher.
As obras desses escritores portugueses possuem um caráter interessante no modo como é vista a mulher.

Em Eurico, o Presbítero somos apresentados a Hermengarda, mulher muito amada por Eurico e que seguia os costumes daquela época: casava-se com o homem que seu pai escolhesse, era guiada pela família, não poderia desobedecer as ordens e leis impostas; uma mulher que tinha de aceitar o destino que os outros traçavam para ela. Hermengarda é uma mulher tipicamente romântica, e certos aspectos desse movimento são bem presentes: a exaltação de sua beleza, a maneira como o seu amado, Eurico, a coloca num patamar maior que ele, ela como sendo um ser de puro encantamento, a típica mulher-anjo, pura, inocente e doce:


Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, Ó Hermengarda, semelhante à aparição do anjo da esperança nas trevas do condenado. E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a fronte a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhidão ao pudor; o amículo alvíssimo da inocência, flutuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhe as formas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos belas que a realidade. (2005, p. 43 e 44)
Com uma beleza indecifrável e comparada com seres celestiais, esse tipo de mulher é visto como um ser quase que inatingível. A ausência dessa mulher, do seu amor, vai ser um verdadeiro martírio para Eurico.

A mulher da obra de Saramago, especificadamente, Blimunda de Jesus ou Blimunda sete-luas, é apresentada com um poder especial: em jejum, conseguia ver as pessoas por dentro. Mulher de um poder enigmático, que impressionava Baltazar e o Padre Gusmão. Seu nome Blimunda de Jesus é um nome enunciador de uma ligação com Cristo, mas ela é “herética”, condenada pelo poder que tinha, sendo que uma mulher com esses poderes era denominada de bruxa pela Igreja da época. Uma mulher de força, coragem, decidida, apaixona-se por Baltasar e casa-se com ele. Vejamos uma descrição de Blimunda:


Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque os olhos como estes nunca se viram claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e as vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. (1994, p. 55)
Apesar de seu poder sobrenatural, Blimunda se apresenta como uma mulher humana, ou seja, sua exaltação será decorrente de suas atitudes, sua coragem e por seu caráter decisivo. Ela traça seu destino, ela tem poder de escolha de caminhos. O seu poder é quase que um presente que Saramago lhe dá para exaltar a mulher.

Embora sejam mulheres bem diferentes e de estarem em momentos históricos distintos, elas ganham um espaço nos romances: uma é responsável pelo sofrimento do herói Eurico, e a outra é a heroína do romance, transparecendo um papel de supervalorização da mulher, e sendo única, pois somente ela tinha o poder de enxergar as pessoas “por dentro”. Em suma, Herculano ao tratar da mulher não foge do molde de “mulher romântica” vista em Hermengarda, enquanto Saramago inova Blimunda, sendo a personagem principal e dando-lhe um poder inexplicável, tanto no sentido místico como no sentido de encarar as dificuldades de frente.


O diálogo entre passado e presente
Um fator convergente entre os autores é a presença da matéria histórica nas duas comparações entre presente e passado. Cada autor busca, com sua maneira específica, explorar esse jogo na obra, muitas vezes acompanhado de várias ironias implícitas e explícitas.

Em Eurico, o Presbítero, Herculano faz o passado absorver o presente, atribuindo críticas a situação atual e mostrando o passado como exemplo de comportamento social e político. Como podemos ver no trecho:


Quem hoje é cristão e godo nesta nossa terra de Espanha?

Uma geração degenerada pisa os restos de heróis: homens sem crença, blasfemos ou hipócritas, sucederam aos que criam na grandeza moral do gênero humano e na providência de Deus. (...) Hoje, a espada substitui o conselho dos prelados, dos nobres e dos homens livres: a coroa portuguesa é uma conquista, a lei uma vontade, do desonrado vencedor de pelejas domésticas, a liberdade palavra mentida. (1994, p. 38)

No trecho, percebemos a colocação dele no tempo atual, clamando pela vida do passado. Herculano retoma a história de heróis esquecidos pela sociedade atual do século, de pessoas que não sabem como o seu país chegou a ser o que é hoje.

Na obra de Saramago, vemos um narrador que está situado no presente, ou seja, na época em que a obra foi escrita, buscando um diálogo do presente com o passado, para assim compreender o tempo volúvel construído pelo homem. Vejamos o trecho:


Vivemos em tempo que qualquer freira, como a mais natural coisa do mundo, encontra no claustro o Menino Jesus ou no coro um anjo tocando harpa, e, se está fechada em sua cela, onde, por causa do segredo, são mais corporais as manifestações, atormentam-na diabos sacudindo-lhes a cama, e assim lhe abalando os membros, os superiores em modo de lhe agitarem os seios, os inferiores tanto que freme e transpira a fenda que no corpo há, janela do inferno, se não porta do céu, esta por estar gozando, aquela porque gozou, e em tudo isto se acredita, porém não pode Baltasar Mateus, o Sete-Sois, dizer, Eu voei de Lisboa ao Monte Junto, tomá-lo-iam por doido, e vá com muita sorte, por tão pouco não se inquietaria o Santo Ofício, é o que por aí não falta, loucos varridos em terra que a loucura não varreu. (1994, p. 209).
Saramago retoma o passado como um ponto para desenvolver uma postura crítica. O narrador impõe essa retomada do passado como forma de ironizar e criticar o mundo presente que o rodeia. De maneira clara e objetiva, ele faz uma comparação contínua na obra, sempre buscando pontos fortes e os comparando de maneira que faça ver o quanto o mundo atual é hipócrita e decadente.

Ou seja, enquanto Herculano chama a atenção para que o leitor possa refletir sobre o passado de seu país (apesar de investi-lo numa capa de formosura e heroísmo), Saramago nos mostra um passado em declínio, enrustido de fingimentos, de calunia, um país mais “realista”, mostrando seus defeitos e com eles fazendo sempre paralelos com os defeitos dos momentos atuais com que o narrador está presente.

Apesar de buscarem o passado de diferentes pontos, ambos os autores mantêm sempre esse paralelo em suas obras, sendo a matéria histórica um dos grandes pilares de seus romances, pois não poderiam observar o presente de seu país sem fazer essa busca pelo passado. Logo, o passado passa a ser um jogo utilizado tanto para aproximar mais as obras de um conteúdo histórico, como para obter os objetivos propostos por cada autor, em que Herculano busca para exaltar o país e Saramago criticar o passado e presente de seu país.
O herói de Eurico, o presbítero e Memorial do convento
Um fator que une esses escritores é a forma como se utilizam de um herói para seus romances. Em Eurico, o presbítero temos o herói, Eurico, utilizado por Herculano para enfatizar uma característica do seu romance, que, nesse caso, é a tristeza de um homem tipicamente romântico que pretende salvar a sua amada e sua pátria, lutando contra tudo e todos. Ao concretizar seu propósito passa a ser aclamado e louvado por todos, tornando-se um herói da pátria.

Em Saramago, há também um herói, mas ele é uma mulher, Blimunda. Desde o início do romance, sua vida é frisada mostrando ser uma mulher sofrida, especial e única. Apesar de uma vida nada fácil, Blimunda luta contra as dificuldades, vencendo cada uma delas e nunca se rendendo. Nesse aspecto observamos como os autores divergem, pois, enquanto Eurico, em grande parte da obra mostra-se um ser depressivo e fraco, rendendo-se ao “sacrifício”, mas que depois ganha espaço no romance, Blimunda não se deixa abalar, e, mesmo sem a mãe e com seu poder, que a permitia ver o mundo o tão hipócrita, supera e combate todas as dificuldades fazendo-a vitoriosa, a heroína de Memorial do convento.


CONCLUSÕES
Através do estudo comparativo entre as obras abordadas, observamos que apesar de escritas em diferentes épocas e de diferentes escolas literárias, os autores mantêm um paralelo entre a história e a literatura, permitindo assim, a identificação de vários pontos que os assemelham e os diferenciam. Em Herculano, vimos um autor preocupado com a historicidade de seu romance, na verdade, um historiador que busca, através de uma camuflagem do romance romântico, divulgar todo o conteúdo histórico da Espanha Visigótica. Mesmo com esse propósito, Herculano constrói seu herói, Eurico, de maneira genial, atribuindo-lhe todas as características românticas, transmitindo ao leitor todo o pessimismo e a construção da personalidade de Eurico.

Já em Saramago, deparamo-nos com uma obra ligada a caricaturização de maneira exacerbada, mostrando-se às vezes cômica pelo modo como nos são apresentados os personagens que, retirados da história de Portugal, ganham nova roupagem para assim constituir o Memorial do convento. Nesse romance, são relatados fatos concretos que são modificados e recriados, como, por exemplo, a construção do convento em Mafra. Nesse romance, os personagens criados por ele são infiltrados na “história”, fazendo o autor não possuir nenhuma ligação fixa com história de Portugal. O modo como esses diferentes autores empregam essas características em suas obras é um grande ponto que tanto os une como os distancia: os unem na medida em que observamos que ambos se utilizam dessa fusão História/Literatura, mas se divergem no método como eles utilizam essa união em suas obras. Como observamos, o modo como Herculano e Saramago empregam o passado em suas obras são de maneiras diferentes, mas sempre voltado para o aspecto de crítica da parte da “história” correspondente de seu país.

Alexandre Herculano e José Saramago propõem-nos uma nova maneira de ver e ler romances com matéria histórica. Ambos inovam e criam, a partir da história de seu país, uma nova história, uma história particular e única de cada autor. Herculano segue a linha de utilizar-se da história, expondo-a, para depois criar um romance que coloca em conflito passado glorioso x presente decadente. Saramago utiliza-se de uma matéria da história, de personagens da história, os transforma, molda-os e surge um romance multifacetado, expondo contrastes e paralelos entre passado calunioso e presente injusto, através de árduas descrições e críticas explícitas. Ambos os autores, fazem-nos compreender que a ponte entre história e literatura é frágil e delicada de se definir. Logo, não podemos definir pontos das obras estudados como puramente históricos ou literários, pois nos dois romances há uma constante ambivalência, que oscila entre o ser histórico e literário, que se confundem, se entrelaçam e se fundem para dar vida a esse novo tipo de estrutura do romance.

Uma pesquisa, nesse âmbito, assume uma crescente complexidade: estudar comparativamente os caminhos narrativos das referidas obras, nas quais se entrecruzam a História e a ficção, e que se constituem em discursos carregados de significações que revelam as diferentes posturas ideológicas dos seus autores no contexto em que estão inseridos. De igual forma, esta pesquisa destaca-se por inserir o aluno de graduação nas diferentes manifestações do saber acadêmico e científico. Possibilita que este, além de sistematizar leituras e estudos, descortine outras investigações a partir da experiência vivida.

Dessa forma, confirma-se a necessidade de novos estudos que contemplem os aspectos aqui enfocados, tendo em vista que estes oferecem inúmeros pontos a serem discutidos nos estudos acadêmicos na área de literatura portuguesa.

AGRADECIMENTOS
Ao CNPq pelo incentivo à pesquisa de Iniciação Científica.

À UFCG pela parceria.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARISTÓTELES, Poética. In: Aristóteles. Trad. Eudoro de Sousa. São Paulo: Editora Abril, 1973.
CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. São Paulo: Ática, 1986.
HERCULANO, Alexandre, Eurico, o presbítero São Paulo: Martin Claret, 2005.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 29.ed. São Paulo: Cultrix, 1997.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 8.ed. São Paulo: Cultrix, 1979.
SARAIVA, Antônio José. Iniciação à literatura portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SARAIVA, Antônio José História da Literatura Portuguesa. 16. ed. São Paulo: Porto Editora
SARAMAGO, José. Memorial do Convento. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
WELLEK, René; WARREN, Austin. Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Coleção leitura e crítica)
WHITE, Hayden. Meta-história – a imaginação histórica do século XIX. Trad. José Laurêncio de Melo. São Paulo: Edusp, 1995.
________. Trópicos do discurso – ensaios sobre a crítica da cultura. Trad. Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Edusp, 2001.


1 Aluna do Curso Letras, Unidade Acadêmica de Letras, UFCG, Cajazeiras, PB, email: samyralara@hotmail.com

2 Profª Drª , Curso Letras, Unidade Acadêmica de Letras, UFCG, Cajazeiras, PB, email: naelzanobrega@ig.com.br

3 Entenda-se aqui as palavras poesia e poeta como sinônimas das palavras literatura e romancista.

4 Escocês de nascimento, Walter Scott escreveu vários romances sobre a história de seu país. Waverley, The Bride of Lammermoor e Guy Mannering são alguns deles. Outras histórias nacionais também lhe serviram de tema, e seu romance mais conhecido até hoje é Ivanhoé, ambientado na Idade Média inglesa.




Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal