Yvonne do amaral pereira



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MEMÓRIAS DE UM SUICIDA

YVONNE DO AMARAL PEREIRA

DITADO PELO ESPÍRITO CAMILO CASTELO BRANCO

ÍNDICE
Introdução

Prefácio da segunda edição


PRIMEIRA PARTE - OS RÉPROBOS

CAPÍTULO 1 = O Vale dos Suicidas

CAPÍTULO 2 = Os réprobos

CAPÍTULO 3 = No Hospital “Maria de Nazaré”

CAPÍTULO 4 = Jerônimo de Araújo Silveira e família

CAPÍTULO 5 = O reconhecimento

CAPÍTULO 6 = A comunhão com o Alto

CAPÍTULO 7 = Nossos amigos — os discípulos de Allan Kardec


SEGUNDA PARTE - OS DEPARTAMENTOS

CAPÍTULO 1 = A Torre de Vigia

CAPÍTULO 2 = Os arquivos da alma

CAPÍTULO 3 = O Manicômio

CAPÍTULO 4 = Outra vez Jerônimo e família

CAPÍTULO 5 = Prelúdios de reencarnação

CAPÍTULO 6 = «A cada um segundo suas obras»

CAPÍTULO 7 = Os primeiros ensaios

CAPÍTULO 8 = Novos rumos
TERCEIRA PARTE - A CIDADE UNIVERSITÁRIA

CAPÍTULO 1 = A Mansão da Esperança

CAPÍTULO 2 = «Vinde a mim»

CAPÍTULO 3 = «Homem, conhece-te a ti mesmo!»

CAPÍTULO 4 = O «homem velho»

CAPÍTULO 5 = A causa de minha cegueira no século 19

CAPÍTULO 6 = O elemento feminino

CAPÍTULO 7 = Últimos traços



Introdução
Devo estas páginas à caridade de eminente habitante do mundo espiritual, ao qual me sinto ligada por um sen­timento de gratidão que pressinto se estenderá além da vida presente.

Não fora a amorosa solicitude desse ilumi­nado representante da Doutrina dos Espíritos — que prometeu, nas páginas fulgurantes dos volumes que deixou na Terra sobre filosofia espírita, acudir ao apelo de todo coração sincero que recorresse ao seu auxílio com o intuito de progredir, uma vez passado ele para o plano invisível e caso a condescendência dos Céus tanto lhe permitisse — e se perderiam apontamentos que, desde o ano de 1926, isto é, desde os dias da minha juventude e os albores da mediunidade, que juntos floresceram em minha vida, penosamente eu vinha obtendo de Espíritos de suicidas que voluntarianente acorriam às reuniões do antigo “Centro Espírita de Lavras”, na cidade do mesmo nome, no extremo sul do Estado de Minas Gerais, e de cuja diretoria fiz parte durante algum tempo. Refiro-me a Leon Denis, o grande apóstolo do Espiritismo, tão admi­rado pelos adeptos da magna filosofia, e a quem tenho os melhores motivos para atribuir as intuições advindas para a compilação e redação da presente obra.

Durante cerca de vinte anos tive a felicidade de sentir a atenção de tão nobre entidade do mundo espiritual piedosamente voltada para mim, inspirando-me um dia, aconselhando-me em outro, enxugando-me as lágrimas nos momentos decisivos em que renúncias dolorosas se impuseram como resgates indispensáveis ao levantamen­to de minha consciência, engolfada ainda no opróbrio das conseqüências de um suicídio em existência pregressa. E durante vinte anos convivi, por assim dizer, com esse Irmão venerável cujas lições povoaram minha alma de consolações e esperanças, cujos conselhos procurei sempre pôr em prática, e que hoje como nunca, quando a existência já declina para o seu ocaso, fala-me mais terna-mente ainda, no segredo do recinto humílimo onde estas linhas são escritas!

Dentre os numerosos Espíritos de suicidas com quem mantive intercâmbio através das faculdades mediúnicas de que disponho, um se destacou pela assiduidade e sim­patia com que sempre me honrou, e, principalmente, pelo nome glorioso que deixou ‘na literatura em língua portuguesa, pois tratava-se de romancista fecundo e talen­toso, senhor de cultura tão vasta que até hoje de mim mesma indago a razão por que me distinguiria com tanta afeição se, obscura, trazendo bagagem intelectual reduzidíssima, somente possuía para oferecer ao seu peregrino saber, como instrumentação, o coração respeitoso e a firmeza na aceitação da Doutrina, porqüanto, por aquele tempo, nem mesmo cultura doutrinária eficiente eu possuía!

Chamar-lhe-emos nestas páginas — Camilo Cândido Botelho, contrariando, todavia, seus próprios desejos de ser mencionado com a verdadeira identidade. Esse nobre Espírito, a quem poderosas correntes afetivas espirituais me ligavam, freqüentemente se tornava visível, satisfeito por se sentir bem querido e aceito. Ate o ano de 1926, porém, só maito superficialmente ouvira falar em seu nome. Não lhe conhecia sequer a bagagem literária, copiosa e erudita.

Não obstante, veio ele a descobrir-me em uma mesa de sessão experimental, realizada na fazenda do Coronel Cristiano José de Souza, antigo presidente do “Centro Espírita de Lavras”, dando-me então a sua primeira men­sagem. Daí em diante, ora em sessões normalmente organizadas, ora em reuniões íntimas, levadas a efeito em domicílios particulares, ou no silêncio do meu aposento, altas horas da noite, dava-me apontamentos, noticiário periódico, escrito ou verbal, ensaios literários, verdadeira reportagem relativa a casos de suicídio e suas tristes conseqüências no além-túmulo, na época verdadeiramen­te atordoadores para mim. Porém, muito mais freqüentemente, arrebatavam-me, ele e outros amigos e prote­tores espirituais, do cárcere corpóreo, a fim de, por essa forma cômoda e eficiente, ampliar ditados e experiências. Então, meu Espírito alçava ao convívio do mundo invi­sível e as mensagens já não eram escritas mas narradas, mostradas, exibidas à minha faculdade mediúnica para que, ao despertar, maior facilidade eu encontrasse para compreender aquele que, por mercê inestimável do Céu, me pudesse auxiliar a descrevê-las, pois eu não era escri­tora para o fazer por mim mesma! Estas páginas, por­tanto, rigorosamente, não foram psicografadas, pois eu via e ouvia nitidamente as cenas aqui descritas, observava as personagens, os locais, com clareza e certeza absolutas, como se os visitasse e a tudo estivesse presente e não como se apenas obtivesse notícias através de simples narrativas. Se descreviam uma personagem ou alguma paisagem, a configuração do exposto se definia imedia­tamente, à proporção que a palavra fulgurante de Camilo, ou a onda vibratória do seu pensamento, as criavam. Foi mesmo por essa forma essencialmente poética, mara­vilhosa, que obtive a longa série de ensaios literários fornecidos pelos habitantes do Invisível e até agora man­tidos no segredo das gavetas, e não psicograficamente. Da psicografia os Espíritos que me assistiam apenas se utilizavam para os serviços de receituário e pequenas mensagens instrutivas referentes ao ambiente em que trabalhávamos. E posso mesmo dizer que foi graças a esse estranho convívio com os Espíritos que me advieram as únicas horas de felicidade e alegria que desfrutei neste mundo, como a resistência para os testemunhos que fui chamada a apresentar à frente da Grande Lei!

No entanto, as referidas mensagens e os apontamen­tos feitos ao despertar, eram bastante vagos, não apre­sentando nem a feição romântica nem as conclusões doutrinárias que, depois, para eles criou o seu compilador, por lhes desejar aplicar meio suave de expor verdades amargas, mas necessárias no momento que vivemos. Perguntar-se-á por que o próprio Camilo não o fez... pois teria, certamente, capacidade para tanto!

Responderei que, até o momento em que estas linhas vão sendo traçadas, ignoro-o tanto como qualquer outra pessoa! Jamais perquiri, aliás, dos Espíritos a razão de tal acontecimento. De outro lado, durante cerca de quatro anos vi-me na impossibilidade de manter intercâmbio normal com os Espíritos, por motivos independentes de minha vontade.

E quando as barreiras existentes foram arredadas do meu caminho, o autor das mensagens só acudiu aos meus reiterados apelos a fim de participar sua próxima volta à existência planetária. Encontrei-me então em situação difícil para redigir o trabalho, dando feição doutrinária e educativa às revelações concedidas ao meu Espírito durante o sono magnético, as quais eu sabia desejarem as nobres entidades assistentes fossem trans­mitidas à coletividade, pois eu não era escritora, não me sobrando capacidade para, por mim mesma, tentar a experiência. Releguei-os, portanto, ao esquecimento de uma gaveta de secretária e orei, suplicando auxílio e inspiração. Orei, porém, durante oito anos, diariamente, sentindo no coração o ardor de uma chama viva de intui­ção segredando-me aguardasse o futuro, não destruindo os antigos manuscritos. Até que, há cerca de um ano, re­cebi instruções a fim de prosseguir, pois ser-me-ia con­cedida a necessária assistência!

Prosseguindo, porém, direi que tenho as mais fortes razões para afirmar que a palavra dos Espíritos é cena viva e criadora, real, perfeita! em sendo também uma vibração do pensamento capaz de manter, pela ação da vontade, o que desejar! Durante cerca de trinta anos tenho penetrado de algum modo os mistérios do mundo invisível, e não foi outra coisa o que lá percebi. É de notar, todavia, que, ao despertar, a lembrança somente me acompanhava quando os assistentes me autorizavam a recordar! Na maioria das vezes em que me foram facul­tados estes vôos, apenas permaneceu a impressão do acon­tecido, a íntima certeza de que convivera por instantes com os Espíritos, mas não a lembrança.

Os mais insignificantes detalhes poderão ser notados quando um Espírito iluminado ou apenas esclarecido “falar”, como, por exemplo — uma camada de pó sobre um móvel; um esvoaçar de brisa agitando um cortinado; um véu, um laço de fita gracioso, mesmo com o brilho da seda, no vestuário feminino; o estrelejar das chamas na lareira e até o perfume, pois tudo isso tive ocasião de observar na palavra mágica de Camilo, de Victor Hugo, de Charles e até do apóstolo do Espiritismo no Brasil —Bezerra de Menezes, a quem desde o berço fui habituada a venerar, por meus pais. Certa vez em que Camilo descrevia uma tarde de inverno rigoroso em Portugal, juntamente com um interior aquecido por lareira bem acesa, senti invadir-me tal sensação de frio que tiritei, buscando as chamas para aquecer-me, enquanto, satis­feito com a experiência, ele se punha a rir... Alias, o fenômeno não será certamente novo. Não foi por outra forma que João Evangelista obteve os ditados para o seu Apocalipse e que os profetas da Judéia receberam as revelações com que instruíam o povo.

No Apocalipse, versículos 10 e 11 e seguintes, do primeiro capitulo, o eminente servo do Senhor positiva o fenómeno a que aludimos, em pequenas palavras: “Eu fui arrebatado em Espírito, um dia de domingo, e ouvi por detrás de mim uma grande voz como de trombeta, que dizia: — O que vês, escreve-o em um livro e envia-o às sete igrejas.. .“ — etc., etc.; e todo o importante volume foi narrado ao apóstolo assim, através de cenas reais, palpitantes, vivas, em visões detalhadas e precisas! O Espiritismo tem amplamente tratado de todos esses inte­ressantes casos para que não se torne causa de admiração o que vimos expondo; e no primeiro capítulo da magistral obra de Allan Kardec — “A Gênese” — existe este tó­pico, certamente muito conhecido dos estudantes da Doutrina dos Espíritos: “As instruções (dos Espíritos) podem ser transmitidas por diversos meios: pela simples inspiração, pela audição da palavra, pela visibilidade dos Espíritos instrutores, nas visões e aparições, quer em sonho quer em estado de vigília, do que há muitos exemplos no Evangelho, na Bíblia e nos livros sagrados de todos os povos.”

Longe de mim a veleidade de me colocar em plano equivalente ao daquele missionário acima citado, isto é, João Evangelista. Pelas dificuldades com que lutei a fim de compor este volume, patenteadas ficaram ao meu raciocínio as bagagens de inferioridades que me deprimem o Espírito. O discípulo amado, porém, que, em sendo um missionário escolhido, era também modesto pescador, teve sem dúvida o seu assistente espiritual para poder descrever as belas páginas aureoladas de ciência e ensinamentos outros, de valor incontestável, os quais romperiam os séculos glorificando a Verdade! É bem provável que o próprio Mestre fosse aquele assistente...

Não posso ajuizar quanto aos méritos desta obra. Proibi-me, durante muito tempo, levá-la ao conhecimento alheio, reconhecendo-me inca paz de analisá-la. Não me sinto sequer à altura de rejeitá-la, como não ouso tam­bém aceitá-la. Vós o fareis por mim. De uma coisa, porém, estou bem certa: — é que estas páginas foram elaboradas, do princípio ao fim, com o máximo respeito à Doutrina dos Espíritos e sob a invocação sincera do nome sacrossanto do Altíssimo.


Rio de Janeiro, 18 de maio de 1954.
YVONNE DO AMARAL PEREIRA

Prefácio da segunda edição
Revisão criteriosa impunha-se nesta obra que há alguns anos me fora confiada para exame e compilação, em virtude das tarefas espiritualmente a mim subordi­nadas, como da ascendência adquirida sobre o instru­mento mediúnico ao meu dispor.

Fi-lo, todavia, algo extemporaneamente, já que me não fora possível fazê-lo na data oportuna, por motivos afetos mais aos prejuízos das sociedades terrenas con­tra que o mesmo instrumento se debatia do que à minha vontade de operário atento no cumprimento do dever.

E a revisão se impunha, tanto mais quanto, ao transmitir a obra, me fora necessário avolumar de tal sorte as vibra­ções ainda rudes do cérebro mediúnico, operando nele possibilidades psíquicas para a captação das visões indis­pensáveis ao feito, que, ativadas ao grau máximo que àquele seria possível comportar, tão excitadas se torna­ram que seriam quais catadupas rebeldes nem sempre obedecendo com facilidade à pressão que lhes fazia, pro­curando evitar excessos de vocabulário, acúmulos de fi­guras representativas, os quais somente agora foram suprimidos. Nada se alterou, todavia, na feição doutri­nária da obra, como no seu particular caráter revela­tório. Entrego-a ao leitor, pela segunda vez, tal como foi recebida dos Maiores que me incubiram da espinhosa tarefa de apresentá-la aos homens.

E se, procurando esclarecer o público, por lhe facilitar o entendimento de fastos espirituais, nem sempre conservei a feitura lite­rária dos originais que tinha sob os olhos; no entanto, não lhes alterei nem os informes preciosos nem as conclusões, que respeitei como labor sagrado de origem alheia.

Que medites sobre estas páginas, leitor, ainda que duro se torne para o teu orgulho pessoal o aceitá-las! E se as lágrimas alguma vez rociarem tuas pálpebras, à passagem de um lance mais dramático, não recalcitres contra o impulso generoso de exaltar teu coração em prece piedosa, por aqueles que se estorcem nas trágicas confusões da inconseqüência de infrações às leis de Deus!
Léon Denis
Belo Horizonte, 4 de abril de 1957.

PRIMEIRA PARTE –

OS RÉPROBOS

1

O Vale dos Suicidas
Precisamente no mês de janeiro do ano da graça de 1891, fora eu surpreendido com meu aprisionamento em região do Mundo Invisível cujo desolador panorama era composto por vales profundos, a que as sombras presi­diam: gargantas sinuosas e cavernas sinistras, no interior das quais uivavam, quais maltas de demônios enfu­recidos, Espíritos que foram homens, dementados pela intensidade e estranheza, verdadeiramente inconcebíveis, dos sofrimentos que os martirizavam.

Nessa paragem aflitiva a vista torturada do grilhe­ta não distinguiria sequer o doce vulto de um arvoredo que testemunhasse suas horas de desesperação; tampou­co paisagens confortativas, que pudessem distrai-lo da contemplação cansativa dessas gargantas onde não pene­trava outra forma de vida que não a traduzida pelo supremo horror!

O solo, coberto de matérias enegrecidas e fétidas, lembrando a fuligem, era imundo, pastoso, escorregadio, repugnante! O ar pesadíssimo, asfixiante, gelado, enoi­tado por bulções ameaçadores como se eternas tempes­tades rugissem em torno; e, ao respirarem-no, os Espíritos ali ergastulados sufocavam-se como se matérias pulverizadas, nocivas mais do que a cinza e a cal, lhes invadissem as vias respiratórias, martirizando-os com suplício inconcebível ao cérebro humano habituado às gloriosas claridades do Sol — dádiva celeste que diaria­mente abençoa a Terra — e às correntes vivificadoras dos ventos sadios que tonificam a organização física dos seus habitantes.

Não havia então ali, como não haverá jamais, nem paz, nem consolo, nem esperança: tudo em seu âmbito marcado pela desgraça era miséria, assombro, desespero e horror. Dir-se-ia a caverna tétrica do Incompreensível, indescritível a rigor até mesmo por um Espírito que sofresse a penalidade de habitá-la.

O vale dos leprosos, lugar repulsivo da antiga Jeru­salém de tantas emocionantes tradições, e que no orbe terráqueo evoca o último grau da abjeção e do sofri­mento humano, seria consolador estágio de repouso com­parado ao local que tento descrever. Pelo menos, ali existiria solidariedade entre os renegados! Os de sexo diferente chegavam mesmo a se amar!

Adotavam-se em boas amizades, irmanando-se no meio da dor para sua­vizá-la! Criavam a sua sociedade, divertiam-se, presta­vam-se favores, dormiam e sonhavam que eram felizes!

Mas no presídio de que vos desejo dar contas nada disso era possível, porque as lágrimas que se choravam ali eram ardentes demais para se permitirem outras aten­ções que não fossem as derivadas da sua própria inten­sidade!

No vale dos leprosos havia a magnitude compen­sadora do Sol para retemperar os corações! Existia o ar fresco das madrugadas com seus orvalhos regeneradores! Poderia o précito ali detido contemplar uma faixa do céu azul... Seguir, com o olhar enternecido, bandos de andorinhas ou de pombos que passassem em revoa­da!... Ele sonharia, quem sabe? lenido de amarguras, ao poético clarear do plenilúnio, enamorando-me das cin­tilações suaves das estrelas que, lá no Inatingível, ace­nariam para a sua desdita, sugerindo-lhe consolações no insulamento a que o forçavam as férreas leis da épo­ca!... E, depois, a Primavera fecunda voltava, rejuve­nescia as plantas para embalsamar com meus perfumes caridosos as correntes de ar que as brisas diariamente tonificavam com outros tantos bálsamos generosos que traziam no seio amorável... E tudo isso era como dá­divas celestiais para reconciliá-lo com Deus, fornecendo-lhe tréguas na desgraça!

Mas na caverna onde padeci o martírio que me sur­preendeu além do túmulo, nada disso havia!

Aqui, era a dor que nada consola, a desgraça que nenhum favor ameniza, a tragédia que idéia alguma tranqüilizadora vem orvalhar de esperança! Não há céu, não há luz, não há sol, não há perfume, não há tréguas!

O que há é o choro convulso e Inconsolável dos condenados que nunca se harmonizam!

O assombroso “ranger de dentes” da advertência prudente e sábia do sábio Mestre de Nazaré! A blasfêmia acintosa do ré­probo a se acusar a cada novo rebate da mente fla­gelada pelas recordações penosas! A loucura inalterável de consciências contundidas pelo vergastar infame dos remorsos! O que há é a raiva envenenada daquele que já não pode chorar, porque ficou exausto sob o exces­so das lágrimas! O que há é o desaponto, a surpresa aterradora daquele que se sente vivo a despeito de se haver arrojado na morte! É a revolta, a praga, o insul­to, o ulular de corações que o percutir monstruoso da expiação transformou em feras! O que há é a consciên­cia conflagrada, a alma ofendida pela imprudência das ações cometidas, a mente revolucionada, as faculdades espirituais envolvidas nas trevas oriundas de si mesma! O que há é o “ranger de dentes nas trevas exteriores” de um presídio criado pelo crime, votado ao martírio e consagrado à emenda! É o inferno, na mais hedionda e dramática exposição, porque, além do mais, existem cenas repulsivas de animalidade, práticas abjetas dos mais sórdidos instintos, as quais eu me pejaria de re­velar aos meus irmãos, os homens!

Quem ali temporariamente estaciona, como eu es­tacionei, são grandes vultos do crime! É a escória do mundo espiritual — falanges de suicidas que periodi­camente para seus canais afluem levadas pelo turbilhão das desgraças em que se enredaram, a e despojarem das forças vitais que se encontram, geralmente intactas, revestindo-lhes os envoltórios físico-espirituais, por seqüências sacrílegas do suicídio, e provindas, preferen­temente, de Portugal, da Espanha, do Brasil e colônias portuguesas da África, infelizes carentes do auxílio con­fortativo da prece; aqueles, levianos e inconseqüentes, que, fartos da vida que não quiseram compreender, se aventuraram ao Desconhecido, em procura do Olvido, pelos despenhadeiros da Morte!

O Além-túmulo acha-se longe de ser a abstração que na Terra se supõe, ou as regiões paradisíacas fáceis de conquistar com algumas poucas fórmulas inexpressi­vas. Ele é, antes, simplesmente a Vida Real, e o que encontramos ao penetrar suas regiões é Vida! Vida in­tensa a se desdobrar em modalidades infinitas de ex­pressão, sabiamente dividida em continentes e falanges como a Terra o é em nações e raças; dispondo de orga­nizações social. e educativas modelares, a servirem de padrão para o progresso da Humanidade. É no Invi­sível, mais do que em mundos planetários, que as cria­turas humanas colhem inspiração para os progressos que lentamente aplicam no orbe.

Não sei como decorrerão os trabalhos correcionais para suicidas nos demais núcleos ou colônias espirituais destinadas aos mesmos fins e que se desdobrarão sob céus portugueses, espanhóis e seus derivados. Sei apenas é que fiz parte de sinistra falange detida, por efeito natural e lógico, nessa paragem horrenda cuja lembrança ainda hoje me repugna à sensibilidade. É bem possível que haja quem ponha a discussões mordazes a veraci­dade do que vai descrito nestas páginas. Dirão que a fantasia mórbida de um inconsciente exausto de assimi­lar Dante terá produzido por conta própria a exposição aqui ventilada... esquecendo-se de que, ao contrário, o vale florentino é que conheceria o que o presente século sente dificuldades em aceitar...

Não os convidarei a crer. Não é assunto que se imponha à crença, simplesmente, mas ao raciocínio, ao exame, à investigação. Se sabem raciocinar e podem investigar — que o façam, e chegarão a conclusões ló­gicas que os colocarão na pista de verdades assaz interessantes para toda a espécie humana! O a que os con­vido, o que ardentemente desejo e para que tenho todo o interesse em pugnar, é que se eximam de conhecer essa realidade através dos canais trevosos a que me ex­pus, dando-me ao suicídio por desobrigar-me da adver­tência de que a morte nada mais é do que a verdadeira forma de existir!...

De outro modo, que pretenderia o leitor existisse nas camadas invisíveis que contornam os mundos ou pla­netas, senão a matriz de tudo quanto neles se reflete? !... Em nenhuma parte se encontraria a abstração, ou o nada, pois que semelhantes vocábulos são inexpressivos no Universo criado e regido por uma Inteligência Oni­potente! Negar o que se desconhece, por se não encon­trar à altura de compreender o que se nega, é insânia incompatível com os dias atuais. O século convida o ho­mem à investigação e ao livre exame, porque a Ciência nas suas múltiplas manifestações vem provando a ine­xatidão do impossível dentro do seu cada vez mais dila­tado raio de ação. E as provas da realidade dos con­tinentes superterrenos encontram-se nos arcanos das ciências psíquicas transcendentais, às quais o homem há ligado muito relativa importância até hoje.

O que conhece o homem, aliás, do próprio planeta onde tem renascido desde milênios, para criteriosamente rejeitar o que o futuro há dè popularizar sob os auspí­cios do Psiquismo?... O seu pais, a sua capital, a sua aldeia, a sua palhoça ou, quando mais avantajado de ambições, algumas nações vizinhas cujos costumes se nívelam aos que lhe são usuais?...

Por toda a parte, em torno dele, existem mundos reais, exarando vida abundante e intensa: e se ele o igno­ra será porque se compraz na cegueira, perdendo tempo com futilidades e paixões que lhe sabem ao caráter. Não perquiriu jamais as profundidades oceânicas — não poderá mesmo fazê-lo, por enquanto. Não obstante, de­baixo das águas verdes e marulhentas existe não mais um mundo perfeitamente organizado, mas um universo que assombraria pela grandiosidade e ideal perfeição! No próprio ar que respira, no solo onde pisa encontraria o homem outro núcleo, organizados de vida, obedecendo ao impulso inteligente e sábio de leis magnânimas fun­damentadas no Pensamento Divino, que os aciona para o progresso, na conquista do mais perfeito! Bastaria que se munisse de aparelhamentos precisos, para averiguar a veracidade dessas coletividades desconhecidas que, por serem invisíveis umas, e outras apenas suspeitadas, nem por isso deixam de ser concretas, harmoniosas, verda­deiras!

Assim sendo, habilite-se, também, desenvolvendo os dons psíquicos que herdou da sua divina origem... Im­pulsione pensamento, vontade, ação, coração, através das vias alcandoradas da Espiritualidade superior... e atin­girá as esferas astrais que circundam a Terra!

Era eu, pois, presidiário dessa cova ominosa do horror!

Não habitava, porém, ali sozinho. Acompanhava-me uma coletividade, falange extensa de delinqüentes, como eu.

Então ainda me sentia cego. Pelo menos, sugestio­nava-me de que o era, e, como tal, me conservava, não obstante minha cegueira só se definir, em verdade, pela inferioridade moral do Espírito distanciado da Luz. A mim cego não passaria, contudo, despercebido o que se apresentasse mau, feio, sinistro, imoral, obsceno, pois conservavam meus olhos visão bastante para toda essa escória contemplar — agravando-se destarte a minha desdita.

Dotado de grande sensibilidade, para maior mal ti­nha-a agora como superexcitada, o que me levava a ex­perimentar também os sofrimentos dos outros mártires meus cômpares, fenômeno esse ocasionado pelas corren­tes mentais que se despejavam sobre toda a falange e oriundas dela própria, que assim realizava impressionan­te afinidade de classe, o que é o mesmo que asseverar que sofríamos também as sugestões dos sofrimentos uns dos outros, além das insídias a que nos submetiam os nossos próprios sofrimentos. (1)

Às vezes, conflitos brutais se verificavam pelos becos lamacentos onde se enfileiravam as cavernas que nos serviam de domicílio. Invariavelmente irritados, por mo­tivos insignificantes nos atirávamos uns contra os outros em lutas corporais violentas, nas quais, tal como sucede nas baixas camadas sociais terrenas, levaria sempre a melhor aquele que maior destreza e truculência apresen­tasse. Freqüentemente fui ali insultado, ridículizado nos meus sentimentos mais caros e delicados com chistes e sarcasmos que me revoltavam até o âmago; apedrejado e espancado até que, excitado por fobia idêntica, eu me



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