Vias de administraçÃo de fármacos



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Tanino. Substância adstringente que, ao se combinar com proteínas da pele animal, previne sua putrefação, convertendo-a em couro.

Terpeno. Denominação dada aos compostos derivados do isopreno, tais como hemiterpenos, monoterpenos, diterpenos, sesquiterpenos etc.

Tintura. Preparação alcoólica obtida por maceração ou percolação dos princípios ativos de um vegetal, animal ou mineral.

Tônico. Medicamento que tonifica, que aumenta a energia ou a vitalidade dos tecidos de modo geral.

Torcisco. Também trocisco ou trovisco, é uma forma farmacêutica obtida através da mistura de vários pós, reduzidos a uma massa dura no almofariz, com a adição de sumos ou mucilagens. Esta massa era, posteriormente, cortada em pequenas pastilhas, de formas variadas.

Ungüento. Preparação semi-sólida, usada para produzir efeito protetor, emoliente ou veículo de medicamentos.

Vasoconstritor. Agente capaz de contrair os vasos sangüíneos.

Vermífugo. O mesmo que anti-helmíntico.

Vivaz. Vegetal que vive vários anos.

Xarope. Medicamento líquido e pegajoso, feitos de substâncias minerais e vegetais com a porção necessária de açúcar para saturá-las.

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MEDICAMENTOS GENÉRICOS

(http://www.anvisa.gov.br/hotsite/genericos/faq/cidadao.htm)


1. O que são medicamentos genéricos?

O medicamento genérico é aquele que contém o mesmo fármaco (pincípio ativo), na mesma dose e forma farmacêutica, é administrado pela mesma via e com a mesma indicação terapêutica do medicamento de referência no país, apresentando a mesma segurança que o medicamento de referência no país, podendo este ser intercambiável. O Ministério da Saúde através da ANVISA, avalia os testes de bioequivalência entre o genérico e seu medicamento de referência, apresentados pelos fabricantes, para comprovação da sua qualidade.



2. O que são medicamentos similares?

Os similares são medicamentos que possuem o mesmo fármaco, a mesma concentração, forma farmacêutica, via de administração, posologia e indicação terapêutica do medicamento de referência (ou marca), mas não têm sua bioequivalência com o medicamento de referência comprovada.



3. O que são medicamentos de referência?

São, normalmente, medicamentos inovadores, cuja eficácia, segurança e qualidade foram comprovadas cientificamente, por ocasião do registro junto ao Ministério da Saúde, através da ANVISA. São os medicamentos que, geralmente, se encontram há bastante tempo no mercado e tem uma marca comercial conhecida.



4. Como identificar os três tipos de medicamentos existentes no mercado brasileiro: os genéricos, os similares e os de marca?

A diferença está na embalagem. Apenas os medicamentos genéricos contêm, em sua embalagem, logo abaixo do nome do princípio ativo que os identifica, a frase "Medicamento genérico - Lei 9.787/99". Além dissoo, os genéricos vão passar a ser identificados por uma grande letra "G" azul impressa sobre uma tarja amarela, situada na parte inferior das embalagens do produto. É o que estabelece a Resolução RDC nº 47, de 28 de março de 2001.



5. O medicamento genérico tem o mesmo efeito do medicamento de marca?

Sim. O medicamento genérico têm a mesma eficácia terapêutica do medicamento de marca ou de referência. O medicamento genérico é o único que pode ser intercambiável com o medicamento de referência, visto que foi submetido ao teste de bioequivalência.



6. Quem faz os testes que possibilitam que um produto receba o registro de genérico?

Os testes de equivalência farmacêutica e bioequivalência são realizados em centros habilitados junto à ANVISA.



7. O que é o teste de equivalência farmacêutica?

Segundo a legislação brasileira, o medicamento genérico deve ser equivalente farmacêutico ao seu respectivo medicamento de referência, ou seja, deve conter o mesmo fármaco, na mesma dosagem e forma farmacêutica. O teste de equivalência farmacêutica é realizado "in vitro" (não envolve seres humanos), por laboratórios de controle de qualidade habilitados pela ANVISA.



8. O que é o teste de biodisponibilidade?

A biodisponibilidade relaciona-se à quantidade absorvida e à velocidade do processo de absorção do fármaco liberado a forma farmacêutica administrada. Quando dois medicamentos apresentam a mesma biodisponibilidade no organismo, sua eficácia clínica é considerada comparável.



9. O que é o teste de bioequivalência?

O teste de bioequivalência consiste na demonstração de que o medicamento genérico e seu respectivo medicamento de referência (aquele para o qual foi efetuada pesquisa clínica para comprovar sua eficácia e segurança antes do registro) apresentam a mesma biodisponibilidade no organismo. A bioequivalência, na grande maioria dos casos, assegura que o medicamento genérico é equivalente terapêutico do medicamento de referência, ou seja, que apresenta a mesma eficácia clínica e a mesma segurança em relação ao mesmo.



10. O que é princípio ativo?

É a substância existente na formulação do medicamento, responsável pelo seu efeito terapêutico. Também denomina-se fármaco.



11. Como devem atuar os médicos, no momento da prescrição da receita?

A prescrição com a denominação genérica do medicamento é obrigatória somente no serviço público (SUS). Nos demais casos, ficará a critério do profissional responsável, podendo ser realizada sob nome genérico e/ou comercial.



12. O médico pode proibir a troca do remédio de marca pelo medicamento genérico?

O profissional poderá restringir a substituição do medicamento de referência pelo genérico (intercambialidade); todavia, esta orientação deverá ser escrita de próprio punho, de forma clara e legível.



13. Se na farmácia não tiver o medicamento genérico, como o usuário deve proceder?

O usuário deve solicitar ao farmacêutico orientações quanto à substituição do medicamento, conforme a prescrição, ou procurar outro estabelecimento que possua o medicamento genérico prescrito.



14. Qual a vantagem de comprar o medicamento genérico?

Pela comprovação da boa qualidade do medicamento genérico, atestado pela ANVISA, e pelo menor custo, em relação ao medicamento de referência.



15. Por que a compra do medicamento pelo princípio ativo fará baixar o preço do medicamento?

Os fabricantes de medicamentos genéricos não necessitam fazer investimentos em pesquisas para o seu desenvolvimento, visto que as formulações já estão definidas pelos medicamentos de referência e que servirão de parâmetro para a fabricação. Outro motivo a ser considerado diz respeito ao marketing. Os fabricantes de medicamentos genéricos não necessitam fazer propaganda, pois não há marca a ser divulgada.



16. É preciso receita médica para comprar um medicamento genérico?

Sim. Qualquer medicamento, exceto os de venda livre, seja de marca, similar ou genérico deve ser vendido mediante prescrição médica. A auto medicação é uma prática perigosa.



17. Em que outros lugares do mundo os genéricos já foram implantados? Deu certo?

Os Estados Unidos e muitos países da Europa já adotam políticas semelhantes há mais de 20 anos.


O mercado mundial de medicamentos genéricos cresce, aproximadamente, 11% ao ano. Nos Estados Unidos, a participação do receituário de genéricos alcançou cerca de 42% das prescrições. Os EUA, o Japão e a Alemanha representam cerca de 60% do mercado mundial de genéricos, cuja expansão é inevitável.
Os medicamentos vendidos pelo nome do princípio ativo deram tão certo, que o mercado de genéricos representa 72% do receituário médico, nos EUA, a um custo médio de 30% mais barato em relação ao medicamento de marca.

18. As indústrias estrangeiras instaladas no Brasil fabricam mais similares ou genéricos? E as nacionais?

As indústrias farmacêuticas estrangeiras, instaladas no Brasil, fabricam mais medicamento de referência ou de marca, porque fazem pesquisas em grandes centros de alta tecnologia no seu país de origem, com grande capital de giro para investir. No entanto, as referidas indústrias produzem similares e podem produzir genéricos. As indústrias nacionais têm maior produção de medicamentos similares. Atualmente, os medicamentos genéricos já fazem parte da produção nacional.



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PRINCÍPIO ATIVO E PRODUTO FARMACÊUTICO COMERCIALIZADO

http://www.splough.com.br/farmaceutica/principioativo.html


PRINCÍPIO ATIVO PRODUTO COMERCIALIZADO

acetato de betametasona celestone soluspan

acetato de zuclopentixol clopixol acuphase

ácido salicílico diprosalic

alprazolam apraz

amifostina ethyol

betametasona celestamine celestone

calcipotriol daivonex pomada

cefalexina celexin

citalopran cipramil 20 mg

cloridrato de buprenorfina temgesic

cloridrato de ciprofloxacina procin

cloridrato de oximetazolina afrin oftalmico

decanoato de zuclopentixol clopixol depot

dicloridrato de zuclopentixol clopixol

dipropionato de beclometasona aldecina diprogenta diprosalic diprosone diprospan

desloratadina desalex

flutamida eulexin

fosfato dissódico de betametasona celestone injetável diprospan garasone colírio

fosfato sódico de betametasona celestone soluspan

fumarato de formoterol fluir

furoato de mometasona elocom nasonex

griseofulvina sporostatin 500 mg

guiacolato de glicerila polaramine expectorante

hemitartarato de zolpidem lioram comp.

infliximab remicade

interferona alfa-2b recombinante intron-a injetável

iodocloro hidroxiquina quadriderm

loratadina claritin d claritin claritin d 24horas

maleato de dexclorfeniramina celestamine polaramine expectorante polaramine

mebendazol octelmin

nimesulida scaflam scaflam gel

nitrofurantoína macrodantina 100 mg

peginterferona alfa-2b pegintron

prednisolona micronizada predsim

prednisona meticorten

pseudoefedrina claritin d

ribavirina rebetol

roxitromicina rotram

sulfato de dextroisoefedrina polaramine expectorante

sulfato de gentamicina diprogenta garamicina creme garamicina pediátrica garamicina injetável garasone colírio quadriderm

sulfato de netilmicina netromicina injetável

sulfato de pseudoefedrina claritin d 24horas

temozolomida temodal

tiabendazol octelmin

tolnaftato quadriderm

toremifeno fareston

urtica dioica l. bazoton

valerato de betametasona quadriderm

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PRINCÍPIOS ATIVOS

(http://www.lapon.com.br/produtos_farmacia.htm)


PRODUTO PRINCÍPIO ATIVO/APRESENTAÇÃO

antimicótico ácido bórico/ácido bórico pó cartonagem c/ 30g

água boricada solução tópica de ácido bórico/frasco ambar pp24 100ml

água oxigenada solução de peróxido de hidrogênio/frasco plástico 120ml + laccre /frasco plástico 1000ml + lacre

álcool iodado 0.5% solução de iodo alcoólico a 0.5%/frasco ambar pp24 100ml + lacre/frasco ambar pp24 30ml + lacre

tintura de iodo 2% solução tópica de iodo 2%/frasco ambar pp24 30ml + Lacre/frasco plástico 1000ml + lacre

violeta de genciana tintura tópica de violeta/frasco ambar pp24 30ml + lacre/frasco plástico 1000ml + lacre

água flor de laranjeiras solução de flor de laranjeiras/frasco ambar pp24 100ml + lacre
aguardente alemã tintura de jalapa composta/frasco ambar pp24 30ml + lacre

maná infantil óleo de rícino aromatizado/frasco ambar pp24 30ml + lacre

óleo mineral óleo mineral/frasco ambar pp24 100ml + lacre / frasco plástico 1000ml + lacre

óleo de rícino óleo de rícino / frasco ambar pp24 30ml + lacre

bicarbonato de sódio bicarbonato de sódio/cartonagem c/ 50g/cartonagem c/ 100g

pote plástico c/ 100g

glicerina glicerina/frasco ambar pp24 30ml + lacre/frasco plástico 1000ml + lacre

vaselina pomada vaselina pomada/ bisnaga de alumínio - c/15g + lacre

vaselina vaselina / frasco ambar pp24 30ml + lacre

enxofre enxofre pó/cartonagem c/ 60g

pedra ume alumém de potássio/cartonagem c/ 50g/cartonagem c/ 100g

pote plástico c/ 100g

amoníaco solução de hidróxido de amônia 20%/frasco ambar pp24 30ml + lacre

óleo de amêndoa amarga óleo de amêndoa amarga/ frasco ambar pp24 30ml + lacre

óleo de amêndoa doce óleo de amêndoa doce /frasco ambar pp24 30ml + lacre

pasta d’água tradicional óxido de zinco, carbonato de cálcio, glicerina/ pote plástico - c/160g + lacre



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CONFECÇÃO E FORMULAÇÃO DE REMÉDIOS NAS BOTICAS JESUÍTICAS

FERNANDO SANTIAGO DOS SANTOS. 2003. “Os jesuítas, os índios e as plantas brasileiras: considerações preliminares sobre a Triaga Brasílica”. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, São Paulo, 163 pp. Dissertação de Mestrado. Capítulo 2.

A palavra remédio possui várias concepções, tomadas de formas variadas, em momentos históricos diferentes. Abordaremos, a seguir, apenas algumas dessas concepções1.

A farmácia nos tempos hipocráticos empregava, ao que parece, um número abundante de produtos importados, sobretudo do Egito. O comércio entre a Grécia e o Egito já ocorria muito antes de Hipócrates, e diversos produtos oriundos do império egípcio foram valorizados por muito tempo, muitos deles entre as mais de trezentas substâncias usadas pelo médico grego2.

Ao que tudo indica, na medicina árabe, cuja concepção da fisiologia humana derivava, em larga medida, da antiga teoria grega dos quatro elementos e da teoria humoralista, os remédios eram uma categoria intermediária entre os alimentos e os venenos. A dosagem da substância é que poderia alterar a categoria. O conhecimento árabe sobre “farmácia” incluía o conhecimento a respeito dos simples, os dispensatórios e formulários médicos (escritos sobre compósitos ou agentes compostos) e os antidotários (conhecimentos sobre antídotos ou contravenenos). Os alexifármacos eram remédios que faziam evacuar os venenos mortais3.

Na Europa do século XVII, por exemplo, muitas vezes não era possível fazer a distinção funcional entre médicos, barbeiros-cirurgiões e boticários. Nesse quadro, os padres jesuítas relataram suas receitas com riqueza de detalhes quanto à elaboração e prescrição, porém com certa escassez de informações teóricas. Seus textos apresentam-se ricos em detalhes quanto à preparação e prescrição dos medicamentos, que estavam destinados ao uso prático, porém com pouco esmero na exposição teórica4.

Um trecho bastante ilustrativo é encontrado em Curvo Semedo, ao perguntar às autoridades médicas portuguesas de finais do século XVII:

[..] digam-me: quem argumentaria melhor sobre o modo com que se fazem as quartãs, Galeno ou um sapateiro? É certo que Galeno: mas se o sapateiro tiver a água da Inglaterra, ou a Quinaquina, ou o febrífugo de Riverio, ou o meu febrífugo, há-de curar as quartãs [...] e Galeno com todas as suas letras, e Filosofias, há-de ficar envergonhado5.

A leitura de vários textos dos jesuítas permitem observar como os padres da Companhia manipularam terapeuticamente plantas medicinais autóctones, tais como o jacarandá, a copaíba, a caroba, o maracujá, o jaborandi etc. Como já vimos, esses medicamentos acabaram tornando-se muito mais importantes para doenças endêmicas da América tropical, como a febre amarela, que era desconhecida dos europeus6.

Os Colégios do Maranhão e do Pará pareciam distribuir os remédios à população de forma diferenciada: aos pobres, sempre gratuitamente, e aos ricos, mediante uma simbólica remuneração (esta renda era, em parte, destinada à manutenção das livrarias). Em tempos de epidemias, entretanto, esta regra talvez não fosse seguida, e os remédios seriam distribuídos gratuitamente a todos, ricos e pobres.

As livrarias jesuíticas, cuja receita era, em parte, fornecida pela venda de medicamentos, abasteciam os membros da Companhia que se dedicavam à confecção de remédios com livros, os mais variados, versando sobre medicina, farmácia etc.7

A introdução das plantas medicinais utilizadas pelos índios modificou de maneira bastante profunda a matéria médica e a terapêutica trazidas pelos europeus às colônias americanas, embora tenha havido a tendência de se utilizar um pano-de-fundo com base na escola humoralista. Desta forma, havia o emprego do tratamento clássico nas novas drogas. Isto deve ter sido uma das razões principais para que se tenha perdido boa parte dos conhecimentos nativos que simplesmente não puderam se encaixar na farmacologia tradicional utilizada pelos europeus8.

Duas características interessantes acerca das boticas jesuíticas no Brasil podem ser apontadas. Em primeiro lugar, parecem ter sido o local de referência, durante boa parte do período colonial, para a preparação de remédios. Em segundo lugar, constituíam, junto às enfermarias, o auxílio necessário à população em tempos de pestes, calamidades e outras mazelas para as quais os colonos e os índios talvez não tivessem mais com quê contar.


O Colégio de Jesus na Bahia e as Collecções de Receitas

A botica jesuítica em terras brasílicas mais importante foi, na opinião de muitos historiadores, a da Bahia. Sua importância histórica tornou-a um centro distribuidor de medicamentos para as demais boticas dos vários colégios, de norte a sul do Brasil colônia. Para isso, e como a Bahia mantivesse maiores contatos com a Metrópole, os padres pareciam conservar a botica bem sortida e aparelhada para o preparo de medicamentos, iniciando-se nela, inclusive, o aproveitamento das matérias primas indígenas. O relato a seguir dá-nos uma idéia do quê deve ter sido o Colégio dos Jesuítas na Bahia:



[...] em nenhuma outra terra americana trabalharam tão longamente os Jesuítas da Assistência de Portugal como na Bahia. Coincidiu a sua chegada com a fundação da Cidade de Salvador (1549). [...] A primeira aldeia dos Jesuítas, na Baía e em toda a América (1549) foi no Monte Calvário, onde hoje é o Carmo [...]9

A relação das boticas com as enfermarias, nos próprios colégios, é frisada por Serafim Leite ao afirmar que “[...] segundo a informação da Província do Brazil, de 31 de dezembro de 1583, o Colégio Novo [Terreiro de Jesus na Bahia] tem, nesta data, o claustro de pedra e cal e, na parte leste, fica a igreja e a sacristia; a do sul, tem por cima a capela e a enfermaria, de boa grandura [...]”. Em 1694, a farmácia do Colégio da Bahia é descrita como elegante e provida de toda sorte de remédios. Em 1722, a botica do Colégio dos Jesuítas da Bahia já era conhecida como a mais famosa e de maior movimento entre as boticas brasileiras. Em 1728, a nova botica é reconstruída fora do Colégio, junto à portaria do Terreiro de Jesus10.



A localização privilegiada da Bahia deve ter contribuído para que seu Colégio atingisse a fama e a grandeza reconhecidas durante quase três séculos. Os narradores dos primeiros tempos de colonização, como Fernão Cardim, Gabriel Soares de Sousa e Jéan de Léry, por exemplo, são fontes importantes de informações acerca das atividades desenvolvidas pelos colonizadores nessa região. Serafim Leite parece fazer uso de tais narrativas ao afirmar sobre a agricultura nos primeiros idos da colonização, em especial a desenvolvida pelos jesuítas: “[...] tais eram as plantas principais, que os Portugueses levaram para o Brasil desde os primeiros dias da colonização e que os jesuítas, por sua vez, cultivaram e desenvolveram [...]”11.

As Collecções de Receitas do Colégio de Jesus na Bahia parecem coroar as atividades dos jesuítas desenvolvidas nesse local. Suas receitas, indicadas para um sem-número de enfermidades, parecem querer contar-nos quão importante o Terreiro de Jesus foi para a medicina do Brasil colônia. Quando o Colégio da Bahia foi saqueado e seqüestrado em julho de 1760, por ordem dada pelo Marques de Pombal, o desembargador incumbido da ação judicial comunicava a seus superiores que havia feito as diligências necessárias para se apossar da botica do Colégio e de algumas receitas particulares, entre as quais se achava a Triaga Brasílica. Nessa época, a Triaga já havia se tornado quase lendária. Mas a receita, porém, não apareceu na Botica, nem em lugar algum na Bahia: foi encontrada mais tarde na Collecção de Receitas no Arquivo Romano da Companhia de Jesus.

1 A farmacologia moderna tende a diferenciar três tipos de remédios: oficiais, que fazem parte da farmacopéia de cada país; oficinais, que são os geralmente confeccionados nas próprias farmácias, mediante fórmulas de compostos comprovadamente eficientes; e magistrais, que são aqueles cujo uso popular consagrou como eficientes.

2 A. Debru, “O jardineiro e a dama: terapêutica e sociedade na época de Galeno”, in R. Pötzsch, ed., A farmácia, p. 26.

3 A questão dos simples será abordada em maiores detalhes no Capítulo 3 deste trabalho. Acerca de compostos e simples, vide A. M. Alfonso-Goldfarb, “Materia médica y farmacia en el siglo IX Árabe: un composito del saber antiguo” in P. Aceves-Pastrana, ed., Construyendo las ciencias quimicas y biológicas, pp. 13-9. Cf. M. H. M. Ferraz, “A Química Médica”, p. 701.

4 M. H. M. Ferraz, “A Química Médica”, p. 697.

5 João Curvo Semedo, Polianteia, p. 772, apud J. P. S. Dias, “Terapéutica química y polifarmacia en Portugal”, in P. Aceves-Pastrana, ed. Construyendo das ciencias quimicas y biológicas, p. 77.

6 M. H. M. Ferraz, “A Química Médica”, p. 696.

7 O “Catálogo da Livraria da Casa da Vigia”, do Inventarium Maragnonense do século XVII (Serafim Leite, História, Tomo IV, Apêndice I, pp. 400-410), cita, entre tantos livros das prateleiras dos jesuítas, um volume de Botica de Na Sa da Lapa, um volume de Flores Indici e um volume de Pharmacopea Lusitana. Nas boticas do século XVIII, os livros mais comumente encontrados incluíam, além da Pharmacopea, a Poliantéia de Curvo Semedo, Matéria Médica de Amato Lusitano, Matéria Médica de Dioscórides e Luz Verdadeira do Cirurgião de Antonio Ferreira. Além disso, as cartas aos priores da Companhia e os livros de notícias sobre as terras, notadamente as Cartas de José de Anchieta, as Notícias Antecedentes, Curiosas e Necessárias das Coisas do Brasil de Simão de Vasconcelos e os Receituários, nos fornecem elementos acerca da maneira de curar pretendida pelos jesuítas (M. H. M. Ferraz, “A Química Médica”, p. 696; Serafim Leite, História, Tomo IV, Livro III, Cap. III, p. 288).

8 M. H. M. Ferraz, “A Química Médica”, p. 704.

9 Serafim Leite, História, Tomo V, Livro I, Cap. IV, pp. XXX (grifo nosso). O mesmo Serafim Leite, Artes e ofícios, pp. 91-2, esclarece que a botica da Bahia era ampla, denominada “Terreiro de Jesus” porque era ao rés do chão; sua localização atual corresponde à entrada da Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia. Esta botica era constituída por uma sala, que correspondia à loja ou farmácia (onde ficavam os remédios à disposição do público), e uma oficina, que correspondia ao laboratório onde se fabricavam os medicamentos. Havia, invariavelmente, a imagem de Nossa Senhora da Saúde, que presidia a botica.

10 Serafim Leite, História, Tomo I, Livro I, Cap. IV, p. 53 (grifo nosso); ibid., Tomo V, Livro I, Cap. IV, pp. 87-8.

11 Ibid., pp. 178-80 (grifo nosso). O trânsito de espécies vegetais entre a colônia e a metrópole foi bastante intenso, pois, a Pernambuco, vieram, pelas mãos dos jesuítas, mudas de mangueiras e coqueiros, entre outras plantas não nativas e que foram cultivadas no Brasil.

©Fernando Santiago dos Santos — santi@ccbeunet.br




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