Victorien Sardou Amargo Despertar (Spiritisme de Victorien Sardou)



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Victorien Sardou
Amargo Despertar
Comédia dramática em três atos
Título original em Francês:

Spiritisme de Victorien Sardou

Comédie Dramatique em trois actes
Esta comedia dramática foi, pela primeira vez, representada no Théatro de la Renaissance em Paris, no dia 8 de fevereiro de 1897
Tradução: Maria Amparo Leal de Andrade

Apresentação: Wallace Leal V. Rodrigues

Editora: O Clarim
Nota: Especial gratidão ao senhor Henrique Olivier e Mlle. Keuza de Pennafort pelo empenho e localização da obra original.

Conteúdo resumido
Com o título de Amargo Despertar, esta Peça Teatral de Victorien Sardou, - Spiritisme no original guarda o mérito de ser a primeira obra a defender, no palco, as idéias da Codificação Kardequiana. Foi encenada em 1896 no Teatro Renaissance, em Paris.

Embora outros textos tenham usado em seu entrecho a fenomenologia catalogada pelo Espiritismo, Amargo Despertar habilmente expõe a ética proposta por Allan Kardec, levando o leitor, de lance em lance, de surpresa em surpresa, a um final digno de uma obra fielmente espírita.

Victorien Sardou, o seu autor, foi companheiro do Codificador na sociedade espírita de Paris. Embora sendo um dos mais famosos teatrólogos de sua época, jamais negou ser médium, desafiando os cegos preconceitos.

Amargo despertar tem outro galardão: o de ter sido representado, no teatro da renascença, em Paris, pela própria Sarah Bernhardt, o mais famoso mito da arte cênica em todos os tempos.


Sumário

Prólogo / 03

Victorien Sardou - o homem - a obra / 07

Allan Kardec e Victorien Sardou / 22

Victorien Sardou a Allan Kardec / 23

Victorien Sardou visto por Gabriel Delanne / 25

Victorien Sardou visto por Camille Flammarion / 27

Victorien Sardou e J. Malgras / 29

Victorien Sardou e Sarah Bernhardt / 44

Primeiro ato / 55

Segundo ato / 94

Terceiro ato / 119

Spiritisme de Victorien Sardou (Em Français) / 147

Prólogo
Com este lançamento, a "Casa editora O Clarim", tem o subido prazer de apresentar ao público ledor do nosso país, um texto teatral que guarda o mérito de ser o primeiro, em toda a história do Espiritismo, a transmitir, através da arte cênica, uma intriga que, em termos doutrinários kardecistas, é rigorosamente pura e exata em seu conteúdo fenomenológico e moral.

Em razão de existir, no mercado livreiro, grande número de obras em que figura o termo "Espiritismo", tivemos por bem alterar o título original francês, "Spiritisme", para Amargo Despertar, que, muito bem, se ajusta à síntese globalizadora do enredo.

A tradução do texto, todo vazado no coloquial do século passado, embora um verdadeiro "tour de force", foi brilhantemente levada a cabo, — depois de exaustivos esforços, — pela Sra. Maria Amparo Leal de Andrade, responsável, igualmente, pela versão francesa do "Ideal Espírita", psicografado pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.

O autor, Victorien Sardou, foi amigo pessoal de Allan Kardec e freqüentou a "Sociedade de Estudos Espíritas de Paris", em cujas reuniões viu desenvolver-se a sua própria mediunidade, que hoje denominamos "psicopictografia", isto é, a faculdade de desenhar e pintar em transe ou semi-transe.

Através do Espírito de Bernard de Palissy (1), desenhou e chegou mesmo a gravar em metal, — uma das técnicas de Palissy, — admiráveis trabalhos representando casas residenciais de conhecidos nomes da música e da literatura, em faixas espirituais de outros Planetas. Clichês e a descrição do modo como esses desenhos foram obtidos, ganharam espaço na própria "Revue Spirite". Todavia, a peça, estreiada a 8 de fevereiro de 1897, não chegou à observação e ajuizamento de Allan Kardec, já no mundo Espiritual desde 31 de março de 1869.

(1) Bernard de Palissy — ceramista e cientista francês, nascido em Lacapelle-Biron, 1510, desencarnado em Paris, 1589 ou 1590. Depois de uma série de viagens pelo sul da França, quando estabeleceu contactos com grandes humanistas, instalou-se em Saintes, por volta de 1540. Maravilhado com as cerâmicas antigas, decidiu investigar, por conta própria, os segredos dessa arte. Em 1556 ofereceu uma de suas primeiras obras, — um vaso de barro esmaltado, — ao rei Henrique II. Mas, por ser um fervoroso huguenote, foi aprisionado, sendo libertado pelo condestável de Montmorency, que o empregou na decoração do palácio Ecouen. Em 1570, auxiliado por seus filhos, executou, para Catarina de Mediei, uma gruta de cerâmica, nas Tulherias. Novamente perseguido por motivos religiosos, conseguiu escapar ao massacre da Noite de São Bartolomeu, 1572, refugiando-se em Sedan. Regressou a Paris em 1575, realizou duas conferências sobre suas concepções científicas, mas nem sua reputação iria livrá-lo das perseguições religiosas. Preso em 1588, foi conduzido à Bastilha, onde morreu. Distinguem-se em suas obras, quatro fases: peças com motivos retirados da natureza: a predominância de plantas e animais; relevos alegóricos; e a reprodução em metal de trabalhos de François Briot e outros. As técnicas empregadas por Palissy foram por ele descobertas através de ininterruptas observações. Foi, também um precursor da paleogeografia.

Na "Revue Spirite" de abril de 1858 há um curioso diálogo de Palissy com Allan Kardec, acerca das habitações nas esferas espirituais de Júpiter.

Embora a leitura de textos teatrais não seja hábito de todos, não duvidamos que Amargo Despertar irá capitalizar as atenções. O tema é fascinante, o clima dramático colocado com habilidade e sutileza, e o "suspense" é mantido com destreza. E, — o que é muito importante, — acentua extraordinariamente em favor da ética existencial espírita, provando, fortemente, que o autor não foi impermeável à moral proposta pelo Mundo Invisível, através do Espiritismo.

Para quem não está afeito ao Autor, podemos afirmar que Victorien Sardou se encontra de corpo inteiro em Amargo Despertar. Ele compartilha, com Scribe (2), o segredo do artifício cênico e a superficialidade dos sentimentos. Sobressai nos diálogos agudos e na arte de por a descoberto, — principalmente aos olhos de seus contemporâneos, — os pequenos e grandes defeitos humanos, por vezes caracterizando-os com propósitos cômicos e forte desenho de caráter. Esta característica, ele a conservou em grande número de obras teatrais que alcançaram enorme êxito.

(2) Augustin-Eugene Scribe — autor dramático francês, nascido em Paris, 1791, desencarnado na mesma cidade, 1861. Deixou 374 textos dramáticos. Dominou os palcos parisienses e o Teatro "Gymnasium" foi construído especialmente para a encenação de suas peças, das quais, a mais conhecida é "Adriane Lecouvreur", 1849. Foi quem estabeleceu a cobrança de direitos autorais, segundo uma percentagem da renda da bilheteria, sendo um dos mais ativos organizadores da "Sociedade de Autores Franceses". É o iniciador da tradução da "peça bem feita", seguida até por Ibsen, em seus primeiros trabalhos.

"Spiritisme" teve a honra de ser incluída no Index da Igreja Católica Romana. Ao ter notícia do fato, oriundo do Vaticano, Victorien Sardou declarou:

"A Igreja tem contra si, e eu a meu favor, os maiores filósofos, os maiores sábios, os maiores pensadores. Estou com eles contra a feroz concepção da eternidade das penas e, jamais pude conceber, mesmo em tenra juventude, que a Soberana Justiça castigue o crime temporário com uma penalidade sem fim.

"Lembro-me, a propósito, de que uma velha amiga de minha família, consternada pelas idéias revolucionárias que eu exarava sobre o inferno, nos meus vinte anos, resolveu apresentar-me ao padre Lacordaire (3), que, então, se encontrava nas Carmelitas, contando, intimamente, que o célebre dominicano me converteria. Este, porém, depois de me ouvir com a mais viva atenção e interesse, contentou-se em fazer algumas observações a respeito, regressando eu com a impressão de que ele era, absolutamente, da mesma opinião".



(3) Jean Baptiste Henri Lacordaire — religioso francês nascido em Recey-sur-Ource, 1802, desencarnado em Sorèzes, 1861. Famoso pregador da igreja de Notre-Dame, o espírito de seu trabalho ficou marcado na coletânea de sermões "Conferências Escritas de Notre-Dame de Paris", 1835-1851. Defensor de um liberalismo acentuadamente espiritual dedicou-se à reestruturação da Igreja francesa, abalada pela Revolução de 1789. Assim, ingressou na Ordem dos Dominicanos, 1838, que fora expulsa da França. Ocupou o resto de sua vida com trabalhos destinados a restaurar a Ordem e torná-la poderosa no campo religioso e cultural. Desencarnado colaborou junto a Allan Kardec, na obra da Codificação, encontrando-se mensagens suas em "O Livro dos Espíritos", no "Evangelho Segundo o Espiritismo" e em vários números da "Revue Spirite".

Quando da estréia de "Spiritisme", em sua coluna no "Figaro", o crítico H. Fouquier escreveu:

"Esta peça, assaz dramática, será discutida, como o foi, desde o primeiro dia, apesar de seu incontestável êxito. Não direi que Sardou me convenceu a respeito desses assuntos misteriosos: não o acompanho, confesso. Mas, no meu aparente cepticismo entra, sobretudo, o receio de perder um belo sonho, como tantos outros, que foram demolidos. Todavia, se os espíritos alcançarem essa moral, única salvação possível para as nossas almas incertas e perturbadas, pouco importa o caminho que a isso conduz".

No papel de Simone, a grande atriz, Sarah Bernhardt, — judia de origem, — obteve grande consagração, visto o personagem ter-lhe dado ampla oportunidade para o emprego de... "sua voz extremamente suave, pureza de dicção e expecional criação pessoal".

Passados oitenta anos, o texto, como as idéias que defende, não envelheceu e, provavelmente, se encenado hoje, principalmente no Brasil, poderá, e muito bem, alcançar pleno êxito. Prova disto é a telenovela "A Viagem".

Victorien Sardou - o homem - a obra


Victorien Sardou foi um dos autores mais fecundos da chamada "Belle Époque" e um dos homens mais insignes de seu tempo. De 1.° de abril de 1854, data da estréia de sua primeira peça, "La Taverne des Étudiants", até 7 de novembro de 1907, quando subiu à cena "L' Affaire des Poisons", escreveu e viu serem representadas 81 peças teatrais e obras líricas. Desse esforço imenso, apenas três ou quatro títulos passaram à posteridade, entre eles "La Tosca", que Puccini imortalizou em forma de ópera e "Madame Sans Gêne", que o cinema ainda recentemente aproveitou, cabendo a Sofia Loren o desempenho do papel central.

Se a sua obra de dramaturgo é extraordinária, sua vida não o é menos, pois foi um dos autores mais elogiados e mais criticados, a ponto de algumas de suas peças terem originado verdadeiras batalhas na opinião pública.

"Les Ganaches" (1861), é uma sátira à adulação rasteira existente nos chamados "partidos velhos" e descontentou a Corte, visto que a Imperatriz Eugênia de Montijo julgou-se retratada em uma velha beata; com "Odette" (1882), é acusado de plagiar Uchard, — Sardou contestou com muita imaginação em "Mes Plagiats" (1883); — "Marquise" (1899), foi criticada como inconveniente; "Thermidor" (1891), foi proibida de ser representada na "Comédie Française" (4) por ter suscitado uma violenta oposição por parte dos radicais, alegando-se a estigmatização de Robespierre; "Madame Sans Gêne" (1893), mostra Napoleão Bonaparte em um personagem cômico; "Robespierre" (1899) e "Dante" (1903), não puderam ser representadas em Londres; "La Sorcière" (1903), criticava acerbamente a Inquisição, ferindo brios religiosos; "Spiritisme" (1897), entrou para o Index do Vaticano; "Divorçons" (1881), criticava as leis do divórcio.

(4) Comédie Française — um dos mais famosos teatros do mundo. Situado na Rue de Richilieu, em Paris, no Palais Royal, foi fundado em 1680, por iniciativa de Luis XIV. Sobreviveu até nossos dias.

Um início difícil


Victorien Sardou nasceu em Paris no dia 5 de setembro de 1831. Seu pai era natural de Cannet, uma aldeia nos Alpes Marítimos, perto de Cannes, onde possuía uma granja de oliveiras. Em uma noite de inverno rigoroso, o gelo destruiu todas as árvores e a família viu-se arruinada. Antoine Léandre, o pai de Victorien, reuniu seus familiares e partiu para Paris, onde se empregou e iniciou uma série de atividades, exercendo, inclusive, um cargo no magistério da Escola Comercial de Charrone. O que ganhava, entretanto, não isentava a família de uma vida quase miserável.

Os primeiros anos do futuro escritor foram difíceis, porém o seu destino estava marcado pelo signo dos excepcionais. Um dia, no ano de 1842, — tinha ele onze anos, — seu pai, recompensando-o por uma distinção escolar obtida, decidiu levá-lo a Versailles por estrada-de-ferro. Mas, no momento da partida, em radiosa manhã de maio, o menino sentiu uma das dores de cabeça que o atormentariam durante toda a sua vida. De início tentou dissimular a perturbação, todavia, em breve, as dores aumentaram a um tal ponto que, não podendo manter-se em pé, deixou-se cair. E o aborrecimento do pai, ante o passeio estragado, não fez mais do que aumentar-lhe o tormento.




Victorien Sardou na juventude
Entretanto, cuidado e animado por sua mãe, sentiu-se refeito do ataque que durou duas horas. Então os Sardou decidiram-se a empreender viagem. Mas uma multidão ansiosa comprimia-se na estação: o comboio que deveriam tomar tinha-se descarrilhado em Bellevue, e 32 passageiros encontraram a morte na catástrofe, entre eles o almirante Dumont D'Urvilie (5). Assim, a enxaqueca salvou a, família, deixando, no espírito do menino um dos motivos centrais, que iriam inspirá-lo para a trama teatral que, ora, apresentamos aos leitores de língua portuguesa.

(5) Dumont D" Urville, Jules Sébastian César — almirante, navegador e naturalista francês (1790-1842). Participou de estudos hidrográficos do Mar Negro e Mediterrâneo. Reconheceu a Venus de Milo numa estátua grega recém-descoberta, e recomendou ao governo francês que a adquirisse para o Louvre. Descobriu a ilha Joinville, a Terra de Luis Felipe e a Terra de Adélia. Morreu em um desastre de trem, com a mulher e o filho. A antiga ilha Cairu e um cabo no litoral da Nova Guiné têm o seu nome. Escreveu várias obras.

O jovem Sardou é um bom aluno e se interessa intensamente por História, mais particularmente a "Revolução Francesa".

Encorajado por um dos seus professores, o padre Brunet, membro da comissão da leitura do Teatro Odéon, já nestas alturas escreve peças em versos que ele próprio, mais tarde, confessava serem muito ruins. Na verdade destinava-se à Escola Politécnica, mas, com o diploma às mãos, terminado o curso de Matemáticas Elementares, renunciou à carreira de engenheiro em favor da matrícula em Medicina. Não irá mais longe. As receitas da família, — seu pai fora infeliz em negócios, — são demasiado modestas para enfrentar as despesas do curso.

A família mudou-se para Nice e Victorien Sardou, sozinho em Paris, vive de casuais aulas particulares e de artigos de crítica magramente pagos por jornais particulares. Enquanto isso estudou e escreveu sua primeira peça responsável.


Segundo sinal do destino
Nesta primeira peça, "La Reine Ultra", tragédia cuja ação decorre na Suécia, os personagens falam em versos de comprimento adequado à sua importância social: a rainha em alexandrinos, os ministros em decassílabos e as pessoas do povo em versos sincopados. Victorien Sardou destina a à grande comediante, Raquel. (6)

(6) Raquel, Elise Félix — atriz francesa (1820-1858). Filha de um vendedor ambulante de sangue judeu, cantava pelas ruas de Paris. Em Lyon despertou a atenção de um diretor de escola musical, que lhe ofereceu estudos em Paris. Perdendo a voz, ela se dedicou à arte dramática e se tornou célebre, interpretando, principalmente, "Camila", "Roxane" e "Adriene Lecouvreur".

Esta, à força de intrigas, não aprecia a Suécia e, ao lhe apresentarem o texto, sentencia:

— Escreva uma peça grega e, então, veremos!

Sardou não escreveu a peça helênica e sim "La Taverne das Étudiants", pintura dos costumes universitários alemães que vai, ousadamente, entregar no escritório do Teatro Odéon. Nesse momento Vaez, um dos diretores, saia acompanhado por Mme. Bérangere. Agarrou o manuscrito que estava mais à mão no amontoado de originais a serem lidos e foi, justamente, o de Sardou, o último, como na parábola evangélica. Assim a peça é lida e aceita no dia seguinte. A primeira representação foi marcada para o dia 1.° de abril de 1854. Mas um grupo de estudantes, que julgavam ver no título uma crítica aos seus hábitos, fizeram dela um escândalo. E foi retirada de cartaz ao fim de três dias!

No entanto, a miséria não impede Sardou de trabalhar da manhã à noite, endividando-se cada vez mais. Um oficial de diligências, por nome Marécat, vem, por fim, penhorá-lo. Sardou suplica-lhe que deixe, pelo menos, os seus livros de História; o homem se recusa e Sardou, revoltado, promete-lhe que, no dia em que pusesse um burro em cena, ele se chamaria Marécat.

Dez anos passados, o autor, triunfando, convida o funcionário para a noite de gala de "Nos Intimes", no Teatro Vaudeville, onde este é ridicularizado pelo burro Marécat, coisa que o homem, aliás, não levou muito a sério.


O signo do mistério
Embora se encontre na miséria, não desfalece. Estava com vinte e três anos e teria de esperar mais cinco para enfrentar de novo o público parisiense. Uma noite, regressando a casa e cogitando na possibilidade de mudar-se de Paris, cruza a Rue de Ia Calandre. Uma carreta sobrecarregada de sacos de carvão obstrui completamente a passagem, Sardou encosta-se a uma parede, mas o veículo não avança. Instintivamente ele atravessa a rua, indo se refugiar no lado oposto. Alguns segundo depois, um carregador de água passa pelo sítio, e, no lugar onde o escritor estivera antes, é esmagado pela carreta.

Todo este período da vida de Sardou é, aliás, colocado sob o signo do mistério. É nessa época que escreve o seu primeiro romance filosófico, "Carlin", concebido de um jato, na linguagem do século XVI no estilo da Rabelais (7), sem que ele próprio possa explicar a origem de sua inspiração à não ser atribuindo-a a um trabalho preliminar de sua mediunidade em afloramento. Pode-se supor que, por isso, justamente nessa ocasião Victorien Sardou tenha entrado em contacto com os meios espíritas parisienses.



(7) Rabelais, François, escritor francês, nascido em 1494 (?) e desencarnado em 1553 (?). Inspirado em um romance popular da época, publicou, sob o pseudônimo de Alcofribas Nasier, — um anagrama de seu nome, — "Gargantua" e "Pantagruel", condenadas por sua obscenidade pela Sorbonne, mas obtendo grande sucesso. Apavorado com o destino de Étienne Dolet, humanista, divulgador de Platão, enforcado e queimado, fugiu para Metz. É tido como um dos escritores mais ricos da literatura francesa.

O Espiritismo estava na moda e, nos salões da sociedade, uma das diversões eram as "mesas girantes". Céptico no início, o espírito do jovem interroga-se a respeito dos fenômenos a que assiste, sobretudo a escrita automática, com o auxílio de cestas, processo que o próprio Allan Kardec empregou no início de suas investigações.

"Confesso, — declara ele, — que não posso aceitar, sem rir, a possibilidade da burla. Um lápis que salta com absoluta precisão e escreve corretamente, não tem outra explicação possível: o fluído magnético".

Victorien Sardou no início de sua carreira de teatrólogo

Sardou, que já freqüentava a "Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas", presidida por Allan Kardec, não tarda em revelar-se um excelente médium. Participa de inúmeras experiências, todas coroadas de êxito e, em breve, através da mediunidade que hoje denominamos "psicopictografia", recebe uma série de desenhos magníficos, assinados pelo Espírito de Bernard Palissy.

A 2 de março de 1905, o jornal francês, "Liberté", publicou uma significativa carta de Sardou. Uma publicação inglesa promovera um inquérito sobre o Espiritismo e consultara, em primeiro lugar, o dramaturgo. Seu depoimento foi truncado na tradução e, em "Liberté" ele o ratifica. Reservamos ao capítulo que trata de sua correspondência, a narrativa pessoal dos fenômenos com eles ocorridos, despertando a atenção dos leitores para as descrições das experiências com a mesa, o episódio do piano e o incidente com o Espírito de Bernard Palissy.
Sucesso, censura e plagiato
As experiências espíritas não fizeram Victorien Sardou perder o seu amor pelo teatro. Lutando por conseguir colocar seus textos nos palcos parisienses, as privações o enfraquecem e ele sofre um ataque de febre tifóide. Estava morrendo em sua água-furtada, cercado de manuscritos rejeitados quando uma dama, Mlle. Laurentine Léon de Brécourt condoeu-se e, como enfermeira, passou a cuidar dele. Restabelecendo-se, foi por ela apresentado a Mlle. Déjazet (8). Então a sorte começou a sorrir-lhe. Casou-se com Mlle. Brécourt e, quando esta faleceu, vítima do câncer, depois de oito anos de vida feliz, logo depois da revolução de 1870, consorciou se outra vez, desta feita com Mlle. Anne Soulié. Estava, então, com 41 anos.

(8) Dejazet, Virginia — célebre atriz francesa nascida em Paris em 1797; morreu nesta mesma cidade em 1875.

Mlle Déjazet foi a primeira a acreditar em seu talento. Para ela escreveu "Candide", espetáculo interrompido pela censura. Instigado pela atriz, escreve "Les Premières Armes de Figaro", — inspirado em uma idéia de Vanderbrich, — "Monsieur Garat" e "Les Prés de Saint Gervais" (1860). As peças permaneceram em cartaz por longas temporadas, com grande aplauso do público. Logo em seguida alcançava êxito com "Les Pattes de Mouches", vista pelo exigente público do "Gymnasium". Um produtor inglês se interessou pelo texto e o encenou em Londres com o título de "A Scrap of Papes". Conhece e torna-se amigo de Dumas e Augier (9). Victorien Sardou já é um autor consagrado.



(9) Augier, Émile Guillaume — Depois do romance romântico, se esboçou uma reação a um só tempo clássica e burguesa. Augier, nascido em Valence em 1820 e desencarnado em Paris em 1889, tateou sua vocação “A cicuta” em (1844) peça em neogrega e “O aventureiro (1848), cuja ação se passa na Itália, na Renascença. "Gabrile", data de 1849 é uma comédia de costumes contemporâneos. Vieram a seguir "O genro do Sr. Poirier" e "O Casamento de Olímpia", "Les fils du Giboyer", "Les Liounes Pauvres", muitas delas peças moralizadoras sobre problemas sociais e familiais, suscitados no seio da burguesia afortunada por questões de dinheiro, que prevalecem, muitas vezes, sobre a moral e a honra.

É autor dramático da escola do bom-senso: defende a moral burguesa e tudo o que é são e moderado. Possuía em alto grau a arte de compor uma comédia de costumes, seu diálogo é de fundo jovial, mas prosaico. Suas idéias, seus tipos e seus ditos de espírito envelheceram bastante.

"Nos Intimes" (1861) ridiculariza a classe-média, vulgar e egoísta; foi apresentada na Inglaterra com o título de "Perfil"; os alegres solteirões são retratados em "Les vieux garçons" (1865); os tartufos modernos surgem em "Séraphine" (1868); a vida no campo é vista em "Nos Bons Villageois" (1866); os velhos costumes e os mitos da política antiquada são o enfoque de "Les Ganaches" (1861); o espírito revolucionário e as pessoas por ele empolgadas, estão em "Rabagas" (1872) e em "Roi Carotte" (1872); o divórcio e suas leis são discutidos em "Divorçons" (1880).

Ele não despreza a História, — sua paixão de adolescente, — e, dela retirando forte contribuição dramática, escreve: "Théodora" (1884), em ambiente bizantino; "La Haine" (1874) mostra as lutas da nobreza italiana na Idade Média; "La Duchesse d'Athènes" retrata a vida na Grécia; "Patrie" (1869) e um panorama das lutas da libertação da Holanda nos fins do século XVI; a Espanha do século XVI surge em "La Sorcière" (1904).



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