Zeni, Maurício – uff



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Zeni, Maurício – UFF




JOSÉ ÁLVARES DE AZEVEDO:

UMA VIDA BREVE DE LONGA DURAÇÃO

O nome Álvares de Azevedo traz-nos à mente o poeta romântico lembrado e lido até hoje. Poucos sabem seu nome completo. Assim, se acrescentarmos José, é possível que se continue a pensar no poeta. Mas este tinha por nome Manoel Antônio. E José Álvares de Azevedo?

Até onde sei, nunca escreveu poesia, mas, como o poeta, viveu muito pouco, ainda que intensamente e, como seu homônimo, continua a ser lembrado pelo que fez, embora esta lembrança esteja muito viva no segmento a que pertenceu: os cegos e deficientes visuais.

Embora Sacramento Blake registre sua data de nascimento como sendo 8 de abril de 1834, seu pai, Manoel Álvares de Azevedo, aponta 1835. Em agosto de 1844, é enviado a Paris para estudar naquela que foi a primeira escola para cegos, fundada em 1784 por Valentin Haüy. Em 14 de dezembro de 1850, retorna ao Brasil, trazendo já a idéia de criar no Rio de Janeiro escola semelhante.

Conforme registra Sacramento Blake, José Francisco Xavier Sigaud, médico da Câmara Imperial e um dos fundadores da Academia de Medicina, tinha uma filha cega, Adélia, a quem Azevedo ensinou o braille.

Assim começa a parceria e amizade entre Azevedo e Sigaud que deu como fruto a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos. Para Sacramento Blake, Azevedo não pôde realizar sozinho este intento por ser pobre, o que Sigaud contesta, ao dizê-lo de família abastada.

Já em maio de 1851, no prefácio à tradução que fez do livro de L. Gaudet, “O Instituto dos Meninos Cegos de Paris, Sua História e Seu Método de Ensino”, Azevedo registra a frase do Imperador “A cegueira já quase não é uma desgraça”, resultado de audiência com o monarca, a que foi levado por Sigaud.

Até a chegada de Luiz Pedreira do Couto Ferraz ao Ministério do Império em 6 de setembro de 1853, os entendimentos para a criação do Instituto teve pouca atenção do Governo Imperial. Couto Ferraz manter-se-ia ligado ao Instituto até sua morte em 1886.

José Álvares de Azevedo previu a admissão de 25 alunos para começar. Baseou-se em especulações quanto à população brasileira. preconizou, neste sentido, que houvessem estatísticas relativas aos cegos, como na Bélgica que, assim se baseando, estipulou em 20 os alunos de seu instituto. Ressalte-se que estas estatísticas ainda não aconteceram, apesar dos esforços de diferentes organizações. Estamos devendo mais isto a você, Azevedo.

Por iniciativa de Couto Ferraz, o Instituto teria 30 vagas para alunos cegos, 2/3 das quais seriam pagas. Diferentemente do que sucedia em estabelecimentos daquela época, seriam também admitidas meninas, a despeito de alguma resistência de Couto Ferraz.

Uma das preocupações sempre presentes nas demandas de Azevedo e Sigaud foi o possível baixo custo do empreendimento. Acreditavam mesmo que o Instituto seria auto-suficiente, daí a existência de tão alto número de pagantes, embora a instituição se destinasse primordialmente aos pobres. Acreditavam que, uma vez em funcionamento, o Instituto atrairia o interesse das famílias em lá terem seus filhos, esperando mesmo que os presidentes das províncias poderiam garantir a estadia de pelo menos dois cegos para cada uma. Infelizmente suas expectativas não se concretizaram, e o Instituto continuou com número reduzido de alunos por bastante tempo.

Devemos a Azevedo a implantação inquestionável do braille como sistema de escrita e leitura para os cegos, o que não se deu nem mesmo na França, pátria de Louis Braille, seu inventor. Nos Estados Unidos, somente no século XX é que o sistema de Braille se consagrou como o mais adequado à educação, instrução e cultura dos cegos.

Também a Azevedo devemos o que Sigaud chamou de tríplice objetivo: educação, música e trabalho, descartando peremptoriamente a condição de asilo do Instituto, isto em uma época em que o analfabetismo era bem mais acentuado que hoje e os cegos, quando não se entregavam à mendicância, estavam escondidos em casa sob proteção de suas famílias.

Quando o Imperial Instituto dos Meninos Cegos já era quase uma realidade, pois o próprio José Álvares de Azevedo estava contratado como professor e Xavier Sigaud como diretor, ele é acometido de grave enfermidade, falecendo em 17 de março de 1854, exatamente 6 meses antes da inauguração oficial do instituto e um mês antes da chegada dos primeiros alunos.

Algo semelhante se dá com Benjamin Constant. Como terceiro diretor do Instituto, cargo que ocupou de 1869 a1889, muito lutou pela melhoria das condições das instalações da instituição e pela educação dos cegos no Brasil. Em 1872, D. Pedro II doou um esplêndido terreno ao Imperial Instituto dos Meninos Cegos para a construção de um novo edifício. Benjamin Constant muito se empenhou nessa construção, que se foi arrastando pelo Império afora. Quando assumiu a pasta da Instrução Pública, Correios e Telégrafos no Governo Provisório, garantiu a mudança do Instituto, mesmo com o prédio por terminar. Para lá se transferiram os alunos em fevereiro de 1891, logo após sua morte em 22 de janeiro.

A despeito da inegável importância que teve para o início da educação dos cegos no Brasil, José Álvares de Azevedo vem sendo muito pouco lembrado em termos de homenagem. Não se encontra no Instituto Benjamin Constant qualquer coisa que o recorde; a rua ao lado, que faz esquina com a Av. Pasteur foi dedicada a Xavier Sigaud. A única escola que tem seu nome está na cidade de Belém no Pará.



Deixemos que fale por nós quem muito conviveu com José Álvares de Azevedo, José Francisco Xavier Sigaud:

Não era um antigo servidor de V. M. que competia a honrosa tarefa de cumprimentar hoje a V. M. e dirigir-lhe sinceros e vivos agradecimentos por este ato de sua imperial munificência; esta honrosa tarefa estava de direito reservada a um jovem e ilustre brasileiro, cego de nascença, homem de talento e de esperanças, que foi roubado pela morte no momento em que ia cumprir-se o mais caro, o mais ardente de seus votos que ele alimentava como fogo sagrado!

A morte arrancou-o no meio de cruéis padecimentos à sua família inconsolável, a verdadeiros amigos que o choram, porque ele sabia escolhê-los e apreciá-los, a inúmeros conhecidos a quem ele conseguiu facilmente cativar por seu espírito jovial, por seu trato ameno, e por uma instrução variada, que lhe assegurava grandes vitórias, na carreira do ensino.

José Álvares de Azevedo, nascido no Rio de Janeiro, de uma família abastada, recebera no Instituto Real dos Jovens Cegos de Paris, uma educação acurada; apenas voltou à sua pátria na idade de 18 anos, entregou-se com fervor à cultura das letras; as belezas dos poetas e historiadores portugueses tornaram-se-lhe em pouco tempo tão familiares como as que ele já havia admirado na língua francesa.

Em poucos anos se amestrou o jovem cego na lição de história e durante as vigílias que lhe custaram a existência, havia colhido profundos conhecimentos, e encaminhado seu espírito para as indagações da história pátria. Era discípulo consciencioso da escola que outro cego, Augustin Thierry e Cesar Cantu, ilustram na primeira plana dos historiadores.

Ouvindo ler as crônicas da Companhia de Jesus e os manuscritos da Biblioteca Nacional, prosseguia no exame dos fatos e das épocas memoráveis da História do Brasil. Sua pena adestrada deixou-nos algumas páginas notáveis sobre o Caramuru. Trabalhava em reunir novos documentos sobre Villegaignon, para escrever-lhe a história; e o seu último ensaio literário, que me foi confiado, é um quadro da instrução pública no Rio de Janeiro, composição rica de fatos e verdades, que pintam com exatidão as tristes peripécias da carreira do ensino. Era pois a este jovem ilustre que cabia o direito de tributar a mais profunda gratidão a V. M. por este tão grande beneficio. A primeira idéia lhe pertence; a fundação de um estabelecimento para educar seus companheiros de infortúnio com os mesmos desvelos que ele tinha recebido do Instituto de Paris; era o incessante objeto de seus pensamentos, ou algo de suas esperanças. Deus não permitiu que ele gozasse de seu triunfo, e impor-me a penosa tarefa de chorá-lo, e de vir trazer as minhas lágrimas e o meu amargo pesar aos pés do trono de V. M. como justo tributo de afeto e de reconhecimento.

A morte não obliterou o assinalado serviço prestado à humanidade; o vulto inesquecível do jovem José Alvares de Azevedo, sobreviverá perpetuamente no recinto desta instituição, cuja primeira idéia por ele apresentada a V. M. V. M. compreendeu-a com todo seu alcance e quem poderá pois explicá-la melhor do que V. M.?

Fontes


Discurso proferido pelo Dr. José Francisco Xavier Sigaud na inauguração do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, no dia 17 de setembro de 1854, publicado no Jornal do Commercio, no. 2.419, de 20 de setembro do mesmo ano.

José Álvares de Azevedo in Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake. Dicionário Bibliográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1898, 4º volume.

Luís Pedreira do Couto Ferraz in Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake. Dicionário Bibliográfico Brasileiro Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1898, 5º volume




X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002



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