Wilhelm reich



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Referência:

WILHELM REICH. A FUNÇÃO DO ORGASMO. PROBLEMAS ECONÔMICO-SEXUAIS DA ENERGIA BIOLÓGICA. São Paulo : Brasiliense, 2004.

Tradução: Maria da Glória Novak

Editora Brasiliense

ISBN: 85-ll-15003-X 19 edição, 1995

2ª reimpressão, 2004

Consultor para língua alemã: Otto Henrique Bock

Revisão: Antonio Sérgio Guimarães, Cecília Reggiani Lopes e Pedro Roberto Sangraal

Capa: Moema Cavalcanti

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Reich, Wilhelm, 1897— 1957.

A função do orgasmo : problemas econômico-sexuais da energia biológica /

Wilhelm Reich ; tradução Maria da Glória Novak. — São Paulo : Brasiliense, 2004.

Título original: Die funktion des orgasmus.

1. Orgasmo — 2. Orgonomia 3. Sexo (Biologia) 4. Sexo (Psicologia) 1. Título.

04-7658 CDD-615.856

Índices para catálogo sistemático:

1. Orgonomia : Terapêutica: Ciências médicas 615.856

editora brasiliense s.a.

Rua Airi, 22— Tatuapé — CEP 033 10-010 — São Paulo — SP

Fone/Fax: (Oxxll) 6198-1488

E-mail: brasilienseedit@uol.com.br www.editorabrasiliense.com.br

livraria brasiliense s.a.

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O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes

da nossa vida. Deveriam também governa-la.
WILHELM REICH

Volume 1 de A DESCOBERTA DO ORGÔNIO


ÍNDICE

PREFÁCIO 9

PREFACIO A SEGUNDA EDIÇÃO 11

INTRODUÇÃO 13

1 A BIOLOGIA E A SEXOLOGIA ANT DE FREUD 27

II PEER GYNT 42

III LACUNAS NA PSICOLOGIA E NA TEORIA DO SEXO 53

IV O DESENVOLVIMENTO DA TEORIA DO ORGASMO 80

V O DESENVOLVIMENTO DA TÉCNICA DE ANALISE

DO CARÁTER 107

VI UMA REVOLUÇÃO BIOLÓGICA ABORTADA 166

VII A IRRUPÇÃO NO CAMPO BIOLÓGICO 214

VIII O REFLEXO DO ORGASMO E A TÉCNICA DA

VEGETOTERAPIA DE ANÁLISE DO CARÁTER .... 254

IX DA PSICANÁLISE A BIOGÉNESE 304
9

PREFÁCIO


Pela morte de Wilhelm Reich, a chaga emocional reivindicou o seu mais ferrenho oponente. Através de toda a história, aqueles que foram destruídos pelos efeitos desse mal especificamente humano eram invariavelmente vitimas “inocentes”. Reich, entretanto não se deixou vitimar inocente mente. Foi o primeiro homem a estudar deliberadamente e a entender de maneira satisfatória a base biopatológica desse suplício decorrente da supressão da vida de amor genital, em grau elevado. Ao longo de toda a sua vida, visou a um método prático de combatê-lo. Nunca deixou de chamar a atenção para o fato de que a chaga emocional era o único inimigo do homem que, a menos que fosse corretamente entendido e efetivamente combatido, tornaria impossível a eliminação da agonia da criança, do adolescente e das multidões de seres humanos, biofísica e emocionalmente, doentes. Conseqüentemente, quando também caiu vítima do mesmo mal, o fato não surpreendeu. Ele compreendera o risco que corria e, com a coragem de um verdadeiro cientista, se ex- pusera aos seus efeitos destruidores, procurando, sem comprometer a verdade científica, encontrar um caminho fora da confusão legal na qual a chaga o tinha envolvido.

Desde a morte de Reich, tem havido uma procura insistente dos seus escritos, o que indica fortemente que a chaga não alcançou o seu objetivo — o encobrimento da verdade —. As calúnias à sua pessoa, com vistas a desacreditá-lo e assim desviar das suas significativas descobertas a atenção geral, perderam algo — infelizmente não a totalidade — do seu impacto; e agora se pode finalmente voltar a um desapaixonado exame de sua obra.

A FUNÇÃO no ORGASMO foi o primeiro dos escritos de Reich a ser traduzido em inglês. Não é um manual. É mais uma biografia científica. “Uma apresentação sistemática não poderia dar ao leitor uma idéia de como (...) um problema e a sua solução levam a outro; nem mostraria que este trabalho não é pura invenção; e que cada uma das suas partes deve a sua existência ao desenvolvimento próprio da lógica científica.”
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Que Wilhelm Reich, que foi o instrumento dessa lógica, devesse morrer em uma penitenciária federal é chocante. Que aqueles que se importavam com o fato não pudessem prestar nenhuma ajuda, e que houvesse muitos que o compreendessem, mas não se importassem, é trágico. Já não é possível ficar de lado e dizer “—Perdoai-os porque não sabem o que fazem”. É tempo de todos sabermos o que fazemos — e como o fazemos. É tempo de encontrarmos um caminho para acabar com essa destruição da vida, e do conhecimento da vida. Esse conhecimento existe e, com a republicação dos trabalhos de Reich, torna-se novamente acessível. Devemos aprender a tolerar a verdade. Devemos aprender a entender e a respeitar a função bioenergética da convulsão orgástica; e devemos estudar para saber no que nos tornamos, e o que fazemos, quando essa função é contrariada e negada.

Neste livro, encontra-se o conhecimento; e nesse conhecimento há esperança.

Mary Higgins, Trustee

The Wilhelm Reich Infant Trust Fund

Nova York, 1981
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PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

A descoberta do orgônio foi o resultado da firme aplicação do conceito da “energia psíquica”, inicialmente no campo cia psiquiatria. O presente volume pode considerar-se como uma introdução extensiva ao recém-aberto campo da biofísica do orgônio. Os resultados da pesquisa biofísica e física desde 1934 foram apresentados em estudos especiais no International Journal for Sex-economy and Orgone Research (1942-45). Em futuro próximo, serão reunidos e publicados em um Volume II, sob o título The Cancer Biopathy. Tem-se demonstrado claramente que o conhecimento das funções emocionais da energia biológica é indispensável para a compreensão das suas funções físicas e fisiológicas. As emoções biológicas que governam os processos psíquicos são, em si, a expressão direta de uma energia rigorosamente física, O orgônio cósmico.

A segunda edição deste livro surge inalterada.

W.R.


Nova York

Fevereiro de 1947


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INTRODUÇÃO

Este livro compreende o meu trabalho médico e científico no organismo vivo ao longo dos últimos vinte anos. Não era, a princípio, destinado à publicação. Assim, não hesitei em exprimir o que, no caso contrário, poderia ter omitido, com vistas a considerações materiais, à boa reputação no sentido geral da palavra, e a algumas correntes de pensamento ainda indecisas.

Para a maior parte das pessoas, constitui um enigma o fato de que eu possa trabalhar simultaneamente em disciplinas tão diferentes como psicologia profunda, sociologia, fisiologia, e agora também biologia. Alguns psicanalistas desejam que eu volte à psicanálise; os políticos empurram-me para a ciência natural e os biólogos para a psicologia.

O tema “sexualidade” atravessa realmente todos os campos científicos de pesquisa. No fenômeno central, o orgasmo sexual, deparamos com questões derivadas do campo da psicologia tanto quanto do campo da fisiologia, do campo da biologia não menos que do da sociologia. A ciência natural oferece apenas outro campo de pesquisa igualmente bem aparelhado para mostrar a unidade fundamental de tudo quanto vive, e para proteger contra a limitação e a especialização fragmentadora. A economia sexual tornou-se uma disciplina independente, com os seus próprios métodos de pesquisa e a sua própria substância de conhecimento. É uma teoria da sexualidade científico-natural, empiricamente estabelecida. É essencial descrever-lhe o desenvolvimento. Fazendo-o, sinto-me bastante feliz em aproveitar a oportunidade para dirimir dúvidas sobre o que posso reivindicar como minha própria contribuição, o modo como o meu trabalho se relaciona com outros campos de pesquisa, e sobre o que se esconde por detrás dos vazios rumores a respeito da minha atividade.

A economia sexual germinou no seio da psicanálise de Freud, entre 1919 e 1923. A sua separação material da matriz se deu por volta de 1928, mas até 1934 não se afastou da International Psychoanalytic Association.

O presente volume é mais uma relação de fatos e acontecimentos do que um manual. Uma apresentação sistemática da matéria não poderia mostrar ao leitor como, ao longo desses vinte anos, se sucederam problemas e soluções. Nada foi


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inventado; tudo deve a sua existência ao notável desenvolvimento da lógica científica. Não há falsa modéstia em dizer que me sinto meramente como o instrumento dessa lógica.

O método funcional de pesquisa atua como uma bússola em uma região estranha. Não conheço nenhuma prova mais clara da validade da teoria de economia sexual do que a circunstância de que a “potência orgástica”, descoberta em 1922, elemento mais importante da economia sexual, levou à descoberta do reflexo orgástico (1935) e da radiação orgonal (1939). Esta lógica inerente ao desenvolvimento da economia sexual é o seu ponto de apoio em uma confusão de opiniões. É a sua cidadela na luta contra os mal-entendidos e na solução de dúvidas graves, em um momento em que a confusão ameaça abafar o pensamento claro.

Há certas vantagens em escrever biografias científicas nos anos da juventude. Algumas das ilusões que ainda se têm nesse período, principalmente a de que a opinião pública está preparada para aceitar critérios revolucionários, tornam o indivíduo apto a aferrar-se aos fatos básicos, a resistir às múltiplas tentações de fazer acordos e a não recuar diante de conclusões decisivas com vistas à complacência intelectual, à paz de espírito, ou à aprovação do mundo. A tentação de negar a origem sexual de tantas enfermidades é muito maior no caso da economia sexual do que o era na psicanálise. Foi só com grande esforço que consegui estabelecer o termo economia sexual. Este conceito pretende abarcar um novo campo científico: a investigação da energia biopsíquica. De acordo com a visão corrente da vida, sexualidade é um termo ofensivo. É muito tentador negar completamente a sua importância para a vida humana. Será necessário, sem dúvida, o trabalho de muitas gerações antes que a sexualidade seja levada a sério pela ciência oficial e pelos leigos; não o será provavelmente antes que as questões sociais de vida e de morte atirem sobre nós a absoluta necessidade de compreender e de dominar o processo sexual, livre de repressões sociais.

Uma dessas questões ê o câncer; outra é a chaga psíquica que da origem às ditaduras.

A economia sexual é uma disciplina pertencente à ciência natural. Não se envergonha do tema sexualidade, e rejeita como seu representante todo aquele que não tenha superado o arraigado medo social da difamação sexual. O termo vegetoterapia empregado para descrever a técnica terapêutica
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da economia sexual é, de fato, uma concessão aos escrúpulos do mundo em assuntos sexuais. Orgasmoterapia seria uma expressão bem melhor, e com certeza mais correta, para essa técnica médica: é precisamente o que a vegetoterapia é, basicamente. Foi preciso levar em consideração, porém, que esse termo teria acarretado uma tensão muito grande para os jovens economistas sexuais na sua prática. Bem, isso é inevitável: mencione a essência dos seus desejos e sentimentos religiosos, e o povo rirá zombeteiramente, ou sorrirá com nojo.

Há razão para temer que, em uma ou duas décadas, a escola de economistas sexuais venha a dividir-se em dois grupos, mutuamente hostis. Um grupo afirmará que a função sexual é subordinada às funções gerais da vida, e portanto sem grande valor. O outro grupo de economistas sexuais erguerá um porte e radical protesto, e tentará salvar a honra da pesquisa da sexualidade. Nessa controvérsia, a identidade fundamental entre o processo sexual e o processo vital poderá ser totalmente obscurecida. Eu, também, poderia ceder e negar o que foi uma honesta convicção científica nos meus primeiros anos de luta. De fato, não há razão para supor que o mundo fascista cessará de ameaçar com a destruição o nosso difícil trabalho, por meio de psiquiatras e partidários políticos moralistas e tradicionais, como tem feito e continua a fazer. Os meus amigos que conhecem o escândalo norueguês criado pela campanha da imprensa fascista contra a economia sexual sabem o que quero dizer. É imprescindível, por- canto, estabelecer sem demora o que se entende por economia sexual, antes que eu mesmo comece a pensar diferentemente, sob a pressão de condições sociais obsoletas, e impeça, com a minha autoridade, a procura da verdade por parte de futuros cientistas.

A teoria da economia sexual e a sua investigação dos fenômenos da vida pode ser definida em poucas palavras.

A saúde psíquica depende da potência orgástica, i.e., do ponto até o qual o indivíduo pode entregar-se, e pode experimentar o clímax de excitação no ato sexual natural. Baseia-se na atitude de cunho não neurótico da capacidade do indivíduo para o amor. As enfermidades psíquicas são o resultado de uma perturbação da capacidade natural de amar. No caso da impotência orgástica, de que sofre a esmagadora maioria, ocorre um bloqueio da energia biológica, e esse bloqueio se torna a fonte de ações irracionais. A condição essencial para curar perturbações psíquicas é o restabelecimento


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da capacidade natural de amar. Depende tanto de condições sociais quanto de condições psíquicas.

As enfermidades psíquicas são a conseqüência do caos sexual da sociedade. Durante milhares de anos, esse caos tem tido a função de sujeitar psiquicamente o homem às condições dominantes de existência e de interiorizar a dinâmica externa da vida. Tem ajudado a efetuar a ancoragem psíquica de uma civilização mecanizada e autoritária, tornando o homem incapaz de agir independentemente.

As energias vitais regulam-se a si mesmas naturalmente, sem qualquer obrigação compulsiva ou moralidade compulsiva — ambas, sinais certos da existência de impulsos anti-sociais. As ações anti-sociais são a expressão de impulsos secundários. Esses impulsos são produzidos pela supressão da vida natural, e estão em contradição com a sexualidade natural.

Os indivíduos criados com uma atitude negativa diante da vida e do sexo contraem uma ânsia de prazer, fisiologicamente apoiada em espasmos musculares crônicos. Essa ânsia neurótica de prazer é a base na qual certas concepções de vida, negadoras da vida e produtoras de ditadores, são reproduzidas pelos próprios povos. É a própria essência do medo de um modo de vida independente, orientado para a liberdade. Esse medo se torna a mais significativa fonte de força para qualquer forma de reação política, e para a sujeição da maioria dos homens e mulheres que trabalham a indivíduos ou grupos. É um medo biofisiológico, e constitui o problema central do campo psicossomático de investigação. Tem sido até hoje o maior empecilho para a investigação das funções vitais involuntárias, que um neurótico pode experimentar apenas de um modo misterioso e assustador.

A estrutura do caráter do homem moderno, que reflete uma cultura patriarcal e autoritária de seis mil anos, é tipificada por um encouraçamento do caráter contra a sua própria natureza interior e contra a miséria social que o rodeia. Essa couraça do caráter é a base do isolamento, da indigência, do desejo de autoridade, do medo à responsabilidade, do anseio místico, da miséria sexual e da revolta neuroticamente impotente, assim como de uma condescendência patológica. O homem alienou-se a si mesmo da vida, e cresceu hostil a ela. - Essa alienação não é de origem biológica, mas socioeconômica Não se encontra nos estágios da história humazia anteriores ao desenvolvimento do patriarcado.
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O prazer natural do trabalho e da atividade tem sido substituído pelo dever compulsivo. A estrutura média da maioria das pessoas transformou-se em uma estrutura marcada pela impotência e pelo medo à vida. Essa estrutura distorcida não apenas constitui a base psicológica das ditaduras partidárias: torna possível a essas ditaduras o justificar-se evidenciando certas atitudes humanas como a irresponsabilidade e a infantilidade. A catástrofe internacional que estamos vivendo é a conseqüência última dessa alienação da vida.

A formação das massas no sentido de serem cegamente obedientes à autoridade se deve não ao amor parental mas à autoridade da família. A supressão da sexualidade nas crianças pequenas e nos adolescentes é a principal maneira de conseguir essa obediência.

Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornam-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana. A unidade e congruência de cultura e natureza, trabalho e amor, moralidade e sexualidade — desejada desde tempos imemoriais — continuará a ser um sonho enquanto o homem continuar a condenar a exigência biológica da satisfação sexual natural (orgástica). A democracia verdadeira e a liberdade baseadas na consciência e responsabilidade estão também condenadas a permanecer como uma ilusão, até que essa exigência seja satisfeita. Uma sujeição sem remédio às condições sociais caóticas continuará a caracterizar a existência humana. Prevalecerá a destruição da vida pela educação coerciva e pela guerra.

No campo da psicoterapia, desenvolvi a técnica vegetoterapia de análise do caráter. O seu princípio básico é o restabelecimento da motilidade biopsíquica através da anulação da rigidez (encouraçamento) do caráter e da musculatura. Essa técnica de tratamento das neuroses foi experimentalmente confirmada pela descoberta da natureza bioelétrica da sexualidade e da angústia. Sexualidade e angústia são funções do organismo vivo que operam em direções opostas: expansão agradável e contração angustiante.

A fórmula do orgasmo, que está na base da pesquisa econômico-sexual, é a seguinte: TENSÃO MECÂNICA — CARGA BIOELÉTRICA — DESCARGA BIOELÉTRICA + RELAXAÇÃO MECÂNICA. Esta provou ser a fórmula do funcionamento da vida como tal; levou à investigação experimental da organização da vida a partir da matéria não viva; levou à pesquisa experimental do bíon e, mais

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recentemente, à descoberta da radiação orgonal. A pesquisa no campo da sexualidade e dos bíons abriu novos caminhos para o problema do câncer e de um sem-número de outras perturbações da vida vegetativa.

A causa imediata de muitos males assoladores pode ser determinada pelo fato de que o homem é a única espécie que não satisfaz à lei natural da sexualidade. A morte de milhões de pessoas na guerra é o resultado de manifesta negação social da vida. Essa negação, por sua vez, é expressão e conseqüência de perturbações psíquicas e somáticas da atividade vital.

O processo sexual, i.e., o processo expansivo do prazer biológico, é o processo vital produtivo per se.

Isso quer dizer muito ao mesmo tempo, e parece quase “simples demais”. Essa “simplicidade” constitui o segredo que alguns percebem no meu trabalho. Quero tentar descrever como foram resolvidas as dificuldades que impediram até agora uma compreensão humana desses problemas. Tenho grande esperança de persuadir o leitor da ausência de qualquer mágica. Ao contrário, a minha teoria é apenas um conhecimento humano geral, embora não admitido, do funcionamento da vida. Deve atribuir-se à universal alienação da vida que os fatos, e as suas relações, por mim descobertos tenham sido negligenciados, ou persistentemente ocultados.

A história da economia sexual estaria incompleta sem a menção do papel desempenhado nela pelos seus amigos e colaboradores. Eles entenderão como, dentro da finalidade deste volume, tenho de abster-me de prestar a devida consideração às suas realizações. Posso afirmar a quem quer que haja lutado, e freqüentemente sofrido, pela economia sexual que, sem os seus esforços, o total desenvolvimento da teoria não teria sido possível.

Esta apresentação da economia sexual decorre exclusiva-mente da perspectiva das condições européias que levaram à catástrofe. A vitória das ditaduras deve ser atribuída à enfermidade psíquica das massas européias, que não foram capazes de controlar qualquer das formas de democracia — nem econômica, nem social, nem psicologicamente. Não estou nos Estados Unidos o tempo suficiente para julgar até que ponto a minha exposição se aplica, ou não, às condições americanas. As condições que tenho em mente não são apenas relações humanas externas e circunstâncias sociais; o que tenho em mente é a estrutura psíquica profunda do povo americano, e
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da sua sociedade. É preciso tempo para conseguir uma compreensão dessa estrutura.

Posso prever que a edição em língua inglesa deste livro será contestada em várias áreas. Os muitos anos de experiência que tive na Europa me permitem avaliar, a partir de certos indícios, a importância de um ataque, de uma crítica, ou de uma expressão de louvor. Como não há razão para presumir que as reações de certos círculos neste país serão fundamentalmente diferentes das de certos círculos europeus, gostaria de responder de antemão às possíveis objeções.

A economia sexual nada tem a ver com qualquer das organizações políticas ou das ideologias existentes. Os conceitos políticos que separam as várias camadas e classes sociais no se aplicam à economia sexual. A distorção social da sexualidade natural e a sua supressão nas crianças e nos adolescentes são condições humanas universais, transcendendo todas as fronteiras de Estado, ou grupo.

A economia sexual tem sido perseguida pelos representantes de partidos políticos de todas as crenças. As minhas publicações têm sido proibidas pelos comunistas e pelos fascistas; têm sido atacadas e denunciadas pelas autoridades policiais e pelos socialistas e liberais burgueses. Por outro lado, têm encontrado reconhecimento e respeito em todas as camadas e círculos da população. A elucidação da função do orgasmo, particularmente, foi bem recebida pelos grupos científico-profissionais e político-culturais de todos os tipos.

Supressão sexual, rigidez biológica, moralismo e ascetismo não estão confinados a certas classes ou camadas da população. Encontram-se em toda parte. Sei de clérigos que aceitam de boa vontade a distinção entre sexualidade natural e inatural, e que admitem a idéia científica de que há um paralelo entre o conceito de Deus e a lei da natureza; e sei de outros clérigos que consideram a elucidação e a compreensão concreta da sexualidade da criança e do adolescente como uma ameaça para a existência da Igreja e que, por isso, tomam medida rigorosas para combatê-las. Aplauso e ódio citam a mesma ideologia em sua defesa. Liberalismo e democracia sentiram-se tão ameaçados como a ditadura do proletariado, a honra do socialismo tanto como a honra da mulher alemã. Na realidade, só uma atitude e só uma classe de ordem social e moral é ameaçada pela elucidação do funcionamento - da vida, e é o regime autoritário ditatorial de qualquer espécie que procure, através de uma moralidade compulsiva e de um
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trabalho compulsivo, destruir a decência espontânea e a auto-regulagem das energias vitais.

Entretanto — ponhamos agora os pontos nos is — não é só nos Estados totalitários que se encontra a ditadura totalitária. Esta se encontra na Igreja tanto quanto nas instituições acadêmicas, entre os comunistas tanto quanto nos governos parlamentares. É uma tendência humana universal, causada pela supressão da vida; a educação autoritária constitui a base psicológica das massas populares de todas as nações para a aceitação e o estabelecimento da ditadura. Os seus elementos básicos são a mistificação do processo vital, um concreto desamparo de caráter material e social, o medo de assumir a responsabilidade de orientar a própria vida e, por isso, o desejo mais ou menos forte de uma segurança ilusória e de autoridade ativa ou passiva. A verdadeira e secular luta pela democratização da vida social baseia-se na autodeterminação, na socialidade e moralidade naturais, no trabalho agradável e na alegria terrena do amor. Encara qualquer ilusão como um perigo. Por isso, não somente não temerá a compreensão natural e científica da vida, mas dela se servirá para dominar os problemas decisivos para o desenvolvimento da estrutura humana de forma não ilusória, mas científica e prática. Tem havido esforços em toda parte no sentido de transformar a democracia formal em uma autêntica democracia de todos os homens e mulheres que trabalham, em uma democracia do trabalho, adaptada à organização natural do processo de trabalho.



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