Viajando o sertão com luís da câmara cascudo



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VIAJANDO O SERTÃO.

Luís da Câmara Cascudo E O SOLO DA TRADIÇÃO.

Margarida de Souza Neves *

Centenas de vezes prometi registrar o que vira na jornada temerosa ao sertão de inverno, verde e resplendente na vitória pacífica das searas.”



Luis da Câmara Cascudo

Registrar o que foi visto. A expressão, utilizada na primeira crônica da série Viajando o sertão1, é uma síntese expressiva de como Luís da Câmara Cascudo entendia seu trabalho intelectual. Talvez seja seu desejo de testemunhar o observado, de perenizar pela escrita o que é efêmero, de preservar o vivido do esquecimento e da ação corrosiva do tempo, o denominador comum de sua vastíssima obra2 de etnógrafo, folclorista, historiador, memorialista, epistológrafo compulsivo, e também de cronista.
Homem de muitas letras, o autor do monumental Dicionário do Folclore Brasileiro3 foi, por toda sua longa vida, um assíduo freqüentador das páginas da imprensa, muito particularmente dos jornais do Rio Grande do Norte, onde iniciou aos vinte anos sua carreira de escritor como cronista no jornal A Imprensa, fundado em 1914 por seu pai, o Coronel Francisco Justino de Oliveira Cascudo e por ele mantido até 1927 para que, em suas páginas, seu único filho pudesse realizar o sonho de ser escritor.
Câmara Cascudo provavelmente está entre os mais prolíficos cronistas brasileiros. Estreou na crônica quando assumiu no jornal do pai a coluna Bric-à-brac, inicialmente assinando com seu nome próprio e, a partir de 1921, utilizando por vezes apenas seu primeiro nome, Luiz ou suas iniciais L.C.C. ou ainda os pseudônimos Danton de Castro, Paulo Zoya ou Exalmir. Em A Imprensa escreve crônicas até 1924, e nelas começa a esboçar seu perfil de escritor polifônico, ao publicar comentários sobre uma gama de temas que vão dos mendigos das ruas de Natal4 à festa japonesa organizada pelas senhoritas da boa sociedade da cidade5. Nessas primeiras crônicas, transita ainda entre a crítica literária de autores das mais variadas procedências e estaturas estéticas tais como Anatole France6, Benjamim Costallat7, Gustavo Barroso8, Coelho Neto9 ou o argentino Arturo de Capdevila10 e o ensaio de seus próprios primeiros e ainda trôpegos passos poéticos11. Nelas, comenta os acontecimentos do cenário europeu devastado pela primeira Grande Guerra12 com a mesma paixão que dedica às expressões iniciais de sua preocupação com as festas e tradições populares13. Como tantos outros autores, Cascudo utiliza desde muito cedo a plasticidade que é própria das crônicas para experimentar formas, temas e gêneros que freqüentará por toda a vida como profissional da escrita.
Poucos escritores, no entanto, poderão contabilizar sessenta e oito anos de crônicas diárias entre seus feitos. Um número ainda menor poderá afirmar que manteve por trinta e nove anos uma mesma série de crônicas. Cascudo, sempre superlativo, protagoniza ambas as proezas literárias.
Cronista na estréia de sua vida intelectual, permaneceu fiel ao gênero até o fim de sua longa vida e escreveu com assiduidade em jornais do Rio Grande do Norte tais como A República, O Diário de Natal ou O Poti; de outros estados nordestinos, como o Diário de Pernambuco ou a Tribuna do Norte e do Sudeste como, por exemplo, o Diário de Notícias do Rio de Janeiro - onde estréia em 1937 com crônica em que recorre ao mito fundador das três raças para analisar a origem do povo do Rio Grande do Norte14 - ou o Estado de São Paulo, jornal em que publica, entre 1957 e 1959, uma série de crônicas sobre temas relativos ao folclore e à cultura popular.
Entre 1947 e 1986, quando morre em Natal aos oitenta e oito anos, Cascudo escreve e publica, nem sempre no mesmo jornal15, o que certamente constitui a mais longa série de crônicas jamais publicada por um único autor brasileiro. Suas Actas Diurnas, registros breves do que vira e ouvira pessoalmente ou descobrira nos arquivos cujo “destino”, segundo suas próprias palavras, “é preparar os elementos da Posteridade”16, foram leitura diária de gerações do Rio Grande do Norte.
Nesse impressionante volume de crônicas, duas séries, breves e bem delimitadas, apresentam um interesse particular para a história. A primeira delas foi publicada no jornal natalense A República em 1929 com o título de O diário dos 1.104 Kmts17, e é composta por apenas seis crônicas. A série é especialmente interessante por trazer a versão de Cascudo para a viagem de descobrimento do Brasil18 feita em 1928 em companhia de Mário de Andrade pelo sertão nordestino e, portanto, poder ser contrastada com as crônicas do próprio Mário sobre aquela jornada, publicadas como parte de O turista aprendiz19. A segunda série, divulgada também pelo jornal A República, é de 1934, foi posteriormente reunida em livro com o título de Viajando o sertão, e consta de dezoito crônicas escritas como relato de outra viagem pelo sertão, feita em junho de 1934, juntamente com o interventor federal, Mário Câmara, e outras autoridades locais.
O interesse em estabelecer um paralelo entre essas duas séries de crônicas reside em que, sendo de um mesmo autor e não muito distantes no tempo, já que apenas cinco anos as separam, sua análise põe de manifesto alguns denominadores comuns, mas também diferenças significativas na forma e no conteúdo e que merecem, por várias razões, um estudo cuidadoso.
A primeira dessas razões é sugerida por um comentário que o autor português José Saramago deixa cair, como que ao sabor do acaso, ao recolher em seu diário a palavra de um estudante que assistira a uma palestra sua na Universidade de Valência, no ano de 1994:

“ ‘Gostei daquela sua idéia de que os livros levam uma pessoa dentro, o autor.’ Agradeci-lhe ter-me compreendido.”20


Sem dúvida as duas séries permitem conhecer mais e melhor a pessoa que levam dentro. No entanto as crônicas – e mesmo, em alguns casos, os livros - nem sempre levam dentro delas unicamente a pessoa do autor, já que por vezes o narrador de uma série desdobra o gesto autoral para criar um autor ficcional dotado de identidade e opiniões próprias, distintas daquela de seu criador literário. As que Câmara Cascudo escreve, no entanto, são fortemente autorais e são reveladoras da personalidade forte e das opiniões de seu autor. No caso das duas séries aqui apresentadas, trazem também as marcas de sua inserção no tempo que a crônica recolhe e comenta e da leitura que, desse tempo, as crônicas fazem.
As crônicas são, inclusive pela etimologia do gênero, particulares escritas do tempo21. E cabe lembrar que, como os livros de qualquer gênero, levam dentro, além da pessoa do autor, sua leitura do tempo vivido e, no caso dos cronistas, narrado nos fragmentos que constituem cada crônica.
No que se refere ao autor potiguar e às duas séries em pauta, as crônicas revelam as múltiplas e diferentes facetas da pessoa do autor que levam dentro e algumas das questões presentes no tempo que também as entretece, a despeito das intenções do cronista, que insiste em declarar ser sua intenção apenas registrar o que vê, quase sempre sem perceber que seu registro é, como todo registro, uma leitura, e, portanto, uma interpretação. De dentro de suas crônicas, o tempo vivido e narrado teima em insinuar-se em toda sua complexidade e com todas as suas múltiplas tensões nas entrelinhas das crônicas, e isso faz delas um objeto relevante para a história social da cultura brasileira.
Precisamente porque o tempo da história se imiscui no que o autor pretende registrar é possível destacar uma segunda razão que sublinha o interesse dessas duas séries de crônicas para os historiadores. Ambas são reveladoras das preocupações conjunturais de Câmara Cascudo que, como narrador da série, as explicita ou permite ao leitor inferí-las. A série de 1929 permite indagar se, na forma tanto quanto no conteúdo, é possível identificar nela um narrador preocupado em evidenciar sua adesão ao modernismo e sua faceta de escritor modernista, enquanto que a série Viajando o sertão aguça a curiosidade do pesquisador para identificar as convicções integralistas de Cascudo naquele momento uma vez que, a despeito do silêncio que cerca sua militância política nos anos 30, é sabido que foi não apenas um adepto do movimento integralista, mas um correspondente assíduo de Gustavo Barroso, de Plínio Salgado e de outros muitos líderes da A.I.B., escrevia regularmente no jornal integralista A Ofensiva e foi, desde 1933, o chefe regional do Integralismo no Rio Grande do Norte.
A leitura das duas séries de crônicas permite, nessa perspectiva, encontrar pistas da peculiar conjugação entre o desejo de ser moderno e o conservadorismo levado às raias de um filo-fascismo que é próprio de uma linhagem de pensadores brasileiros.
Ainda uma terceira razão sublinha o interesse histórico dessas crônicas. Nelas Cascudo empreende uma cartografia simbólica do sertão que o transforma no lugar, por excelência, onde o Brasil se revela sua identidade particular e também onde é possível encontrar os nexos entre essa particularidade e o que, para Cascudo, se apresenta como o universal da cultura.
Pelo que deixam conhecer de Luis da Câmara Cascudo, de sua inserção nos projetos e conflitos de seu tempo, e de sua leitura do tempo vivido, mas também pelo que permitem pensar sobre a crônica e sua relação com a História, vale a pena uma análise mais cuidadosa das duas séries de crônicas.


  1. Um Diário de 1.104 quilômetros.

Ao começar o ano de 1929, a primeira crônica publicada por Luís da Câmara Cascudo no jornal de seu pai já completara dez anos22 e muitas outras a ela tinham se seguido nos jornais nordestinos23. Desde outubro de 1928, como escreveria anos mais tarde em um de seus livros memorialísticos, já podia dizer com orgulho “Sou, como toda a gente, um bacharel formado!” 24, pois concluíra a Faculdade de Direito em Recife depois de ver frustradas, em função de problemas financeiros familiares, suas esperanças de formar-se em medicina no Rio de Janeiro no início da década. Tinha, então, quatro livros publicados25, outros tantos planejados26 e acabava de assumir o emprego de professor no Atheneu Norte Rio Grandense. Era ainda um solteiro cobiçado27 e já gozava da fama de ser um freqüentador assíduo das rodas boêmias de Natal. Desde 1924 correspondia-se com freqüência com Mário de Andrade, a quem, já em 1925, tentava convencer a viajar ao Rio Grande do Norte para “Comer, beber, respirar e ver o Nordeste. Típico. Autêntico. Completo.“28 Estava longe, no entanto, de ser o escritor reconhecido que seria anos mais tarde.


No dia 29 de janeiro de 1929 os leitores do jornal natalense A República, principal órgão da imprensa do Rio Grande do Norte e que acumulava a função de Diário Oficial do Estado com a de periódico informativo e literário, encontraram logo na primeira página do jornal que a cidade se acostumara a ler todos os dias mais uma crônica daquele que todos costumavam a chamar de Cascudinho, para diferenciá-lo do pai coronel. Era um texto breve, com o título de Diário dos 1.104 Kmts I, título esse que se repetiria – com a única variação do numeral em algarismos romanos - por seis dias consecutivos, para enfeixar uma série a que o autor conferia unidade por meio de uma nota introdutória na qual esclarecia:
Com Mário de Andrade e A. B. de Araújo Lima rodamos 1.104 kilometros. As notas seguintes registram essa viagem.”
Iniciava-se assim a narrativa que por vários dias se desdobraria, sempre na primeira página do jornal:

.

De Natal – Lages corre-se entre o mato seco – Procurando o Cabugy negaceante. Depois do almoço pertenço aos tormentos do raciocínio. Epitácio Pessoa, o antigo Gaspar Lopes, surge como um monte vermelho de casas sem gente. Um ar assustado, opresso, sinistro. Um mormaço pesadão, teimoso e acre bafora quenturas de coivaras. Chique-chiques. Correrias desabaladas do auto para respirar-se. Para fugir-se ao encontro do gado que foi desenhado por Cícero Dias. Nem um rumor de alegria. Um tom de lilás e de cinza. Os arruados passam. Monotonia de cansaço e de tédio. Conversinhas morre-morrendo estimuladas pelas emboladas do Bento à Chico Antônio, coqueiro fabuloso do Bom-Jardim. Caminhões. Anuns. Vezes a nódoa do gavião. A estrada torta se direita e dispara em retas saborosas pedindo os noventa quilômetros no velocímetro. Depois de juremas, pedras e facheiros, os pereiros gritam um verde úmido. O juazeiro continua pintado de inverno, desmentido o negro- cinzento do ambiente. É agora um estirão sacudido, puxando nervos para um grito de vida. Depois as filas de sal amontoado. Barracas dum acampamento. E, no fim do aterro, Macau. (18-1-29).29


Imediatamente depois da volta à casa, Cascudo procura – como é hábito seu - registrar o que viu. Para quem o faria? Para os natalenses, leitores do jornal, que conheciam perfeitamente a paisagem descrita com riqueza de detalhes e teriam, talvez, dificuldade em assimilar o ritmo escandido de um texto que não escondia sua vontade de ser moderno, também na forma? Para recortar as folhas impressas e enviá-las a Joaquim Inojosa e a outros amigos de Recife, como ele próprio entusiastas do modernismo e que, muito possivelmente, o invejariam pelo privilégio de guiar o autor de Macunaíma em sua viagem de descobrimento do sertão? Para si próprio? Para a posteridade? É sempre perigoso atribuir intencionalidades a quem escreve, ainda que talvez seja útil guardar na memória todas essas possibilidades.
Menos arriscado será pensar o lugar a partir do qual escreve, e para que o faz.
As crônicas parecem apontar com alguma clareza que seu autor escreve a partir de seu lugar de introdutor de Mário de Andrade nos segredos do sertão e da perspectiva de quem se sabe um iniciado nesses mistérios, mas também domina os códigos intelectuais cosmopolitas e citadinos. E, por dominar as duas linguagens, pode ser intérprete do mundo sertanejo para o universo letrado e tradutor para as formas modernas das tradições guardadas nos rincões remotos que visita e dá a conhecer.
Cascudo escreve do lugar de quem entende e faz seu o tempo lento, quase imóvel, da vida sertaneja, onde tudo parece estar “modorrando”30, mas que domina igualmente o progresso e a velocidade. Por isso o Oakland, carro veloz e poderoso que alcança noventa quilômetros por hora quando encontra uma reta, é citado – por vezes mais de uma vez – em cada uma das seis crônicas e descrito como um ser vivo, zoomórfico, que “trepa nas pedras cabritando equilíbrios cômicos”31, “voa”32 e para “bufando”33, mas que é dotado de emoções e vontade próprias uma vez que “o prazer do auto é correr34, “o carro adianta-se inquirindo pelas perguntas medrosas e detalhadas”35 sobre o cangaceiro Lampeão e “charlestona, esbarrando, parando, bufando”36 pelos caminhos, segue “trepando ladeiras, furando serrotes, degringolando nas lapas, deslizando em pisos feitos de sabão” até que, “finalmente o Oakland direita carreira para Catolé-do-Rocha” e “para-parando”37, no final da empreitada.
É precisamente porque escreve nesse entre-lugar, porque se vê como detentor dessa capacidade de bilocação entre o tempo veloz do Oakland e o tempo parado da paisagem sertaneja; entre o sertão e a cidade; entre a erudição de Mário de Andrade e as “emboladas do Bento a Chico Antonio”; entre a natureza e a cultura que o narrador da série deixa entrever uma das características fundamentais do autor que essas crônicas levam dentro. É por ter um pé em cada um desses mundos – e reconhecer a ambos como seus – que acredita poder exercer o papel de mediador entre os dois mundos, como de forma mais ampla, Cascudo parece convencido de poder cumprir uma função vicária entre o mundo da cultura letrada e o universo da cultura popular.
As crônicas do Diário aparentam, também, estar escritas para demonstrar a seus leitores de então e aos da posteridade a sua auto-afirmação como escritor modernista. As frases curtas e o estilo sincopado que conformam todas as crônicas da série, a utilização literária de termos regionais e de coloquialismos, a demonstração de um conhecimento especializado da fauna, da flora do sertão, das cores e dos utensílios domésticos sertanejos, apontam para o empenho do narrador em exercitar uma escrita moderna. A alusão aos “bois pintados por Cícero Dias”38 e, na sexta crônica, a referência ao encontro, em Martins “Cidadezinha-arrabalde, pintada de novo, com igreja d’um azul infantil que saiu dos quadros de Tarsila”39 introduzem nas crônicas citações que são atestados de sua familiaridade com a estética do modernismo, deixando assim entrever como levam, ainda, dentro delas, a forma peculiar pela qual seu autor vivia e traduzia em seus textos as questões intelectuais de seu tempo.
Outro indícios podem ainda ser encontrados na leitura desses textos, e estes, menos determinados pelo sabor das circunstâncias, apontam para o significado simbólico do sertão nos escritos de Câmara Cascudo. No Diário dos 1.104 Kmts o Sertão – com maiúscula, como o grafa o autor - aparece, de forma ainda genérica, como o lugar onde o tempo não passa e onde se conservam – a alusão é significativa - , os segredos do Brasil, intocados, mas ameaçados por um moderno marcado com um sinal negativo, porque ameaça destruir o autêntico e o original da tradição.
Já em 1925 Cascudo advertia a Mario na mesma carta em que o convidava a vir comer e beber o Nordeste que

o Sertão está morrendo engolido pelos açudes, pisado pelo Ford, cego pela lâmpada elétrica. A menina que eu vi reparando na gente pela frincha da porta, vive na capital, usa sapatinho vermelho e está ensinando o shimmy às primas da fazenda. A casa grande derribou-se. Agora inaugura-se o estilo bolo-de-noiva com requififes e pendurucalhos nas paredes. Vaqueiros? Sumiram-se. (...) Morre a vaquejada e com ela duzentos anos de alegria despreocupada e afoita”40


No Diário essas palavras ecoarão como em um lamento
O sertão está se praciando. Em todo cochicholo, de Lages até aqui, deparamos todas as cunhãs com as bochechas lambuzadas de encarnado. Bancando o rouge. E nem uma com a trança das modinhas saudosas de Lourival Açucena e do padre Areias.”41
E, em alguns dos registros feitos, ganham relevo as tradições que o cronista da janela do Oakland que corta o agreste em desabalada corrida: Chico Antônio, o “coqueiro fabuloso do Bom-Jardim42. As “povoações sucessivas, cheias de vestidos escarlates e ao longo de carnaubais imóveis43. Os “sambas” e as “cantorias44 da região. O “sobradinho com telhado em cauda de andorinha45 em Assú. As histórias de “de Lampeão e dos seus companheiros46 ouvidas em Gavião e nas que se misturavam o medo e a veneração dos sertanejos. A cruz no caminho, “cheia de pedras que representam orações47 O “lindo portão do cemitério” e o “jantar de queijo e bolachas48 em Brejo-da-Cruz.. Em Catolé-do-Rocha a procissão, os foguetes e uma mulher que canta, esmolando, uma “toada melancólica cuja linha melódica, de simplicidade extrema, é maravilhosa de beleza sugestiva”49.
O inventário dos tesouros sertanejos, assim como a denuncia da corrosão do progresso nesse solo sagrado da memória ecoarão com mais força quando Câmara Cascudo viajar o sertão em 1934.



  1. Jornada pelo sertão de inverno.

No dia 2 de junho de 1934 o mesmo jornal que cinco anos antes publicara o Diário dos 1.104 Kmts estampava em suas páginas uma longa reportagem sobre a viagem que o interventor federal, Mário Leopoldo Pereira da Câmara, empreendera pelo sertão potiguar em companhia de algumas autoridades locais. Da viagem também participava Luiz da Câmara Cascudo, ainda que este não tivesse nenhum vínculo com a administração pública. Fora convidado por ser considerado um especialista nas coisas e nas gentes do sertão, capaz, portanto de apresentá-las aos representantes do governo do Estado. A notícia da viagem assim começava:



Partindo de Natal no dia 16 de maio p.p., o Interventor Federal, que se fazia acompanhar dos Dres. Anfilófio Câmara, Diretor Geral do Departamento de Educação, Antonio Soares Júnior, Prefeito de Mossoró, Alcides Franco, chefe da Segunda seção técnica do Serviço de Plantas Têxteis, Oscar Guedes, inspetor do mesmo Serviço e Câmara Cascudo, chegou a Santa Cruz, onde lhe foi servido um café na residência do Prefeito Miguel Rocha. Apesar da curta demora, S. Excia. trocou idéias sobre vários assuntos municipais, entre eles a divisão de zonas para plantio de algodão.”50
A reportagem sobre a viagem oficial ocupava várias colunas d’A República daquela quinta feira, 2 de junho, e continuaria a ser publicada no jornal dos dias 3, e 5 do mesmo mês. Relatava cada deslocamento da comitiva, citava os discursos proferidos, detalhava as muitas festas e recepções, assinalava cada visita a escolas, registrava as entradas triunfais nas pequenas povoações e nas cidades do percurso. Escritas por um autor anônimo, as notícias pretendiam ser objetivas e meramente informativas - quase uma ata - do roteiro da comitiva pelo sertão. Vez por outra os qualificativos traiam o caráter oficial do jornal, que coloria com tons de extrema cordialidade a recepção ao Interventor imposto manu-militari pelo governo federal e que adentrava o solo sertanejo, coração do mandonismo local, possivelmente pouco satisfeito com o relativo afastamento do Executivo Estadual de suas mãos até então onipotentes.
Assim, em meio a enfadonha enumeração dos atos oficiais que se sucederam ao longo da viagem, o relato deixa escapar alusões a “uma inesquecível manifestação de simpatia no Colégio de Nossa Senhora das Vitórias, dirigido pela ilustre educadora madre Crisina Vlastuik”51 em Assú, ou alude a “uma grande salva de foguetões [que] estrugiu” nas proximidades de Caraúbas, lugar onde “o Interventor foi muito aclamado pelo povo que esperava S. Excia. diante da chácara de Jonas Gurgel”52 ou, ainda, faz notar que, nesta mesma localidade, “No portão do palacete lia-se, num artístico círculo dourado: CARAÚBAS SAÚDA O INTERVENTOR MÁRIO CÂMARA COMO PONTIFICADOR DA FAMÍLIA POTIGUAR”53 - o que, seja o que for um “pontificador”, pereniza a anônima e mão que elaborou o artístico círculo dourado em Caraúbas como a de um Dante sertanejo, capaz de enriquecer a língua pátria com essa síntese lingüística entre as noções de pontífice e pacificador.
As reportagens sobre a viagem não vinham assinadas, como sempre ocorre com as notícias de jornais, e não é absurdo pensar que possam ter sido escritas pelo próprio Cascudo, uma vez que desde há muito era colaborador do jornal. Não há registro de participação de outros jornalistas na comitiva e é mais que improvável que o Diretor Geral do Departamento de Educação do Rio Grande do Norte, o Inspetor do Serviço de Plantas Têxteis do Estado, e o Secretário de Obras Públicas, encarregado dos açudes ou o próprio Interventor – seus companheiros de viagem – se dedicassem a redigir reportagens de jornal.
No entanto, as notícias publicadas não se constituíam propriamente em um furo de reportagem. No dia 31 de maio o mesmo jornal iniciara a publicação de uma série de crônicas intitulada Viajando o sertão, essas sim, assinadas por Luís da Câmara Cascudo, e que o jornal continuaria a publicar até o dia 29 de junho. Nelas, a mesma viagem é relatada, mas o diapasão é totalmente distinto daquele das notícias dos primeiros dias de junho. São crônicas sobre a vida sertaneja e não reportagens sobre a viagem da comitiva oficial, ainda que a cronologia e o roteiro das crônicas sejam idênticos aos das notícias e o livro que, ainda no ano de 1934, as recolhe seja dedicado “Aos Drs. Mário Câmara, Anfilóquio Câmara,Antônio Soares Junior, Alcides Franco Oscar Guedes”54 seus companheiros de viagem.
As dezoito crônicas que formam a série são longas e escritas no tom grandiloqüente e no estilo prolixo que caracteriza boa parte da escrita de maturidade do autor. Constituem-se, na verdade, em uma série de estudos temáticos sobre santeiros, sobre igrejas e arte religiosa; sobre a cozinha sertaneja; sobre a família e as práticas de sociabilidade no sertão; sobre o cangaço, o falar do povo, sobre a música sertaneja e as cantorias; sobre a importância da carnaúba na paisagem, na economia e na cultura do lugar; sobre a casa e os caminhos sertanejos.
Nelas há, no entanto, um silêncio significativo. O fato de tratar-se de uma viagem oficial, em companhia do Interventor e de alguns Secretários de Estado só é tratado por via de alusão. O único dos viajantes que não é ligado diretamente à máquina do estado é o próprio Cascudo, que também não parece sentir necessidade de justificar sua presença naquele conjunto, ainda que sua participação na comitiva viesse a acarretar-lhe, muito em breve, alguns dissabores.
Em nota publicada na segunda edição em livro dessas crônicas, Rodrigues de Mello esclarece o teor da polêmica originada pela participação de Cascudo naquela expedição oficial. José Augusto Bezerra de Medeiros, político da oligarquia potiguar que havia sido afastado do poder no Rio Grande do Norte após a revolução de 1930, encaminhou no dia 26 de agosto de 1934 uma representação ao Supremo Tribunal Eleitoral contra o interventor Mario Câmara por ter pago “quatro contos e tantos mil réis a um Chefe Integralista que desde logo se transforma em orador das caravanas interventoriais55
Cascudo responde à acusação pesada que lhe fora feita pelo mesmo jornal, em artigo do dia 04 de setembro, intitulado Suborno, que assina acrescentando a seu nome o título de Chefe Provincial da A.I.B. do Rio Grande do Norte. No artigo, declara que o Estado lhe pagara o que era devido por suas funções docentes no Atheneu e faz publicar o decreto do Governo Estadual que o comprovava. Mais importante do que as desavenças provinciais que a Representação de Bezerra de Medeiros e a resposta de Cascudo explicitam, é o fato de que, nesta última está a mais explícita de suas confissões de fé integralista:

Chefe Provincial Integralista, miliciano convicto, considero os Partidos Políticos meras fórmulas desacreditadas e incapazes de uma renovação social. Não pertenço a nenhuma agremiação partidária e mantenho relações íntimas com vários próceres que não ignoram a retidão de minha atitude, assumida publicamente a 14 de julho de 1933.



Aos ‘camisas verdes’ de minha Província não dou explicações, porque eles me conhecem de perto. Aos políticos é desnecessária qualquer justificação em contrário a suas afirmativas, porque ‘política é isso mesmo’.”56
Na série de crônicas, o miliciano convicto deixa patentes sua adesão ao movimento integralista, mas nelas não expressa nenhuma opinião sobre a política nacional ou estadual naquele momento, ainda que a participação na comitiva seja uma tácita declaração de apoio ao Interventor. Nas crônicas, predomina a expressão de relações pessoais e familiares, e é somente nessa clave que as autoridades com as quais viaja são mencionadas, o que, por certo, apenas põe de manifesto sua visão da arena política, já expressa na resposta a Bezerra de Medeiros: desqualificação da política, negação da legitimidade dos partidos políticos, relações íntimas e fortemente pessoalizadas com líderes de facções opostas e, em 30, a militância integralista como forma eficiente para seu conservadorismo da vida inteira.
Em 1934, Câmara Cascudo já não era mais o intelectual de província que iniciava sua vida profissional e ensaiava vôos literários modernistas. Havia assumido, em 1931, a direção do jornal A República, continuava a exercer o magistério no Atheneu Norte Rio Grandense. Ainda que mantivesse seu posto de boêmio emérito das rodas da Ribeira e do Baldo, era homem casado e pai de família, e mudara-se para a casa que até hoje a cidade conhece como sendo a sua, o sobrado construído pelo sogro, no meio da ladeira que une a Cidade Alta e a Ribeira, ou seja, no meio do caminho que liga o bairro onde as instituições e solares da boa sociedade de Natal lançaram seus alicerces desde os tempos coloniais às margens do Potengí, onde viviam os pescadores, as rendeiras, as prostitutas, os vendedores ambulantes e a população mais pobre da cidade.
Era também, então, como já foi assinalado, um integralista militante. Sua biblioteca pessoal abrigava, desde o ano anterior, o livro de Gustavo Barrroso intitulado O Integralismo em marcha, com dedicatória expressiva do autor:

A D. Luiz, o Integralista, de todo o coração estas palavras do Espírito contra a matéria.



Com entusiasmo integral.

Avante!

Gustavo.”57
Em1933 assumira juntamente com Francisco Véras Bezerra e Miguel Seabra Fagundes a chefia da Ação Integralista Brasileira no Rio Grande do Norte58, e em maio de 1934, pouco antes da viagem narrada em suas crônicas da série Viajando o sertão, Cascudo tornara-se assíduo colaborador do jornal integralista A Ofensiva, publicado no Rio de Janeiro e dirigido por Gustavo Barroso..
Nessas dezoito crônicas estão algumas de suas raríssimas alusões explicitas em textos escritos a sua adesão ao integralismo. Fora delas, apenas a resposta a Bezerra de Medeiros, os artigos no jornal integralista A ofensiva e algumas poucas crônicas em A República de 1933, entre as quais uma intitulada “O sigma vitorioso”59, na que defende a proposta da Ação Integralista Brasileira e de seus líderes nacionais, e outra, “Adolph Hitler através da numerologia”60 em que sustenta que a soma das vogais e das consoantes do nome do führer, se não forem levadas em conta as repetições, equivale ao número 11, para os iniciados na numerologia sinônimo de fortuna e glória.
Em Viajando o Sertão Cascudo deixa registro, mais de uma vez, de sua adesão ao integralismo e defende teses cuja filiação integralista é perceptível para os olhos treinados de historiadores. São cinco as referências explícitas ao integralismo61. As teses filo-integralistas são várias, da defesa do conceito de raça pura à inferências eugenistas; da ênfase na família como princípio e fundamento da sociedade à insistência em temas relativos à pureza de sangue. Nesse contexto, a crônica sobre a ausência de negros no sertão do Rio Grande do Norte ganha um relevo muito especial62, sobre tudo se for levada em conta a resposta que essa crônica suscitou no próprio jornal A República63 . Sem que seja propriamente um escrito militante, a série não deixa de ser confessional em relação às convicções do narrador à época em que as crônicas foram escritas.
No conjunto das crônicas, no entanto, o caráter oficial da comitiva, as circunstâncias políticas que a cercaram, o evidente alinhamento de seus companheiros de jornada no novo quadro desenhado pela revolução de 30 no que diz respeito ao poder das oligarquias estaduais, e mesmo a pauta integralista e a declaração pessoal de adesão ao integralismo se diluem. No primeiro plano, o que o cronista pretende registrar é o sertão.
Como nas crônicas da série Diário dos 1.104 Kmts, a preocupação explícita com o registro do que é visto e observado está presente, tal como fica patente no trecho que serve de epígrafe a este texto. Também como na primeira série, o narrador não deixa de assinalar um moderno marcado com o sinal positivo, nas crônicas de 34, metonimizado não mais pelo Oakland, mas pelo Ford e o hidroavião em que a comitiva viaja, ou referido às letras dos “pracianos” termo que utiliza para referir-se aos habitantes da cidade e que, quando muito, pode estender-se à elite sertaneja, sempre aludida quando alguém é citado com o nome próprio seguido pelo sobrenome familiar ou, ainda, na alusão a um exemplar estabelecimento escolar destinado à educação das meninas das famílias da boa sociedade do sertão, o Colégio Nossa Senhora das Vitórias, o mesmo que a reportagem dizia ser “dirigido pela ilustre educadora madre Crisina Vlastuik”, e que Cascudo elogia descrevendo a recepção à comitiva nos seguintes termos

O Programa da festa é moderno, com cânticos, danças, ginásticas, declamações melocomentadas a órgãos, saudações de conjunto ( ...) O salão de cultura física merece elogios.”64


Em contrapartida, o moderno e o progresso aparecem, com muito mais nitidez do que na primeira série, como condenação à morte do genuíno, do autêntico, como ameaça, portanto, às tradições do sertão.
Quase como se repetisse o refrão de uma cantoria nostálgica, o narrador pergunta ao longo de cada crônica: “onde anda a lembrança [dos] cantadores insolentes de inspiração e bêbados de alegria natural?65 Onde está a arquitetura sóbria e honesta das igrejinhas do interior?66Onde estão as danças do sertão de outrora?”67 Onde está o encarnado da chita dos vestidos das mulheres? “Onde estão os santos de madeira” substituídos pelas imagens de gesso “sem o calor da mão humana, rude ou apta, mas sincera”?68 Onde está a alimentação tradicional se nas casas sertanejas agora se oferece o sertanejo oferece “galinha e macarrão ao invés de carne de sol e coalhada.”69? Onde terão ido a parar os ditos populares e o falar saboroso das gentes do interior?70 E a resposta é sempre a mesma. Estão desaparecendo pela ação devastadora do progresso, e de um moderno que se caracteriza, agora, pela voracidade com que devasta essas sobrevivências de um passado que são, para o autor, os sinais tranqüilizadores da conservação de um mundo que conheceu no que ele chama de “o meu tempo de irresponsabilidade jurídica”71.
Entre o silêncio a respeito do caráter oficial da jornada e a explicitação de seu integralismo, a série defende uma tese central: o contraste entre um “antes” – representado, por um lado, por sua meninice em que diz ter batido com os pés infantis povoados inteiros que agora visita adulto, e, por outro, pela viagem de 29, mencionada exatamente quatro vezes, em três delas com alusão nominal a Mário de Andrade - e um “agora” que evidencia a ameaça de descaracterização do sertão, tão mais grave quanto mais se atenta para a preocupação do narrador em localizar na terra e na gente sertaneja o solo e a seiva das tradições, especificadas, exemplificadas e analisadas nesta segunda série, diferentemente do que sucede na primeira, em que a tradição é afirmada como algo genérico.
Na série de 1934 o sertão é desenhado como o lugar em que o originário permanece ainda intocado e onde se conservam, incorruptas, práticas centenárias no falar, na festa, na música e nas cantorias, nas relações familiares, nas práticas de sociabilidade, na surpreendente presença viva do passado na natureza e na cultura.
Ao contrário da primeira série, em que a ênfase é descritiva, aqui a tônica é, por um lado, a da erudição etnográfica, e, por outro, a da interpretação do sentido profundo do sertão. Nelas, Cascudo traça os contornos de um sertão mítico que recria entretecendo suas lembranças de menino com o registro daquela jornada ao sertão de inverno.



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