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“A Passeata dos “Cem Mil” na Cidade do Rio de Janeiro no Ano de


“1968”
Simone Dubeux Berardo Carneiro da Cunha

XXIV Encontro Anual da ANPOCS


GT 1 Biografia e Memória

23 a 26 de Outubro de 2000

Petrópolis

A Passeata dos “Cem Mil” na Cidade do Rio de Janeiro no Ano de “1968”


Introdução:

...A cidade. Vista do Alto ela é fabril e imaginária, se entrega inteira como se estivesse pronta. Vista do Alto, com seus bairros, ruas e avenidas, a cidade é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém. Mas vista de perto, revela o seu túrbido presente, sua carnadura de pânico: as pessoas que vão e vêm que entram e saem, que passam sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro sangue urbano movido a juros (A Vida Bate – Ferreira Gullar).

Este trabalho1 tem por objetivo refletir sobre algumas questões relativas ao evento que passou a ser conhecido como a passeata dos cem mil na cidade do Rio de Janeiro. Comecei a construir o trabalho pensando os lugares que eram importantes para a realização da passeata. Assim como elaborei algumas entrevistas que trataram do tema da passeata, mas também de outros eventos que ocorreram e que lembravam essa época. Comecei primeiro a pensar a importância simbólica do espaço desse evento, assim como as mudanças que estavam ocorrendo durante a década de 60.

Quais os grupos que participaram da passeata? Como ela foi organizada? Pensar a cidade naquele momento, sua organização. Pensar os eventos que antecederam a passeata. Do ponto de vista dos “agentes da repressão” como foi vista a passeata? Levantamos relatórios elaborados por agentes do DOPS no arquivo público do Estado do Rio de Janeiro. A passeata é relatada em alguns trabalhos como no livro do Zuenir Ventura, 1968: O ano que não terminou; no livro 1968: o diálogo é a violência, em alguns livros de “memórias”, no livro Tropical sol da liberdade de Ana Maria Machado, nos jornais e na literatura infanto-juvenil.

Vamos descrever o lugar que aconteceu essa marcha, assim como o seu trajeto, os atores, a sua forma de organização, as palavras de ordem, os cantos, elementos que constituíram a passeata. A natureza da passeata: permitida ou proibida.




A Noção de Evento

Como falar de um evento? Vamos iniciar falando do espaço e do tempo. Relacionando o tempo a esse espaço. O tempo é 1968. O que se passava na cidade do Rio de Janeiro em 1968? Ferreira Gullar em “A Vida Bate” retrata uma parte da alma da cidade nesse momento. Selecionamos um evento nesse período – a passeata dos cem mil – e vamos a partir desse evento descrever alguns outros que antecederam a mesma e outros que aconteceram depois da passeata. Portanto, a passeata será o nosso mote para falar de acontecimentos que permearam esse ano.


Esse acontecimento está inserido no ano de 68 que é importante a nível mundial2. No Brasil, há um calendário de acontecimentos nesse ano3, através das entrevistas pudemos observar as representações coletivas sobre esse ano. Segundo o depoimento de uma informante, o ano de 1968 “marca uma idéia de efervescência muito grande em todos os sentidos. Uma idéia de que a gente estava inventando (na música, no cinema) , nos costumes... Uma idéia muito forte de invenção... Um sentimento de que, a todo momento, aparecia alguém novo querendo romper com algo” (Márcia)4.

Vamos observar no decorrer do trabalho que há um conjunto de representações que são expressas coletivamente. Um conjunto de sentimentos que são experimentados coletivamente: Alegria, tristeza, medo, perda, vitória e susto. A representação de Liberdade também estava muito presente no período. Como essas representações coletivas estavam presentes nesse processo social da passeata é algo que vamos analisar posteriormente. Era um momento de transformação, ao mesmo tempo que um momento de muita esperança.

A mesma informante continua: “Então você tinha uma perspectiva assim de Liberdade que tinha que ser defendida e as pessoas estavam investindo nisso. Então é um momento realmente, do ponto de vista das possibilidades de engajamento político e de ação política e, por outro lado, de aprofundamento e estudos nesta área da esquerda, muito, muito intenso”... “Com 68, a coisa foi piorando muito e a gente vivia numa situação realmente de muito susto”.... “Foi o ano das cassações dos nossos professores, professores de filosofia” 5(Márcia).
Fernand Braudel ao falar do acontecimento sustenta que “agradar-me-ia, encerrá-lo, aprisioná-lo, na curta duração: o acontecimento é explosivo, ruidoso. Faz tanto fumo que enche a consciência dos contemporâneos; mas dura um momento apenas, apenas se vê a sua chama” (Braudel, 10). Um acontecimento pode, em rigor, carregar-se de uma série de significações e de relações. Anexa-se um tempo muito superior a sua própria duração. Une-se a toda uma cadeia de acontecimentos. Que se opõe ao tempo breve, à medida dos indivíduos, da vida cotidiana. Daí que penso a passeata a partir dessa definição, enquanto forma de ação coletiva. A análise de uma passeata assim pensada como uma forma de ação coletiva, centra a atenção, não apenas para as reivindicações e resultados explícitos, mas também principalmente para os aspectos “formais” das manifestações e para a maneira pela qual a forma é interpretada pelos agentes. A atenção não deve limitar-se ao evento em si, mas também a toda sua elaboração prévia e a todas as apropriações e reapropriações a que está sujeito depois de sua realização (Comerford, 1999: 145).
A década de 60 foi um momento de forte significação para a cidade, pois foi nessa década que depois de quase 200 anos, o Rio de Janeiro perdia a posição de capital federal para Brasília, lembrando os diversos significados que isso possa representar.
Os Acontecimentos e os seus Lugares:
Em seu livro Memória e Sociedade Ecléa Bosi ao trabalhar a relação tempo e memória diz que: Cada geração tem, de sua cidade, a memória de acontecimentos que permanecem como pontos de demarcação em sua história (Bosi, 1994: 418).

Em cada evento relatado observamos a cidade como cenário de lutas e manifestações. E que esses espaços onde ocorreram formas concretas de conflitos sociais e de protestos têm sua dimensão simbólica. Na mobilização designada como Passeata dos Cem Mil uma diversidade de grupos ocuparam as ruas da cidade do Rio de Janeiro nos espaços da Cinelândia à Candelária. Esses lugares carregam a aura desses eventos e são marcados através da memória da cidade por manifestações e protestos. Basta lembrar alguns eventos ocorridos entre à Candelária – Av. Presidente Vargas e a Cinelândia – Av. Rio Branco: o comício das diretas-já. As situações sociais vividas estão contidas naqueles espaços.

“O comício de ontem na Candelária pelas eleições diretas foi, mesmo pelas estimativas mais conservadoras, a maior manifestação política da história do Rio de Janeiro. Espalhando-se pelas Avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, uma multidão em ordem e em clima de festa, como em dia de carnaval, ouviu durante cinco horas e meia discursos dos principais líderes de oposição, cantou em coro com artistas de música, gritou palavras de ordem, agitou bandeiras, faixas e cartazes e também sambou fantasiada com distintivos das eleições diretas” (O Globo, 11/04/84). Foram conflitantes os números referentes ao comparecimento ao comício na Candelária: dos antropométricos calculou em 368 mil, o SNI, informalmente, em 400 mil, o Ministério da Justiça em 500 mil, a Polícia Civil entre 750 e 800 mil, a Polícia Militar em mais de um milhão e a Coordenação do Comité Pró-Diretas em 1,2 milhão (O Globo, 11/04/84). PM apenas acompanharam a passeata. Ao se referir ao comício um senador ironizou o comício das diretas no Rio, “afirmando que o Rio não é Atenas, nem a Candelária o palco de uma democracia grega, para decidir a forma de eleição do Presidente da República” (Jornal do Brasil, 11/04/84). E ainda afirmou que “votaremos contra a emenda porque as decisões são tomadas aqui, e não na Candelária” (Jornal do Brasil, 11/04/84).

Um outro evento que ocorreu nesses lugares foi a Caminhada pela Paz. A caminhada se deu da Candelária a Cinelândia. Em artigo “Da metáfora da guerra à mobilização pela paz: temas e imagens do Reage Rio” Márcia Pereira Leite examina os temas e imagens que se encontram vinculados a constituição de um cenário de violência, insegurança e privação no Rio de Janeiro, que vem sendo referido através da metáfora da guerra. A autora destaca a articulação de um movimento contra a violência, denominado Reage Rio, que culminou em uma passeata – a Caminhada pela paz – em 28 de novembro de 1995. Ao falar do evento a principal página do jornal O DIA sob a manchete “Nunca Mais”, uma composição de várias fotos traduzindo as várias faces da violência que vinha perpassando os dois lados da “cidade partida”: “os corpos dos trabalhadores chacinados em Vigário Geral; um adolescente exibindo um caco de vidro como arma; uma menina empunhando um revólver; outro menino rezando no túmulo de seu amigo executado por policiais na Candelária; uma mulher dormindo no corredor de seu apartamento para escapar das balas perdidas do tiroteio da favela; um arrastão na praia; o corpo da atriz Daniela Perez assassinada; um jovem exibindo sua condição de soldado do tráfico de drogas; a gargalhada do bicheiro/contraventor Castor de Andrade desfilando na avenida; um carro forte metralhado dentro do campus da UERJ e, por fim, policiais resgatando um cadáver. A amplitude e variedade desse painel de vítimas da violência reforçava a idéia da necessidade de “unir as metades da cidade partida”, ou seja, O DIA compartilhava claramente o sentido de paz com o Viva Rio (Leite:138).

O que é importante observar é que essas manifestações passam a ocorrer no espaço por onde a passeata passou.

No Brasil, comemorar no senso comum está associado a celebrar, festejar, porém significa também trazer à memória, fazer recordar, lembrar. Em oposição a esquecer. Quando se falava em comemoração associava automaticamente a festividades, mas no processo de elaboração do trabalho percebi que a idéia é de trazer a memória. Então falar de lugares de comemoração significa falar de lugares que fazem recordar.

Segundo Irene Cardoso “O esquecimento, também como processo ativo, é constitutivo da comemoração e do seu poder de integração social de sentidos e de reconstrução da identidade do evento. Para que haja a possibilidade da comemoração, não apenas a complexidade histórica da atualidade do evento, suas contradições, suas ambiguidades precisam ser silenciadas, como também fica obscurecida a posição a partir da qual a comemoração reconstrói o evento” (Cardoso, 1998:2).

Maurice Halbwachs lembra como as imagens espaciais desempenham um papel na memória coletiva. (Halbwachs, 1990:133). Influência que exercem os diversos lugares de uma cidade sobre os grupos e vice-versa.

A Praça Floriano Peixoto, popularmente conhecida como Cinelândia, parece possuir uma irresistível força de atração para acolher grandes eventos históricos e pequenos dramas cotidianos. Ali ocorreram as principais manifestações de massa na cidade. Foi nas suas imediações que os revolucionários de 30 apearam seus cavalos. Para lá se dirigiu a passeata dos cem mil, no protesto contra o regime militar, em 1968. Ali perto, também, foi assassinado o estudante Edson Luis, no restaurante Calabouço, quando começava o período mais duro do regime fundado em 64” (Sento-Sé, 1997: 331). Lá, na Cinelândia houve a Brizolândia ou o Movimento Popular da Brizolândia nos anos oitenta e noventa. A Brizolândia surgiu em 2 de abril de 1982. “ Ir a praça equivale, fundamentalmente, a romper com as práticas viciadas e burocratizadas das instâncias organizacionais e decisórias do partido. É dispor-se a enfrentar a aleatoriedade e a diversidade do espaço da rua, aceitando todas as suas implicações. Representa uma percepção francamente espontaneísta e ativista da atuação política. Atuar politicamente significa ir ao povo, contar-lhe a verdade, conscientizá-lo” (Sento-Sé, 1997: 336). O autor continua “Curiosamente, penso que os brizolistas da Brizolândia operam ali, na praça, sua própria estetização da política. Falam incansavelmente, discutem, e entendem estar, assim, fazendo política” (Santo-Sé, 1997, 350). E mais “Desde que foi derrubada pela última vez, há algumas semanas das eleições de 1994, a barraquinha não foi erguida de novo” (Sento-Sé, 1997: 382).

A praça Floriano, foi apropriada, em 1919, pelos carnavalescos que ali realizaram corsos e batalhas de flores6. “Aliás, a tradição do Largo da Mãe do Bispo como palco de comemorações festivas já datava do tempo do vice-reinado do Conde Cunha, quando as boas sociedades de cantatas se reuniam no pátio do Convento da Ajuda, onde, entre danças e cantigas, as freiras distribuíam quitutes aos participantes das Folias de Reis” (Lima, 1997: 240). Segundo a autora, na Primeira República, o centro da vida pública era mais especificamente a praça Floriano. A praça Floriano foi um dos palcos na passeata dos cem mil, o lugar de sua concentração. Atualmente, na praça, há o busto de Francisco Serrador, espanhol que idealizou alguns projetos na Cinelândia, tais como os cinemas Capitólio, Glória, Império e Odeon, cercados por sorveterias e casas de chá. Estão ali também o busto de Getúlio Vargas e um monumento a Floriano Peixoto inspirado em moldes franceses e composto por símbolos nacionais, conforme nos lembra Carvalho (1990: 48). “A base do monumento tem a forma de altar cívico, referência aos altares erguidos em Paris após a revolução de 1789. Nos nichos do altar, foram colocados quatro grupos em bronze e uma estátua. Os grupos representam as três raças formadoras da população brasileira e a religião católica, mediante a referência a poemas famosos de nossa literatura. Lá estão O Caramuru (raça branca), A Cachoeira de Paulo Afonso (raça negra), Y-Juca Pirama (raça amarela) e Anchieta (catolicismo)” . A denominação Cinelândia sobressai ali, em relação àquela, a de praça Floriano.

Em artigo publicado no jornal Rio Artes, em 1992, com o título “Um memorialista para a Cinelândia”, Irineu Guimarães refere-se à praça nos seguintes termos: “trata-se de cenário privilegiado da paisagem nacional, onde se gravaram ocorrências da vida político-cultural do país nos últimos 35 anos”. Neste artigo ele diz ainda que “Seguiu-se a estação das passeatas relâmpago, que iriam culminar com uma das maiores manifestações de massa da história do Rio de Janeiro, por ocasião da morte do estudante Edson Souto, assassinado no Restaurante Calabouço. A Cinelândia assumiu então, durante um momento de triunfo e glória, o papel de “fórum político da nacionalidade”. E houve outros como o cortejo fúnebre de Getúlio Vargas que cobriu de gente a avenida Beira-Mar, tangenciando a Cinelândia, rumo ao aeroporto; o do cantor Francisco Alves, dois anos antes, foi considerado o maior de todos dedicado a um ídolo popular no Rio de Janeiro; foi sendo acompanhado por uma multidão a pé, da Cinelândia ao cemitério São João Batista (Máximo, 1997: 144).

A Cinelândia acolheu, em 1958, as comemorações da conquista do primeiro título mundial pelo futebol brasileiro (Máximo, 1997: 145). Nos anos 50, o carnaval ganha a Cinelândia e, na década seguinte, a praça abrigará instituições como as escolas de samba e o Bola Preta (Máximo, 1997: 166).


O que estou tentando mostrar é a íntima relação existente entre evento e lugar na memória da cidade. Ao pensarmos as passeatas que ocorreram em 1968 no centro do Rio de Janeiro, na avenida Rio Branco, na Cinelândia, em torno da Candelária, e ainda na praia do Flamengo, nos Largos de São Francisco e da Carioca, na praça Tiradentes e na praça XV quero ressaltar o quanto eles estão permeados de histórias e de memórias dessas manifestações. Constituem esses lugares efetivamente patrimônio cultural já que representam um conjunto de bens culturais que fazem parte do cotidiano de diversos segmentos da sociedade brasileira e por meio dos quais expressam suas memórias e identidades7.
Destaco aqui a importância simbólica da cidade do Rio de Janeiro. Na qualidade de capital do Brasil durante quase duzentos anos, de 1763 a 1960, foi apenas a partir da inauguração de Brasília e da transferência da capital para o planalto central, que ela perde esse status8. Comecei a pensar a cidade através de seus espaços simbólicos. Assim como a representação simbólica dos espaços no evento, a topografia do evento. Elevada à categoria de capital do Brasil em 1763, o Rio de Janeiro presenciou a proclamação da República, em 1889. Antiga colônia portuguesa, nos seiscentos, abrigou a família real em 1808, tendo desempenhado até 1960 o papel de centro político e econômico. Portanto, é preciso pensar o ano de 1968 na cidade do Rio de Janeiro no centro das mudanças políticas, administrativas e sociais que estavam ocorrendo no Brasil com todas as implicações decorrentes da construção de Brasília, do deslocamento das decisões para o planalto central. Não há como se falar dos eventos que estavam ocorrendo na cidade sem pensar nessas mudanças. Na Cinelândia, em 1968 podíamos ver a Assembléia Legislativa onde hoje é a Câmara dos Vereadores, o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Palácio Monroe, que hoje já não existe mais, o cinema Odeon, o bar amarelinho...
Em depoimento uma informante ao falar dos lugares das manifestações diz “ A avenida Rio Branco certamente, desde sempre; Vínhamos muito aqui para o Largo da Carioca e íamos muito para o lado da Praça 15. Na verdade, você era avisado. Recebia todas as informações. Tinha os lugares de concentração. Então nós vínhamos naquele momento, já sabendo que iríamos para um determinado lugar. E nos movimentávamos na Avenida Rio Branco até a Cinelândia, mas tinha um ritmo próprio.

Memória dos Espaços: A Candelária

A Candelária é um lugar simbólico, onde há várias representações sobre esse espaço. Ao se pensar na Candelária ao mesmo tempo que se pensa nas grandes manifestações, também lembra-se no massacre onde crianças foram assassinadas. Além de ter sido, o lugar, quando da missa de sétimo dia da morte de Edson Luis vários grupos foram espancados na porta da Igreja.

A Cinelândia, a Candelária, a Avenida Rio Branco, o Palácio Tiradentes..., são “lugares de memória” 9 , esses lugares são representados , significados e re-significados. São lugares do trajeto da passeata.



Memória X Tempo

Em artigo sobre o período de 1964-1969, Schwarz faz um exame do ponto de vista da produção cultural localizada no momento cultural do período de 1964-68, no Brasil. É interessante a sua análise sobre os processos sociais naquele período porque esse autor aborda os diferentes tipos de produções culturais nas áreas do cinema, do teatro e da literatura (Schwarz, 1978).


A produção cultural:
Vamos tentar resgatar algumas idéias que permearam esse período. Em cultura e participação nos anos 60, Hollanda e Gonçalves ao lembrar o musical opinião em dezembro de 1964. Eles apontam para alguns pontos-chave onde o show parecia interpretar o sentimento de toda uma geração de intelectuais, artistas e estudantes. Falar, cantar, manifestar como forma de se expressar contra o autoritarismo. Nos shows, no teatro, no cinema o desejo de manifestar através da produção cultural uma expressão coletiva de sentimentos. Os autores citam um depoimento do Carlos Diégues em 1965 ao comentar a escolha de Vidas Secas como melhor longa-metragem na V Rasegna del Cinema Latinoamericano: “O cinema brasileiro deixou de ser uma crônica da sociedade brasileira, deixou de ser um estereótipo, um pastiche, e passou a adotar uma visão antropológica do homem brasileiro, da própria cultura brasileira” (Hollanda e Gonçalves, 1987: 43). Lembram ainda que, os Festivais de Música Popular, promovidos por estações de TV, tornavam-se aos poucos um novo espaço de aglutinação e manifestação coletiva. As canções, colocadas em competição, atraíam um grande público que se manifestava sob a forma de verdadeiras “torcidas”, procurando interferir com vaias e aplausos na escolha das composições vencedoras... Onde se tornar adepto desta ou daquela música assumia muitas vezes ares de opinião política (Hollanda e Gonçalves, 1987: 57). Configurava-se portanto, segundo os autores, toda uma área de afinidades no campo da produção cultural, envolvendo uma geração sensibilizada pelo desejo de fazer da arte não mais o instrumento repetitivo e previsível de uma veiculação política direta, mas um espaço aberto à invenção, à provocação, à procura de novas possibilidades expressivas, culturais, existenciais.
É importante lembrar que a UNE foi declarada ilegal em 1965, porém continuou suas atividades, como podemos ver através do texto Praia de Flamengo 132: La Casa de Las Memorias de Victoria Langland “en 1968, el momento de más movilización y actividad pública de la UNE”. Em lo de abril de 1964 o prédio da UNE foi invadido e incendiado.

A mesma autora referindo-se a um depoimento de Ferdy Varneiro a revista Pasquim entitulado “A última noite da UNE” diz:

“entre o crepúsculo e as primeiras horas daquela noite, hordas de terroristas invadiram e incendiaram a sede da UNE. As chamas devoraram o prédio e a vida que florescera naquela casa: O Centro Popular de Cultura, o Cinema Novo, o Teatro Popular, a sementeira de idéias das artes plásticas e gráficas, as experiências vanguardeiras do conto e da poesia. Ali, morria um pouco da inteligência brasileira, imolada naquelas chamas e as cinzas da UNE marcaram a data da longa noite de trevas em que o Brasil mergulhou, a partir de 1o de abril de 1964”. A autora discute as representações de grupos sobre quem praticou o incêndio – não eram soldados, nem a polícia, mas cidadãos.

As várias versões de organização da passeata. Segundo Langland no trabalho anteriormente citado “en 1968 la UNE encabezó el mayor movimiento de oposición de cualquier tipo que el gobierno militar había enfrentado”, referindo-se a passeata dos cem mil.

A partir das entrevistas observei que o processo de organização do que passou a se chamar de passeata dos cem mil extrapolava o movimento estudantil.




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