Vigotski e o "aprender a aprender"



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VIGOTSKI E O "APRENDER A APRENDER"

CRÍTICA ÀS APROPRIAÇÕES NEOLIBERAIS E PÓS-MODERNAS DA TEORIA VIGOTSKIANA

ORELHA DO LIVRO:
"Aprender a aprender" foi um lema defendido pelo movimento escolanovista e adquiriu novo vigor na retórica de várias concepções educacionais contemporâneas, especialmente no construtivismo. No mundo todo, livros, artigos e documentos oficiais apresentam o "aprender a aprender" como um emblema do que existiria de mais progressista e inovador, um símbolo da educação do século XXI. A psicologia de Vigotski vem sendo apontada por muitos educadores como um dos pilares de propostas educacionais centradas no "aprender a aprender". A obra do psicólogo L. S. Vigotski seira, de fato, compatível com o "aprender a aprender", como o construtivismo, com o escolanovismo? Neste livro, Newton Duarte responde negativamente a essa questão, defendendo a necessidade de uma leitura marxista

da psicologia vigotskiana e a necessidade de um trabalho de incorporação dessa psicologia à construção de uma pedagogia crítica e historicizadora. Nesse sentido, o autor mostra existirem aproximações entre o construvivismo, o pós-modernismo e o neoliberalismo para então desfechar uma crítica contundente às

interpretações que vem sendo difundidas no meio educacional acerca da psicologia vigotskiana, as procuram incorporar tal psicologia ao universo ideológico neoliberal e pós-moderno. Evidenciando o caráter radicalmente marxista da psicologia vigotskiana, o autor apresenta ainda uma análise minuciosa da crítica feita por Vigotski à teoria do jovem Piaget no segundo capítulo do livro Pensamento e Linguagem.
EDITORA AUTORES ASSOCIADOS

uma editora educativa a serviço da cultura brasileira


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Diagramaçáo e Composição

Eriça Bombardi


Capa

Criação e Leiaute a partir de

Pássaro-Serpente e Espantalho, 1921. de Max Ernst

Míííon José de Almeida


Arte-Final

Eriça Bombardi


Impressão e Acabamento

Gráfica Paym


VIGOTSKI E O "APRENDER A APRENDER"

CRÍTICA ÀS APROPRIAÇÕES NEOLIBERAIS E PÓS-MODERNAS DA TEORIA VIGOTSKIANA


NEWTON DUARTE

2ª Edição Revista e Ampliada


COLEÇÃO EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA
EDITORA

Autores Associados.


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (ClP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP Brasil)


Duarte, Newton

Vigotski e o "aprender a aprender": crítica às apropriações neoliberais e

pós-modernas da teoria vigotskiana/ Newton Duarte - 2. ed. rev. e ampl. -

Campinas, SP: Autores Associados , 2001. (Coleção educação contemporânea)


Bibliografia.

ISBN 85-85701-91-9


l. Psicologia educacional 2. Vigotsky, Lev Semenovich, 1896-1934 l. Título.

II. Título: Crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana.

III. Série.

00-0443 CDD-370.15


índices para catálogo sistemático:
Vigotsky : Psicologia educacional 370.15

1ª edição - março de 2000

Impresso no Brasil - agosto de 2001

Copyright (c) 2001 by Editora Autores Associados

Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme Decreto n" l .825, de 20 de dezembro de 1907.
Nenhuma parte da publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer meio,

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de comércio, sem autorização expressa do autor ou de quem o represente, ou consistir na reprodução de

fonograma e videograma, sem autorização do produtor ou de quem o represente:
Pena - reclusão de um a quatro anos e multa."

Um homem completo possui a força do

pensamento, a força da vontade e a força do

coração. A força do pensamento é a luz do

conhecimento; a força da vontade é a energia do

caráter; a força do coração é o amor.

LUDWIG FEUERBACH
Alessandra, a você dedico este livro.
Vejo a vida como uma constante caminhada

dirigida para esse horizonte do homem completo,

lutando contra tudo o que em nossa sociedade

constitui uma barreira a essa caminhada. Espero

sempre continuar em busca do conhecimento (a

força do pensamento), procurando não esmorecer

na luta pelos valores que defendo (a força da

vontade). Quanto à força do coração, já o alcancei:

é o amor que sinto por você.

Conclamar as pessoas a acabarem com as

ilusões acerca de uma situação é conclamá-las

a acabarem com uma situação que precisa

de ilusões.
A crítica não retira das cadeias as flores

ilusórias para que o homem suporte as

sombrias e nuas cadeias, mas sim para que

se liberte delas e brotem flores vivas.


KARL MARX, INTRODUÇÃO À CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO

DE HEGEL

SUMÁRIO

PREFÁCIO À 2ª EDIÇÃO


CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A APROXIMAÇÃO DA PSICOLOGIA VIGOTSKIANA AO LEMA PEDAGÓGICO

"APRENDER A APRENDER" É UMA ESTRATÉGIA IDEOLÓGICA
CAPÍTULO UM
O LEMA "APRENDER A APRENDER" NOS IDEÁRIOS EDUCACIONAIS

CONTEMPORÂNEOS 29

1. Os posicionamentos valorativos contidos no lema "aprender

a aprender" 33

2. O lema "aprender a aprender" no discurso oficial

contemporâneo: dois exemplos 44


CAPÍTULO Dois
NEOLIBERALISMO, PÓS-MODERNISMO E CONSTRUTIVISMO 71

1. Características do universo ideológico neoliberal e pós-moderno 71

2. Interfaces entre construtivismo e pós-modernismo e

as tentativas de unificação das idéias de Piaget e Vigotski 90


CAPÍTULO TRÊS
A HISTORICIDADE DO SER HUMANO E O ESVAZIAMENTO DA

INDIVIDUALIDADE NA SOCIEDADE CAPITALISTA 115

1. A historicidade do ser humano em Marx: a dialética entre

objetivação e apropriação 116

2. A crítica de Marx à naturalização do histórico 128

3. O "aprender a aprender" e a globalização como esvaziamento

completo do indivíduo 148
CAPÍTULO QUATRO
EM DEFESA DE UMA LEITURA MARXISTA DA OBRA DE VIGOTSKI 159

1. As tentativas de afastar a teoria de Vigotski da teoria de

Leontiev 161

2. A substituição do que escreveu Vigotski pelo que escreveram seus intérpretes

e as traduções resumidas/censuradas de textos vigotskianos 166

3. O ecletismo nas interpretações pós-modernas e neoliberais da teoria

vigotskiana 173

4. Um exemplo de crítica infundada e inconsistente à teoria

vigotskiana 190
CAPÍTULO CINCO
A CRITICA RADICAL DE VIGOTSKI A PIAGET

1. Vigotski detecta o alicerce principal do edifício teórico do jovem

Piaget: a concepção de que o pensamento egocêntrico será uma fase

intermediária entre o pensamento autista e o pensamento socializado 213

2. Vigotski faz a critica ao princípio teórico adotado por Piaget,

Segundo o qual a gênese do pensamento teria como ponto de partida

natural o pensamento autista. 224

3. Vigotski ataca o fundamento empírico de Piaget mostrando

que a linguagem egocêntrica não é uma expressão direta do

pensamento egocêntrico. 226

4. Vigotski contrapõe-se à concepção de socialização presente

na psicologia do desenvolvimento de Piaget e faz a crítica

aos pressupostos filosóficos idealistas e relativistas

dessa psicologia. 233

4. Vigotski opõe à psicologia de Piaget uma psicologia

que historicize o psiquismo humano. 248


CAPÍTULO SEIS
A PSICOLOGIA DE PIAGET É SOCIOINTERACIONISTA. 257
CONSIDERAÇÕES FINAIS

AFINAL, QUAL O SENTIDO DE SE ESTUDAR VIGOTSKI HOJE? 281


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 287
SOBRE O AUTOR 297

PREFÁCIO À 2ª EDIÇÃO


É grande minha satisfação ao escrever o prefácio à segunda edição deste livro.

Até certo ponto fui surpreendido pela tão calorosa acolhida que o mesmo encontrou

entre educadores e psicólogos de todo o Brasil e também pelo fato de a primeira

edição ter se esgotado em pouco mais de um ano. Mais importante que o tempo

relativamente curto de esgotamento da primeira edição foram as manifestações, feitas

pessoalmente ou por correio eletrônico, de leitores que encontraram neste livro uma

abordagem que veio ao encontro de insatisfações que eles há algum tempo vêm

sentindo em relação a princípios e idéias amplamente difundidos no meio educacional

brasileiro. E, aqui, reside o principal motivo de minha surpresa. Essas idéias e esses

princípios, os quais foram objeto de análise crítica neste livro, têm sido endossados e

divulgados por boa parte daqueles que, atualmente, constituem a intelectualidade da

educação e das ciências humanas em geral. Eu esperava, é certo, encontrar apoio da

parte de alguns leitores, mas justamente por ser um trabalho que rema contra a maré,

não esperava que esse apoio fosse tão expressivo em termos quantitativos

e qualitativos. Mas por que afirmei ter ficado surpreendido "até certo ponto"? Porque eu

esperava que este trabalho tocasse em questões importantes para um crescente

segmento de educadores e psicólogos que não fazem coro às retóricas neoliberal e

pós-moderna. Essa esperança não foi frustrada e, mais do que isso,

transformou-se na

convicção de que o sucesso deste livro se deve principalmente à existência de um

movimento crescente de revigoramento do marxismo no campo das ciências humanas.

Não se trata, ainda, de um movimento de grandes di-


Mensões no meio acadêmico, mas possui uma característica importante para fazer

frente aos muitos modismos que compõem o universo ideológico neoliberal e pós-

modemo: trata-se da busca de consistência e coerência em termos tanto da

elaboração teórica como também do posicionamento ideológico. A crítica ao

irracionalismo pós-moderno e ao autoritarismo neoliberal não pode prescindir do rigor

teórico, da coerência lógica e da clareza do posicionamento ideológico. Nesse sentido,

se eu não poderia deixar de ficar contente com o êxito editorial de meu livro, fico ainda

mais contente por estar convencido de que esse êxito é conseqüência de um

movimento que vai muito além das teses que defendo neste trabalho.


No que diz respeito ao tema específico do processo de apropriação da psicologia

vigotskiana, verifico também existir, tanto no Brasil como no exterior, o início de um

movimento de reação às interpretações, ainda largamente hegemônicas, que

incorporam a psicologia vigotskiana ao universo ideológico neoliberal e

pós-moderno,

tendo como conseqüência uma operação de dissociação dessa psicologia do universo

ideológico marxista e socialista. A reação a esse tipo de leitura dos trabalhos de

Vigotski ainda luta por encontrar mais espaços nos quais possa expor suas idéias e isso exige um constante e árduo esforço por superar as barreiras criadas por aqueles

que não estão habituados a ver questionadas as idéias que pretensamente

encontrariam apoio nos trabalhos de Vigotski. Uma coisa é apregoar o pluralismo, a democracia, o respeito às diferenças etc. Outra coisa bem mais difícil e rara é aceitar a

diferença quando ela implica o questionamento de idéias e princípios que são

admitidos quase que consensualmente por aqueles que alcançaram alguma projeção

no meio acadêmico graças à aceitação acrítica dessas idéias e desses princípios. Em

suma, o rei pode estar nu desde que ninguém toque no assunto, muito menos

questione as razões dessa nudez e do silêncio sobre ela. Mas, felizmente, no Brasil e

no exterior aumenta a cada dia o número daqueles que não mais aceitam essa falsa

democracia e expõem suas críticas de forma clara e contundente, defendendo uma

leitura marxista da obra vigotskiana.


Venho mantendo correspondência com dois pesquisadores do exterior que têm

contribuído para a difusão de leituras marxistas dos trabalhos de Vigotski. Um deles já

é conhecido por pesquisadores brasileiros, pois já esteve no Brasil várias vezes

ministrando cursos e palestras. Trata-se do professor doutor Mário Golder, da

Universidade de Buenos Aires. Após ler Vigotski e o "Aprender a Aprender", o referido

professor consultou-me quanto à possibilidade de incluir parte do capítulo 4 ("Em Defesa de uma Leitura Marxista da Obra de Vigotski") como texto


integrante de uma coletânea por ele organizada, intitulada Vigotski: Um Psicólogo

Radical. O próprio professor Mário Golder traduziu meu texto para o espanhol e essa

coletânea será lançada em agosto próximo em Buenos Aires. Sinto-me particularmente

honrado em participar dessa publicação e deixo aqui registrado meu agradecimento ao professor Mário Golder por tão gentil convite.
O outro pesquisador, com o qual venho mantendo correspondência e que

defende uma

leitura marxista da psicologia vigotskiana, é um professor norte-americano do Departamento de

Psicologia do Edgecombe Community College. na Carolina do Norte, professor doutor Mohamed

Elhammoumi, o qual fez a gentileza de me enviar dois artigos seus. um publicado neste ano e

outro ainda no prelo. Em ambos os artigos ele formula uma crítica àquelas interpretações distantes dos fundamentos filosóficos marxistas da teoria vigotskiana ou até mesmo hostis ao

marxismo. Elhammoumi afirma que
O uso que Vigotski faz do conceito de "forças sociais de produção" reflete

sua fundamentação na teoria marxista. Ele viveu durante a Revolução Russa,

um tempo de extrema tensão entre privado e coletivo, individual e social. Foi

esse ambiente cultural de mudanças e desestabilizaçôes que forneceu a ele o

contexto para suas investigações científicas. Sua vida foi devotada à busca de

resolução de problemas educacionais urgentes e práticos visando contribuir

para o êxito do novo experimento socialista. Apoiado na conceituação do

fenômeno mental esboçada inicialmente por psicólogos marxistas franceses

como Henri Wallon (1879-1962) e Georges Politzer (1903-1942), sua

contribuição aos debates psicológicos da década de 20, juntamente com as

contribuições de seus colegas Luria e Leontiev, desempenharam um papel central no delineamento da direção da psicologia científica marxista.

Mas psicólogos e educadores que trabalham com a abordagem vigotskiana

(Rogoff, Wertsch, Valsiner & Van der Veer. entre outros) freqüentemente não

dominam a filosofia marxista ou são hostis a ela (Joravsky, Kozulin, Moscovici,

entre outros). Alguns deles afirmam até que Vigotski não é um psicólogo

marxista e que ele nunca esteve comprometido com a construção

de uma psicologia marxista. [...] Contudo, uma adequada apreciação da psicologia

vigotskiana não é possível sem que sejam consideradas suas relações com

Marx e com a tradição marxista 1.
NOTA DE RODAPÉ:
Trechos extraídos do artigo intitulado "To Create Psychology's Own Capital". o qual

será publicado no livro intitulado Vigotsky's Cultural-Historical Psychology,

organizado por Dorothy Robbins e Anna Stetsenko.

Esse distanciamento do marxismo produz leituras unilaterais da obra vigotskiana,

nas quais são destacados alguns conceitos e omitidos outros. Elhammoumi mostra que

o modismo produzido nos Estados Unidos da América do Norte em torno da psicologia

soviética levou os entusiastas dessa corrente da psicologia a
...focarem sua atenção no papel do signo e da palavra, na fala e na linguagem, no desenvolvimento das funções mentais superiores, da consciência e da ação humana. Assim,

os principais conceitos do programa de pesquisa sócio-histórico-cultural têm sido esquecidos

na explosiva produção de artigos sobre o pensamento de Vigotski, Luria e Leontiev. Os mais

importantes conceitos foram excluídos. Quais são esses conceitos importantes? De acordo com os textos clássicos da teoria sócio-histórico-cultural, a totalidade dos fenômenos

psicológicos humanos, incluindo a consciência humana, é derivada da atividade prática

socialmente organizada. A teoria sócio-histórico-cultural vê a mediação semiótica, os

processos simbólicos e os processos cognitivos como secundários porque eles derivam das

interações que indivíduos estabelecem na concreta atividade prática socialmente

organizada. Conceitos que são primários, que não são derivados, mas sim aspectos da atividade prática socialmente organizada, incluem: sistemas sociais, ideologias, formas

institucionais de trabalho, formas institucionais de educação, materialismo dialético,

alienação, relações sociais de produção, meios psicológicos de produção, modos

psicológicos de produção de conceitos sociais e relações psicológicas de produção 2.


Outra questão que não posso deixar de abordar neste prefácio é a publicação, no Brasil,

do texto integral de Pensamento e Linguagem, traduzido agora diretamente do russo e publicado

com o título A Construção do Pensamento e da Linguagem 3.
Trata-se de um acontecimento que diz respeito diretamente a este meu livro, pois

no quarto capítulo (p. 167) escrevi o seguinte: "Embora a grande maioria dos livros

publicados no Brasil sobre o pensamento de Vigotski seja absolutamente omissa quanto a isso, o fato é que a tradução para o português do livro Pensa-
NOTA DE RODAPÉ:

2. Trecho extraído das páginas 203-204 do texto intitulado "Lost - or Merely Domesticated?

The Boom in Socio-Historicocultural Theory Emphasises Some Concepts, Overlooks Others".

integrante da coletânea intitulada The Theory and Practice ofCultural-Historícal Psychology,

organizado por Seth Chaklin e publicada neste ano de 2001 pela editora da Universidade de Aarhus, Dinamarca.
3. L. S. Vigotski, A Construção do Pensamento e da Linguagem, São Paulo, Martins

Fontes, primeira edição em março de 2001, tradução do russo por Paulo Bezerra.


mento e Linguagem (VYGOTSKY, 1993 b), cuja primeira edição brasileira foi lançada em

1987, não é tradução do texto integral, mas sim de uma versão resumida publicada em inglês, nos EUA, no ano de 1962. Essa versão resumida cortou mais de 60% do texto original pois o texto, na versão integral, publicado nas obras escolhidas em espanhol

(VYGOTSKI, 1993a, pp. 11 -347) tem 337 páginas, enquanto na edição em português tem 132 páginas". Também nesse capítulo afirmei ser auspiciosa a notícia - constante do prefácio de Paulo Bezerra, como tradutor do livro Psicologia da Arte, de Vigotski -, de

que estaria no prelo a edição do texto integral de Pensamento e Linguagem. Até o

momento em que eu concluía os últimos acertos em Vigotski e o "Aprender a

Aprender", ainda não fora, porém, lançada essa prometida edição. Eis que agora ela já está à disposição do público brasileiro, fato esse que deve ser comemorado. Desde

meu livro Educação Escolar, Teoria do Cotidiano e a Escola de Vigotski, cuja primeira edição data de 1996, venho insistindo na necessidade de publicação em português do

texto integral de Pensamento e Linguagem. No quinto capítulo de Vigotski e o 'Aprender a Aprender", analiso o texto integral do capítulo 2 de Pensamento e Linguagem e

mostro o quanto o texto da edição resumida perde em termos da radicalidade da crítica vigotskiana à teoria do então jovem Piaget.


Mas se vejo como motivo de comemoração esse trabalho de tradução de

Pensamento e Linguagem diretamente do russo e de publicação do texto integral, não posso deixar de problematizar dois aspectos relativos a essa edição. Devo deixar claro

que não se trata de questionar a tradução propriamente dita, pois não domino o idioma

russo. Mas mesmo não dominando o idioma original no qual foi escrito esse livro,

posso fazer algumas observações como estudioso da obra vigotskiana.
O primeiro aspecto que problematizarei é algo comentado pelo professor doutor

Paulo Bezerra, no prólogo que escreveu como tradutor do livro:


Outro conceito criado por Vigotski diz respeito ao processo de aprendizagem e chegou ao Brasil como zona de desenvolvimento próxima!, [...] Trata-se

de um estágio do processo de aprendizagem em que o aluno consegue fazer

sozinho ou com colaboração de colegas mais adiantados o que antes fazia com

auxílio do professor, isto é, dispensa a mediação do professor. Na ótica de

Vigotski, esse "fazer em colaboração" não anula mas destaca a participação

criadora da criança e serve para medir o seu nível de desenvolvimento

intelectual, sua capacidade de discernimento, de tomar a iniciativa, de começar

a fazer sozinha o que antes só fazia acompanhada, sendo, ainda, um

valiosíssimo critério de verificação da eficácia do processo de

ensino-aprendizagem. Resumindo, é um estágio em


que a criança traduz no seu desempenho imediato os novos conteúdos e as novas habilidades adquiridas no processo de ensino-aprendizagem, em que ela

revela que pode fazer hoje o que ontem não conseguia fazer. É isto que

Vigotski define como a zona de desenvolvimento imediato, que no Brasil

apareceu como zona de desenvolvimento proximal(!). Por que imediato e não

esse esquisito próxima?. Por dois motivos. Primeiro: o adjetivo que Vigotski

acopla ao substantivo desenvolvimento (razvítie, substantivo neutro) é

blijáichee, adjetivo neutro do grau superlativo sintético absoluto, derivado do

adjetivo positivo bfízkii, que significa próximo. Logo, blijáichee significa o mais

próximo, "proxíssimo", imediato. Segundo: a própria noção implícita no conceito

vigotskiano é a de que, no desempenho do aluno que resolve problemas sem a

mediação do professor, pode-se aferir incontinênti o nível do seu

desenvolvimento mental imediato, fator de mensuração da dinâmica do seu

desenvolvimento intelectual e do aproveitamento da aprendizagem. Daí o termo

zona de desenvolvimento imediato [VIGOTSKI, op. cit., pp. X-XI].
Minhas objeções à interpretação desse conceito vigotskiano pelo professor Paulo

Bezerra não se dirigem à tradução como zona de desenvolvimento imediato em

substituição ao realmente esquisito termo zona de desenvolvimento próxima!, cujo uso no Brasil talvez tenha sido decorrente da influência da bibliografia em inglês (zone of próxima! development). Por influência da bibliografia em espanhol, da qual tenho me

utilizado com freqüência, adotei o uso da tradução zona de desenvolvimento próximo

{zona de desarrollo próximo) mas, como já explicitei, não domino o idioma russo e não posso afirmar qual seja a melhor tradução do adjetivo empregado por Vigotski. Minha



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