Vida e Obra de Érico Veríssimo



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Olhai os Lírios do campo

de Érico Veríssimo


Org. e Autoria: Prof. Raul Castro

Vida e Obra de Érico Veríssimo
Erico Verissimo nasceu em Cruz Alta (RS), em 17 de dezembro de 1905, e faleceu em Porto Alegre, em 28 de novembro de 1975. Na juventude, foi bancário e sócio de uma farmácia. Em 1931, casou-se com Mafalda Halfen Von Volpe, com quem teve os filhos Clarissa e Luis Fernando. Sua estreia literária foi na Revista do Globo, com o conto Ladrões de gado. A partir de 1930, já radicado em Porto Alegre, tornou-se redator da revista. Depois, foi secretário do Departamento Editorial da Livraria do Globo e também conselheiro editorial, até o fim da vida.

A década de 30 marca a ascensão literária do escritor. Em 1932, publica seu primeiro livro de contos, Fantoches, e em 1931 o primeiro romance, Clarissa, inaugurando o grupo de personagens que acompanharia boa parte de sua obra. Em 1938, tem seu primeiro grande sucesso: Olhai os lírios do campo. O livro marca o reconhecimento de Erico no país inteiro e, em seguida, internacionalmente, com a edição de seus romances em vários países. Escreve também livros infantis, como Os três porquinhos pobres, O urso com música na barriga, As aventuras do avião vermelho e A vida do elefante Basílio.

Em 1941 faz uma viagem de três meses aos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado norte-americano. A estada resulta na obra Gato preto em campo de neve, primeira de uma série de livros de viagens. Em 1943, dá aulas na Universidade de Berkeley. Volta ao Brasil em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo. Em 1953 vai mais uma vez aos Estados Unidos, como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, secretaria da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em 1947, Erico Verissimo começa a escrever a trilogia O tempo e o vento, cuja publicação só termina em 1962. Recebe vários prêmios, como o Jabuti e o Pen Club. Em 1965 publica O senhor embaixador, ambientado num hipotético país do Caribe que lembra Cuba. Em 1967 é a vez de O prisioneiro, parábola sobre a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. Em plena ditadura, lança Incidente em Antares (1971), crítica ao regime militar. Em 1973 sai o primeiro volume de Solo de clarineta, seu livro de memórias. Morre em 1975, quando terminava o segundo volume, publicado postumamente.


OBRAS
Fantoches (1932)

Clarissa (1933)

Música ao Longe (1935)

Caminhos Cruzados (1935)

Um Lugar ao Sol (1936)

Olhai os Lírios do Campo (1938)

Saga (1940)

Gato Preto em Campo de Neve (narrativa de viagem, 1941)

O Resto é Silêncio (1943)

Breve História da Literatura Brasileira (ensaio, 1944)

A Volta do Gato Preto (narrativa de viagem, 1946)

As Mãos de meu Filho (1948)

Noite (1954)

México (narrativa de viagem, 1957)

O Senhor Embaixador (1965)

O Prisioneiro (1967)

Israel em Abril (narrativa de viagem, 1969)

Um Certo Capitão Rodrigo (1970)

Incidente em Antares (1971)

Ana Terra (1971)

Um Certo Henrique Bertaso (biografia, 1972)

Solo de Clarineta (memórias, 2 volumes, 1973, 1976)

O Tempo e o Vento

Parte I: O Continente (2 volumes, 1949)

Parte II: O Retrato (2 volumes, 1951)

Parte III: O Arquipélago (3 volumes, 1961-1962)


Infanto-juvenis
A vida de Joana D’Arc (1935)

Meu ABC (1936)

Rosa Maria no Castelo Encantado (1936)

Os Três Porquinhos Pobres (1936)

As Aventuras do Avião Vermelho (1936)

As Aventuras de Tibicuera (1937)

O Urso com Música na Barriga (1938)

Outra Vez os Três Porquinhos (1939)

Aventuras no Mundo da Higiene (1939)

A Vida do Elefante Basílio (1939)

Viagem à Aurora do Mundo (1939)

Gente e Bichos (1956)

Frases de Efeito
"– Então é porque tenho vivido e aprendi a ver.

– Tens apenas vinte e cinco anos...

– Conheci um homem que tinha sessenta e ainda não tinha aprendido a conhecer-se a si mesmo."
"O vulto da igreja antiga: sempre uma sugestão de Deus, dentro e fora de nossos pensamentos... Por que não se revela Ele dum modo mais definido? Na forma dum milagre, por exemplo..."
"Ele sentia vontade de beijá-la. E por que não a beijava? Olívia podia repeli-lo, ficar magoada... Mas que importava. O mundo ia acabar, os homens se matavam, a vida era cruel. Um dia ambos estariam apodrecendo debaixo da terra."
"– Se Deus existe, então por que não se revelou?

– Porque até Deus precisa de oportunidades."


"– Só foge da solidão quem tem medo dos próprios pensamentos, das próprias lembranças.

– Talvez...

– Mas se tu soubesses como a solidão pode nos enriquecer..."
"O crânio do operário estava todo esfacelado, seu rosto absolutamente irreconhecível. (...)

– Mandem tocar de novo as máquinas – disse o gerente. – Não podemos ficar parados. Tempo é ouro.

Ouro... Por que era que os homens não se esqueciam nunca do ouro? Ouro lhe lembrava outra palavra: sangue. Tempo também era sangue. Ouro se fazia com sangue."
"– E agora?

Ele encolheu os ombros.



– É a pergunta que faço todos os dias a mim mesmo."
"Enfim ali estava uma criatura que se interessava por ele, que o amava de maneira profunda. Que tudo dava e nada pedia..."
"Estive pensando na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles. (...) É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.
“Nós somos homens, Filipe, e vivemos quase como máquinas. Essa ânsia de progredir, de acumular dinheiro, de construir, faz a gente esquecer o que tem de humano.”
“As perguntas das crianças em geral são as que nos deixam mais atrapalhados.”
“Eugênio ouviu os mexericos sem se perturbar. Limitou-se a sorrir e depois que ficou a sós não pôde deixar de se perguntar a si mesmo como lhe fora possível encarar os fatos duma maneira tão desligada, tão superior e serena? Se lhe tivessem contado aquelas infâmias em outro tempo, ele teria sentido dor física, teria ficado num estado de absoluta prostração, numa angústia que se prolongaria durante dias e dias. Os homens eram perversos – concluiu ele. Mas depois se corrigiu: – Havia homens muito perversos. Não bastariam as misérias reais da vida, aquelas de que ele tinha todos os dias dolorosas amostras na sua clínica? Algumas pessoas acham um prazer depravado em inventar misérias. Como podia uma criatura de alma limpa andar pelos caminhos da vida? Lembrou-se das palavras de Olívia numa de suas cartas. Tu uma vez comparaste a vida a um transatlântico, e te perguntaste a ti mesmo: ‘Estarei fazendo uma viagem agradável?’. Mas eu te asseguro que o mais decente seria perguntar: ‘Estarei sendo um bom companheiro de viagem?’ Realmente, os homens em geral eram maus companheiro de viagem. Apesar da imensidão e das incertezas do mar, apesar do perigo das tempestades, do raio e da fragilidade do navio, eles ainda se obstinavam em serem inimigos uns dos outros. O sensato seria que se unissem em uma atitude de defesa e que se trocassem gentilezas a fim de que a viagem fosse mais agradável para todos.”
“Pensemos apenas nisto: não fomos consultados para vir para este mundo e não seremos consultados quando tivermos de partir. Isso dá bem a medida da nossa importância material na terra, mas deve ser um elemento de consolo e não de desespero.”
“Mas atentando mais nas pessoas e nos fatos ele chegava à conclusão de que o que via, o que podia apalpar, cheirar e ouvir não era tudo. Havia algo de indefinível para além da matéria.”
“Ele sabia que nunca havia de chegar à Verdade. Quando muito conseguiria vislumbrar pequenas verdades.”
“Os homens viviam demasiadamente preocupados com palavras, pulavam ao redor delas e se esqueciam dos fatos. E os fatos continuavam a bater-lhes na cara.”
“O espírito de gentileza podia salvar o mundo. O que nos falta é isso: espírito de gentileza. Boas maneiras de homem para homem, de povo para povo.”
“Se naquele instante – refletiu Eugênio – caísse na Terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas... e se perguntasse a qualquer um deles: ‘Homem, porque trabalhas com tanta fúria durante todas as horas de sol?’ – ouviria esta resposta singular: ‘Para ganhar a vida.’ E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos.”
Análise da obra
Olhai os lírios do campo é um dos mais famosos de Érico Veríssimo e foi publicado em 1938 - Modernismo de Segunda Fase.

A ambientação urbana da história dá margem à abordagem dos efeitos de um capitalismo devastador sobre a vida dos personagens. O romance narra a trajetória existencial do personagem principal, Eugênio, seus contatos sociais e seus dilemas interiores. Portanto, a narrativa centra-se em seus conflitos e vicissitudes.

Nesta obra deve-se destacar o lirismo romântico da história de Eugênio, descobrindo que o dinheiro não traz felicidade, exatamente nos moldes do romance urbano de 30, de caráter socialista. Destaca-se também sua ambição traçada a partir de uma vida difícil, que alimenta-o de amargor e determinação na busca de sua afirmação material. E ainda, o grande sucesso dessa dramática história de amor, pode ser creditado à habilidade do autor de construir personalidades psicológicas complexas: ninguém é só bom nem só ruim na obra.

Para retratar essa relação problemática do homem com a sociedade, Érico Veríssimo construiu o romance Olhai os lírios do campo de maneira que o personagem principal fosse mostrado em dois momentos. No primeiro momento, ele é conduzido, em seus comportamentos, pelas expectativas sociais; obedece aos valores de sua classe, é incapaz de perceber-se enquanto ser. Ele faz de tudo para ter sucesso e ser aceito: trabalha em função de uma máscara e não do próprio rosto. No segundo momento, o romancista mostra os processos de transformação de Eugênio: da condição de indivíduo coisificado, guiado mais pela expectativa dos outros do que por si mesmo, para a condição de indivíduo autônomo e consciente de si, sujeito de suas próprias decisões.



A narrativa, portanto, se divide em duas partes com 12 capítulos cada uma, sendo a primeira o cruzamento de dois níveis temporais: o presente e o passado. Assim, nesta narrativa de vários planos temporais, entrelaça-se uma crítica à sociedade fútil e vazia, ao acúmulo de riquezas e à conseqüente hipocrisia das relações sociais. A primeira parte é intensa e cheia de um interesse que jamais enfraquece. Na segunda parte, porém, esse interesse declina, e a história se dilui numa série de episódios anedóticos sem unidade emocional.
Ambiente
O ambiente do romance é a cidade de Porto Alegre. As personagens vivem na metrópole de ruas movimentadas, tráfego intenso, automóveis, telefones, cinemas e teatros; edifícios altos, gente rica, monopólios; gente pobre, sindicatos, miséria e doença. Vivem os movimentos da contradição e da crise.
Foco narrativo
Toda a narrativa é formalmente estruturada na terceira pessoa a partir de um ponto de vista externo do narrador.
Personagens
Eugênio Fontes: homem profundamente pessimista, infeliz e complexado. Profissão: médico. Filho de um alfaiate pobre, Eugênio teve uma infância e adolescência cheias de dificuldades. À medida que ia crescendo, nutria um misto de vergonha e repúdio a si mesmo em decorrência da pobreza de sua família. Sua motivação era "ser alguém", adquirir posição social e não ter que passar pelas humilhações que julgava ter passado na infância. Na faculdade, conhece uma jovem, Olívia, pela qual se apaixona e nutre um relacionamento de amizade, cumplicidade e amor. Porém, devido a sua ambição, Eugenio deixa Olívia para casar-se com uma jovem rica. Passa a viver uma vida de aparências, adultérios e eternas contradições, deixando para trás seu verdadeiro amor e a filha que teve ela, Anamaria.
Olívia: grande amor de Eugênio e colega de trabalho. Olívia é mais uma das clássicas figuras femininas de Érico, que transparece doçura e compreensão frente às inquietudes dos personagens masculinos, mas que não esconde uma grande força e determinação. Assim como Eugenio, Olívia cursa a faculdade de medicina em Porto Alegre com dificuldades. A sua visão realista e compreensão do comportamento humano fazem com que ela encare seu relacionamento com Eugenio de forma honesta, entendendo as limitações que este poderia ter em virtude da ambição e das eternas contradições emocionais do médico. Olívia também pode ser encarada, de certa forma, como uma representante feminista de Erico, pois apesar de aceitar as limitações de Eugenio, ela luta em manter a carreira de médica e cria a filha Anamaria sozinha.
Eunice: esposa de Eugênio. Rica, fútil e vazia. Filha do empresário Vicente Cintra, conquista Eugênio com sua fortuna, casando-se com ele e se tornando a oportunidade de que o médico necessitava para se destacar na sociedade.
Angelo: pai de Eugênio. O próprio Eugênio nos revela pormenores sobre seu pai e seus sentimentos para com ele:
Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil... Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo. Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal-estar. Desejou - com que ardor, com que desespero! - que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraçoso, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra. Alcibíades e Castanho ficariam sabendo que ele era filho dum pobre alfaiate que saía pela rua a entregar pessoalmente as roupas dos fregueses... Haviam de desprezá-lo mais por isso. Eugênio já antecipava o amargor da nova humilhação. Olhou para os lados, pensando numa fuga.

Inventaria um pretexto, pediria desculpas, embarafustaria pela primeira porta de loja que encontrasse. Ouvia a voz baixa e calma de Castanho... o "conceito hegeliano..." Podia entrar naquela casa de brinquedos e ficar ali escondido, esperando que Ângelo passasse... Hesitou ainda um instante e quando quis tomar uma resolução, era tarde demais. Ângelo já os defrontava. Viu o filho, olhou dele para os outros e o seu rosto se abriu num sorriso largo de surpreendida felicidade. Afastou-se servil para a beira da calçada, tirou o chapéu.

- Boa tarde, Genoca! - exclamou.

O orgulho iluminava-lhe o rosto.

Muito vermelho e perturbado Eugênio olhava para a frente em silêncio, como se não o tivesse visto nem ouvido. Os outros também continuavam a caminhar, sem terem dado pelo gesto do homem.

A sensação de felicidade, entretanto, desaparecera de Eugênio. Sentia-se culpado. O que acabara de fazer era desumano, ignóbil, chegava a ser criminoso. Por que se envergonhava do pai? Não era um homem decente? Não era um homem bom? Não era, em última análise, seu pai?

Ainda havia tempo de reparar o mal que fizera. Podia voltar, tomar Ângelo pelo braço, carinhosamente, subir a rua com ele... Por que não fazia isso? "... aquele trecho do Banquete..." - dizia Castanho. Sim, beijar a mão do pai, confessar-lhe a culpa, dizer do seu remorso, pedir-lhe perdão, humilhar-se. Mas lá se ia acompanhando os outros como um autômato. Voltou a cabeça, procurando. Ângelo tinha desaparecido.
Dr. Seixas: amigo de Eugênio e médico de pobres. Único personagem que tem características humanas. Veríssimo pôs neste homem verdade: animou-o por dentro, deu-lhe reflexos, deu-lhe instintos, deu-lhe uma maneira de ser de pessoa viva. Personagem surgido “acidentalmente”, segundo o autor do romance, Dr. Seixas é um exemplo de personagem autônomo. É um médico pobre, grande, barbudo e de ar agressivo. Sua voz era igualmente áspera e peluda, sua fala desbocada, mas seus olhos refletiam bondade. Idealista, ele critica tanto a exploração capitalista do médico e o desprezo do sistema econômico pelo ser humano como o valor conferido ao dinheiro: Seu Eugênio, ouça o que lhe digo. O dinheiro é uma coisa nojenta. Um sujeito decente não se escraviza a ele.(p.183). Ele lutava contra essa escravidão e pela igualdade de direitos entre as pessoas, contagiando Eugênio e levando-o a uma nova concepção da profissão. O Dr. Seixas encarna duas concepções de vida que mantêm entre si relações opostas: uma utópica, confiante, e outra, pessimista. Para Dr. Seixas, sucesso era conseguir salvar a vida de alguém e aliviar a dor dos outros. Ele reconduz Eugênio, como médico, ao mundo da desigualdade e da pobreza, universo do qual ele, como profissional, sempre tentara fugir.
Anamaria: filha de Eugênio e Olívia. Ela ajuda a manter viva na lembrança de Eugênio a presença de Olívia e, ao mesmo tempo, como criança que é, sinaliza para a esperança e a confiança de que o futuro pode ser diferente. Anamaria simboliza a insistente afirmativa de Olívia de que a vida é feita de recomeços. A menina tem os olhos sérios e profundos de Olívia e, ao mesmo tempo, desconfortáveis como os do pobre Ângelo, pai de Eugênio. Sua presença retoma duas figuras diante das quais Eugênio precisa se redimir: seu pai, que foi por ele desprezado, e a própria Olívia, que ele abandonou por um casamento de conveniência. A presença da filha suscita-lhe interrogações e o obriga a tomar decisões sensatas e responsáveis para com os outros. Anamaria lhe permite uma compreensão da miséria humana e da necessidade de que o conjunto das ações dos homens seja orientado para minimizá-la.
Observação: Devemos destacar que a dedicação, o altruísmo e a nobreza de Olívia parecem inumanos. Não convencem. Pouco convincente também é a covardia de Eugênio. A cena em que o vemos a fazer a sua primeira operação, do ponto de vista da mera redação, está razoavelmente bem feita; do ponto de vista da verdade psicológica, porém, é um absurdo. Um homem de estômago fraco e que tem horror ao sangue jamais se dedicaria à cirurgia e, se se dedicasse, com o tempo acabaria por habituar-se a cortar a carne dos pacientes sem que isso lhe provocasse arrepios, náusea ou medo. Acaso não teria ele, como estudante, freqüentado o necrotério e os ambulatórios da Santa Casa?
Resumo de enredo
Na primeira parte, merecem destaque a imagem inicial que o personagem faz de si mesmo e os valores que a engendram.

Em flashback, temos o tempo presente: Eugênio dentro do carro em direção ao hospital para reencontrar sua amada Eugênia, rememorando os fatos que fazem parte do seu passado, onde, junto a ele, relembramos sua infância, seus traumas, seus aprendizados com Olívia, o casamento com Eunice, a frustração, o sentimento de se ter vendido para vencer.

Eugênio era um menino tímido e medroso. Teve uma infância pobre, era ridicularizado na escola e tinha como objetivo máximo a ascensão social, faria de tudo para um dia vencer na vida. Achava que o que tinha era feio e sem graça, das roupas até o seu próprio corpo. Não se entrosava com os demais colegas de classe e por isso devotava todo o seu tempo aos estudos. Sonhava em deixar de ser simplesmente o Genoca para ser o Dr. Eugênio Fontes.

Tinha pena do pai, o alfaiate Ângelo, com quem não conseguia se comunicar facilmente. O seu irmão, Ernesto, não esmerava-se na educação e acabou perdido na vida. Com muito esforço, Eugênio consegue cursar Medicina. Na Faculdade conhece Olívia - única mulher da turma. Na festa de formatura os dois se aproximam e fazem sonhos e confissões juntos, sobre o futuro. Tornam-se grandes amigos.

Durante a revolução de 30, após uma operação mal sucedida no hospital militar, Olívia convida Eugênio a sua casa e passam uma noite de amor. Dias depois, Olívia recebe uma proposta para trabalhar em Nova Itália, e novamente se entrega aos braços de Eugênio.

Durante um atendimento médico, Eugênio conhece Eunice Cintra - filha de um riquíssimo proprietário. Eugênio casa-se com Eunice com objetivo único de ascender socialmente. O sogro trata de arranjar um emprego de fachada ("assinar documentos") numa de suas fábricas. Eugênio começa a freqüentar a alta sociedade, mas não se sente parte dela. O seu complexo de inferioridade aumenta ao ver os contrastes desse outro mundo, de emoções contidas, de meias-palavras. Conhece pessoas como Filipe Lobo, construtor obstinado a construir o "Megatério", um arranha-céu, mas não se importava com a família. Infeliz e perturbado, Eugênio reencontra Olívia que lhe apresenta a sua filha, fruto do último encontro dos dois, Anamaria. Ao chegar no Hospital onde estava Olívia, recebe a notícias de sua morte.

Na segunda parte, destaca-se o papel desempenhado pelo entrecruzamento de vozes que afetam a imagem inicial do protagonista, conduzindo-o a uma progressiva mudança de posição perante a existência.

Aqui temos o passado. Esta segunda parte desenvolve-se de maneira mais linear, embora o passado se misture ao presente da filha. Passa-se após a morte de Olívia e é intercalada com a leitura das cartas que ela escreveu para Eugênio sem nunca ter enviado. Eugênio toma coragem e separa-se de Eunice - apesar de todos os inconvenientes sociais. Vai além, passa a ser um médico popular, com idéias de socializar a medicina. Trabalha com o Dr. Seixas, um velho médico que sempre atendeu aos pobres. A memória de Olívia, nas cartas, nas fotos ou no olhar de Anamaria, o fortalece quando pensa nas dificuldades.

O médico tornou-se na sociedade atual, aquele mediador entre a ciência, a técnica e o sentimento humanitário. Pensando primeiro em si mesmo, egoisticamente, Eugênio evolui para a solidariedade, através das colocações de Olívia, que embora morta, é um personagem presente no romance, fazendo contraponto com Eugênio.
PARTE I

I

Um médico sai do quarto de número 122, pede para Irmã Isolda, telefonar para o Dr. Eugênio e avisá-lo que se trata de um caso perdido: ”ela sabe que vai morrer e quer vê-lo”. Eugênio recebe o recado como um golpe, uma sensação de remorso e a certeza que agora iria começar a pagar os seus pecados.

Mente para a sua esposa, Eunice, e pede para o motorista, Sr. Honório correr, pois se tratava de um caso urgente.
II

Durante a viagem, recorda de um episódio de sua infância. No recreio, abaixando-se para pegar uma bola, um aluno percebeu que suas calças estavam furadas. Gritou aos outros meninos e meninas que em um coro estridente, zombavam de Eugênio, enquanto que as lágrimas desciam pelo seu rosto.

O sentimento de humilhação de ser de família pobre; a professora cobrando a mensalidade atrasada; o irmão fazendo parte do coro da zombaria; seus pés gelados pelo frio que entrava da sola do sapato causavam-lhe revolta e vergonha. Em casa, observa o pai, Sr. Ângelo, homem calado e murcho, envelhecido antes dos quarenta, cara inexpressiva, olhos apagados, ar de resignação quase bovino, mais tossia que falava e quando falava, era para queixar-se da vida; porém, sem amarguras, sem raiva. Eugênio não conseguia amá-lo, afinal, ele tinha falhado na vida. Viviam fugindo de credores. Em seguida, reparava em sua mãe. Ela era bonita, sim, mais bonita que muitas mulheres ricas que ele conhecia. Dizia sempre que eles ainda haviam de ser felizes, e de viver com todo o conforto. “Ninguém foge do destino - eram as palavras de D.Alzira - eu acho que, se ele nos tem trazido tanta coisa ruim, um dia pode nos trazer coisas boas.”

Chega Florismal, amigo da família, tinha uma certa dignidade de estadista e lamenta-se de não ser advogado. Sempre perguntava a Eugênio que fora Florismal e ele respondia:


- Foi um dos doze pares da França.”
Falam sobre a guerra e naquela noite, Eugênio imagina que Deus, o Kaiser e o Destino eram uma e a mesma pessoa.
Deus o dono do mundo. O Kaiser queria vencer a Europa e o Destino era o culpado de todas as coisas ruins que aconteciam no mundo.”
O automóvel corre e Eugênio revive imagens do seu passado. O pai humilhado, a mãe se sacrificando por ele. Agora, ambos mortos, e o pior, se fosse lhe dado uma oportunidade para recomeçar sua infância e adolescência, seria igual - não lograria amar os pais como eles mereciam. Pensa em Olívia. Ela o amara e ele estava cego pelo sucesso. Fez um casamento rico e hoje ele era simplesmente o marido de Eunice Cintra.
III
Eugênio aos quinze anos achava-se feito. Deus realmente era ingrato, não lhe deu riqueza, nem beleza. Lembra-se de seu primeiro amor, Margaret, a filha do diretor do colégio e os primeiros desejos que seu corpo emanava. A mãe lavava toda a roupa branca que se usava no colégio, dessa maneira ele podia lá estudar. Pensa em ser igual ao Dr. Seixas e cuidar dos pobres futuramente.

A imagem de Mr. Tearle insiste em não sair de sua mente. Era o mais novo professor do colégio, viera dos Estados Unidos e tinha lutado na guerra. Acabou se suicidando com um tiro no peito em uma noite de tempestade.

A viagem continua. Pensa em seus três anos de casamento com Eunice e o erro que tinha cometido. Ela era atraente, mas, o que mais o atraíra foi o seu dinheiro, a maneira mais fácil de alcançar a fama. Em seguida, Olívia e Anamaria aparecem em seus pensamentos.
“Que seria da menina, caso Olívia morresse?”
IV

Eugênio volta ao seu tempo de adolescência, sua amizade com Alcebíades, um dos alunos mais ricos da escola e quando foi apresentado a Acélio Castanho, o ex-aluno, mais notável que a escola teve. Um dia quando caminhavam juntos, viu o seu pai. Tentou disfarçar, mas não havia mais tempo. Sr. Ângelo veio em sua direção, cumprimentou-o e Eugênio o ignorou, como se não o conhecesse. Naquela mesma noite, na hora do jantar não tinha coragem para encará-lo. De repente os olhos do pai buscam os de Genoca (Eugênio) como se lhe pedissem desculpas.


Honório corre. Anamaria cresceria sem pai, sem mãe..."
V

No dia da formatura, depois do discurso do Sr. Diretor, Eugênio sai, segurando o diploma na mão, agora era ele se transformara no Dr. Eugênio Fontes. Fazia um ano que ajudava o Dr. Teixeira Torres no hospital Sagrado Coração, o pai tinha falecido um ano antes e seu irmão Ernesto, continuava a beber... Repara em Olívia, a única mulher da turma. Ela estava encostada em uma das colunas, segurando um ramalhete de rosas vermelhas. Olívia formara-se com sacrifícios; morava com um casal alemão, os Falk; trabalhava em um Laboratório de Análises Clínicas e Eugênio nunca a tinha visto vestida daquela maneira, radiante, feminina. Ele sempre a viu como um colega da turma. Olívia diz que está esperando que um cavalheiro a convide para entrar em seu automóvel. Eugênio não tem carro, mas oferece o seu braço e juntos decidem prestar uma homenagem a um monumento ali perto, o do Patriarca. Falam sobre o futuro e Eugênio mostra-se inseguro com o amanhã. Ele acreditava que o diploma faria desaparecer a sua sensação de inferioridade, no entanto, não tinha confiança em si e preocupava-se com a impressão dos outros.


A viagem continua. Olívia disse-lhe uma vez:
O que tu precisas é aceitar as criaturas. A humanidade não tem culpa da maldade daqueles homens que te humilharam.”
VII

Eugênio sai do quarto da amiga, totalmente confuso.

A mãe o esperava, estava aflita e queria notícias sobre a operação.

Não há de ser nada, ninguém pode com o destino.”

Eugênio questiona-se como será sua amizade com Olívia agora.

Tudo fora um momento de tontura...

Pergunta à mãe se tivera notícias de Ernesto e lembra-se daquela noite, em que ele apareceu novamente no jornal como desordeiro. Eugênio foi firme: “um de nós é demais nesta casa”.

Ernesto foi-se e não tiveram mais notícias dele.


No carro, Eugênio, vê sua mãe morrendo e pedindo para ele procurar o Nestinho, que o Nestinho era bom...Agora Olívia é que morria...”
VIII

Eugênio é chamado para socorrer uma criança, a mãe estava desesperada e depois, o choro de Eugênio. Naquela noite, Olívia e Eugênio, jantaram no Edelweis, beberam, dançaram e ele, sentiu vontade de beijá-la; porém, sem malícia ou sensualidade.

Olívia diz-lhe para que nunca se esqueça de olhar para as estrelas e conta que aceitou a proposta do Dr. Bellini para organizar a maternidade do hospital, em Nova Itália.

Nesta noite, com as luzes apagadas, Eugênio se entregou a Olívia, como quem quer aliviar o sofrimento dum doente com uma injeção sedativa.

O carro deslizava pela estrada. Eugênio repara que são vinte para as oito e novamente se lembra do Mr. Tearle, que dizia que, quando alguma coisa acontece, sempre passam vinte minutos ou faltam vinte minutos. Será que Olívia morreu?

Olha para as estrelas...

Enquanto elas brilharem haverá esperança na vida.”
IX

Eugênio é chamado para atender a uma mulher que havia cortado o pulso, acidentalmente, na casa dos Cintra.

Fazia um mês que Olívia havia partido e somente uma carta viera.

Dizia: “O Dr. Bellini é o homenzinho mais engraçado do mundo.”

Após o socorro, Eugênio ao virar-se, depara-se com uma mulher muito loura, vestida de um roupão escarlate, que manda queimar o lençol sujo de sangue e em seguida, ordena que o médico a acompanhe, oferece cigarros e trata-o como fosse um criado.

Observa Eugênio e pergunta-lhe a sua opinião sobre Freud. Acrescenta que ele era uma espécie rara de homem, pois ainda ficava atrapalhado sozinho na presença de uma mulher. Eugênio conclui que ela não passa de uma mulher rica e mimada, querendo aparentar-se moderna.

Eunice continua dizendo que é o tipo de mulher que adora provocar reações.

Eugênio reage com palavras e na hora de sair, ela entrega-lhe uma nota de cinquenta mil-réis.

Faltam quarenta minutos de viagem. Pensa em Anamaria, ela herdara de Olívia uma expressão de suave seriedade. Lembra-se das palavras frias de Eunice dizendo que não queria filhos, que eram mamíferos esfaimados que deformam o corpo.

Acélio Castanho falava em Platão; Cintra e Filipe em negócios; e Izabel, a esposa de Filipe, procurava com olhares, Eugênio.

Pensa nos telefonemas de Eunice, os seus convites, os passeios de carro, até que em uma noite, surpreendeu-se de mãos dadas com ela.

Estaria apaixonado naquela época? Não podia negar que, ela era uma mulher atraente.”

Olívia escrevia raramente e as cartas pareciam de homem para homem, enquanto isso imaginava como seria ser genro de Vicente Cintra.
X

Olívia retorna de Nova Itália e Eugênio lhe pergunta se tinha recebido a carta. Afirma que não gostava dela, que era em sua carreira que pensava...

Olívia diz-lhe que acredita que ele há de se lembrar desta noite, daqui a muitos anos. Ele puxa-a contra o seu corpo e se entregam ao amor. No dia seguinte, Olívia parte novamente para Nova Itália.

Pede para Honório correr mais e conscientiza-se de que não se preocupava mais com Eunice e nem com as convenções sociais. Mas, que a vida deixaria de ter sentido se Olívia morresse.


XI

Era aniversário de Eugênio, 31 anos. Os amigos presentes conversando sobre o “Megatério” que Filipe estava construindo e Dora, sua filha comenta que ele, gosta mais do “Megatério” que dele. Ela amava um estudante judeu, Simão. Os pais se opunham ao namoro e os namorados sofriam. Enquanto isso, os pensamentos de Eugênio estavam fixos num anúncio de jornal: o endereço novo do consultório da Dra. Olívia.

Dez minutos para chegarem.

“Olívia está fora de perigo, Deus existe?!...”


XII

Eugênio revê o seu relacionamento com Izabel. Não tinha coragem de dizer-lhe que não a amava. Na verdade, precisava sacrificar vítimas para conter o seu sentimento de inferioridade.

Em seu emprego na fábrica do sogro, vive conflitos existenciais, mostra-se fraternal para com a secretária e para com os outros empregados na intenção de comprar-lhes a cumplicidade.

Um dia, um acidente mata um operário: Toríbio Nogueira, 37 anos, casado, cinco filhos. O Sr. Cintra incumbe Eugênio para providenciar os encaminhamentos dentro das leis trabalhistas e ironiza afirmando que ele tem jeito para essas coisas.

À noite quando todos saíram, Eugênio apanha seu chapéu e vai á procura de Olívia.

Confessa-lhe que sentiu sua falta e pergunta-lhe se um dia ela o amou.

Eugênio, em seguida, comenta que ela deve ter sofrido todo esse tempo, sem um amigo, sozinha. Ela responde que ele deixou a melhor das recordações naquela última noite. Leva-o para o seu quarto e Eugênio pode ver uma criança dormindo no berço. Comovido, ele se reconheceu no bebê adormecido.

Passam pelo parque. Lembra-se que passeou com Olívia e Anamaria há poucos dias por entre aquelas árvores. Depois daquela verdade, sua vida tinha mudado: visitava a filha todos os dias e durante quinze dias, o seu convívio com Olívia foi intenso.

O carro estacionou a porta do hospital, Irmã Isolda vem recebê-lo e murmura que, Olívia morreu ao anoitecer, na santa paz do Senhor. O seu corpo estava sendo velado na capela.
PARTE II
XIII

Eugênio relê a carta que Olívia lhe escreveu, poucas horas antes de morrer. Era uma carta de despedida, deixando Anamaria aos seus cuidados e avisando que na gaveta da cômoda havia um maço de cartas que ela havia escrito de Nova Itália expressamente “para não te mandar”.

Passou pelo “Megatério”, pensou em Filipe e em sua ambição.
XIV

Eunice ofereceu um jantar a Túlio Altamira, pintor paulista e ocorre uma discussão entre Túlio e Acélio Castanho que defende que, só a castidade pode elevar o homem dos animais irracionais.


XV

Eugênio sonha que está parado em uma calçada, observando as meninas de um orfanato. Acorda desesperado, pensa em Anamaria. Agora passa a maior parte de seu tempo na casa dos Falk, relendo as cartas de Olívia. Fica a refletir o que estava fazendo naquele momento em que Olívia pensava nele e lhe escrevia. Talvez resfolgasse como um animal nos braços de Izabel...


Tinha tido apenas a ilusão de viver, mas na verdade andara morto entre os homens.”
XVI

Eugênio, sempre que deixava a casa dos Falk, Anamaria perguntava por que ele não dormia ali.

Essa situação estava sufocando-o, até que não aguentando mais, resolve contar tudo a Eunice.

Eugênio chegou afirmar que foi patife em casar-se com ela, pelo dinheiro. Ela responde que aquilo não era nenhuma novidade, que, por sua vez, havia casado com ele por extravagância e pura piedade.

Eugênio deixou a casa de Eunice naquela mesma noite.
XVII

Eugênio montou seu consultório em duas salas de aluguel barato, num edifício modesto e tinha como amigo e confidente, o Dr. Seixas. Seus pacientes eram em sua maioria empregados do comércio, funcionários públicos, estudantes pobres e prostitutas.

Sr. Cintra tentou fazer-lhe um acordo, uma viagem, mas, Eugênio estava decidido. Eugênio passou a fazer as suas refeições com os Falk e fazia Anamaria dormir.
Uma noite quando relia as cartas de Olívia, o telefone tocou. Chamado urgente.
XVIII

Era Izabel. Queria saber se existia outra mulher na vida dele.

Eugênio compra o jornal para procurar o anúncio que havia colocado pedindo informações sobre o paradeiro de Ernesto. Naquele dia no consultório, atendeu três homens e duas mulheres com doenças venéreas. O sexto cliente era uma menina. O pai queria saber se a filha ainda era virgem.

Á noite, voltando de um chamado urgente encontrou Dora e Simão, sentados num dos bancos da praça, bem na frente do “Megatério”. Dora conta que um professor falou contra os judeus e que Simão tinha se retirado da sala de aula. Simão não vê esperanças para o namoro entre eles. Seus filhos seriam desprezados pelos judeus e pelos cristãos.

Eugênio promete interceder, mas Simão diz que:

O Eng. Filipe Lobo só compreende as criaturas de cimento armado e aço.”


XIX

Havia dias escuros na nova vida de Eugênio. Os jornais daquele dia anunciaram a viagem de Eunice e do pai à Europa. Chegavam versões diversas sobre o seu rompimento com Eunice: dizia-se que ele havia apanhado a mulher nos braços de Filipe, ou nos braços de Acélio Castanho, que Eugênio era impotente sexual...


XX

Uma manhã Simão foi buscar Eugênio para ir socorrer-lhe o pai, Sr. Mendel Kantermann. Depois de tirá-lo do perigo, Simão quis que ele conhecesse sua casa, sua miséria, falava que a mãe só tinha um seio em virtude da crueldade dos homens. Quis pagar-lhe a consulta e contou que mostrou toda a sua vida à Dora, para o prazer doentio de torturá-la.

Em casa o Dr. Seixas o esperava para uma intervenção cirúrgica e em seguida, diz que tinha uma supressa para ele. Era Florismal que estava internado. Conversaram sobre o passado. Florismal morre depois de uma semana.

Aquela noite, Eugênio folheou o álbum de fotografias de Olívia. Nada sabia sobre o seu passado. Havia uma foto ao lado de um rapaz e por baixo do retrato, havia um nome e duas datas: Carlos - 1921-l923. Talvez fosse o homem que primeiro a tivera nos braços.


XXI

A clientela de Eugênio aumentava cada vez mais. Uns comentavam que ele queria a medicina socializada porque tinha mentalidade de funcionário público, outros diziam que ele era comunista...Teve em suas mãos um caso impressionante. Um antigo funcionário público, trabalhador, honesto, resolve se internar num hospício, pois conclui que está louco, justamente por portar essas qualidades.

Outros casos são: um casal, onde a mulher estava quase cega de ambos os olhos. Não tinha caso de cegueira na família e começou a perder a visão aos poucos. Quando Eugênio fica a sós com a mulher pergunta-lhe quantos abortos, ela praticara: Dez, e, outro, um homem fino, da alta-sociedade, preocupado por estar fracassando na cama com suas amantes.

Numa manhã de domingo, Eugênio, foi à casa de Seixas e indaga o motivo das flores em cima da mesa da sala. Ele responde que vinham da parte do Dr. Ilya Dubov. Ele era um homem solitário, não tinha parentes, nem amigos e não queria ficar esquecido depois de morrer. Dizia à D. Quinota que estava lhe emprestando as flores, que quando morresse, ela tinha que levar todos os sábados um buquê bem bonito à sua sepultura.


XXII

Dora e Simão aparecem no consultório de Eugênio. Ela estava grávida de três meses e queriam que ele fizesse um aborto. Ele se nega a fazê-lo e diz que o melhor remédio é contar tudo a Filipe. Ao ligar para Filipe, a secretária diz que ele não podia atender naquele momento. Simão desafia Eugênio afirmando que tinham procurado um amigo, mas que procuraria então qualquer desconhecido, uma parteira ou um médico que faria o que ele negou-se a fazer.

Eugênio tenta impedir a saída deles, mas não quis usar de violência, acreditando que tinha tempo de avisar Filipe, para que ele interviesse. Já no escritório de Filipe, Eugênio é acusado como médico e responsável por não ter impedido à saída de Dora.

Passaram o resto da tarde à procura do casal. À noite, Seixas traz-lhe a notícia:

A Anunciata, aquela cachorra, fez o aborto...veio uma hemorragia...quando viu a coisa preta pediu socorro pro Rezende...O Rezende não quis ficar com a responsabilidade...Chamou o pai de Dora...Não foi possível fazer mais nada. A menina morreu ao escurecer. Simão ainda estava desaparecido.”
XXVIII

Aquele final de inverno foi escuro e triste para Eugênio. A morte de Dora, a morte de um velho cliente, Seixas vivendo atormentado pelos credores e pela bronquite crônica...

Uma noite, resolve ir ao teatro e vê Eunice, Sr. Cintra e Acélio Castanho. Ao passar pelo “Megatério” pensa em Dora e em Olívia.

Em setembro acordou com os gritos da filha, mostrando-lhe o sol. À noite conversando com Seixas diz que cada dia que passa era uma revelação para ele, que estava encontrando na vida, em carne e osso, velhos conhecidos dos livros: Fausto, Hamlet, Pigmalião.

Fausto entrou-lhe no consultório na pessoa de um homem de 68 anos, viúvo que ia se casar com uma mocinha de 18 anos e queria algo que o fizesse rejuvenescer.

Hamlet, era uma guarda-livros, comia pouco, dormia mal, não acreditava em ninguém e tinha uma ideia fixa de suicídio.

Pigmalião chamava Ramão Rosa, 50 anos, agiota, sua esposa fugira com um sargento da Brigada Militar...

Pensa nas palavras de Olívia:

Felicidade é a certeza de que nossa vida não está se passando inutilmente. O erro é pensar que o conforto permanente, o bem-estar que nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade.”

Eugênio pergunta se Seixas tinha notícias de Simão.

Não faria nenhuma loucura, pois o tempo cicatriza todas as feridas. Em breve Dora desapareceria da vida de Filipe, de Isabel e de Simão, assim como a própria Olívia havia de desaparecer da sua.”
XXIV

31 de dezembro. Faltavam dez minutos para a meia-noite. Eugênio parado na janela observa o “Megatério” que seria inaugurado naquele dia. Ele só queria saber em que estaria Filipe pensando no momento em que o governador declarasse inaugurado o edifício.

A meia-noite, durante os cumprimentos, D. Frida deseja que Deus dê felicidades a todos e saúde a Anamaria.

Seixas apareceu à meia-noite e vinte minutos, brindaram e saíram. Seixas estava pessimista. Eugênio comenta que excelentes homens de governo dariam os médicos. Seixas retruca, dizendo que na maioria dos casos, quando os médicos sobem aos postos do governo, se esquecem de que são médicos e passam a ser apenas políticos.

Seixas olha para Eugênio e pergunta se ele vai mesmo salvar a humanidade. Eugênio responde que:

Antigamente só pensava em mim mesmo. Vivia como cego. Foi Olívia quem me fez enxergar claro. Ela me fez ver que a felicidade não é o sucesso, o conforto. Uma simples frase me deixou pensando: Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e, no entanto nem Salomão em toda a sua glória se cobriu como um deles.”

Eugênio continuava a falar que existiam duas espécies de crueldade: a crueldade que se comete por cegueira, por incompreensão, e a crueldade que se comete por prazer. Por isso que ele acreditava que havia um grande trabalho para médicos e professores. È uma questão de reeducação.

“Uma revolução pode mudar um sistema de governo, mas não conseguirá melhorar a natureza do homem, dizia Seixas. O ódio é masculino, o amor é feminino, completava.

Hoje quando a Quinota me abraçou à meia-noite chorou, a coitada. Tem sido companheira de primeira. Há trinta anos numa noite como esta fiz lá promessas ...Mudar de vida, ganhar dinheiro, comprar uma casa, um carro. Tudo continuou como antes.”

No fim do verão, Eugênio recebeu a notícia que, Eunice e Acélio iam embarcar para o Uruguai, onde se casariam sob contrato. Abriu o jornal na coluna de pequenos anúncios, onde pedira notícias de Ernesto. Havia de encontrá-lo, custasse o que custasse. Continuou a folhear o jornal e lê que Dr. Filipe estava empenhado em nova realização. Dobrou o jornal, pensando em Dora.

Naquele momento refletiu como pode um dia tão maravilhoso como aquele, os homens estarem a trabalhar. Com certeza esses homens lhe responderiam que, era para ganhar a vida. E, no entanto, a vida estava ali a se oferecer toda, numa gratuidade milagrosa. Pediu para D. Frida arrumar Anamaria; pois, iriam dar um passeio. Quando a filha se apresentou pronta, Eugênio reviu nela, a Olívia da noite da formatura.

Eugênio sentia-se em paz e feliz. De repente fica sério. Estava pensando na menina que atendera a noite passada. Era magra, suja, triste, mal vestida e mal alimentada. Existiam na cidade, no Estado e no país milhares de crianças nas mesmas condições. Não bastava que ele se sentisse feliz, que tivesse Anamaria ao seu lado, alegre, bem vestida...

Era preciso pensar nos outros e fazer alguma coisa em favor deles. Por que não começar algum trabalho em benefício das crianças abandonadas? Seixas com certeza o ajudaria.”

Amava as crianças e os moços. Achava que os adultos e os velhos estavam perdidos.

- Mas ninguém está perdido“ - falou Olívia em seu espírito. Ele havia esquecido o som da voz dela. No entanto sabia que Olívia estava viva e que ela marcara uma entrevista à sombra das árvores do parque, enquanto Anamaria atirasse migalhas para os marrecos.

E de mãos dadas, pai e filha saíram para o sol.”
Exercícios para sala


  1. Podemos dizer que a obra de Veríssimo Olhai os lírios do campo classifica-se como:

  1. Regionalista romântica;

  2. Regionalista de 30;

  3. Crítico social

  4. De tese




  1. O dueto central que alimenta a trama circunda em:

  1. Eugênio e Olívia

  2. Eugênio e Eunice

  3. Angelo e Eunice

  4. Olívia e Felipe




  1. Amor de Eugênio e colega de trabalho. ... é mais uma das clássicas figuras femininas de Érico, que transparece doçura e compreensão frente às inquietudes dos personagens masculinos, mas que não esconde uma grande força e determinação. A passagem se refere a:

  1. Eunice;

  2. Olívia

  3. Anamaria

  4. Amélia




  1. Em relação a Eugênio e incorreto afirmar:

  1. profundamente pessimista, infeliz e complexado.

  2. filho de um alfaiate pobre

  3. dua motivação era "ser alguém", adquirir posição social e não ter que passar pelas humilhações que julgava ter passado na infância.

  4. profissão: enfermeiro




  1. Olívia na obra:

  1. Assim como Eugenio, Olívia cursa a faculdade de medicina em Porto Alegre com facilidades.

  2. Olívia é mais uma das clássicas figuras femininas de Érico, que transparece doçura e compreensão frente às inquietudes dos personagens masculinos, mas que esconde uma grande força e determinação.

  3. Grande amor de Eugênio e colega de trabalho.

  4. luta em manter a carreira de médica e cria a filha Anamaria com a ajuda de Eugênio

Exercícios para Casa


LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA BRASILEIRA

TEXTO I


EVOLUÇÃO

Apertaram-se as mãos. A última vez que Eugênio vira Filipe fora poucos dias após o seu rompimento com Eunice. Filipe o procurara para tentar uma reconciliação.

- Aonde vais?

- Ia indo para o consultório.

- Os doentes que esperem. Se fosse em Esparta eles seriam jogados desfiladeiro abaixo. Vem comigo, vamos subir ao último andar do “Megatério”. Já estiveste lá? Não? Pois vais ver um espetáculo formidável.

...............................................................................................................................

......................................................

- Não é um colosso? – perguntou Filipe.

Operários passavam com carrinhos de mão cheios de argamassa, despejavam-nos sobre uma rede de finas vigas de ferro, que pareciam os nervos simétricos daquele monstro.

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......................................................

Um avião decolava do rio, alçava-se na direção das montanhas.

- Olha aquele avião, pensa neste arranha-céu, naqueles outros grandes edifícios e em tudo mais que o homem construiu aqui e em outras partes do mundo. – Apertou com mais força o braço do amigo.

– Se todos pensassem como tu, a terra seria ainda nua e desolada.

- Mas é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo... – retrucou Eugênio, lembrando-se duma sentença muito do gosto do velho professor do “Columbia College”.

- Sim. Queres dizer que é preciso haver médicos e construtores, advogados e sapateiros, alfaiates e poetas. Concordo. Mas eu falo é na maneira de sentir a vi da. Tu te lembras daquele dia em que te procurei para te fazer ver a loucura que tinhas cometido? – Eugênio sacudiu a cabeça afirmativamente. – Quis abrir-te os olhos. És moço, tens vida como o diabo pela frente, podias fazer coisas formidáveis com o dinheiro de Cintra. Só um fraco é que se importa com o que o povo pode dizer. Que é o povo? O povo é aquilo.

Mostrou lá embaixo vultos miúdos e escuros que se agitavam nas ruas e calçadas.

...............................................................................................................................

......................................................

- Olha, menino – prosseguiu Filipe. – Não há nada mais humano do que querer gozar a vida. O mundo é dos ativos, dos que acordam cedo e dos que têm audácia de dar os grandes golpes. Vocês sentimentais vivem falando em humanidade e no entanto não são humanos. (...).

- Só há uma verdade – continuou Filipe. – O forte engole o fraco e para o fraco só há uma esperança: a de fazer-se forte e entrar na competição.

Texto adaptado de VERÍSSIMO, Érico, Olhai os lírios do campo. 53ª ed., Porto Alegre – Rio de Janeiro, Editora Globo, 1984, pp. 205-9

Glossário:

Colosso – objeto de enormes dimensões.

Megatério – (no texto) arranha-céu, enorme edifício de cimento armado


1. Verifica-se que Filipe se empenha em convencer Eugênio, personagem principal de Olhai os lírios do campo, a tirar proveito da riqueza de Cintra. A cena em questão e o título do romance enviam-nos a um texto universalmente famoso, o texto bíblico. A esse diálogo entre textos dá-se o nome de:

a) coerência textual

b) contexto

c) tipologia textual

d) intertextualidade
2. Com base nas categorias intertextuais da citação (forma explícita e literal de sobreposição entre textos, na qual o texto citado geralmente se apresenta entre aspas); do plágio (empréstimo não declarado, porém literal, de um texto de outro autor) e da alusão (reenvio de um enunciado, de forma menos explícita e menos literal do que nos procedimentos anteriores a outro texto) pode-se afirmar que na passagem “Se fosse em Esparta, eles seriam jogados desfiladeiro abaixo”, ocorre:

a) uma citação histórica

b) uma alusão histórica

c) plágio de um texto histórico

d) as letras a e b estão corretas
3. De acordo com o contexto situacional da cena em análise, na resposta à pergunta “Que é o povo?” feita a Eugênio por Filipe, inscreve-se que este (Filipe):

a) exprime a admiração pelos trabalhadores da construção civil.

b) usa certa entonação de voz, indicativa

de seu apreço pelos trabalhadores em atividade.

c) revela o preconceito em relação às pessoas humildes, pertencentes a classes sociais desprestigiadas.

d) exprime a preocupação com os menos favorecidos.


4. Para a caracterização de Eugênio, protagonista do romance em estudo, está correta a seguinte proposição:

a) jovem intelectual pequeno-burguês alienado.

b) imigrante português rebelde e rejeitado pela família.

c) jovem médico bem sucedido, porém infeliz.

d) jovem médico de origem humilde e grande ambição.
5. Da análise do excerto de Olhai os lírios do campo aqui reproduzido, pode-se afirmar:

a) a narração dos fatos é feita em 3ª pessoa; o narrador é onisciente por possuir uma visão

privilegiada dos personagens e acontecimentos .

b) a narração dos fatos é feita em 3ª pessoa; o narrador não é onisciente, pois sua visão dos personagens e acontecimentos é limitada.

c) a narração dos fatos é feita por Eugênio, personagem do romance.

d) a narração dos fatos é feita em 1ª pessoa; o narrador é personagem secundário no romance


6. Com base na leitura integral do romance, é correto afirmar que a personagem Eunice, referida no 1º parágrafo do texto, corresponde à:

a) mãe de Eugênio

b) amante de Eugênio

c) esposa de Filipe

d) irmã de Eugênio

e) esposa de Eugênio


7. "Tu te lembras daquele dia em que te procurei para te fazer ver a loucura que tinhas cometido?"
No período acima reproduzido, a utilização da 2ª pessoa do singular é marca de linguagem típica do gaúcho, cuja fala sofreu a influência do português lusitano dos imigrantes açorianos. Transpondo o período em análise para uma variedade de fala urbana, em nível coloquial, da maioria das regiões brasileiras, tem-se:

a) Você se lembra daquele dia em que o procurei para fazê-lo ver a loucura que tinha cometido?

b) Tu lembra daquele dia em que te procurei para fazer-te ver a loucura que tinha cometido?

c) Você se lembra daquele dia em que o procurei para fazer-lhe ver a loucura que tinha cometido?

d) Tu te lembras daquele dia em que lhe procurei para lhe fazer ver a loucura que tinhas cometido?

e) Você lembra daquele dia em que lhe procurei para lhe fazer ver a loucura que tinha cometido?


8. Verifica-se o emprego da partícula “se” com indicação de reciprocidade na passagem:

a) “Um avião decolava do rio, alçava-se na direção das montanhas.”

b) “Mostrou lá embaixo vultos miúdos e escuros que se agitavam nas ruas e calçadas.”

c) “Apertaram-se as mãos.”

d) “Só um fraco é que se importa com o que o povo pode dizer.”

e) “...para o fraco só há uma esperança: a de fazer-se forte...”


9. De acordo com a norma culta, substituindo-se o verbo haver em “...é preciso haver médicos e construtores,...” pelas estruturas:

I. É preciso existirem médicos e construtores.

II. É preciso existir médicos e construtores.

III. É preciso ter médicos e construtores.

Está(ao) correta(s) apenas

a) I b) II c) III d) I e) II e III




P rof. Raul Castro






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