Xxvi encontro Anual da anpocs



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De criollos e capoeiras: notas sobre

futebol e identidade nacional na Argentina e no Brasil1
Simoni Lahud Guedes

Tudo nos une e nada nos separa2
Neste trabalho, fazendo uma aproximação ainda preliminar, melhor compreendida como elaboração de hipóteses de trabalho, pretendo enfocar comparativamente a forma tomada pelos constructos relativos aos chamados “estilos nacionais” argentino e brasileiro, buscando assinalar algumas de suas similaridades e clivagens. Evidentemente, é preciso acentuar não haver qualquer intenção de estar trabalhando com um saber equilibrado sobre os significados do futebol no Brasil e na Argentina, pois, dada a minha inserção sociocultural e acadêmica, tal comparação é aqui ensaiada muito mais a partir de um ponto de vista “brasileiro”. São, portanto, considerações preliminares também porque meu contato com a literatura acadêmica argentina3 sobre o tema é recente e restrito mas, por outro lado, muito estimulante. Estimularam-me a esta incursão em terrenos até muito pouco tempo atrás inteiramente desconhecidos para mim a leitura dos trabalhos de Eduardo Archetti (1998, 1999, 2001) e alguns dos textos escritos ou organizados por Pablo Alabarces (Alabarces e Rodriguez, 1996; Alabarces, Di Giano e Frydenberg, 1998, Alabarces, 2000).

O argumento aqui, em síntese, é que, ao contrário da epígrafe que utilizei, de certo modo “tudo que nos une, nos separa”. A retórica política, da qual extraí um exemplo do início do século XX nas palavras de Coelho Neto, pode afirmar sustentar-se em firme terreno histórico: são igualmente nações que emergem como tais, no século XIX, a partir do expansionismo europeu do século XV, exploradas e colonizadas à exaustão. Sem dúvida, este passado colonial tão recente encontrará expressão no discurso que usa o futebol como significante, sendo relativamente explícito em alguns dos eixos básicos de construção de sentido. Mas é, justamente, a similaridade que precisa ser negada para que a especificidade de cada “nação” seja construída. E aqui, são também as construções seletivas acerca do processo histórico – as narrativas sobre a nação – que serão utilizadas na elaboração da diferença. É importante, portanto, começar recuperando o lugar destas narrativas sobre a nação, através do esporte, na modernidade.



O futebol como locus da construção da nação na modernidade4

Venho sustentando, há alguns anos (cf. Guedes, 1977, 1998), ser o futebol um significante privilegiado, um veículo cuja exigência de significação é tamanha que só não admite a ausência de significado (Lévi-Strauss, 1968). Parto, portanto, do pressuposto de que é característica inerente ao futebol a transformação dos inúmeros eventos que produz em eventos narrativos, cujo sentido nunca está dado. O processo semântico desencadeado pelo jogo constrói-se em um campo de debates no qual diversas posições se confrontam. DaMatta (1982, p. 27) registra que, no caso brasileiro, as “apreciações sobre futebol” são “classificadas como discussões”. Esta característica é considerada por Bromberger (1998) como mais difundida, de fato uma propriedade inerente ao futebol, produzida pelas incertezas do jogo que oferecem oportunidades incontáveis para interpretações divergentes. Acentua, portanto, a “discutibilidade” do futebol como uma de suas características básicas, produzindo “un monde éminemment discutable” (1998, p. 51). Comparando a dinâmica do futebol com a de outros esportes comenta:



Le match de football offre, à la inverse, un champ inépuisable à la élaboration de récits différentes et d’évaluations contrastées. On n’en finit pas de le commenter, de commenter les commentaires, les notes atribuées aux jouers par les quotiediens... Ce sport incertain fournit ainsi le possibilité d’argumenter à l’infini e de récrire une histoire vraisemblable conforme à ses souhaits.5

(Bromberger, 1998, p. 53)

Na proliferação de discursos, a partir do jogo, várias dimensões identitárias são disputadas, negociadas e construídas, como muitos autores vêm demonstrando. Uma delas seria a da nação. A observação, já clássica, de Hobsbawn (1990, p. 169 segts), sobre o tema, amplia ainda mais a perspectiva, situando os esportes como uma espécie de “reduto” do nacionalismo moderno, particularmente através da possibilidade de reificação da nação em um competidor ou time, encurtando os caminhos para o processo de identificação. Pelas mesmas razões e no mesmo processo através do qual o futebol tornou-se, indubitavelmente, o esporte mais praticado e assistido na modernidade6, transforma-se também no grande palco das nações.

O debate sobre o lugar das nações na modernidade é extenso e complexo. O triunfo do capitalismo monopolista, com empresas transnacionais rasgando fronteiras antes sacralizadas, associado ao devastador crescimento dos meios de comunicação, tem levado a inúmeras elaborações teóricas que anulam ou minizam o significado das nações e das nacionalidades. Penso que, na verdade, estamos diante de uma nova configuração de um fenômeno tão antigo quanto a humanidade: a destruição e recomposição das fronteiras simbólicas que unem e separam as sociedades. Na modernidade, um dos aspectos que esta dialética unificação/diversificação tem assumido é o do esmaecimento das fronteiras nacionais, às quais se sobrepõem inúmeros e variados mecanismos de atuação transnacionais. Este processo, contudo, até o momento, não eliminou os espaços do Estado-nação embora suas fronteiras tenham se tornado mais porosas. Alguns autores têm anotado, inclusive, que este processo, em muitos casos, tem provocado o “ressurgimento do nacionalismo” e o “crescimento do fundamentalismo” (cf. Hall, 1999, p. 92, passim). De qualquer modo, são Estados-nações em um mundo conectado, submetido a mercados transnacionais, penetrados em suas fronteiras políticas. A busca da construção da igualdade e da diferença bem como a disputa por valores (simbólicos, econômicos, políticos) opera em territórios mais amplos e multifacetados. Um dos efeitos deste processo mais amplo é o que tem sido chamado da “exotização” das diferenças culturalmente produzidas (cf., por exemplo, Frigério, 2002), que se transformam em valores de mercado (Sahlins, 1979, 1997) e, muitas vezes, em instrumentos de lutas políticas.

Para a produção destas diferenças, sem dúvida as competições esportivas são territórios singularmente propícios. Na interpretação de Archetti (1999), os esportes, os jogos e a dança se constituiriam, em “zonas livres” nas sociedades modernas, espaços para a “liberdade e criatividade cultural”. Ou seja, a peculiaridade e especificidade residiriam nas franjas e interstícios dos sistemas sociais, suas “zonas livres”.

Trata-se, de fato, de uma articulação, historicamente dada e sempre complexa, entre identidade, alteridade e pluralismo (cf. também Augé, 1997). Compreender as culturas nacionais como “comunidades imaginadas”, proposta que nos faz Benedict Anderson, é um caminho proveitoso nessa direção7. É também nessa direção que Stuart Hall afirmará que “uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos” (1999, p. 50). Do mesmo modo, argumentará que tal construção de sentidos situa-se, basicamente, na memória que se constrói sobre a nação.

O papel da alteridade nestes discursos é essencial. Sob tal ponto de vista, não é, absolutamente, irrelevante o fato de ser o futebol o esporte mais popular do mundo. Trata-se de construir a diferença no interior de um código que todos dominam e em uma prática a que todos atribuem valor, mesmo desigual. A alteridade, portanto, conforme já nos ensinaram os estudiosos dos grupos étnicos (cf. Oliveira, 1976; Oliveira Filho, 1988) não sucede à identificação: é parte do mesmo processo.

Uma alteridade privilegiada: Brasil/Argentina

Um dos princípios básicos que operam no cenário das competições esportivas modernas, como venho argumentando (Guedes, 1998), é o da oposição de unidades estruturalmente semelhantes de modo que o significado do confronto está na razão direta do recorte das unidades em confronto. Os significados associados à nação e às alteridades que a constróem, no futebol, são reinscritos e atualizados nas competições internacionais importantes8. Este processo ramifica-se em muitas dimensões e níveis, durante os períodos em que é acionado: a propaganda é um deles. A descrição de duas pequenas peças publicitárias, apresentadas na televisão brasileira na última Copa do Mundo (2002), poderão indicar o lugar muito especial atribuído à Argentina, no Brasil, no difícil processo de homogeneização dos “brasileiros” operado nestes períodos.

No período que antecedeu imediatamente e durante a Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coréia, uma conhecida marca de cerveja levou ao ar uma campanha publicitária, no Brasil, em que eram tematizados, como rivais, alguns dos países participantes do evento. Os filmes tinham a seguinte estrutura: um grupo de torcedores do Brasil, num bar, alegres, barulhentos e felizes, bebem a referida cerveja. Uma voz em off diz: beba a cerveja tal ou então vá torcer para tal país. Aparece então, solitário, o torcedor do tal país, bebendo outra cerveja, enquanto os torcedores brasileiros confraternizam, felizes. No conjunto das peças, há uma especial e diferente: é a que se refere à Argentina. Iniciando com a mesma estrutura, apresenta um detalhe no momento final. Depois da afirmação “beba a cerveja tal ou vá torcer para a Argentina”, os torcedores brasileiros ficam sérios e comentando em voz baixa, aparentemente comovidos, a grave situação econômica e política pela qual passava, na ocasião, o país vizinho. Por alguns instantes, a algazarra é interrompida, como se a solidariedade com a Argentina fosse mais importante que a rivalidade no futebol. Mas, logo em seguida, os torcedores explodem em risos, deixando uma mensagem dúbia: a rivalidade é maior do que a solidariedade ou, na verdade, a rivalidade é tamanha que a grave crise econômica argentina provoca a alegria?

Já durante a Copa do Mundo, a propaganda feita para o Brasil de um dos maiores cartões de crédito do mundo, prossegue numa campanha publicitária já no ar há algum tempo. Esta campanha estrutura-se na idéia de que tudo que o dinheiro pode comprar pode ser adquirido com o referido cartão mas, acentua em cada peça publicitária, há sempre alguma coisa que o dinheiro não pode comprar e que, portanto, não tem preço. Logo após a eliminação da Argentina, na primeira fase da Copa do Mundo 2002, um filme da campanha, construído nos mesmos moldes dos anteriores, anunciava o preço de alguns objetos que poderiam ser comprados com o cartão e finalizava dizendo não ter preço ver a Argentina ser eliminada da copa.

Embora, como demonstra amplamente Édison Gastaldo (2002 a : p. 123 e segts.)9, a relação com o “outro”, nas peças publicitárias nas Copas do Mundo, seja uma dimensão fundamental da construção do “estrangeiro”, constituindo-se em um processo bastante amplo nestes períodos, há alguma coisa de muito especial na alteridade brasileiros/argentinos, tal como produzida e repoduzida nas propagandas. As duas peças publicitárias acima resumidas nos fornecem uma pista: na primeira, que, de fato, tematiza diversas nacionalidades presentes à Copa de 2002, não necessariamente adversárias diretas do selecionado brasileiro, o único filme que tem construção distinta é o referente à Argentina. Da mesma forma, fugindo à tendência dominante de propor a construção para aniquilação e humilhação de cada um dos adversários efetivamente encontrados em campo (Gastaldo, 2002 a), a segunda peça publicitária reverbera a satisfação dos torcedores brasileiros pela eliminação precoce do selecionado argentino da Copa 2002, adversário apenas potencial do selecionado brasileiro, já que não se encontraram efetivamente neste campeonato10

Mesmo não tendo conhecimento de trabalho semelhante ao de Gastaldo, para as peças publicitárias apresentadas na Argentina durante a Copa do Mundo, há, vistos do Brasil, alguns importantes indícios de que representações coletivas equivalentes são tematizadas na Argentina. Por exemplo, a bibliografia brasileira sobre a história do futebol registra um episódio paradigmático, ocorrido em 1920, quando a seleção brasileira que disputara o Campeonato Sul-Americano no Chile, passou por Buenos Aires. Na ocasião, um jornal local publicou um artigo, acompanhado de caricaturas, que chamava os brasileiros de macaquitos (cf. Franzini, 2000, p. 21 segts)11. Certamente este episódio teve profundas repercussões no Brasil, tanto ao desencadear imediatamente reações de vários tipos12 quanto na forma pela qual o futebol começava a apresentar-se como espaço de debates sobre o “povo” brasileiro. Na verdade, passados mais de oitenta anos, este episódio ainda repercute, concentrado na difusão da classificação dos brasileiros como “macacos”. Em trabalho publicado recentemente, sobre imigrantes brasileiros na Argentina, Frigério (2002) comenta:



A rivalidade entre argentinos e brasileiros expressa-se, hoje em dia, principalmente através do futebol. “No futebol” como disse uma entrevistada “o Brasil é um inimigo”.

E mais adiante:



Quando o caso é futebol, velhos estereótipos podem vir à tona novamente e fazer com que os imigrantes se vejam em situações desagradáveis. Um entrevistado afirmou: “Quando vem o jogo de futebol eles dizem ‘vamos mandar os macacos de novo ao Brasil’...”

(Frigério, 2002, 23)

O mesmo autor, no mesmo texto, anota, ainda, em nota de pé-de-página, que durante os Jogos Olímpicos de 1996, antes da semifinal que seria feita por Brasil e Argentina, “o jornal argentino Olé comentou o acontecimento da seguinte maneira: que venham os macacos” (Frigério, op. cit., 24). Na introdução da mesma coletânea em que se encontra o artigo citado acima, Frigério e Ribeiro chamam a atenção para a especificidade da alteridade brasileiros/argentinos, em mão dupla, acentuada, nas duas últimas décadas pela intensificação destas relações, no contexto de desenvolvimento do Mercosul, relações “freqüentemente marcadas por estereótipos que terminam influenciando o conteúdo das interações” (Frigério e Ribeiro, 2000: p. 7)13.

Conforme argumentarei abaixo, o epíteto (macaquitos, macacos) acentua uma das diferenças fundamentais cristalizadas nas narrativas argentinas e brasileiras. De fato, a forma assumida pela rivalidade, na ocasião, permitirá recuperar um dos eixos mais importantes de diferenciação entre brasileiros e argentinos nas narrativas sobre futebol.

Assim, há muitas razões para supor que tais estereótipos encontrem no futebol e, particularmente, na colocação dos dois países no cenário internacional deste esporte, um espaço privilegiado para suas construções, a partir desta rivalidade exacerbada. Embora certamente seja relevante uma proposta de trabalho que analise a dialética destas representações mútuas, não é o que farei no restante deste trabalho. Buscarei assinalar, por outra via, considerando a importância da dimensão contrastiva na construção das identidades sociais (cf. Oliveira, 1976, Duarte, 1986), as similaridades e diferenças das narrativas sobre as duas nações tal como se apresentam no futebol. Assinalo, ainda, que é possível supor que a potencialização desta alteridade, expressa pelo valor mútuo atribuído à rivalidade, esteja, de algum modo, cristalizada nas representações que transformam o campo de futebol em campo de debates sobre as nações.


As criaturas enfrentam o criador


Em que pesem as reconstruções que a história da introdução do futebol vem sofrendo, com o crescimento do investimento de historiadores, em vários países, é bastante notável que, tanto na Argentina quanto no Brasil, a construção da memória sobre o futebol esteja assentada nos mesmos eixos simbólicos. A observação de Alabarces, em relação ao caso argentino, pode ser adequada e inteiramente transposta para o caso brasileiro:

(...) la invención del fútbol resulta de constituciones muy complejas, donde las afirmaciones identitarias remiten a formantes disímiles (migratorios, barriales, generacionales, de clase), pero que tienden a reunir-se en dos interpolaciones básicas, en dos ejes de oposiciones: frente a los inglese (inventores, propietarios, administradores), del que resulta un mito de nacionalidad, y frente a las clases hegemónicas (practicantes, propietarios del ocio, estigmatizadores), de lo que resulta un mito de origem – humilde, aunque no proletario.

(Alabarces, 1998, p. 268)

No entrecruzamento destes dois eixos, como uma prática e um espaço semântico do qual se apropriam os “nacionais” (versus o “inglês colonizador”) e o “povo” (versus a “elite”) cria-se, como sabemos, um primeiro espaço de distinção que permitirá que as criaturas enfrentem o criador, opondo-lhe uma nova criação. Esta criação nova é o que ficou conhecido como “futebol-arte”, classificação genericamente aceita tanto para o futebol argentino quanto para o futebol brasileiro, cuja definição contrastiva é o “futebol-máquina” ou “futebol-força”, epítetos que se consagraram para o futebol inglês e, secundariamente, todo o futebol europeu. Como acentua Archetti (1998, p. 122), “la métaphore de la ‘machine’ en opposition à la créativité individuelle est constant dans l’imagerie du football argentin contemporain”. Há, certamente, diferenças significativas, no processo histórico de construção desta oposição, que um olhar mais cuidadoso deverá anotar, as mais óbvias sendo a grande precedência da introdução mais sistemática do futebol na Argentina que no Brasil14 e a presença muito maior dos ingleses na vida argentina por esta época (Archetti, 1999). Contudo, importa-me assinalar serem os “ingleses”, num e noutro caso, parte dos mitos de origem, como uma espécie de “outro” primordial, dos quais é necessário subtrair o saber para recriá-lo, mito que é revivido periodicamente nas competições internacionais.

Da mesma forma, a chamada “popularização” do futebol, sua apropriação por estratos mais amplos da sociedade, em que pese a introdução muito anterior na Argentina, ocorre nas duas primeiras décadas do século XX, em um e outro caso (cf. Frydenberg, 1998; Pereira, 2000). É importante assinalar, com Alabarces (1998, p. 261) que



(...) la popularización del fútbol argentino no admite la causalidad mediática, aunque su mercantilización sea impensable sin su massmediación, al igual que cualquier producto cultural de masas en el siglo XX.

No caso brasileiro, igualmente, – e talvez isto ocorra em todos os espaços nos quais o futebol foi introduzido ainda no século XIX – a popularização do jogo também antecede, sem dúvida, o surgimento de uma imprensa esportiva especializada (cf. Leite Lopes, 1994) e a espetacularização do jogo. Estes dois eixos – o sentimento nacionalista e a popularização do futebol – bem como um terceiro, o das tensões imensas encobertas pela homogeneização pela nação, são registrados por Leonardo Pereira (2000, p. 108), sintomaticamente analisando a comoção causada, no Rio de Janeiro, por um jogo com o selecionado argentino em julho de 1908:



(...) estavam lançadas as sementes dos três processos simultâneos (...) que nos anos seguintes transformariam o perfil do jogo na cidade. Em primeiro lugar, a transformação de um esporte tido como fidalgo e refinado em um jogo de todos, apropriado por diferentes parcelas sociais. Junto a esse movimento, e possibilitado por ele, aparecia a possibilidade de consolidação, através do futebol, de uma intensa identificação entre torcedores das mais diversas camadas sociais, na constituição de uma bem fundamentada identidade nacional. Por fim, articuladas aos dois primeiros, apareciam as ambiguidades e fissuras dessas construções – que, longe de apagar a identidade delas resultante, só mostrariam toda a complexa trama a partir da qual elas foram formadas.

Os “estilos nacionais” são gestados, justamente, dentro deste espaço simbólico no qual os incipientes sentimentos nacionalistas encontram possibilidade de expressão em uma prática que começa a ser compreendida e valorizada por todos os segmentos da população e, além do mais, ecoa para além das fronteiras da nação. O “produto” deste processo, tanto no Brasil e quanto na Argentina, resultará na valorização de uma específica corporalidade, num determinado uso social do corpo (Mauss, 1968) que explora suas potencialidades estéticas e sua capacidade de vencer o opositor pela habilidade. Este “produto” é, de fato, resultado de um complexo e multifacetado processo no qual as representações coletivas desempenham um papel fundamental: selecionando pelo aplauso ou pelo apupo os desempenhos valorizados, estimulando os usos sociais do corpo escolhidos, destacando e recompensando os indivíduos que melhor representam os valores selecionados15. Não se trata, pois, de apropriação simbólica de algo que está previamente dado. Trata-se, antes, de um longo processo de construção coletiva, com inúmeros debates, com posicionamentos distintos, constantemente avaliados pelos resultados que produz ou não. Ademais, deve-se ressaltar que a construção da especificidade “nacional” estabelece, por um lado, a potencialidade de inclusão de todos os indivíduos que partilham a mesma herança e, por outro lado, a exclusão desta herança (no caso, a posse inata de uma corporalidade “hábil e criativa”) dos que não partilham a nacionalidade. Neste caso, tanto para brasileiros quanto para argentinos, todos os “outros”, particularmente os “europeus”16, são como “máquinas” ou capazes apenas de usar o corpo como força. Mas disputam, entre si, o privilégio da posse naturalizada da habilidade corporal: seria este o combustível maior da rivalidade exacerbada no futebol?

Para o caso brasileiro, registra DaMatta, sinteticamente, a representação hegemônica na atualidade, o “produto” sempre em risco deste processo de debates:

Pois sabemos que o chamado “futebol brasileiro” se representa a si mesmo como uma modalidade caracterizada no uso excepcionalmente habilidoso do corpo e das pernas, o que cria um jogo bonito de se ver.

(DaMatta, 1994, p. 16)

Devo chamar a atenção para a expressão “se representa a si mesmo”, fórmula através da qual DaMatta realiza uma sinopse do processo de “construção circular” (Faure e Suaud, 1998) dos “estilos nacionais”.

Ressalte-se ainda que, por esta via, talvez mais do que a produção de uma corporalidade específica, é a hegemonia da linguagem corporal sobre a linguagem verbal que se produz, dimensão apontada por Pablo Alabarces:



El cuerpo se asume no sólo como ‘fuerza’: se asume principalmente como ‘habilidad’, como lugar de la ‘creatividad’, donde las formas no verbales adquieren mayor esteticidad que las lingüísticas – bloqueadas por la apropiación desigual de los capitales escolares. Frente a la hipótesis bourdieana del capital cultural, la puesta en escena de lo corporal reinstala la ‘pluralidad de capitales’...

(Alabarces, 1996, p. 29)

A valorização da exibição da corporalidade no desempenho individual, no exercício sempre surpreendente do drible, o lugar maior da habilidade, da inventividade, da improvisação ao invés da força, erigem o craque como o herói destas narrativas, capaz de sobrepor-se à disciplina e à aplicação tática. Este é, sem dúvida, um valor compartilhado nas representações que fazem, de si mesmos, brasileiros e argentinos. Mas, como assinalei acima, valores compartilhados não são simbolicamente rentáveis na produção das especificidades nacionais. Um forte indício de diferenciação anota-se em uma outra dimensão muito enfatizada no constructo platino – a do “toque” de bola – forma através da qual reinventa-se, através de uma específica habilidade, o valor do coletivo. A habilidade para “tocar a bola”, embora também expressa no constructo brasileiro, possivelmente não assume, neste caso, o mesmo valor da improvisação e do desempenho individual. Conforme acentua Archetti:

The most typical characteristic of Argentinian football would be the touch, wich could be short, slow or quick according to the tactical requirements and the intensity of the game. (...) Dribbling, wich would later be called the ‘gambeta’ (a word derived from gauchesque literature wich describes the running motion of an ostrich), is emnently individual and cannot be programmed; it is opposite of the industrial, collective game of the machine.

(Archetti, 1999, p. 60)



Hemos visto que el simbolismo del fútbol argentino descansaba sobre dos pilares: la gambeta como expresión del ingenio individual y el pase como medida del talento, la coordinación coletiva y el sentido estratégico.

(Archetti, 2001, p. 27)

No Brasil, talvez pela maior ênfase no valor do invenção e da criatividade individual, às expensas do “toque de bola” que introduz uma outra forma de disciplina tática, o chamado futebol-arte confronta-se, permanentemente, com o futebol-força nos debates internos (cf. Vogel, 1982, p. 109; Guedes, 1998, p. 66). A mundialização, espetacularização e mercantilização do futebol submetem as escolhas culturais à avaliação dos resultados internacionais. De qualquer modo, os “estilos nacionais” argentino e brasileiro têm obtido sucesso neste mercado transnacional, o que se expressa, por exemplo, na situação destes dois países como os principais “exportadores” de jogadores de futebol do mundo.

Bem-sucedidos na construção de suas especificidades, apresentam-se no cenário internacional como produtores e reprodutores de “estilos nacionais” relativamente bem definidos e bastante naturalizados. Esta não é uma construção fácil, entretanto, como observa Leonardo Pereira no texto citado acima (2000, p. 108): há que abstrair e costurar as imensas diferenças culturais e a profunda desigualdade social. Esta dificuldade se expressará, em cada caso, não na forma tomada pelos constructos, mas nas diversas narrativas sobre a sua origem e, ainda, como todo o trabalho de Eduardo Archetti assinala, nos outros espaços simbólicos nos quais simultaneamente se elabora a especificidade nacional. No caso argentino, como vem sustentando o referido autor, no pólo e no tango17.

E no processo de naturalização destes estilos, na forma pela qual são compreendidas as habilidades e capacidades valorizadas como “produto”, aí sim, reificado, de um povo e uma história, é que são registradas as clivagens maiores entre o modelo argentino e o modelo brasileiro. Por um lado, como diz Coelho Neto, “tudo nos une e nada nos separa”: são, ambas, narrativas de hibridação e mestiçagem, narrativas de povos invadidos e colonizados, narrativas que dão conta de como buscam reconstruir a unidade de tão extremas diferenças. Por outro lado, tudo que nos une, nos separa: complexas diferenças foram tecidas no processo de naturalização destes “estilos” tão parecidos. E estas diferenças situam-se, antes, nos elementos “étnicos” que são chamados a compor a sua história. De um lado da fronteira, italianos, espanhóis e gaúchos, do outro, índios, negros e brancos.

A herança latina – italiana e espanhola – conjugada a uma mítica essência gaucha é valorizada e recriada no futebol criollo na Argentina (Archetti, 1999, 2001), pressupondo qualidades que, espontaneamente, se expressam no estilo argentino. Segundo este autor, o estilo criollo de futebol (la nuestra) é parte do conjunto de transformações do modelo do gaúcho fecundado, como os garanhões puro-sangue fizeram com as éguas criollas, pelas qualidades físico-morais dos imigrantes europeus de origem latina. Híbridos os cavalos, híbridos os homens. Espaços para jogos de futebol (correspondentes aos campos de pelada ou várzea brasileiros) são chamados de potreros, recuperando a cada momento a herança gaúcha.



Football in Argentina is seen in opposition to the discipline of school. The creolization process implied a change from the school to the street, and from British to the new hybrids, products of the non-Bristish immigration. In this direction, against the values of courage and will-power, the Argentinian football players represent almost the contrary: they were portrayed as sensitive, artistic and great improvisers.

(Archetti, 1999, p. 72)

O constructo brasileiro alimenta-se, vagamente, do mito das três raças, apresentando-se e representando-se como um amálgama mestiço (cf., entre outros, Leite Lopes, 1998) no qual, sem dúvida, o lugar do negro é determinante. O sinal diacrítico, a diferença essencial, é a incorporação simbólica do negro como responsável pela forma “espontânea” de usar o corpo em dribles, malandragem, jogo de cintura, sem qualquer esforço ou aprendizagem18. Concepção que está no cerne da própria representação do “povo brasileiro” (cf. Guedes, 1998), esta participação é endeusada ou demonizada, mas está sempre presente. As glórias e as mazelas do futebol brasileiro, muitas vezes, foram pensadas como decorrência de uma específica corporalidade negra, cujo antecedente maior é a capoeira. Como afirma João Lyra Filho, “a melhor feição do futebol brasileiro, por lhe ser peculiar, parece ser sucedâneo do jogo de capoeira; envolve-se em malabarismos de corpo, fintas, gingos, rasteiras e simulações vistosas aquecidas pelo sangue” (Lyra Filho, 1973, p. 102). DaMatta (1994, p. 16) pergunta: “haveria, neste uso exclusivo dos pés que caracteriza o football association, uma relação inconsciente com o jogo de capoeira que os escravos africanos trouxeram para o Brasil?” E, em um dos textos fundadores desta concepção, produtor e reprodutor da difícil e não completada valorização da mestiçagem no futebol brasileiro, Gilberto Freyre explicita:

Sublimando tanto do que é mais primitivo, mais jovem, mais elementar, em nossa cultura, era natural que o futebol, no Brasil, ao engrandecer-se em instituição nacional, engrandecesse também o negro, o descendente do negro, o mulato, o cafuso, o mestiço.

(Freyre, 1964)

Quando os brasileiros são chamados de macacos pelos argentinos, na expressão acentuada da rivalidade no campo de futebol (e, talvez, no mercado transnacional deste esporte), está sendo acionado, justamente, este sinal diacrítico, o da forte presença negra na mestiçagem brasileira. Fica demarcada também, desta forma, a sua ausência na mestiçagem argentina, na qual um ser autóctone, como que surgido dos pampas, conjuga-se aos imigrantes europeus latinos para gerar um povo.

A metafóra autoriza igualmente a interpretação de que, por essa via, estão também sendo denunciadas as “ambigüidades e fissuras” (Pereira, 2000) do constructo acerca do “estilo brasileiro”. Pois não é, de modo algum, inequívoca ou consensual, no Brasil, a identificação da “brasilidade” com a “negritude”. Nem mesmo depois de Gilberto Freyre, dos modernistas e dos tropicalistas, nossa “mestiçagem” constitui-se num valor totalmente compartilhado. Quanto mais não seja porque trata-se de uma sociedade que está longe de incluir os negros na distribuição da riqueza coletiva e como partícipes igualitários de sua construção sócio-política.



Observações finais


O rendimento simbólico do futebol como veículo para a construção de versões sobre o “povo”, equacionado à “nação”, reinventando uma versão romântica da nacionalidade, tem sido demonstrado, com vigor, pelos estudiosos do futebol argentino e do futebol brasileiro. Comparações sistemáticas com outras narrativas ancoradas no recorte “nação” deverão ser buscadas, ensejando análises mais precisas sobre os investimentos simbólicos possibilitados pela difusão mundial do futebol.

É importante, ainda, como salienta reiteradamente Eduardo Archetti (1998, 1999, 2001, 2003), perceber de que modo cada um destes “estilos nacionais” conjuga-se com outras expressõs de identidade. Na Argentina, como afirma este autor, futebol, pólo, tango e, também, em alguns contextos históricos, o pugilismo e as corridas de automóveis, são apropriados, como em um quebra-cabeças complexo, para construir dimensões diversas e conectadas deste processo de construção identitária nunca acabado. No caso brasileiro, o trabalho clássico de DaMatta (1979) sobre o triângulo ritual brasileiro, com repercussão ímpar em nossa antropologia, opera também com dimensões distintas e complementares do ser brasileiro. Penso que devemos, ainda, examinar as correlações, por exemplo, entre samba, em suas diversas manifestações, e futebol, sem dúvida veículos máximos de construção identitária. Se focarmos, por exemplo, as técnicas ou expressões corporais privilegiadas e celebradas em um e outro contexto, algumas novas dimensões serão, sem dúvida, iluminadas.

Em relação aos outros esportes, para o caso brasileiro, gosto de citar uma frase de um jornalista19 que, até agora, considero perfeita para explicitar o lugar ocupado pelo futebol no Brasil. Disse ele: “no Brasil há dois esportes: o futebol e o que está ganhando”. Sintética e precisa, a frase dá conta da forma como se incorpora, sem qualquer problema, qualquer esporte que se apresente como vitorioso no cenário internacional (vôlei, basquete, automobilismo, tênis, iatismo, equitação etc), transformando-os, rapidamente, em orgulho nacional. Esportes que propiciam vitórias internacionais são insistententemente focalizados pela mídia, transformando-se em assunto nas mais diferentes rodas sociais e levando à emergência de novos “experts”, da noite para o dia. Todos, contudo, até aqui, são facilmente descartados em situações de derrotas sucessivas, não implicando em reavaliações da “nação” e do “povo brasileiro” (Guedes, 1998), apanágio do futebol desde, pelo menos, a “tragédia de 50”. Mas seus efeitos no processo de construção identitária e nas narrativas sobre a nação não são, absolutamente, desprezíveis. É preciso examiná-los com cuidado. Deste modo, é fundamental para avaliar as diferentes formas de transformação do futebol em operador da identidade nacional não apenas comparar estas narrativas mas localizá-las em conjuntos mais amplos de construção identitária que permitam avaliar seu peso, seu lugar e suas conexões simbólicas com outras formas de representação coletiva, consideradas como produtos históricos e, portanto, em permanente processo de mudança.

E, sem dúvida, como a teoria antropológica já demonstrou à larga, estas construções são contrastivas. Uma das dimensões contrastivas realizadas pelo futebol, produz, de fato, uma espécie de “concerto de nações”. Examinar uma alteridade privilegiada como a de Argentina e do Brasil sobre futebol, é um atalho interessante para esquadrinhar estas identidades sociais. Nesta direção, é possível dialogar com Gustavo Lins Ribeiro (2002, p. 248), que, inspirado no “orientalismo” de Edward Said, propõe a existência de um “tropicalismo” na representação dos brasileiros e um “europeísmo” na representação dos argentinos. Sem dúvida, as análises sobre os esportes nos dois países, em especial do futebol, poderão contribuir decisavamente para examinar esta proposta analítica. De qualquer modo, uma das conclusões deste autor, com a qual concordo plenamente, pode ser perfeitamente apropriada para o fechamento deste trabalho: “Argentinos e brasileiros estão irremediavelmente presos a um jogo especular entre si” (Ribeiro, 2002, p. 261).



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1 Trabalho originalmente apresentado no XXVI Encontro Anual da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais), em Caxambu, Minas Gerais, Brasil, em outubro de 2002, no Grupo de Trabalho Esporte, Política e Cultura, coordenado por José Jairo Vieira e Ronaldo Helal. Agradeço os comentários dos coordenadores e dos participantes do grupo.

2 Frase central do discurso de Coelho Neto, delegado brasileiro no Congressso Sul-americano de Futebol, realizado no Rio de Janeiro, em 1919, antecedente à realização do Campeonato Sul-Americano. Segundo registra Mazzoni (1950: p. 136-137), o resumo do discurso seria o seguinte: Usou então da palavra, para saudar as delegações estrangeiras, o sr. Coelho Neto, delegado brasileiro. O ilustre homem de letras começou relembrando Píndaro e os jogos olímpicos da velha Grécia, fatores preponderantes da aurea epoca intelectual deste país. Tratou da fraternidade americana, saudando, em belas imagens, o Chile, a Argentina e o Uruguai, cujos representantes, disse portadores do ramo de oliveira e salientou que tão grande era sua satisfação em recebe-los que, podia, como todos os brasileiros, exclamar: Irmãos, a patria que é nossa, vossa é! (aplausos prolongados). Fez a apologia da vida ao ar livre, dizendo que os americanos viram já como da natureza se pode fazer homens fortes. Lembrou a frase de Saenz Peña – “Tudo nos une e nada nos separa” – e disse que de fato tudo nos une: o sangue, a terra, a lingua, a religião (aplausos). Os povos ligam-se pelas raizes que eles mesmos possuem: o amor, o canto dos seus poetas, as angustias dos trabalhos, a solidariedade dos homens infelizes, a crença e a religião. Todos estes fatores fazem com que, qualquer dos países sul-americanos não aspire a hegemonia: todos em conjunto aspiram a hegemonia do Continente. E para a solidariedade dos povos americanos muito tem feito o esporte. Concluiu o orador, dizendo: “Sêde benvindos; saudemos fraternalmente a America” (aplausos prolongados).”

3 Mais ainda, meu desconhecimento da literatura não-acadêmica é total e absoluto.

4 Retomo aqui algumas considerações já feitas anteriormente mas que considero relevantes para o presente texto.

5 É esta “incerteza” do jogo que permitiu a Pablo Alabarces concluir que a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 2002 deveu-se à Argentina, tal como elabora, com maestria, na seguinte mensagem: Caros amigos,me quedé pensando... el gol de Rivaldo contra Inglaterra comienza cuando la estrellita Beckham saca el pie (pega un salto en el aire) contra Roberto Carlos, y allí nace el contraataque de Ronaldinho. Como todos sabemos, Beckham se asustó por el recuerdo de la lesión que le produjo el argentino Aldo Duscher jugando la Champions League. Concluyendo: una vez más, nos deben la Copa y el Penta.De nada.Un gran abrazo

6 No site oficial da FIFA (www.fifa.com) está disponível um censo, realizado em 2000, que estima o número de jogadores de futebol, profissionais ou não, em cerca de 240 milhões de pessoas de ambos os sexos, com cerca de cinco milhões de pessoas envolvidas como árbitros ou atividades ligadas ao jogo.

7 “In na anthropological spirit, then, I propose the following definition of the nation: it is na imagined community – and imagined as both inherently limited and sovereign. It is imagined because the members of even the smallest nation will never know most of their fellow-members, meet them, or even hear of them, yet in the minds of each lives the image of their communion.” (Anderson, 1991, p. 6, grifo do autor). Seria interessante confrontar tal proposta com as alternações do processo ritual (estrutura e communitas), tal como lido por Victor Turner (1974).

8 No caso brasileiro, por uma série de razões, privilegiamos amplamente as Copas do Mundo em detrimento das Olimpíadas. O caso argentino parece ser um pouco distinto neste sentido. Para uma análise acerca da representação dos Jogos Olímpicos no Brasil ver DaMatta, 2003.

9 Neste trabalho, realmente estimulante e inovador, há muito necessário, Édison Gastaldo produz um livro precioso, analisando metodica e cuidadosamente a construção do “brasileiro” nas peças publicitárias divulgadas na XVI Copa do Mundo, ocorrida em 1998, na França. Desenvolve análise semelhante, em relação à Grã-Bretanha nos Jogos de Sydney, em comunicação apresentada à 23ª Reunião da ABA (2002b).

10 Até onde sei, não me consta que tenham sido feitas peças publicitárias semelhantes para “comemorar” a eliminação, também precoce, da França e, um pouco mais tarde, da Itália. Não fiz, contudo, qualquer pesquisa sistemática sobre o assunto.

11 O episódio é sumariamente referido por Mário Filho (cf., Rodrigues Filho, 1964, p. 161).

12 Franzini (op. cit.), por exemplo, associa este episódio a um outro episódio paradigmático da história do futebol brasileiro, ocorrido em 1921, quando o presidente Epitácio Pessoa, em troca do apoio à delegação que viajaria para o Campeonato Sul-Americano de 1921, na Argentina, teria exigido a exclusão dos jogadores negros.

13 Nesta coletânea, recobrindo vários aspectos da relação brasileiros/argentinos, o material sobre futebol aparece apenas muito esparsamente, como nas observações do artigo citado acima.

14 A introdução do futebol na Argentina, pelos ingleses, é praticamente contemporânea de sua regulamentação moderna na Inglaterra, em 1863 (por exemplo, Archetti, 1999), enquanto sua introdução no Brasil data da última década do século XIX (por exemplo, Caldas, 1990), diferença bastante considerável mesmo que se leve em conta revisões históricas atuais que postulam o recuo da data da introdução no Brasil.

15 Um trabalho muitíssimo interessante, sob aspecto, é o de Jean-Michel Faure e Charles Suaud (1998), demonstrando de que modo, nos clubes, num processo que denominam de “construção circular”, a forma como o clube é concebido (como de jovens, de classe popular ou de elite, de determinada origem étnica, com um estilo mais de “fibra” ou mais “técnico”, etc) tende a ser realizado pelas escolhas e ênfases de dirigentes, torcedores e jornalistas.

16 Nas últimas competições internacionais, na última década, os africanos foram avaliados como dotados de habilidades corporais semelhantes, mas, rapidamente, uma diferenciação se produziu, considerando-se a “falta de tradição no futebol” e a conseqüente “ingenuidade” dos times africanos.

17 Na sua generosa participação no Grupo de Trabalho Antropologia do Esporte, da Associação Brasileira de Antropologia, em Gramado, 2002, Eduardo Archetti, entre outras contribuições fundamentais, deixou-nos uma questão: que outros esportes ou espaços “livres”, além do futebol, conjugam-se para representar a brasilidade? Questão estimulante e, certamente, aberta, dada inclusive a incipiência do estudo de outros esportes no Brasil. Mas a mim me parece, em princípio, que vivemos no Brasil, até o momento, a “monocultura do futebol”, registrando-se, contudo, sua relação “genética”, como argumentarei adiante, com a capoeira. Por outro lado, há que se pensar o “samba” e o futebol como corporalidades associadas no Brasil.

18 Mas as muitas faces deste processo permitem também a construção de um outro tipo de herói, branco, cuja marca é o esforço, a determinação e a disciplina para construir o corpo necessário ao esporte no Brasil, conforme demonstra o trabalho de Helal sobre Zico (Helal, Ronaldo, 1998).

19 Do qual, infelizmente, não sei o nome. Ouvi a frase em comunicação oral de Arno Vogel, que não se lembrava de seu autor.



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