Viagem ao centro do cérebro



Baixar 193.25 Kb.
Página1/5
Encontro10.07.2018
Tamanho193.25 Kb.
  1   2   3   4   5


Sumário


1. Um mundo imaginado 2

2. Um novo mundo 9

3. Uma máquina celibatária 20

4. Carrossel das emoções 28

5. Naufrágios e bússolas 37

Fonte 44




VIAGEM AO CENTRO DO CÉREBRO


1. Um mundo imaginado

O homem ereto é um velho mundo em marcha. Tudo o que ele é, tudo o que ele foi, tudo o que ele sabe dele e do resto está na casca enrugada - o córtex - de uma grande noz que tem 1.300 g e muitos neurônios, de matéria cinza pouco afável - de "terra e de água" , dizia Aristóteles - por onde passa, ligeiro ou fatal, o pensamento.


Se sobreviveu à noite de suas origens, erigido sobre suas duas pernas, as mãos enfim livres e as mandíbulas levadas a dimensões mais modestas do que as mandíbulas do seu irmão símio, o Homo sapiens deve isto ao impulso espetacular do seu lobo frontal, luz de seu cerebelo. Uma luz fechada na penumbra de sua caixa craniana, como Diógenes e sua lanterna à procura do homem, da alma.
Deste clarão escondido nasce o mistério. Uma palavra pouco valorizada nos escritos científicos, que a ela sempre preferiram a idéia de um desconhecido acessível por força das experiências, das teorias, e das hipóteses validadas sobre as mesas de dissecação, escalpelo na mão e nada de religião na cabeça. O homem não tinha um deus alojado no encéfalo, nem também um pequeno ser em miniatura, o homúnculo dos alquimistas, representado nas figuras antigas como um anão que vigia a partir do celeiro cortical os sinais que vêm do corpo e articulam movimentos e reações. A questão em suspenso era vasta como o mundo: a massa do cérebro, com suas estranhas circunvoluções, suas dobras complexas - dobraduras -, seus sulcos e cissuras, seus dois hemisférios unidos por um corpo caloso à maneira dos continentes que não ficaram à deriva, suas múltiplas glândulas, negros humores e cinzentos apêndices semelhantes aos escaleres de um balão, esta matéria, então, poderia "razoavelmente" abrigar o espírito?
Aqui começa a viagem. Viagem íntima e viagem de descoberta, daqueles que, uma vez soltas as amarras, não estão perto de terminá-la. Como nas grandes expedições ao Novo Mundo, havia navios, aqueles que Galeno acreditava descobrir entre o coração do homem e seu crânio, a "rete mirabile", ou rede admirável, que o célebre médico de Alexandria, após tê-la extirpado de mamíferos com seu bisturi, atribuía injustificadamente à espécie humana. A seus olhos a torrente (sic) sanguínea transportava a energia vital queimada pela caldeira cardíaca até a base inferior do cérebro, onde ela se transformava em princípios espirituais. Durante treze séculos, até mais, o homem escolheu não escolher. "Diga-me onde mora o amor, no coração ou na cabeça?", pergunta suplicante um herói do Mercador de Veneza, de Shakespeare.
Depois da Renascença, portanto, as dissecações de animais e de cadáveres, e o entusiasmo pela anatomia, revelaram muitos segredos do órgão superior do homem. "Leonardo da Vinci, entre 1504 e 1507, no Hospital de Santa Maria Nova, de Florença, apresenta pela primeira vez um modelo em cera dos ventrículos cerebrais e mostra um projeto preciso das circunvoluções", escreve Jean-Pierre Changeux no livro O Homem Neuronal.

Mas ainda não se trata da estrada real para a verdade "cefalocêntrica", que coloca o cérebro na origem da expressão humana. Precisamos voltar a Aristóteles para descobrir o erro de direcionamento. O filósofo entrou pelo caminho errado ao privilegiar a tese "cardiocentrista", aquela que dá ao coração que bate o monopólio da inteligência e das paixões, sendo o cérebro na melhor das hipóteses apenas um refrigerador precoce. Também Homero se perdeu nessa corrente, ao sabor aleatório das viagens e das miragens: a América não foi dada a Colombo ao primeiro golpe...


Dezoito séculos antes de nossa era, os egípcios perceberam a direção certa ao examinarem feridas do crânio, descobrindo "as rugas semelhantes àquelas que se formam sobre o cobre em fusão". Um papiro recuperado desta época longínqua testemunha o espanto do cirurgião, fielmente transcrito pelo escriba, diante de um ferimento na cabeça que provocou dificuldades motoras. Partes do corpo tão distantes "comunicam-se"? O homem da arte notou a perda da fala causada por um esmagamento da têmpora, sem tirar daí qualquer conclusão. Os antigos egípcios, por prudência ou por crença (religiosa), evitavam renunciar à primazia do coração.
Foram necessários alguns gregos de gênio, Demócrito, Hipócrates, Herófilo e Galeno, para abalar a visão aristotélica. Demócrito qualifica o cérebro de "cidadela do corpo", de "guardião do pensamento e da inteligência". Hipócrates afirmou que "se o encéfalo estiver irritado, a inteligência se desarruma". Três séculos antes da nossa era, Herófilo deu um passo decisivo ao reconhecer os nervos do movimento, que ele distingue dos nervos do "sentimento"(hoje batizados de sensóriomotores). A chamada dissecação "abjeta" do cérebro fresco de criminosos permite que ele relacione medula espinhal e cerebelo.
Quanto a Galeno, que a ilusão da "rede admirável" não desacreditou ( são os erros fecundos), colocou a nu uma realidade animal aplicável, desta vez, ao homem: a lesão profunda de um ventrículo cerebral afeta o corpo e a atividade mental. O cérebro, in fine, supremo comandante do destino de cada um, rei sagrado do pensamento, senhor dos gestos e das emoções por mais de vinte séculos, ainda tem que lutar com a transmissão de idéias tingidas de sentimentalismo para que o coração tenha suas próprias razões. A partir de então a causa é entendida: é a chapa do eletroencefalograma que marca e assinala o fim de um homem.
Mas a matéria, esta matéria vil e delimitada pelo espaço e pelo tempo, pode engendrar o espírito livre, imaterial e, acrescentam os pais da Igreja, eterno? Eis René Descartes e seu dualismo. Na parte 4 do Discurso sobre o Método, o filósofo cria uma oposição prometida à posteridade entre a res extensa - a substância com extensão (ainda que limitada ao invólucro carnal) - e a res cogitans - a substância pensante -, entre o corpo e o espírito. "Com uma ausência de clareza que não lhe era costumeira", escreve o prêmio Nobel de medicina Gerald Edelman, "Descartes declarou que as interações entre a res cogitans e a res extensa ocorriam na glândula pineal", uma glândula singular, envolta no encéfalo, e é justamente em sua característica única que Descartes se apóia para eleger o local da inteligência: "As outras partes de nosso cérebro são duplas, e nós temos um só pensamento de uma mesma coisa ao mesmo tempo".
Ao privar o espírito de seu suporte físico, o filósofo separa a ciência de uma perspectiva esclarecedora: a pesquisa biológica, neurológica e fisiológica dos estado mentais, como se as engrenagens de um mecanismo estivessem limitadas ao corpo. "Aqui se situa o erro de Descartes", explica Antonio Damasio, professor de neurologia na universidade de Iowa. "Ele instaurou uma separação categórica entre o corpo, feito de matéria, dotado de dimensões, movido por mecanismos, e o espírito, não-material, sem dimensão, e isento de qualquer mecanismo. Ele afirmou que as mais delicadas operações do espírito não tinham nada a ver com o funcionamento de um organismo".
Ao tirar o pensamento do corpo (e La Mettrie por sua vez escreve sobre isso: "A alma é apenas um termo vão; temos que concluir temerariamente que o homem é apenas uma máquina"), Descartes preparou o terreno para um pensamento mecanicista que se obstinou, até época recente, em dividir o cérebro em peças, a imagem do computador substituindo a do refrigerador. Como se o espírito fosse um conteúdo lógico informático com o qual o córtex se contenta em "funcionar". Diretor do laboratório do desenvolvimento e da evolução do sistema nervoso na Escola Normal Superior, Alain Prochiantz vê no erro de Descartes um avatar de sua época: "Ele entrou no cérebro pelo olho, no momento em que foram inventadas as lupas ópticas. A visão era a rainha das sensações, e ele percebeu que havia uma máquina dentro do homem. Creio que sua percepção teria sido diferente se ele tivesse abordado o cérebro pelo odor ou pelo tato".
O tom está dado. Se o homem é um espírito puro ("Cogito, ergo sum", ao qual reage em vão o "Sou, logo penso" do escritor espanhol Miguel de Unamuno), seu corpo é uma máquina autônoma. Vindo ao apoio desse dualismo o mecanismo centralizador (em tecelagem) de Vaucanson e os robôs da fábrica Renault, a idéia de que o irracional e o indeterminismo saem do campo científico e só podem ser apreendidos pela psicanálise, o inconsciente, o superego... A doutrina da Igreja sobre a imaterialidade da alma está salva. Os teólogos não quiseram considerar a evocação da glândula pineal, por Descartes, como uma tentativa, ainda que pouco convincente, de localizar o espírito.
A viagem sobre o manto cortical prosseguiu, mas a tocha mudou de mãos. Chegara a hora de um médico anatomista vienense que teve durante a vida um renome (sulfuroso) comparável ao de Sigmund Freud. Ele se chama Franz-Joseph Gall, e passa a maior parte de seu tempo apalpando cérebros para revelar com isso "as faculdades inatas felizes e infelizes" do homem. Durante o dualismo triunfante deste final do século 18, Gall escandaliza ao colocar o espírito nos limites da caixa craniana. O cérebro passava por um continente compacto e anônimo, uma espécie de terra incógnita paradoxal que, para dar ao homem uma representação do mundo exterior, evitava esclarecimentos sobre sua própria arquitetura mental.
Gall divide a superfície do crânio em 27 partes, que são igualmente funções psíquicas e motoras batizadas como principalidades. Já não se navega mais a olho nu: Gall inscreve os nomes sobre o cinza e o branco do mapa cerebral.

A nomenclatura peca por uma certa inocência: lêem-se entre as regiões identificadas a combatividade e o instinto de destruição, o espanto e a imitação, a aptidão para ser consciencioso, a prudência e o amor próprio, o senso do maravilhoso, que Broussais, cirurgião do exército de Napoleão, disse que era particularmente desenvolvido em Moisés!


Para conduzir bem sua exploração sem abrir o crânio, Gall procura bossas e intumescências na superfície do couro cabeludo. Sua hipótese inicial é simples: as qualidades do homem deformaram seu cérebro e deixaram sua marca na abóbada de seu crânio. Imagem inversa das crateras lunares, onde aflora a bossa dos meteoros... Em Viena, Weimar e Paris, Gall é um prodígio e um demônio. (Pois) ele não ataca o dualismo ao ousar determinar uma residência para o espírito, recusando que um ser superior, uma boa alma, governe os sentidos e a consciência?
A flecha do tempo dissipará o segredo: Gall se enganou ao imputar funções fantasistas às depressões do encéfalo. (Ele apenas acertou na nomeação das áreas da fala e da memória das palavras na região frontal do cérebro). Mas sua intuição continua pioneira: se é impossível localizar sobre o córtex a avareza ou o gosto pela rapina, Gall abriu o frutífero caminho das localizações cerebrais. Ao representar o cérebro como uma federação de órgãos especializados, ele não somente recolocou o espírito em seu (devido) lugar, ele sobretudo alimentou no homem, agrimensor de suas próprias incertezas, a vontade pascaliana de conhecer a si mesmo, de colocar palavras nas zonas de sombra, de nomear, logo, de compreender. Sua tentativa tinha seus limites: ao subdividir o cérebro Gall não tinha idéia de que os seus centros funcionais não eram verdadeiramente centros, mas sistemas complexos e interdependentes, placas ou cartões neuronais ligados entre si pelo jogo combinado da genética, da memória da espécie, da experiência, do tesouro individual.
O doutor Harlow havia ouvido falar em frenologia, até que em 1848 lhe foi apresentado um jovem contramestre da Nova Inglaterra que uma barra de ferro de 6 quilos, 1,10 m de comprimento (com um ponta afiada de 18 cm), e com 3 cm de diâmetro, havia literalmente perfurado o todo de seu crânio, atravessando a parte frontal de seu cérebro para depois cair a alguns metros de distância. Phineas Gage, este era seu nome, ignorava que tinha se tornado um caso bastante discutido da neurologia e das lesões cerebrais. Uma hora após o acidente, devido ao embuchamento malfeito de uma mina explosiva, Gage, que tinha perdido um olho, falava normalmente e contava sua desventura sem dificuldade aparente. Nada lhe faltava de suas faculdades intelectuais, nem de seu vocabulário, suas lembranças, nem mesmo de suas capacidades motoras.
Levou algum tempo para que as pessoas próximas a ele constatassem que, por outro lado, sua personalidade havia mudado brutalmente. "Gage não era mais Gage", nota Antonio Damasio em O Erro de Descartes. O equilíbrio entre as faculdades intelectuais e suas pulsões animais encontrava-se abolido. O doutor Harlow, assim, observou que Phineas Gage apresentava "humor instável, irreverente, proferindo às vezes grosseiras blasfêmias, o que nunca fazia antes, e manifestando pouco respeito por seus amigos". Este novo retrato conflitava com suas qualidades de "antes": "Fino e hábil nos negócios, capaz de energia e perseverança na execução de todos os seus planos de ação".

Despedido de seu trabalho, Gage termina sua triste carreira como atração do circo Barnum de NY, onde ele contava seu acidente sem jamais largar a barra de ferro que o havia perfurado, explorando sua cabeça como Phileas Fogg (havia explorado) a Terra, cercado de jovens com pele de elefante e de mulheres monstruosas.


As descrições do doutor Harlow foram estudadas por um discípulo de Gall. Segundo ele a barra de ferro tinha passado "pela vizinhança da Benevolência e na parte anterior da Veneração", duas "localidades" caras à frenologia. "Seu órgão de Veneração foi lesado", precisou o observador. " É por isto, sem dúvida, que não parava de blasfemar". Mais seriamente, a patologia de Phineas Gage sugeriu um novo olhar sobre as funções cerebrais e suas afecções geográficas. O intelecto de um homem, sua linguagem, podem permanecer intactos ao mesmo tempo em que ele é privado do senso moral, do bem e do mal. "Ele tinha perdido uma característica própria do homem", conclui Antonio Damasio: "Fazer projetos para seu futuro enquanto ser social".
Nesta época ignorava-se um aspecto importante do cérebro, sua capacidade de funcionar como um todo, o neocórtex, local do pensamento mais evoluído, recebendo sem cessar sinais emocionais provenientes do "cérebro fluido", descrito pelo professor de neurofisiologia Jean-Didier Vincent. Um anacronismo impõe-se aqui, antes de chegarmos a Broca, contemporâneo de Gall, e à localização da fala. No começo dos anos 70, Mac Lean apresentou sua teoria dos três cérebros superpostos dentro da caixa craniana: um cérebro reptílico, profundo, vindo do balbucio da espécie, acantonado nas tarefas primárias, beber, comer, reproduzir-se. Um cérebro sentimental, ou límbico, (descrito em sua época por Paul Broca), vazado por emoções e por uma memória genérica dos movimentos, do que faz sofrer, do que dá prazer. Um neocórtex que pensa, antecipa, calcula e age. "Como o limbo da mitologia cristã", escreve Jean-Didier Vincent, "o sistema límbico é o intermediário entre o céu neocortical e o inferno reptiliano. As representações do mundo exterior e interior se superpõe ali".
O avanço das neurociências mostrou as falhas desta trindade cerebral. O homem não estratificou seu intelecto no decurso da evolução, e a imagem de um São Jorge abatendo o dragão que se esconde em nós, ou do motor colocado sobre o arado, presta conta imperfeitamente da arquitetura cortical. "Não existe lei da recapitulação", explica ainda Jean-Didier Vincent, "através da qual seríamos sucessivamente girino, réptil, camundongo, macaco e homem. Mas o cérebro reptiliano repercute no córtex (com a passagem de neurotransmissores químicos, serotonina, adrenalina) e nosso córtex frontal toma as decisões emocionais. A tessitura é tal que não podemos separar o afetivo da memória e do intelecto".
Tal verdade estava contida inteiramente no acidente de Phineas Gage, ocorrido há um século e meio. Foi necessário um tempo para que o homem, "entrincheirado em seu pensamento", admitisse que o animal que havia nele não estava relegado aos baixos estágios de seu encéfalo, mas afluía na quintessência do seu "eu". Pois, se não se trata de uma recapitulação, o cérebro humano é uma síntese dos mundos passados.

"Nós somos um produto da evolução das espécies", admite Alain Prochiantz em seu ensaio Em que Pensam os Calamares, e compartilhamos um ancestral comum com o polvo. Mesmo se a estrutura do nosso córtex e a invenção da linguagem permitem que escrevamos sobre os polvos, e não o inverso, resulta desse parentesco que as outras espécies animais, aqui compreendidos os invertebrados, têm alguma coisa a nos ensinar sobre o pensamento, ainda que consciente". Percebemos o eco de Darwin: "A estrutura corporal do homem carrega a marca indelével de uma origem inferior". O vestígio deste passado evolutivo subsiste também nas rugas do invólucro mental.


Fim do anacronismo. Na metade do século 18 ninguém saberia dizer com precisão onde se encontra o pensamento. Será que ele foi colocado no cérebro como doces são colocados em um pote? , interroga-se o mesmo Prochiantz, zombando da teoria antiga de Cabanis, segundo a qual o córtex secreta o espírito como o fígado secreta a bílis, de maneira endócrina, sem construção particular, sem... pensar nele. Quando o anatomista e cirurgião Paul Broca apresenta o fruto de suas descobertas em 1861, o cérebro finalmente vai falar. Diante da Sociedade de Antropologia, Broca presta contas sobre a autópsia que fez em um certo Eugène Leborgne, mais conhecido nos anais médicos pela alcunha de "Tan-Tan", a única sílaba que ele sabia pronunciar, além da blasfêmia "Pelo amor de deus!", que escapava bizarramente de sua boca se ele percebia, desesperado, que ninguém o estava entendendo.
A comunicação de Broca é conhecida sob o título de "Perda da fala, apatetamento crônico e destruição parcial do lobo anterior esquerdo do cérebro". A partir de uma lesão do tamanho de um ovo de galinha na terceira circunvolução frontal do hemisfério esquerdo, "Tan-Tan" era incapaz de "coordenar os movimentos próprios da linguagem articulada". Esta afasia motora parecia confirmar que o espírito não era um todo, mas um conjunto fragmentado. Broca marcou um ponto para as teses "localizacionistas". A área da linguagem, batizada de área de Broca, consagrava uma zona precisa do cérebro como sede da fala, distinta da memória semântica e visual das palavras, que continuou intacta. Mas o ensinamento obtido deste cérebro atingido deixava uma perplexidade: Broca tinha localizado uma função ou um déficit? Uma lesão neste preciso local arruinaria a totalidade de um processo ou somente um eixo isolado, crucial mas não único?
Foi preciso esperar pelas representações modernas das imagens médicas por ressonância magnética para que se detectassem outras áreas "associativas" implicadas na linguagem, ainda que a área de Broca, com o passar do tempo e o crivo da experiência, tenha conquistado o direito de existir. Ela é o primeiro ponto fixo sobre o mapa incerto de um "estado central flutuante". Ela dá o ponto de partida para um cérebro assimétrico onde o hemisfério esquerdo fala, calcula, analisa e raciocina, enquanto o hemisfério direito reconhece rostos e formas, situa o corpo no espaço, elabora um pensamento "para além das palavras" e vibra com as obras musicais.
Sem simplismo. Em 1874 o neurologista alemão Karl Wernicke descobre um novo sítio, mais interno, no lobo temporal esquerdo, implicado na expressão oral.

"Ele demonstrou que as imagens auditivas verbais pareciam estar localizadas em um outro banco de memória, diferente daquele que continha as imagens dos movimentos articulatórios", escreveu Israel Rosenfield, professor de história das idéias na City University, NY. "A descoberta de dois sítios anatômicos distintos favoreceu o desenvolvimento da teoria imaginada por Broca, segundo a qual havia dois tipos de memória. (...) A área de Wernicke era o sítio das 'representações auditivas das palavras', quer dizer, dos registros de cada palavra individual. Daí ele deduziu que as duas zonas estavam ligadas por um feixe de fibras". Assim foram identificadas as duas grandes disfunções da linguagem, a afasia motora de Broca, encarnada por "Tan-Tan" e sua blasfêmia desesperada, e a afasia sensorial de Wernicke, na qual os doentes derramavam um turbilhão de palavras incoerentes das quais não sabiam mais o sentido.


Mas ninguém tinha ainda idéia da complexidade das conexões neuronais do frágil homem, rede pensante. Diante da opacidade de sua "caixa preta", o olhar esbarrava nas circunvoluções mudas da matéria. Se o escalpelo mostrava a espessura inegável das superposições, a ausência de homogeneidade dos tecidos e seu caráter aparentemente indolor, ao final do século o cérebro continuava sendo uma fortaleza bem protegida. A geografia cerebral deixava a desejar. É certo que as cissuras de Sylvius e de Rolando vinham delimitar claramente o lobo frontal e o lobo parietal. Na década de 1850 os anatomistas Leuret e Gratiolet representaram magnificamente os lobos occipital e insular, o corpo caloso e os ventrículos, o tronco cerebral e seus prolongamentos, bulbo e medula espinhal. Os que viajavam por este limbo não tinham um mapa que mostrasse "em relevo" a imperfeita rotundidade do encéfalo e a aferição exata dos dois hemisférios sob a casca (craniana). O desconhecido significava o incognoscível? Uma máquina só poderia revelar seu segredo a uma máquina de ordem superior?
O homem confrontado com seus limites não cessou de querer explicar sua própria aventura navegando de "ismos em ismos": o sensualismo de Locke e de Condillac, na linha platônica ("Não há nada no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos"); o behaviorismo watsoniano, reduzindo as atividades do comportamento ao binômio "estímulo-resposta" e excluindo toda representação cerebral interna; o cognitivismo encarnado pelo lingüista americano Noam Chomsky, supondo, por sua vez, que o indivíduo é dotado desde o nascimento de uma armadura mental que lhe permite adquirir e manipular saberes; o ineísmo (NT - interiorismo), variante do anterior, que se recusa a considerar o córtex como uma (estrutura de) cera mole e virgem obliterada pelo (que lhe vem do) exterior durante sua vida. (Um conteúdo pré-existiria à experiência, como parece testemunhar a detecção de sinais de orientação no cerebelo de gatinhos de menos de oito dias, que jamais haviam abrindo os olhos).
Continente dividido, o cérebro do homem lhe fornece uma representação do mundo ("imago mundi"), ao mesmo tempo que lhe permite agir sobre o mundo ("anima mundi"). Desdobrado, com as pregas desfeitas, um córtex humano ocupa uma área de 2 metros quadrados, uma verdadeira imensidade se comparado ao cerebelo desdobrado de um macaco "superior" comedor de frutas. (O do comedor de folhas é ainda menor: suas faculdades são em menor número, portanto seu córtex está menos interligado...)

Foi em 1919 que o doutor Korbinian Brodmann, sintetizando as conquistas da anatomia e da microscopia, propôs o primeiro mapa detalhado do cérebro humano, enumerando 52 áreas distintas relacionadas referencialmente pela diferença de arquitetura das células nervosas. Abandonando as ingênuas nomenclaturas de Gall, ele objetivou mais sobriamente as zonas da linguagem, da visão, da motricidade ou da audição, e também os espaços associativos cujos modos de funcionamento permaneciam obscuros.


Útil, o exercício foi insuficiente. As representações de Brodmann não poderiam pretender a universalidade, porque dois encéfalos jamais são iguais, sulcos e circunvoluções variando de um indivíduo para outro, e (são) também únicos e pessoais (aqui compreendidos os gêmeos univitelinos) como as impressões digitais. Por isso os cirurgiões da época tomavam como referência o Atlas de Taleyrach, um médico de Sainte-Anne que tentou montar um cérebro padrão por meio de um sistema proporcional, uma espécie de "imagens médias". Mas como escreveram os professores Bernard Mazoyer e John Belliveau, "a referência (era) a de um único cérebro utilizado para a elaboração deste atlas: o hemisfério direito de uma velhinha, dissecado após sua morte e mergulhado em formol".
A exploração deveria continuar. Ela prosseguiu mais para o centro, mais para o coração do cérebro. Em princípio em escala microscópica para se descobrir uma camada de neurônios diferentes, formando não "uma rede contínua como os canais da Camargue vistos de avião", observa Jean-Pierre Changeux, mas um conjunto de unidades independentes "em relação de contigüidade, como as árvores de uma floresta ou os ladrilhos (peças) de um mosaico", cada célula dialogando com as outras em um espaço evidenciado pelo fisiologista inglês Sherrington em 1897: a sinapse. Para ir até o fim, era necessário energia elétrica. Precisamente, depois de testes com eletrodos em cérebros de cães e coelhos, os médicos berlinenses Fritsch e Hitzig, e depois o assistente de fisiologia da Royal Infirmary de Liverpool, de nome Caton, revelaram a atividade elétrica do cérebro. Melhor: apareceu uma ligação entre as funções corticais precisas e os fenômenos elétricos. A visão cerebral tornara-se confusa. Da eletroencefalografia rudimentar às imagens modernas de ressonância magnética, a técnica estava pronta para apresentar um novo mundo aos olhos do homem.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal