Vira o disco Vira o tétrico disco e segue adiante



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Vira o disco
Vira o tétrico disco e segue adiante.
E daí que a vida matou o amor,
que enegreceu o que era somente cor,
que envelheceu teu coração infante?

Segue adiante e vira o tétrico disco.


Há de ter outras cores numa esquina
próxima. A tristeza não quer ser sina
tua. E, se for, inventa um melhor risco.

O coração, se estás vivo, não morre


e, mais, pode ser outra vez criança.
Inventa com o que vier teu porre

de coisa boa. Dança a nova dança


e diz à tristeza que a vida corre
sem o disco ruim da desesperança.

Cezar Dias

Ensaio de um milagre

O pastor ordena: levanta-te e anda,

porém dona Joana, cadeirante há 28 anos,

quebra o nariz no chão.

Era mulher de pouca fé.



Thaís Botelho da Silva

Desígnios
 

O vento tem uma hora certa


de fuga
para cada janela aberta


Rosana Banharoli


Setembro


Um poema-deserto vê um oásis
na primavera florida

Descobre cores, olores


e o silêncio da semente
rasgando o ventre da estação repetida

Um poema-fruto


brota na ruga do tempo cíclico


Solange Firmino de Souza

A MORTE

Eu vejo a morte...

Na esquina,

No carro que buzina.


Ela é minha vizinha;

Me espia atrás da cortina.


Então se afasta;

Finge que vai embora,

Mas não se atrasa

Quando chega a hora.



Gilson André França de Mattos

O poeta e o vento

Em dias de vento

Farfalham as folhas, os fios

Voam vestidos, vibram as vigas


Eu ensurdeço

-é demasiado som –

E me escondo para dentro.
(É inverno, sempre venta.)
Quando há vento em mim,

Fustigam-me as frases, os fatos

Desvelam-se as veias, flanam os fonemas
Eu agradeço

- abro a boca, o verso vai –

E eu me desvendo.
(É inverno, sempre venta.)

Teresa Azambuya


EU, NAU
Eu, nau

lasso, liso, luso

deslizo, desnudo

sem rumo, sem prumo

e me é áspera a tez de Netuno.
Eu, sim

aos ventos, venturas, venturânsias.

E singro e sangro

sem tino, sem norte, à sina, à sorte.

Mas sempre me perco, mas sempre me acho.
Eu, náufrago

naufrago, calado, mudo, mudo de rota:

sempre existirão tormentas, tormentos

a naufragar-me

eu, nau frágil.

Dilceu Lúcio Carvalho Dias

Trevo
Brotará do chão

intrépido

o ramo
e o paralelepípedo

tão concreto


de vértices pontiagudos

arestas perpendiculares

ângulos retos

e nublados


verdejará

Igor Rosa Dias de Jesus

Viagem

O trajeto foi somente

do Mercado Público

até a Praça da Matriz.

Tempo suficiente

para eu viajar a Paris.



Iara Rosali Miranda

Copa Drummondo

Argentina ganhou da Coreia,

que ganhou da Grécia,

que ganhou da Nigéria

que não ganhou de ninguém.


Laura dos Santos Boeira

Condição
À soleira da porta

as despedidas

permanecem

Cíntia Perin


INSTANTE MUDO

Agarro


o grito

agudo


que brota

curto


da garganta

aberta


fresta besta

em pausa


dramática:
o sussurro

espasmo lento

de um gemido

surdo.


Carolina Duarte da Silva

Os olhos inundam quando a mente transborda.



Anelize Zeidler


Meus Heróis

Super – Homem,

Batman,

Incrível Hulk,



Mulher Maravilha...
Meus pais nunca voaram,

Mas sempre chegavam antes.


Alexandre Lettner dos Santos

Faz frio
A noite gélida
geme ao ingerir a madrugada.

As horas num conta-gotas


trazem memórias à toa.

Cada pingo é um lamento,


e a lágrima, um alento.

Tiago Dias da Silva


Metaphorai



Repara

no nome

daquele


grande

dragão


fumegante

que captura

nossas


almas

para o


purgatório

diário:


Ônibus.

Marcelo Alves

Proposta a um leitor em pé

Queria que esse verso fosse lido

junto de uma chuva

que escorresse pelo vidro



Ana Luiza Trindade de Melo


ASSENTO VERMELHO










Cochilo no banco do ônibus

Pensamentos eróticos detém-me

Entre seres anônimos, alguém me seduz

De repente uma voz soa suave e normal

Dá licença, este assento preferencial

Jordan Maia da Silva Padilha

Com o Tempo

As estações mudam

O tempo

As coisas mudam



Com o tempo.

As estações mudam

A paisagem das flores

Ao mudar o tempo,

Que muda meu pensamento

Ao ver que tudo muda

Com o tempo.
Vagner Brum Bitencourt

Assombro
Assomam as sombras ao cair da noite

Insones, sortidas, sondando a névoa,

Assentam o medo em meio ao escombro,

Pressentem temores e assopram num silvo.


Tomando de assalto sensatos sentidos,

Sibilam, sonoras, em som-assobio,

Sugando verdades, somando-se às trevas,

Sumindo assim que o sol se aproxima.


Assustam, pois são sinais de silêncio

Sonâmbulas, surgem e somem no vento,

Sorrindo, selvagens, saudando o assombro,

Sorvendo o sossego do ser sonolento.




Tatiana Alves Soares Caldas

O MONSTRO

Ele esteve aqui.


Eu vi seus dentes enormes


E sua boca cuspindo fogo.
Eu vi quando engoliu a todos

E se foi, bufando

Como um cão danado
Mas soube depois

Que era do bem

E vomitou todo mundo,

Bem depressa,

Na primeira estação do trem!

Luiz Ernani Silveira de Souza


MOMENTOS

Apaixonada, entrou no ônibus e leu a placa:

“Fale ao motorista somente o indispensável”

Suspirou e então disse: - Eu te amo!



Milton Braga da Mota Junior

História de Caronte

Por uma estrada de terra

que corta sete praias

e sobe sete morros

se chega à casa de meus avós.

Carga grande só pelo mar,

inclusive o transporte dos mortos,

e foi assim que Bito Celidônio

gritou lá do alto do morro

perguntando quem tinha falecido

e o barqueiro respondeu

que tinha sido o Bito Celidônio.




Domingos Fábio dos Santos

Dilúculo

Amanheceu em águas turvas

Paralisada em prosa


Mariah de Olivieri



Perda

Ficou-me duro de roer este osso

Outrora – a desventura de perdê-la

Hoje prescindo dos favores dela:

Bebo água limpa do meu próprio poço.
Sofrer até um limite xis eu posso,

Já que torna a alma resistente e bela,

Entre na trama austera da novela

Da vida que escolhi e ainda endosso


Não são os males ditos naturais,

Mas os do coração que doem mais

Há uma compensação, ao que se sabe:
Se aqui não há um bem que sempre dure,

Ou a que nenhum desfeito se misture

Também não há um mal que não se acabe
José Nedel


As janelas

O ônibus que vai encontra o ônibus que vem

E as janelas se alinham

De pé está um homem no ônibus que vai

De pé está uma mulher no ônibus que vem

E os olhos se alinham

Ela advinha dele a idade, supõe a profissão

Ela advinha dela a idade e o tamanho das ancas

O movimento do ônibus que vai

E o movimento do ônibus que vem

Põe as janelas em desalinho

Os olhos


Os pensamentos

Cristiane Dias




Uma palavra

Gosto de abrupto

Parece nome de bicho

Um daqueles que voam

De repente cai uma coisa

Justo em cima da gente


José Schenkel Weis



Curso noturno


Quanta lua – meu Deus! – desperdiçada

Quanta estrela – amor! – ignorada


Tanto perfume na noite...

Tanta carícia na mão...


E esses teus lindos olhos

Metidos numa equação!


Maria Cecília Consentino Franco

Fino Tecer


Sentado em pequeno tosco branco

Junto à parede azul mofada

Tece santinha quieta no canto

Roupa branca pelo uso amarelada


Rama de luz que entra pela janela

E a agulha rápida no tecido entranha

A linha aos poucos se desnovela

Entrelaçando que nem sutil aranha


Da vitrola chuva de música soando

Enfeitando o ambiente de alegria

A criança aos pés seus brincando
Sem interromper com paciência urdia

E o tempo com pressa passando

Querendo a noite fenecer o dia

Cosme Custódio Silva

Vó Preta


O capricho daquela casa

Se via pela janela

Do asseio do assoalho

Até o brilho das janelas


Mas ao cerrar dos olhos

Pobre da preta velha

Todo aquele capricho

Foi-se embora com ela




José Edy

Contraponto!

Não!


Por favor

Não ria


Não se mova

Não vire


Não estrague

Este momento!


Você

É o poema

Que estou

Lendo!


João Fernandes Lucho Melgrejo



Pássaro

Livro


Objeto perfeito

Aberto


Tem asas

Que levam

Ao céu

Do pensamento




Maria da Graça Landell de Moura

Amor Roubado

Ela ficou bem ao lado

Sensual e sem alardeio

O corpo ao meu encostado

Provocou bom devaneio
De repente ela desceu

E o namorico terminou

Não sei o que aconteceu

Pois à ligeira ela apeou


Atordoado mesmo fiquei

Na verdade muito abatido

Pois quando o bolso apalpei

A carteira tinha sumido



Alcir Nicolau Pereira

Encontro fortuito na manhã fria

e teu sorriso incandescente

ilumina meu dia.


Inútil tentar esconder

meu júbilo quase louco


sonhando o beijo latente

que poderia acontecer

...daqui a pouco.


Paulo César Tórtora

Teatro orgânico

A língua feita de táboas

Sobre nós, teto, palato

Engole todas as mágoas

Ceia no último ato
Grande plateia dentária

Ternos e vestidos pretos

Cáries numa indumentária

Desconhecem os sonetos


Devorado, destemido

Surge o ator faminto

Tenta não ser digerido

Suco gástrico de vaias




Jean Marcel Snege

INFÂNCIA

Riqueza de menino é corgo

e uma mãe ocupada
também calo de bilosca

febre em dia de semana

pernoite de prima

um trem vindo

quando em meio ao pontilhão
riqueza de menino

é não saber o dilúvio

como se aquieta

Fernando Fábio Fiorense Furtado

Imperativo anatômico

“Fulano só se preocupa com o próprio umbigo!”

“Sicrano devia cuidar do seu nariz!”

Beltrano, no entanto, percebeu que sempre que tentava olhar para o umbigo surpreendia, em meio ao olhar vesgo de quem mira um único ponto a curta distância, o seu nariz.

Beltrano, então, virou filósofo e famoso aforista. Sua mais conhecida máxima sentencia: “Aquele que presta atenção ao próprio umbigo, jamais perde de vista o seu nariz”.

Douglas Hugentobler Gimenis

Novelo

Puxei o fio da meada

assim, como quem não quer nada

Não me custa tentar desatar

ver se rende conversa fiada

Rodrigo Domit

ORFANDADE

Apenas a rosa e o peso de sua beleza

confrontando a rude ambiência

da favela.

Há canteiros de incertezas

interditando o avanço das cores,

mas no ar dançam abutres insistentes

numa coreografia que se repete

contra a sisudez do caos

enquanto o calor grelha

os ombros cansados do operário das lixeiras.

Anjos de porcelana

dividem o mofo das paredes:

sussurram segredos de Rilke

entre balas perdidas.

Ronaldo Cagiano


Pensei...
Pensei em escrever um poema,
O telefone tocou

O gato miou

O carteiro chegou

A luz apagou

Meu bem me chamou
E o poema voou...
Karine Alves Rosa

USINA DO GASÔMETRO
Chaminé de nuvens

Sol faz tricô

Na linha do horizonte

Evandro Marques de Souza

Sobrado Velho

A mosca supersônica

Fugiu do pulo da rã

Invadindo o espaço aéreo

(mal iluminado)

Dos mosquitos


Chegaram os grilos

Nesta polifonia insética,

E vaga-lumes falhantes

Completaram a festa


A mosca solista

Iniciou apresentação

Na teia duma aranha

Que não estava no clima,

Afinal, Seu marido havia morrido.


Daniel Luis de Souza


Etapas
A manhã esperta

brinca inteira

na criança arteira.

A tarde se enrosca dolente

nos cabelos da adolescente.

A noite azul, faz festa

dança na mulher feita.

A madrugada nebulosa

conta história.

Rimas imperfeitas

num corpo de senhora.


Gercy Oliveira Godoy


Furinho

Ela não percebeu .


Mas tinha um furinho
em sua blusa,
Talvez fosse novo...
Talvez de dias atrás...
Mas isso não importa !
pois vejo ali,
naquela pequena fresta
um vinco lindo e vistoso
possibilitando-me um mundo
de completa transgressão  .

Eduardo Silva de Morais




Da paz

Sem pompa,

Após a bomba

De efeito trágico,

E sem surgir da

Cartola de mágico,

Revoa a pomba.

Adair Philippsen


Agonia

Dentro da noite

Num beco sórdido

Num muro branco

Um gato preto

Espia


Mia

E se arrepia.




Geni Oliveira de Oliveira

Varal

Pendurei sonhos no varal

(como s fossem panos)
Pendurei panos no varal

(como se fossem sonhos)


Vesti sonhos

(como se fossem panos)


Vesti panos

(como se fossem sonhos)


O vento cessou

A corda rompeu

O pano secou
(os sonhos não cessam

os sonhos não rompem

os sonhos não secam)

Cleonice de Campos Bourscheid

SÚPLICA DE UM PASSAGEIRO APAIXONADO
Pisa fundo, seu motora,

Acelera esta latinha,

Já está passando da hora,

D’eu ver a amada minha.


Ontem cheguei atrasado,

Ela já tinha ido embora.

Desci, fiquei desoaldo,

Botei meu pranto pra fora


Meu coração ficou tonto,

Pois não vi o meu amor.

Agora sei te conto,
Como triste condutor:

Ficar no vazio do ponto,



Com peito cheio de amor.

Juarez César Fontana Miranda

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