Vigotsky, L. S pensamento e linguagem



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VIGOTSKY, L. S.. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 2. Ed.
ÍNDICE

- Introdução VII

- Prefácio à tradução inglesa XIII

- Prefácio do autor XVII

1. O problema e a abordagem 1

2. A teoria de Piaget sobre a linguagem e o pensamento das crianças 9

3. A teoria de Stern sobre o desenvolvimento da linguagem 23

4. As raízes genéticas do pensamento e da linguagem 29

5. Um estudo experimental da formação de conceitos 45

6. O desenvolvimento dos conceitos científicos na infância 71

7. Pensamento e palavra 103

- Bibliografia 133


INTRODUÇÃO
Lev Semenovich Vygotsky nasceu em 1896. Em seu tempo de estudante na Universidade de Moscou foi um leitor ávido e assíduo no campo da lingüística, das ciências sociais, da psicologia, da filosofia e das artes. Foi a partir de 1924 que teve início o seu trabalho sistemático em psicologia. Dez anos mais tarde, aos 38 anos, morria de tuberculose. Naquele período, trabalhando em conjunto com estudantes e colaboradores tão talentosos como Luria, Leontiev e Sakharov, iniciou uma série de pesquisas em psicologia do desenvolvimento, educação e psicopatologia, muitas das quais interrompidas por sua morte prematura. O presente livro, publicado postumamente, em 1934, condensa uma fase muito importante da obra de Vygotsky e, embora seu tema central seja a relação entre pensamento e linguagem, trata-se, ao nível mais profundo, da apresentação de uma teoria extremamente original e bem fundamentada do desenvolvimento intelectual. A concepção de Vygotsky sobre o desenvolvimento é também uma teoria da educação.

Para um público de língua inglesa, será de pouca utilidade seguir o curso ideológico da obra de Vygotsky através dos terremotos e das tempestades que envolvem a psicologia na União Soviética. “Era inevitável que sua obra viesse a perturbar os guardiões doutrinários da “correta interpretação marxista”, especialmente durante o período da ‘batalha pela conscientização”. Em 1958, ao apresentar as traduções alemãs da obra de Vygotsky na Zeitschrift für Psychologie, Luria e Leontiev — dois de seus mais talentosos colaboradores — afirmaram que “a primeira e mais importante tarefa naquela época [últimos anos da década de 20 e ano de 1930, quando a ‘batalha pela conscientização” tomou-se mais intensa] consistia em liberar-se, por um lado, do behaviorismo corrente e, por outro, da abordagem subjetiva dos fenômenos mentais enquanto condições subjetivas exclusivamente internas, cuja investigação só pode ser realizada por introspecção”. Não surpreende, então, que a obra Pensamento e Linguagem, de Vygotsky, tenha sido proibida em 1936, dois anos


VII
após ter surgido, só voltando a ser publicada em 1956. Pois ele não suportaria nem o reducionismo materialista ou mentalismo, nem o fácil dualismo cartesiano, que optavam frontalmente por uma das abordagens e relegavam a outra a um plano secundário. De fato, bem no início de sua carreira de psicólogo, Vygotsky escreveu: “Na medida em que ignora o problema da consciência, a psicologia impede o seu próprio acesso à investigação de problemas complicados do comportamento humano, e a exclusão da consciência da esfera da psicologia científica tem como principal conseqüência a preservação de todo o dualismo e espiritualismo da psicologia subjetiva anterior.” Embora o livro tenha sido oficialmente proibido, seu impacto sobre o pensamento de toda uma geração de psicólogos, lingüistas e psicopatologistas russos continuou sendo enorme.

Em termos de nossa própria perspectiva intelectual, os pontos de vista de Vygotsky podem ser superficialmente rotulados como funcionalismo ou instrumentalismo, ou, possivelmente, como Psicologia do Ato. Sob a perspectiva ideológica marxista, Vygotsky tornou-se conhecido como o homem que percebeu a determinação histórica da consciência e do intelecto humanos. Mas um exame do lugar ocupado por Vygotsky na psicologia mundial revela que a sua posição transcende tanto o funcionalismo habitual, do tipo Dewey-James, quanto o materialismo histórico convencional da ideologia marxista. Vygotsky é original. Nós lhe prestamos um desserviço quer quando lhe atribuímos importância unicamente por haver desenvolvido as concepções soviéticas do homem, quer quando o traduzimos erroneamente para a linguagem do funcionalismo, ou quando nos limitamos a considerar as suas afinidades com George Herbert Mead, com quem apresenta uma interessante semelhança.

O leitor encontrará a epígrafe “Natura parendo vincitur” no frontispício de uma das obras de Vygotsky, e, de fato, em Pensamento e Linguagem Vygotsky elabora em que sentido ele acredita que dominando a natureza dominamos a nós mesmos. Pois é a interiorização da ação manifesta que faz o pensamento, e, particularmente, é a interiorização do diálogo exterior que leva o poderoso instrumento da linguagem a exercer influência sobre o fluxo do pensamento. O homem, por assim dizer, é modelado pelos instrumentos e ferramentas que usa, e nem a mente nem a mão podem, isoladamente, realizar muito. Vygotsky faz a epígrafe acima seguir-se de uma citação de Bacon: “Nec manus, nisi inteilectus, sibi permissus, multam valent: instrumentis et auxilibus res perficitur.” E se nem a mão nem o intelecto prevalecem por si sós, os instrumentos e seus produtos são os fluxos em desenvolvimento da linguagem interiorizada e do pensamento conceitual, que algumas vezes caminham paralelamente e outras vezes fundem-se, um influenciando o outro.

O pensamento de Vygotsky é apresentado de forma tão clara nesta tradução que, neste prefácio, quase não se faz necessário apresentar um sumário de seu trabalho e de sua teoria. Ele situa suas idéias sobre a


VIII
relação entre linguagem e pensamento na perspectiva das teorias de filo- gênese do desenvolvimento intelectual, dando uma atenção especial à obra anterior de Koehler e Yerkes sobre os grandes macacos antropóides. Sua posição é muito semelhante à obra mais moderna dos antropólogos físicos, que especularam sobre o uso de “ferramentas de pedra” como tendo configurado a evolução do Australopithecus e de outros hominídeos. De fato, se Vygotsky tivesse sido um anatomista, muito provavelmente teria compartilhado do ponto de vista, tão caro a William James, de que a função cria O órgão. Após concluir que a fala e o pensamento têm raízes diferentes, e que a estreita correspondência entre o pensamento e a fala, que se constata no homem, não está presente nos antropóides superiores, ele se volta diretamente para a tarefa de explorar o comportamento das crianças pequenas, que apresenta uma fase pré-lingüística no que diz respeito ao uso do pensamento, e uma fase pré-intelectual quanto ao uso da fala. Três autores que estudaram o desenvolvimento do pensamento e da fala servem-lhe de ponto de partida: Karl Buehler, William Stern e Jean Piaget. De Piaget, Vygotsky conheceu apenas os dois primeiros livros. Em um artigo publicado separadamente(1), Piaget relata o seu desenvolvimento desde os primeiros anos da década de 30 até a obra de Vygotsky, da qual ele só veio a ter um conhecimento mais profundo quando pôde dispor da presente tradução.

Ao abordar o desenvolvimento intelectual e lingüístico das crianças, Vygotsky desenvolve o seu tema relacionado à interiorização do diálogo em fala interior e pensamento, opondo seu ponto de vista ao então adotado por Piaget, que considerava o desenvolvimento da fala como a supressão o egocentrismo, fornecendo, assim, tanto à psicologia quanto à lingüística, a mais profunda análise da fala interior. Descarta a grosseira posição de Watson, que equipara o pensamento à fraca atividade muscular, e deixa claro que, ao contrário de Max, não vê a fala interiorizada como vibrações musculares da laringe, mas sim como representação interna. Trata-se, no melhor sentido, de uma abordagem analítica e teórica. A experimentação sistemática é rara, mas, sempre que há um relato de experimentos e observações, eles demonstram tamanha perspicácia, que se deseja que houvesse mais — como a observação de crianças descrevendo um quadro em palavras em comparação com a representação dramática que elas fazem do que há no quadro.

É quando Vygotsky chega à discussão do desenvolvimento do agrupamento conceitual nas crianças — de amontoados a complexos a pseudo-conceitos e, então, a conceitos verdadeiros — que se percebe a sua capacidade e o seu talento como empirista. Usando os seus blocos, talvez a única coisa que o tornou conhecido em seu país, Vygotsky acompanha a
(1) Jean Piaget, Comments on Vygotsky’s Critical Remarks, Cambridge, The M.I.T. Press, 1962.
IX
forma pela qual o desenvolvimento intelectual da criança adquire uma estrutura classificatória que torna possível o uso da linguagem como um instrumento lógico e analítico do pensamento. Antes disso, na ausência de estruturas conceituais, a linguagem desempenha outros papéis que não aquele. Finalmente, Vygotsky explora o modo pelo qual os conceitos mais rigorosos de ciência e pensamento disciplinado têm o efeito de transformar e dar uma nova direção ao aparecimento dos conceitos espontâneos” nas crianças. Deixo ao leitor o prazer de descobrir o conceito de inteligência de Vygotsky como uma capacidade de beneficiar-se da instrução, e sua proposta radical de que testemos a inteligência tendo isso em vista.

Sob muitos aspectos, o livro é mais programático do que sistemático. Às vezes chega com aflitiva rapidez a conclusões que são aceitáveis naquela penumbra especial vertida pelas observações de bom senso. Mas mesmo esse bom senso de que Vygotsky faz uso em seu trabalho não foi adquirido numa poltrona, mas sim a partir da observação incessante de crianças aprendendo a falar e a solucionar problemas. A morte prematura de Vygotsky interrompeu uma corrente de experimentos em desenvolvimento; todavia, seu trabalho só agora começa a se refletir na atividade vigorosa dos psicólogos e lingüistas soviéticos contemporâneos.

Só mais uma observação adicional deve ser feita na apresentação deste livro forte e original. Vygotsky representa, ainda, um outro passo à frente no esforço cada vez maior para a compreensão dos processos cognitivos. Seu ponto de vista é o da atividade mediada. Os conceitos e a linguagem que os infunde dão força e estratégia à atividade cognitiva. A capacidade de impor estruturas superiores no interesse de ver as coisas de modo mais simples e profundo é tida como um dos poderosos instrumentos da inteligência humana. Consideremos um comentário ao acaso: “Os novos conceitos superiores transformam, por sua vez, os inferiores. O adolescente que adquiriu o domínio dos conceitos algébricos já está numa posição de vantagem, da qual vê os conceitos aritméticos sob uma perspectiva mais ampla.” Ao longo destas páginas enfatiza-se repetidamente a capacidade que o homem tem de criar estruturas de ordem superior que, na verdade, substituem e dão novo valor às estruturas conceituais que já foram superadas a caminho do domínio de ordem superior. E uma imagem do homem que confere um lugar central ao esforço para aprender e dominar a natureza, como um instrumento que nos liberta dos esforços e resultados anteriores. “Neste, como em outros exemplos da passagem de um nível de significado ao nível seguinte, a criança não tem que reestruturar separadamente todos os seus conceitos anteriores, o que de fato seria um trabalho de Sísifo. Uma vez que uma nova estrutura tenha sido incorporada a seu pensamento... esta gradualmente estende-se aos conceitos mais antigos, à medida que estes são introduzidos nas operações intelectuais superiores.” Supõe-se que Vygotsky, ao fazer tais observações, esteja expondo um programa de pesquisas, e não uma conclusão comprovada;
X
no entanto, ele coloca a questão de uma forma que traz, em si, uma imagem vigorosa e inteligente do homem.

Vygotsky, de fato, introduziu uma perspectiva histórica na compreensão de como o pensamento se desenvolve e do que é, na verdade, o pensamento. Mas o interessante é que ele também propôs um mecanismo por meio do qual a pessoa se torna livre de sua própria história. É para Vygotsky que se voltam os psicólogos soviéticos ao examinarem o modo pelo qual o homem luta, livre do domínio do condicionamento estímulo-resposta do tipo pavloviano clássico. Vygotsky é o arquiteto do Segundo Sistema de Sinais proposto por Pavlov numa reação contra a rigidez excessiva de suas teorias anteriores. E o Segundo Sistema de Sinais que fornece os meios pelos quais o homem cria um mediador entre ele mesmo e o mundo da estimulação física, de forma a reagir em termos de sua própria concepção simbólica da realidade. O que agrada aos teóricos marxistas nessa concepção é o papel claramente reconhecido da sociedade e da atividade social na configuração do Segundo Sistema de Sinais — as estruturas mediadoras por meio das quais os estímulos sinais do mundo físico são filtrados. Para mim, o impressionante é que, dado um mundo pluralista onde cada indivíduo chega a um acordo com o meio ambiente a seu próprio modo, a teoria do desenvolvimento de Vygotsky é também uma descrição dos muitos caminhos possíveis para a individualidade e a liberdade. E nesse sentido, penso eu, que ele transcende, como teórico da natureza do homem, os dilemas ideológicos que dividem tão profundamente nosso mundo de hoje.

Jerome S. Bruner

Cambridge, Massachusetts

Julho de 1961
XI
PREFÁCIO À TRADUÇÃO INGLESA(2)
A primeira edição de Pensamento e Linguagem(3) apareceu alguns meses após a morte do autor. Ao preparar o livro para publicação, Vygotsky tentou juntar ensaios avulsos num todo coerente. Muitos deles haviam sido escritos anteriormente, e alguns haviam sido publicados; outros foram ditados durante a fase final de sua doença. O livro não é muito bem organizado — talvez por ter sido preparado às pressas — o que torna um tanto difícil a apreensão imediata de sua unidade interna essencial. Algumas discussões são repetidas quase que palavra por palavra em capítulos diferentes, quando não no mesmo capítulo; numerosas digressões polêmicas fazem com que o desenvolvimento das idéias seja um tanto obscuro. O editor da primeira edição russa apontou alguns desses problemas em seu prefácio, mas decidiu deixar o texto de Vygotsky intacto. Vinte e dois anos mais tarde, quando Pensamento e Linguagem foi reeditado em um volume de obras escolhidas de Vygotsky(4), muito poucas alterações foram feitas.

No final da década de 30, uma das tradutoras desta edição, Eugenia Hanfmann, em colaboração com J. Kasanin, voltou a alguns dos estudos de Vygotsky sobre a formação dos conceitos; ela se lembra muito bem das idas e vindas necessárias para desvendar o texto. Quando, em 1957, A. R. Luria, amigo e colaborador de Vygotsky, convidou-a para participar da tradução de Pensamento e Linguagem, ela expressou a sua convicção de que uma tradução literal não faria justiça ao pensamento de Vygotsky. Chegaram ao consenso de que a repetição excessiva e certas discussões polêmicas que seriam de pouco interesse para o leitor contemporâneo deveriam ser eliminadas, em favor de uma exposição mais clara.


(2) A tradução foi financiada por uma bolsa de estudos do Public Health Service, T-13, da Division of General Medical Sciences.

(3) Soc.-econom. izd., Moscou-Leningrado, 1934.

(4) Izd. akad. pedag. nauk, Moscou, 1956.
XIII
Ao traduzir o livro, simplificamos e tornamos mais claro o estilo de Vygotsky, ao mesmo tempo que nos esforçamos para reproduzir com exatidão sentido. A organização interna dos capítulos foi preservada, exceto no Capítulo 2, onde omissões externas resultaram em uma reestruturação do texto e em um número extremamente reduzido de subdivisões.

Embora nossa tradução mais compacta pudesse ser considerada uma versão simplificada do original, sentimos que a condensação aumentou a clareza e a legibilidade do texto, sem qualquer perda quanto ao conteúdo do pensamento ou à informação factual. Infelizmente, o texto russo não continha informações detalhadas dos estudos de Vygotsky e daqueles de seus colaboradores: das quatro séries de pesquisas às quais o livro se refere, apenas o método de Shif [37] teve uma descrição relativamente detalhada. Vários desses estudos foram resumidamente apresentados em congressos e revistas especializadas [47, 49], mas, segundo o professor Luria, nenhum foi publicado na íntegra.

A bibliografia da edição russa está reproduzida no final deste livro, com alguns acréscimos. Apesar destes, a bibliografia não representa adequadamente o grande número de fontes utilizadas por Vygotsky. O tratamento dado por ele às referências era muito assistemático. Algumas das publicações por ele incluídas na bibliografia não são diretamente mencionadas no texto. Por outro lado, muitos dos autores discutidos no texto não estão incluídos na sua bibliografia, assim como muitas obras de lingüística com as quais Vygotsky estava obviamente familiarizado. Corrigimos algumas das omissões. Por exemplo, incluímos na bibliografia o estudo de Ach sobre a formação de conceitos, o qual Vygotsky discute minuciosamente. Além disso, incluímos dois artigos de Vygostky, publicados em periódicos norte-americanos [51, 52], assim como os dois primeiros artigos em inglês sobre sua obra [15, 16] e um artigo recente em alemão [25]. A maior parte dos títulos das obras em alemão, francês e inglês foram dados por Vygotsky nos idiomas originais; alguns, no entanto, foram incluídos em suas traduções russas; estes nós substituímos pelos títulos originais. Todas as citações foram traduzidas do russo, conforme constavam no texto de Vygotsky, inclusive aquelas de autores não-russos, com exceção dos trechos de Piaget — numerosos e geralmente longos —, que traduzimos diretamente do francês.

Somos gratos à The Williams & Wilkins Company por haver permitido as citações extraídas de Conceptual Thinking in Schizophrenia, de E.

Hanfmann e J. Kasanjn(5), e aos editores de Psychiatry, por nos terem permitido reeditar uma antiga tradução do Capítulo 7, feita por H. Beier(6). Utilizamos partes de seu texto, inclusive a tradução de várias citações de obras literárias russas; no entanto, tivemos que retraduzir parcialmente o
(5) Nerv, and Meni. Dis. Monogr., 67, 1942.

(6) L. S. Vygotsky, “Thought and Speech”. Psvchiatry II, 1, 1939.


XIV
Capítulo para obter um grau uniforme de condensação e um estilo coerente.

Por último, mas não menos importante, somos gratos ao professor Jean Piaget por seus comentários sobre a crítica feita por Vygostky às suas primeiras obras.

E. Hanfmann

G. Vakar
XV


PREFÁCIO DO AUTOR
Este livro é um estudo de um dos mais complexos problemas da psicologia — a inter-relação entre pensamento e linguagem. Tanto quanto sabemos, trata-se de uma questão que ainda não foi investigada experimentalmente de forma sistemática. Tentamos fazer pelo menos uma primeira abordagem dessa tarefa, realizando estudos experimentais, em separado, de vários aspectos do problema. Os resultados a que chegamos nos forneceram uma parte do material em que baseamos as nossas análises.

As discussões teóricas e críticas são uma precondição necessária e um complemento da parte experimental do estudo, constituindo uma grande parte de nosso livro. As hipóteses de trabalho que servem como ponto de partida às nossas pesquisas experimentais tiveram de se basear numa teoria geral das raízes genéticas do pensamento e da linguagem. Para desenvolver tal estrutura teórica, revisamos e analisamos cuidadosamente os dados pertinentes na literatura psicológica. Ao mesmo tempo, submetemos as teorias mais importantes de pensamento e linguagem a uma análise crítica, na esperança de superar insuficiências e evitar suas falhas na busca de nosso caminho teórico.

Inevitavelmente, nossa análise invadiu alguns campos vizinhos, tais como a lingüística e a psicologia da educação. Ao discutirmos o desenvolvimento dos conceitos científicos na infância, utilizamos a hipótese de trabalho que diz respeito à relação entre o processo educacional e o desenvolvimento mental, que havíamos desenvolvido em outra ocasião empregando um corpo de dados diferentes.

A estrutura deste livro é forçosamente complexa e multifacetada e, no entanto, todas as suas partes voltam-se para uma tarefa central: a análise genética da relação entre o pensamento e a palavra falada. O primeiro capítulo coloca o problema e discute o método. O segundo e o terceiro capítulos são análises críticas das duas teorias mais importantes sobre o desenvolvimento da linguagem e do pensamento, a de Piaget e a de Stern.


XVII
No quarto capítulo tenta-se rastrear as raízes genéticas do pensamento e da linguagem: esse capítulo serve como introdução teórica à parte principal do livro: as duas investigações experimentais que são descritas nos dois capítulos seguintes. O primeiro estudo, no quinto capítulo, trata da evolução geral do desenvolvimento dos significados das palavras na infância; o segundo, no sexto capítulo, é um estudo comparativo do desenvolvimento dos conceitos “científicos” e dos conceitos espontâneos da criança. O último capítulo tenta vincular os diferentes resultados de nossas investigações e apresentar o processo total do pensamento verbal, tal como aparece à luz de nossos dados.

Talvez seja útil enumerar brevemente os aspectos de nossa obra que acreditamos serem novos e que exigem, por conseguinte, uma cuidadosa verificação. Além da nossa formulação diferente do problema, e do método parcialmente novo que utilizamos, nossa contribuição pode ser assim resumida: (l)fornecemos provas experimentais de que os significados das palavras passam por uma evolução durante a infância, e esclarecemos os passos fundamentais dessa evolução; (2) revelamos o modo singular como os conceitos “científicos” das crianças se desenvolvem, em comparação com os seus conceitos espontâneos, e formulamos as leis que regem o seu desenvolvimento; (3) demonstramos a natureza psicológica específica e a função lingüística da linguagem escrita em sua relação com o pensamento:

e (4) esclarecemos, pela experimentação, a natureza da fala interior e a sua relação com o pensamento. Não cabe a nós fazer uma avaliação das nossas descobertas e da forma como as interpretamos; essa tarefa deve ser deixada aos nossos leitores e críticos.

O autor e os seus colaboradores vêm investigando o campo da linguagem e do pensamento já há quase dez anos, durante os quais algumas das hipóteses iniciais foram revistas ou abandonadas, por serem consideradas falsas. Entretanto, a linha fundamental de nossa investigação seguiu a direção tomada desde o início. Sabemos das inevitáveis imperfeições deste estudo, que nada mais é do que um primeiro passo numa nova direção. No entanto, sentimos que, ao desvendarmos o problema do pensamento e da linguagem como a questão central da psicologia humana, contribuímos de alguma forma para um progresso essencial. Nossas descobertas indicam o caminho para uma nova teoria da consciência, sobre a qual fazemos uma breve referência no final de nosso livro.


XVIII
1. O PROBLEMA E A ABORDAGEM
O estudo do pensamento e da linguagem é uma das áreas da psicologia em que é particularmente importante ter-se uma clara compreensão das relações interfuncionais. Enquanto não compreendermos a inter-relação de pensamento e palavra, não poderemos responder, e nem mesmo colocar corretamente, qualquer uma das questões mais específicas desta área. Por estranho que pareça, a psicologia nunca investigou essa relação de maneira sistemática e detalhada. As relações interfuncionais em geral não receberam, até agora, a atenção que merecem. Os métodos de análise atomísticos e funcionais, predominantes na última década, trataram os processos psíquicos isoladamente. Métodos de pesquisa foram desenvolvidos e aperfeiçoados com a finalidade de estudar funções isoladas, enquanto sua interdependência e sua organização na estrutura da consciência como um todo permaneceram fora do campo de investigação.

A unidade da consciência e a inter-relação de todas as funções psicológicas tiveram, na verdade, aceitação unânime; admitia-se que as funções unitárias operavam inseparavelmente, em conexão ininterrupta uma com a outra. Mas, na psicologia antiga, a premissa incontestável da unidade combinava-se com uma série de pressupostos tácitos que a invalidavam para todos os propósitos de ordem prática. Era ponto pacífico que a relação entre duas funções determinadas nunca variava; que a percepção, por exemplo, estava sempre ligada de maneira idêntica à atenção, a memória à percepção, o pensamento à memória. Como constantes, essas relações podiam ser, e eram, reduzidas a um fator comum e ignoradas no estudo das funções isoladas. Uma vez que essas relações continuavam a não ter importância, considerava-se o desenvolvimento da consciência como sendo determinado pelo desenvolvimento autônomo das funções isoladas. No entanto, tudo o que se sabe sobre o desenvolvimento psíquico indica que a sua essência mesma está nas mudanças que ocorrem na estrutura interfuncional da consciência. A psicologia deve fazer dessas relações e de suas variações ao longo do desenvolvimento o problema



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